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Capítulo 1. Movimentos e feminismos de mulheres negras brasileiras da redemocratização à

1. O movimento de mulheres negras na redemocratização e na estabilização da democracia

1.2. Encontros, ONGs e formas de organização (1985-1995)

A partir de 1985, verifica-se um grande crescimento do número de coletivos e grupos de mulheres negras.221 O III Encuentro Feminista Latino-Americano e Caribenho (EFLAC), que aconteceu em Bertioga, no estado de São Paulo, em 1985, além uma referência na história dos movimentos de mulheres negras brasileiras e dos feminismos latino- americanos,222 é um dos marcos iniciais desse período. Precedido por um encontro que teve como uma de suas principais discussões os cruzamentos de raça e sexo,223 o II EFLAC, a grande participação em Bertioga, de aproximadamente 800 mulheres, mostrava, por contraste, o pequeno número de mulheres negras – apenas 116. Além de uma situação de conflito aberto entre um grupo de mulheres negras e pobres que procurava entrar no evento sem ter efetuado a inscrição, por um lado, e a organização do evento, que deliberou de forma contrária à

220 Carneiro, [199-], s/p [online]. 221 Cf. Roland, 2000; Rios, 2014.

222 Cf.: Sternbach et. al, 1994; Rodrigues, 2006; Lemos, 1997; Ribeiro, 1995.

223 Segundo Sternbach et. al. (1994, p.272), no IIEFLAC, em 1983, no Peru, um pequeno workshop sobre racismo

“proporcionou um fórum para criticar a falta de espaço no Encuentro para enfrentar o racismo. Esse workshop, do qual participaram basicamente negras e índias, desafiou o encontro de Lima e os subsequentes a tratar do racismo, não apenas levando em conta as experiências vividas por mulheres em seus variados contextos sociais, culturais e nacionais, mas também dentro do próprio movimento feminista”.

participação desse grupo,224 por outro lado, uma série de problemas de alinhamento político e diferença social caracterizaram as relações entre mulheres negras e brancas. Como explica Luiza Bairros a Cristiano Rodrigues:

Eu acho que aquele encontro de Bertioga, ele tem uma importância muito grande na formação do movimento de mulheres negras, porque aquilo ali foi a expressão mais visível do tipo de recusa que as feministas tinham sobre a realidade que as mulheres negras traziam para dentro do movimento. E nós, outras mulheres negras que entramos e participamos do encontro, passamos lá o tempo todo tendo embates muito sérios, né? Com essas feministas, e fomos o tempo todo muito questionadas, “vocês não são feministas na verdade!” Não sei o quê! “vocês não conseguem radicalizar nas questões!”. E não tinha como! A gente não podia ter um tipo de análise sobre a questão da maternidade, sobre a questão da família do mesmo modo que as feministas tinham, a gente não tinha nem família nuclear dentro da comunidade negra, entendeu? Essa coisa de famílias chefiadas por mulheres é uma realidade que historicamente é muito antiga entre nós negras, mulheres negras chefes de família. Quer dizer, então, isso era uma diferença muito grande da forma como elas tratavam, né? Uma diferença muito grande. E, então, com essas tensões, esses conflitos todos que aconteceram no encontro de Bertioga, eu acho que isso acabou fortalecendo nas mulheres negras a ideia de que elas tinham que ter um movimento em separado, que a gente não devia mais ficar insistindo pra ser parte daquele movimento de mulheres, né? Não é à toa que três anos depois acontece o 1º Encontro Nacional de Mulheres Negras em 88, né?225

A fala de Bairros ressalta alguns elementos cruciais nas relações conflituosas entre feministas brancas e negras e torna explícitas as relações entre o III EFLAC e a institucionalização dos movimentos de mulheres negras. Em sua reflexão sobre o mesmo evento, Matilde Ribeiro226 sublinha a falta de construção de uma política de trabalho conjunto entre mulheres negras e brancas e as discussões acerca da limitada incorporação das problemáticas referentes à raça e ao racismo no movimento feminista e sobre “quem é ou não

