Capítulo 3. Por que marchamos? A Agenda
2. O conteúdo da pauta
2.2. Classe, trabalho e Pobreza
A preocupação com as desigualdades definidas a partir da estrutura de classes sociais – isto é, referentes ao mundo do trabalho, distribuição de recursos e, de forma mais ampla, as críticas ao caráter racial e gendrificado do capitalismo – aparece nos discursos das mulheres da FMNCR, por um lado, em uma discussão sobre pobreza, na qual a sobreposição de raça, gênero e classe é considerada determinante de uma vulnerabilidade extrema e aponta- se a necessidade de políticas públicas corretivas. Por outro lado, refere-se à necessidade de regulamentação, proteção e garantia de direitos trabalhistas e sociais para uma série de grupos de trabalhadoras, dentre as quais as mulheres negras são maioria.
2.2.1. Trabalhadoras negras, pobreza urbana, direitos e políticas públicas
A busca de direitos trabalhistas é uma das principais preocupações das militantes e é trazida à discussão em praticamente todas as suas atividades. Algumas das participantes mais ativas da FMNCR são lideranças, referências ou participantes de longa data de organizações sindicais campineiras como o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas e a Associação de Profissionais do Sexo de Campinas Mulheres Guerreiras (AMG)562 e, de forma geral, as conversas a respeito de trabalho na FMNCR tomam como ponto de partida os lugares sociais ocupados por essas trabalhadoras. O reconhecimento dessas militantes – e, especialmente, do Sind.Dom. – , as quais tem relações e diálogos com centrais sindicais, partidos e uma série de sindicatos e grupos políticos na cidade, parece ser o principal elemento a garantir de que os eventos voltados a essa discussão sejam quase sempre frequentados por
561 Boa parte dos argumentos de Marcela foram voltados a grupos e espaços específicos (as feministas, o Estado,
os partidos, etc.), em relação aos quais afirmava a “posição de sujeito” das trabalhadoras sexuais e a escolha do trabalho sexual como profissão. Já Carolina se remetia à dimensão cultural de forma mais ampla – referindo-se pontualmente ao “cidadão de bem”, “os homens”, etc. e não reivindicou o imperativo de “colocar-se como sujeito”.
562 Em sentido estrito, a AMG não é um sindicato e não se restringe a debater e atuar nas questões referentes aos
direitos trabalhistas de suas filiadas. No entanto, como representa a categoria das trabalhadoras sexuais – a qual não tem autorização da legislação vigente para constituir um sindicato – e disputa as demandas trabalhistas desse grupo, entra aqui no mesmo sentido. Retomarei tal questão no capítulo 3.
membros de partidos e sindicalistas de Campinas e usualmente contem com o apoio de alguns sindicatos e grupos de trabalhadores em sua organização e nas discussões propostas.563
Os debates sobre trabalho costumam focalizar as demandas de trabalhadoras domésticas, profissionais do sexo, terceirizadas, trabalhadoras informais e uma série de grupos envolvidos em trabalho entendido como precário. Parte dessas categorias, compostas por grande número de mulheres negras, disputam ainda a participação na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a inserção na categoria “trabalhadores” conforme compreendida pelo Estado e pela legislação brasileira e, portanto, os direitos básicos reservados aos mesmos, como carteira assinada, férias remuneradas, aposentadoria e licenças por problemas de saúde. Dessa forma, as falas feitas em nome de suas organizações costumam se referir à categoria trabalhista como um todo e, valendo-se de dados estatísticos, econômicos e políticos, recorrem frequentemente a um contraste entre a realidade das trabalhadoras e o imaginário social a respeito delas – empregando dados como o número de trabalhadoras das categorias, a taxa de informalidade, o número de horas de trabalho e a importância econômica dessas formas de trabalho sobre a receita pública. Além disso, procuram relatar a longevidade, os avanços e percalços de sua atuação e mobilização, nomear lideranças e realçar suas pautas e demandas em termos de leis e regulamentações, enfatizando a busca de direitos.
