2 HETEROGENEIDADES DO HABITUS PEQUENO-BURGUÊS
2.1 EIXOS TEMÁTICOS OU PRESSUPOSTOS DO HABITUS
2.1.1 Passado
A centralidade da dimensão do passado para a noção de habitus está ligada à importância que a socialização primária tem, em comparação com as experiências subsequentes, para a conformação da matriz de percepções e práticas. Essa dimensão pode ser observada no livro A
distinção (2007a) a partir do poder explicativo do indicador da origem social sobre as
disposições e as práticas dos agentes.
O indicador da origem social foi construído a partir da categoria socioprofissional e do nível de instrução do pai e do avô paterno. Logo, a influência do passado foi medida levando- se em consideração a influência da herança de capitais da linhagem paterna sobre o patrimônio de capitais e as disposições dos descendentes. O peso fundamental que a linhagem paterna tem na construção da variável “origem social” se justificaria pelo fenômeno do conatus paterno, que consiste na atribuição à posição paterna um peso conformador, delimitador e prescritivo sobre os seus descendentes, estando ligada a um tipo de configuração familiar marcada pela situação da dominação masculina, em que a figura paterna teria ascendência sobre a família nuclear, garantindo sua integração e seu funcionamento como um sujeito coletivo.
Diante desse quadro, uma das formas de supor a variação da relação entre habitus e passado seria principalmente pela observação da variação da correlação entre origem social e práticas. Essa forte correlação embasa a tese central do livro A distinção (2007a), qual seja, a de que os gostos variam, principalmente, em função da origem social e do nível de instrução. O fato, porém, das práticas da classe média francesa nem sempre sugerirem uma correlação direta com sua origem social constitui um desafio interpretativo ao esquema bourdieusiano. O autor lançará mão de algumas estratégias explicativas para abarcar e transpor tal “desafio” de tentar construir uma unidade dentro desse universo profundamente multifacetado marcado pelo elemento da indeterminação estrutural.
Em alguns momentos, dirá que é a própria situação de pesquisa que criará a ilusão de uma proximidade entre os gostos da classe média e os da classe dominante, em função da estratégia de blefe cultural, a qual dificilmente pode ser totalmente controlada pelos instrumentos de objetivação disponíveis, mas que estaria longe de ter a mesma eficácia nos palcos “reais” de interação, especialmente nas conversações mundanas.
Bourdieu (2007a) dará, também, ênfase aos usos sociais, os quais matizam o fato de diferentes classes consumirem, em certas ocasiões, os mesmos produtos culturais. O autor ressaltará, assim, que os mecanismos de diferenciação associados às classes nem sempre estão ligados à oferta e ao consumo de produtos distintos pelos agentes sociais, mas, igualmente, às maneiras de consumi-los.
O argumento mais desenvolvido por ele, no entanto, é o de que as disposições de algumas frações da pequena burguesia não podem ser imputadas diretamente à sua posição social porque elas revelam, não a posição mas, o pendor da sua trajetória social. Nesse sentido, diferentemente das outras classes sociais, as disposições de setores da classe média seriam marcadas de forma importante pelo efeito de trajetória, tema que perpassará toda a tese, o qual abordaremos mais adiante.
Neste momento, nosso intuito é explicitar a concatenação da nossa argumentação ao longo deste trabalho. O eixo habitus e passado, desenvolvido no segundo capítulo da tese (A
dimensão temporal do habitus), foi estruturado da seguinte maneira: em um primeiro momento,
apresentamos de forma sintética a relação do habitus com o passado, como essa relação foi operacionalizada e seu pressuposto central. Em seguida, apresentamos como subtópicos o que entendemos serem três possibilidades de variação da eficácia explicativa do indicador da origem social sobre as disposições dos agentes, que seriam: a linhagem paterna e a linhagem
materna; o nível de instrução e a origem social; a trajetória e a origem social.
A consideração da família como campo de lutas passaria pela atribuição de importância à herança de capitais transmitida pela linhagem materna e a correlação de forças desta com a herança paterna, o que resultaria numa caracterização mais precisa da configuração do patrimônio de capitais dos descendentes que está na base de seu habitus. Bourdieu alude, rapidamente, a dois fenômenos localizados na pequena burguesia ascendente que indicam a importância da consideração da linhagem materna, quais sejam, a feminilização desses estratos e do conjunto de novas profissões ligado a estes, e a presença de discordância, em favor da mulher, verificada na comparação da estrutura e do volume do patrimônio de capital dos cônjuges.
Já o efeito e o peso da variável do nível de instrução sobre as disposições poderiam ser vistos, de forma mais explícita, nos casos de agentes, que Bourdieu chamará de “sobre- selecionados”, ou seja, aqueles que atingiram e possuem os mais altos níveis de instrução.
Se por um lado é obvio o caráter de exceção de agentes sociais que estão fora da probabilidade estatística, atingindo nível de instrução improvável para sua origem social, por
outro, é interessante pensar o tipo de efeito sugerido pela socialização escolar prolongada, fazendo diminuir do ponto de vista estatístico a diferença do consumo cultural entre agentes de origens sociais diversas.
Também é importante notar a associação entre nível de instrução e mobilidade ascendente. O acúmulo de capital cultural está na base das estratégias de mobilidade ascendente características de grupos cujo patrimônio de capital é marcado pela prevalência de capital cultural, sendo uma das vias por meio das quais a pequena burguesia “intelectualizada” acessa a burguesia.
A importância do efeito de trajetória sobre as disposições se verifica, de forma mais clara, na pequena burguesia. Embora tal efeito possa sugerir uma complexificação da relação entre origem social e disposições, Bourdieu argumentará que tal relação pode ser mantida desde que a definição da origem social não leve em consideração somente a posição social – pontual – do pai e do avô, mas o sentido (ascendente ou descendente) da trajetória destes e de suas posições, o qual irá conformar as disposições dos descendentes.
Quanto a isso, podemos nos perguntar se o incremento do deslocamento no espaço social não influencia, por meio de uma relativa heterogeneidade nas condições de existência e instabilidade da posição de classe que parece implicar, na suposição da presença de condicionamentos homogêneos e estáveis que parecem estar ligados à noção de habitus.