224 Uma série de mulheres cariocas, em um ônibus organizado, segundo alguns relatos, pelo CEMUFP, em sua

maioria negras, chegaram a Bertioga com o intuito de participar do III EFLAC. Sem ter pago a inscrição do evento, a qual era alvo de críticas em todas as suas edições em função do alto valor (60 dólares em 1985), sua participação foi deliberada pela coordenação do evento, que decidiu não permitir a entrada. O evento é narrado em detalhes por Sternbach et al. (1994), que afirma que, além da negação da entrada, “o aspecto mais lastimável do incidente foi que as discussões se concentraram mais no ônibus (quem o enviara e por que motivos?) e na admissão ou não de suas passageiras do que nas implicações de raça e classe para o movimento suscitadas por sua presença” (p.276). O impedimento da participação acabou gerando um “evento paralelo”, como salientou Cardoso (2012, p.189). Segundo Jurema Batista, que estava no ônibus: “As mulheres da República Dominicana, da Nicarágua, de Cuba, todas iam fazer o encontro conosco: rachamos o encontro. Ficamos lá todos os dias. Fazíamos dinâmica, debate sobre questão do imperialismo, discussões sobre a mulher e a política, tudo que não rolava inclusive lá dentro, onde ficou uma coisa mais light, uma coisa de corpo. Foi uma tremenda experiência. Voltei de lá achando que não devia estar somando num movimento que, na verdade, não somava em nada para mulheres populares, apesar de reconhecer realmente que o movimento feminista foi a pedra de toque para mulherada deslanchar no mundo, para reivindicar seus espaços. Eu, porém, divergia de muitas coisas da concepção delas do modo de ver o mundo, até porque elas viam o mundo de outro ponto de vista, que era o de mulheres de classe média, cheias de informação. Vimos, que coincidentemente, a maioria das mulheres que estava no ônibus era negra” (Idem, ibidem). Cf. tb. Ribeiro, 1995.

225 Rodrigues, 2006, pp.175.

226 Assim como Bairros, Matilde Ribeiro é uma importante militante e intelectual do movimento negro e de

mulheres negras, tornando-se, em 2003, a primeira ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), cargo que desempenhou até o início de 2008.

feminista, que cara tem ou deveria ter o movimento feminista brasileiro, as possibilidades de aliança e rumos do movimento feminista”.227 Os desafios enfrentados no III EFLAC – como a negligência às pautas das mulheres negras e pobres e a percepção das diferentes perspectivas a partir das quais ambos os grupos formulam sua consciência política –fortalecem a necessidade de autonomização, contabilizada como um dos fatores centrais na sensível ampliação dos grupos de mulheres negras a partir de 1986.228 Retomando as percepções de Luiza Bairros:

[O I Encontro Nacional de Mulheres Negras, em 1988] Que já vem assim, efetivamente, como uma resposta, e não é à toa também o fato de que esse 1º Encontro Nacional de Mulheres Negras teve um protagonismo muito grande das mulheres negras do Rio de Janeiro, exatamente aquelas que organizaram o tal ônibus que foi recusado em Bertioga. Elas tiveram uma presença muito grande na organização desse 1º Encontro Nacional. E aí, com o primeiro encontro nacional, agora eu não lembro se o Geledés já existia ou não naquele período, ou se foi criado logo em seguida, parece que sim... 88, é, ele foi criado mais ou menos nesse período também. E também, exatamente nesse período da segunda metade dos anos 80 pro final é... o CEAP [Centro de Articulação de Populações Marginalizadas] no Rio de Janeiro é... o grupo de mulheres que havia dentro do CEAP acabou saindo pra formar a Criola, né? Então começa a haver esse processo que é um processo de autonomização dos grupos de mulheres, né?229

Outro evento que acentuou a necessidade de organização autônoma foi o IX Encontro Nacional Feminista, em 1987, na cidade de Garanhuns, em Pernambuco. Segundo Ribeiro, a ausência das discussões sobre raça e racismo no temário do evento, as acusações de que de que as mulheres negras estavam cindindo o movimento feminista e as indisposições e altercações resultantes teriam estimulado a concepção do I Encontro Nacional de Mulheres Negras (I ENMN), a qual teria sido deliberada ao longo do próprio IX ENF.230 Além das questões em torno da temática racial, para Joselina da Silva, esses problemas revelavam assimetrias de classe e diferentes formas de organização, pelejas que tinham que ver tanto com o caráter “popular”231 de determinados grupos de mulheres, como com as estratégias políticas empregadas pelos movimentos sociais com os quais estavam envolvidas.232 Segundo essa