Além de pautas e recursos retóricos semelhantes, há também importantes diferenças entre os discursos, em especial entre aqueles proferidos por trabalhadoras domésticas e sexuais. A fala de Marcela, principal representante da AMG na FMNCR, na já mencionada roda de conversa Mulheres Negras e Sexualidade: Diálogos Intergeracionais, é exemplar dessas diferenças. Seu discurso se inicia com um relato de partes de sua história de vida – sua migração aos 13 anos do Maranhão para Campinas, a gravidez na adolescência, o aborto e a entrada na prostituição, seguida, em outro momento, por um relato sobre suas filhas e como as criou graças ao seu trabalho – ao longo do qual ela realiza uma performance corporal em que caminha pela sala do evento de forma sensual, tira peças de roupa e se aproxima de vários dos presentes. Depois desse momento, que durou por volta de quinze minutos, ela se veste e se senta, iniciando uma fala mais demorada e proferida em tom sério. Então, na segunda parte da fala, Marcela adere ao modelo mais comum de discurso sobre trabalho e organização sindical – salienta a importância da profissão, oferecendo dados sobre a magnitude do número de
563 Sindicatos dos Químicos, Metalúrgicos, STU e outros sindicatos da CUT, especialmente por via do Sindicato
de Trabalhadoras Domésticas e de Magali Mendes que, tendo participado por décadas do STU, tem contatos sólidos nesse sindicato.
trabalhadoras sexuais na cidade, região, estado e país e asseverando a relevância econômica dessa atividade, destaca aspectos da condição de vida das trabalhadoras e enfatiza a busca por direitos. O foco central de sua fala é a regulamentação do trabalho sexual e os elementos mobilizados ao longo do discurso procuram enfatizar que, em suas palavras, “prostituição é, sim, trabalho”.564
A fala de Marcela ressalta uma dualidade presente na forma como se constituíam os discursos acerca de trabalho na FMNCR, os quais eram protagonizados principalmente por essas duas categorias trabalhistas. Por um lado, tratava-se de um discurso sindical comum, que enfatizava a busca de direitos e mobilizava argumentos de teor econômico e numérico, voltados a comprovar a existência de uma categoria profissional apartada da legislação trabalhista de forma injusta. Por outro lado, esses mesmos discursos procuravam enfrentar barreiras de ordem cultural ou moral que impediam que essas atividades fossem tratadas como trabalho, reconhecendo que parte importante das dificuldades encontradas para remediar essas injustiças reportam-se a “padrões institucionalizados de valor cultural”,565xxvi e enfatizando a subjetividade e agência das trabalhadoras. Assim, apesar de suas diferenças, trabalhadoras domésticas e trabalhadoras sexuais compartilhavam o imperativo de enfrentar padrões e crenças de ordem cultural e moral que relegam seus trabalhos a atividades aos domínios do privado, familiar, secreto ou invisível – portanto, fora do domínio do público, reconhecido e sujeito à regulamentação. Os dois casos notabilizam a inseparabilidade, por um lado, da crítica aos horizontes de valores culturais normativos organizados por meio das categorias “gênero”, “raça” e “sexualidade”, e, por outro, da problemática das classes sociais. Neles, essas dimensões encontram-se atreladas.
Enquanto trabalhadoras negras em várias ocupações à margem da regulamentação trabalhista, ambas as categorias são vistas, na FMNCR, como as camadas mais pauperizadas e vulneráveis da classe trabalhadora. Como seus discursos na organização, as pautas correspondentes às questões trabalhistas na CM, além das já mencionadas no tópico anterior, são geralmente enquadradas como direitos. São elas, por exemplo: a oposição à “retirada histórica de direitos” e à terceirização e precarização do trabalho (ponto 14); a ampliação dos empregos e pela igualdade salarial para as mulheres negras (ponto 15); garantia de direitos aos trabalhadores informais (ponto 16); direitos previdenciários e oposição aos
564 Marcela, Diário de campo, 29/07/2016. 565 Fraser e Honneth, 2003, p.29.
cortes das Medidas Provisórias (MPs) 664 e 665 de 2015566 (ponto 17); a valorização do trabalho doméstico e a plena implementação da Lei Complementar 150/2015567 (ponto 18); e a garantia de direitos e inclusão para as mulheres imigrantes e refugiadas (ponto 19).