227 Ribeiro, 1995, p.449.

228 Entre 1986 e 1992, Flávia Rios (2017, p.239) relaciona a formação dos seguintes coletivos: Coletivo de

Mulheres Negras da Baixada Santista/ Casa de Cultura da Mulher Negra (1986); os já mencionados Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa (MA) e Centro de Mulheres de Favela e Periferia (RJ), ambos fundados em 1986; Maria Mulher (RS), de 1987; Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte, fundado em 1987 e que, a partir de 1993, passou a se chamar Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte; Geledés – Instituto da Mulher Negra, criado em 1988, e o primeiro a se constituir em formato de organização não governamental; Comissão de Mulheres Negras de Campinas, de 1989; Criola (RJ), fundado em 1992, além de vários outros. Cf. tb. Roland, 2000.

229 Rodrigues, 2006, p.175-6. Cabe salientar que, segundo as entrevistas realizadas por Lemos (1997), a entidade

organizadora do ônibus seria o já mencionado Centro de Mulheres de Favela e Periferia (CEMUFP).

230 Ribeiro, 1995, p.448.

231 Este termo, geralmente empregado em associação à noção de “classes populares”, será debatido no capítulo 3. 232 Joselina da Silva destaca, por exemplo, as relações das mulheres das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

autora, ainda, a proposta de realizar um encontro nacional de mulheres negras era anterior a Garanhuns, de modo que o ENF teria apenas garantido um salto organizativo em razão das coalizões e debates que proporcionou. Segundo a autora:

As mulheres negras oriundas do Rio de Janeiro– que haviam ido ao conclave [IX ENF] objetivando estimular uma articulação com vias a organizar um encontro nacional de mulheres negras – foram tomadas de surpresa. Ativistas de outros estados também estavam ali com o mesmo propósito, sobretudo as de São Paulo (Capital e Santos) e algumas do Nordeste.233

Juntamente às tensões com o campo feminista, Ribeiro e Roland destacam que o avolumamento das organizações e atividades do movimento de mulheres negras, nesse período, era inspirado pelo centenário da abolição da escravatura, em 1988, que, como já apontado, intensificou os debates e ações dos movimentos negros.234 O espírito desse momento, manifesto em atividades como o Tribunal Winnie Mandela, é sintetizado na afirmação de Lélia Gonzalez de que a data não deve ser tomada como uma celebração, mas como fonte de reflexão, uma vez que “para nós, mulheres e homens negros, nossa luta pela libertação começou muito antes deste ato de formalidade jurídica e se estende até os dias de hoje”.235

Assim, em dezembro de 1988, foi realizado o I Encontro Nacional de Mulheres Negras (I ENMN), na cidade de Valença, no Rio de Janeiro.236 O Encontro foi financiado por pelo menos sete entidades brasileiras e estrangeiras237 e teve a presença de cerca de 450 mulheres de todas as regiões brasileiras.238 O planejamento prévio à sua realização –

palestras das líderes feministas – e suas falas pautadas pela Teologia da Libertação eram, naquele momento, algo pouco entendido pelas feministas mais clássicas, que lá estavam” (Silva, 2014, p.23). A autora cita também uma fala de Sandra Bello, militante negra que participou desses eventos: “A questão de classe estava entre nós. Muitas mulheres não aceitavam que mulheres negras com um outro perfil periférico, autônomo, suburbano, favelado estivessem à frente do movimento. Que fossem a vanguarda daquela revolução. Que estavam praticando tese (não formulando apenas) de ruptura com o eurocentrismo Feminista. Ruptura com o maternalismo… onde as feministas definiam cotas de participação de Mulheres Negras nos Encontros. Muitas se acomodaram nessa condição, pois acreditavam estar representando as Mulheres Negras. Todos os anos era a mesma coisa e as mesmas pessoas nos definindo e determinando quantas poderiam participar. As oficinas que se encerravam nelas mesmas… reforçando teses distanciadas da maioria… ao invés de reclamarmos, nos organizamos, fomos quebrando os sorrisos simpáticos do maternalismo e passamos a rejeitar… por isso, fomos chamadas de agressivas, malucas, etc. Claro!!! Quando se desafia o poder…” (Idem, p.21).

233 Silva, 2014, p.22. Cabe dizer que, a esta altura, já haviam ocorrido, no Rio de Janeiro, dois encontros estaduais

de mulheres negras – o Encontro de Mulheres Negras, de 1983, e I Encontro Estadual de Mulheres Negras, de 1987 (Cf. Silva, 2014; Gonzalez, 1988b) – que registraram grande participação. Também amplamente frequentado e relevante teria sido o I Encontro Estadual de Mulheres Negras, organizado pelo Coletivo de Mulheres Negras de São Paulo em 1984 (Roland, 2000, p.239; Gonzalez, 1988b).

234 Ribeiro, 1995, p.450; Roland, 2000, p.239. 235 Gonzalez, 1988a, p.133.

236 Silva, 2014, pp.28-9; Cardoso, 2012, pp.207-8.

237 Silva, (2014, p.25) menciona como financiadoras internacionais do I ENMN a Fundação Ford, War on Want,

Church Women United, Unicef, NOVIB (Oxfam); e nacionais, LBA (Legião Brasileira de Assistência) e o coletivo

Nzinga.

reuniões de organização, discussões acerca dos propósitos e expectativas em torno do evento, altercações e divergências em questões práticas, eventos para levantar fundos, entre outros – se estendeu por um ano e foi coordenado por duas comissões de alcance nacional. A Comissão Organizadora, da qual participavam os estados representados nas reuniões de preparação para o evento,239 respondia pela “linha política, as articulações, os desdobramentos” do encontro, assim como “questões polêmicas como o critério de delegação [...] e a não participação dos homens”.240 A Comissão Executiva, por sua vez, responsabilizou-se por implementar essas decisões durante o Encontro, encaminhando, ainda, a logística, o levantamento de fundos e a alocação do evento.

O Encontro foi orientado para a definição da plataforma política das mulheres negras – isto é, de seus referenciais próprios – ,241 tendo como centrais as discussões sobre a interface com outros movimentos sociais e a forma de organização e estruturação ideais para a consolidação de canais de diálogo e ativismo unificados nacionalmente.242 As principais questões diziam respeito à forma de estruturação do movimento (se seria uma rede de grupos diversos, uma articulação de fóruns locais, etc.), a forma de relação com os demais movimentos (se deveria ou não estar vinculado a outros grupos e qual forma de diálogo e parceria travar com eles), o caminho para a construção de uma plataforma única (seminários nacionais, processos sequenciados de deliberação municipal, estadual e nacional, etc.) e as estratégias unificadas de luta contra o racismo e o sexismo.243 Trata-se, portanto, de questões referentes à organização interna – isto é, das formas pertinentes para desenvolver plataformas e estratégias conjuntas – e externa do movimento – a forma de organização e apresentação nacional, assim como o desenho da relação com outros atores da sociedade civil organizada.

O amplo escopo temático do Encontro é demonstrativo da tentativa de construção de uma perspectiva própria e que abrangesse as várias filiações das mulheres presentes. Nesse temário, são propostos quinze grupos de discussão voltados a uma variedade de áreas,todos eles intitulados Mulheres negras e… (sexualidade, trabalho, mito da democracia

239 Realizadas em Salvador (janeiro/1988), São Paulo (março/1988) e Brasília (abril/1988). 240 Nzinga Informativo, 1989, p.3. Disponível na íntegra em: Viana, 2006, pp.231-246.

241 Haja vista, por exemplo, o I Boletim do I ENMN: “Gostaríamos de deixar claro que não é nossa intenção

provocar um “racha” nos movimentos sociais como alguns nos acusam. Nosso objetivo é que nós, mulheres negras,

comecemos a criar nossos próprios referenciais, deixando de olhar o mundo pela ótica do homem, tanto o negro

quanto o branco, ou da mulher branca” (trecho citado em Silva, 2014, p.22; Rodrigues, 2006, p.176. Grifos meus).