As pautas de categorias trabalhistas não representadas coletivamente na FMNCR – i.e., com grupos ou associações de categoria integrando a organização – foram construídas por meio das interações com as trabalhadoras em oficinas, palestras e outros eventos de militância, assim como sua participação individual na FMNCR. Algumas integrantes da FMNCR participavam frequentemente de encontros de movimentos sociais, eventos de outros grupos e reuniões com o poder público em várias localidades, além de buscarem fomentar atividades comuns, momentos em que aproveitam para se inteirar dos debates de outros grupos. Em uma mesa de debates intitulada Mulheres negras e violência, organizada na Unicamp em novembro de 2017, uma das participantes da FMNCR, convidada como debatedora, afirma:
Sexta-feira agora nós tivemos aqui em Campinas o encontro estadual de catadoras de reciclável. [...] É um setor que tem muitas mulheres negras. Nós PLPs fomos chamadas pra dar uma oficina de prevenção de violência contra a mulher. E das 50 mulheres que estavam na sala com a gente, pelo menos 40 eram mulheres negras. Esse é um setor de mulheres negras. Então, eu sinto muito, gente, com todo respeito... Eu estive junto com a luta das meninas universitárias, jovens universitárias, mas nosso olhar tem que ser outro. Nosso olhar tem que ser [em busca de] onde estão as mulheres negras. As mulheres negras são trabalhadoras domésticas, nós éramos um setor muito forte no serviço público, mas agora nós estamos nas terceirizadas, nós somos catadoras. E aí, vamos ter que pensar nisso. Nosso olhar vai ter que se voltar pra isso e nós [mulheres negras] somos o setor, hoje, do movimento social que tá ativo e vivo.568
A fala acima, enunciada por uma participante da FMNCR com extensa experiência militante, também indica percepções acerca da circulação dessas pautas no campo da organização coletiva das mulheres negras, sugerindo que, em sua perspectiva, debates associados à “luta das meninas universitárias” têm ganhado preponderância, em detrimento do foco na discussão de classe e trabalho, apontada como majoritária.
A centralização dessas trabalhadoras como a camada mais pauperizada e vulnerável não apenas da classe trabalhadora, mas também no interior do movimento de mulheres negras, se aproxima das perspectivas de autoras como Lélia Gonzalez e Claudia Jones acerca da inserção dessas mulheres no mercado de trabalho e na sociedade. A ideia de
566 As duas medidas provisórias aprovadas em 2014 alteram a legislação previdenciária e trabalhista, dispondo
novas condições para acesso à pensão por morte, auxílio doença, seguro desemprego e abono salarial. Ver: http://www.planejamento.gov.br/tema/MPs-664-665/noticias/medidas-provisorias-do-ajuste-fiscal-sao-
aprovadas-pelo-congresso .
567 A Lei 150/2015 regulamenta especificamente os encargos, tributos e direitos das trabalhadoras domésticas.
Voltarei a falar dessa lei no próximo capítulo.
“superexploração”, empregada por ambas as autoras para caracterizar a posição das mulheres negras na base da estrutura ocupacional e de classes reflete que “por conta de sua localização na sociedade entre os trabalhadores mais explorados e mal pagos, o valor do trabalho das mulheres negras tende a beneficiar várias outras frações de classe (inclusive outros trabalhadores explorados)”.569xxvii Tanto em Jones como em Lélia Gonzalez, tal caracterização, que parte justamente do emprego doméstico, leva em conta a realização, por parte das mulheres negras, do conjunto das “tarefas mais servis e mal pagas”,570 a ausência de direitos trabalhistas, a realização de duplas jornadas e as condições irregulares, injustas indignas de trabalho. Além das condições de trabalho, elas destacam as relações entre empregadas e patroas como um elemento central nesse trabalho, destacando a relevância desse “relacionamento madame- serva” [madam-maid relationship]571 no “reforço quanto à internalização da diferença, da subordinação e da inferioridade que lhe seriam peculiares”.572 Ainda, ambas ressaltam o papel dos mecanismos de seleção racial no mercado, como a demanda por “boa aparência”, e dos estereótipos e representações negativas das mulheres negras na manutenção dessas hierarquias. Assim, esses obstáculos simbólicos ajudariam a manter as mulheres negras em um circuito de pobreza que, considerando seu lugar como sustentáculos de suas famílias e comunidades – como aparece na CM, “arrimos de família” – , 573 impediria a ascensão das comunidades negras como um todo. Para Jones, isso significa que “como as mulheres negras são frequentemente as chefes da família, comunidades negras inteiras permanecerão na pobreza se as mulheres negras continuarem subempregadas e superexploradas”.574xxviii
Somada às questões vivenciadas pelas trabalhadoras negras, a crescente camada de mulheres negras que sequer consegue inserção no mundo do trabalho ou que, a despeito de uma inserção precária, não reúne condições de sobrevivência, aponta para o papel da pobreza nas preocupações da FMNCR. As falas enfatizam que “as mulheres negras são [o grupo] mais pobre do mundo”575 e procuram destacar a relação entre pobreza e vulnerabilidade social, expressa em questões como a ausência de condições dignas de vida, a exposição a doenças e à violência, a superexploração da força de trabalho, etc. Além disso, procuram expor
569 Boyce-Davis, 2007, posição 1128 [e-book]. 570 Jones, 1949, p.5.
571 Jones, 1949, p.12.
572 Gonzalez, [1979a] 1982, p.99. 573 CM, 2016, p.3.
574 Boyce-Davies, 2007, posição 1100 [e-book] Cabe destacar, ainda, que essa conexão entre trabalho, família e
comunidade também é frequente nas obras feministas negras (cf. tb. Collins, 2000; Davis, [1982] 2016)
575 Fala de Magali Mendes na plenária de 01/11/2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sfubP-
e reposicionar explicações para a perpetuação da pobreza que se apoiam em conexões entre pobreza e condições psicológicas (como “ser folgado” ou “não gostar de trabalhar”), doenças e transtornos (como ser dependente químico) e atributos ou ações individuais (como a “decisão” de ser traficante ou atuar nos mercados ilícitos de várias formas), rejeitando tais conexões em favor de uma explicação que prioriza a ausência do Estado e de alternativas no mundo do trabalho para a sobrevivência. Nessa medida, seus discursos e ações se inserem na disputa pelos “termos empregados para descrever a vida social”,576xxix por vezes reivindicando para si categorias que revelam espaços de marginalidade e buscando significados próprios a elas:
Sou uma mulher de quebrada mesmo, sou uma mulher de um bairro discriminadíssimo dessa cidade, onde morrem jovens e onde as mães estão sofrendo porque tem filhos que morrem pela polícia e filhos que morrem pelo tráfico. Isso é um problema de mulher negra. Não porque nossos filhos são por excelência traficantes. Assim como o Mandela dizia que ninguém nasce discriminando, racista, eu quero dizer aqui que ninguém nasce usuário de drogas. Torna-se usuário de drogas, por conta de um mercado hoje que é o maior mercado do mundo, e que nossos filhos hoje, por falta de políticas públicas, estão vulneráveis a isso.577
A pobreza aparece como algo que unifica os diferentes estratos ou subgrupos de mulheres negras e, ao mesmo tempo, é posicionada como uma luta assumida pela FMNCR que extrapola a própria categoria “mulheres negras”. Além de voltar-se aos já mencionados grupos de trabalhadoras negras urbanas e considerando que “as mulheres negras que trabalham, mas continuam pobres formam um importante segmento da classe trabalhadora negra”,578xxx as falas destacam a necessidade de proteger e defender uma gama de grupos expostos a camadas adicionais de vulnerabilidades e cuja pobreza parece apresentar-se como condição permanente ou inescapável, para as quais o mercado de trabalho, mesmo informal ou precário, é praticamente inacessível – como quilombolas, indígenas, grupos organizados em disputas por moradia, as mulheres “da quebrada”, dependentes químicas e encarceradas:
se é verdade que estatisticamente nós [mulheres negras] somos hoje as mais pobres, eu marcho pelo fim da pobreza. Mas, marchando pelo fim da pobreza e sabendo que ela não vai acabar amanhã, eu marcho para que o Minha Casa, Minha Vida melhore… não para que ele acabe, mas para que ele melhore, porque milhares de mulheres negras foram beneficiadas por ele. [...] Então eu marcho para que o Bolsa Família não acabe, e sim melhore. Eu marcho para que a juventude negra que tá reivindicando aí escola pública, que amplie mais ainda… [...] E se a gente vai nas quebradas, a gente vê muita gente passando fome. Tem muita gente que não sabe o que vai jantar, tem muita gente que não sabe o que vai comer amanhã, tem muita gente que ainda dá água com fubá pro filho. Em particular, eu marcho também por todas as minhas amigas craqueiras, que não são meninas, são mulheres da minha idade, e que a gente também não tem noção disso, e que essas pessoas não estão tendo tratamento. Marcho por todas as minhas amigas presidiárias, que não têm um exame, né? Se a gente tá reclamando que não tem exame ginecológico, não tem [atendimento médico de qualidade], elas não
576 Fraser e Gordon, 1994 [In.: Fraser, 2013, p.84]. 577 Diário de Campo, 13/11/2017.
tem nem um terço disso. Elas só saem ali para o [Hospital] Mario Gatti quando já estão morrendo, a pressão sobe. Até nisso nosso sistema é machista, quando aquele presídio era masculino, todo mundo sabia que ele existia; agora que ele é feminino [Penitenciária Feminina de Campinas], ninguém sabe que ele existe. Então, quero marchar para que esse presidio que tem em Campinas seja um presídio humanizado. Não quero dar conta de todos os problemas que tem lá, mas quero marchar para dizer que as políticas públicas dessa cidade não existem. [...] Quero marchar pelas minhas amigas prostitutas que apanharam ali, quero marchar pelo pessoal do meu bairro, quero marchar por todos nós… mas, essencialmente, isso se chama fim da pobreza.579
Como a fala acima indica, essa linha de discursos frequentemente enfatiza a importância das políticas públicas de geração e transferência de renda, moradia, saúde e educação, tomadas como instrumentos imprescindíveis na transição da pobreza (“sabendo que a pobreza não vai acabar hoje”) para uma situação de segurança alimentar, financeira e trabalhista. Assim, acerca dessa questão, os objetivos e demandas são dispostos em termos de políticas públicas – por exemplo: a “defesa do reconhecimento e titulação dos territórios quilombolas” e indígenas, acompanhada pelo “fortalecimento e mais investimentos no desenvolvimento das políticas públicas destinadas a essa população” (ponto 24); o estímulo à política de reforma agrária para as áreas que não cumprissem a função social da terra e a titularidade preferencial das mulheres nessas políticas (ponto 25); e a defesa do direito à moradia, à cidade e à urbanidade, que serão efetivados por meio de políticas públicas (tais como o aumento dos programas e unidades habitacionais, a aceleração dos processos de desapropriação dos imóveis fechados e sua transformação em moradias populares) (ponto 26). Ao passo em que as proposições acerca da superexploração formuladas por autoras como Gonzalez e Jones são voltadas à crítica dos modelos de organização trabalhista que dispensam a articulação e a luta por direitos das mulheres negras envolvidas no trabalho doméstico – e, portanto, já apontam para uma relação de pertencimento complexo na classe trabalhadora organizada – a discussão acerca da pobreza adiciona uma dimensão extra à discussão sobre classes sociais na FMNCR. A descrição de uma condição social que, por mérito da atuação institucional e vinculada a obstáculos e representações depreciativas na dimensão simbólica, se torna endêmica, permanente e inescapável, indica que o modo como essas mulheres percebem seu pertencimento de classe não toma como ponto de partida apenas sua posição nas relações de produção, mas também dispõe como centrais experiências de privação, segregação e estigmatização. Dito de outro modo, os debates da FMNCR em torno de trabalho e classe não se concentram exclusivamente nas posições ocupadas por elas em relação ao
579 Fala de Magali Mendes na plenária de 01/11/2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sfubP-
mundo do trabalho (no sentido de “força de trabalho”), mesmo nas formas como essas foram criticadas levando em conta as categorias “gênero” e “raça”,580 mas enfatizam a construção de subjetividade e sentidos a partir dessa vivência. Nessa medida, os debates de classe social na FMNCR parecem empregar uma noção de classe que incorpora e, ao mesmo tempo, extrapola o conceito de “classe trabalhadora” conforme tradicionalmente trabalhado pela sociologia do trabalho brasileira.581
2.2.2. O lugar da classe
A intensidade dos debates e pautas em torno de trabalho, exploração, pobreza, direitos e políticas públicas e a argumentação voltada à priorização dessas questões, demonstram que as perspectivas construídas a partir do debate sobre classes sociais tem lugar importante na ação política da FMNCR. Este lugar, contudo, foi bastante disputado.
Ao me relatar suas razões para a participação na FMNCR após a Marcha, Regina Teodoro, diretora do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas, explica que seu objetivo era “trazer [para a organização] a pauta das trabalhadoras domésticas” e, com isso, superar um dos principais problemas que, em sua perspectiva, atrasam a obtenção de direitos por parte da categoria: a dificuldade de mobilização.582 Para ela, porém, esse objetivo não foi realizado a contento: “Também nesse meio em que é nosso, é de mulheres negras, mulheres pobres, a gente ficou no mesmo lugar como a gente está no Congresso [Nacional], como a gente está em