242 Rodrigues, 2006, p.176.

racial e assim por diante).244 No entanto, conforme relata Neusa das Dores, uma das integrantes da Comissão Executiva do evento, a Claudia Pons Cardoso, tal proposta de organização e metodologia, entendida como “tomada de empréstimo do movimento feminista branco”,245 não foi aceita pela maioria das participantes, tendo sua adequação questionada, inclusive, pelas feministas negras presentes no evento. Referindo-se aos conflitos em torno dos feminismos presentes no Encontro, no texto A importância da organização da mulher negra no processo de transformação social, de 1988, Lélia Gonzalez critica a “afirmação de um feminismo erroneamente chamado de radical, quando na verdade sua marca é a do sectarismo”246 e, em seu bojo, o fechamento da discussão em torno da organização partidária e posições que indicam “que a revolução só pode se dar através da radicalização da luta entre homens e mulheres”.247 Reafirmando, ao fim do texto, a responsabilidade ética e política de construir um movimento que inclua as diferentes vivências sociais e organizativas das mulheres negras, diz:

Se estamos comprometidas com um projeto de transformação social, não podemos ser coniventes com posturas ideológicas de exclusão, que só privilegiam um aspecto da realidade por nós vivida. Ao reivindicar nossa diferença enquanto mulheres negras, enquanto amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual. Por isso mesmo, trazemos conosco a marca da libertação de todos e de todas.248

Dessa forma, pode-se afirmar que esses conflitos não orbitavam apenas em torno das formas organizativas e metodologias feministas, ou mesmo da diferença percebida entre estas e as formas de mobilização do movimento negro, mas são atribuídos à grande diversidade de filiações políticas encontradas entre as presentes – membros de sindicatos, partidos, grupos de esquerda, movimentos negros, movimentos feministas, movimentos de bairros e de favelas, comunidades eclesiais de base, movimentos populares, grupos de mulheres rurais, organizações de religiões de matriz africana, academia, grupos culturais, etc. Nesse contexto, Cardoso aponta que as divergências acerca das formas de organização são engendradas, por um lado, pela “diversidade das mulheres negras e suas diferentes formas de organização política, realidade que, até então, ainda era percebida como problema” e, por outro, por “diferentes concepções de feminismo”.249 Para Joselina da Silva, ainda, a significativa presença de mulheres cujas experiências políticas eram tão variadas oportuniza um

244Organizações da sociedade civil; trabalho; educação; legislação; mito da democracia racial; ideologia do

embranquecimento; sexualidade; meios de comunicação; arte e cultura; sua história na África e no Brasil; políticas de controle da natalidade; saúde; violência; estética; sexismo (Silva, 2014, p.34).

245 Cardoso, 2012, p.207.

246 Gonzalez, [1988c] 2018, p.363. 247 Idem, p.364.

248 Idem, p.366.

questionamento a “parte expressiva da literatura sobre o movimento de mulheres negras brasileiras, que o designa como resultante das dissidências com os movimentos feminista e negro”, pois, “quando nos debruçamos sobre o temário do IENMN, vemos que não são aqueles dois movimentos – negro e feminista – os interlocutores preferenciais das mulheres negras nacionalmente organizadas”.250

Para Rodrigues, por sua vez, essa diversidade de filiações, experiências e perspectivas políticas explica a dificuldade que o autor percebe entre as mulheres do movimento de mulheres negras de “estabelecer as bases sobre as quais se assentaria a autonomia do movimento”.251 Questões como a pertinência e a intensidade de diálogo e filiação do movimento de mulheres negras a outros movimentos, que já apareciam na formulação dos primeiros coletivos autônomos,252 e a busca de representação da heterogeneidade e pluralidade das concepções políticas e organizativas das mulheres do MMN,253 são centrais na etapa de construção e consolidação dos movimentos de mulheres negras brasileiras compreendida nesse período.

Essas questões continuaram em pauta nos eventos seguintes, como o II Encontro Nacional de Mulheres Negras, que aconteceu em Salvador no ano de 1991. Neste evento, cujo tema foi “Organização: Estratégias e Perspectivas”, os intensificados esforços de diálogo acerca das formas de organização foram canalizados para o fortalecimento dos fóruns estaduais existentes e a busca de representação da pluralidade das experiências e perspectivas políticas das mulheres negras.254 Na ausência de grupos nacionais considerados representativos dessa pluralidade, aprovou-se uma proposta de realização de seminários nacionais, os quais seriam precedidos por seminários estaduais e regionais e teriam por objetivo aprofundar as conversas sobre formas organizativas e a plataforma comum, procurando pensar a articulação de raça, gênero e classe. Os dois primeiros seminários seriam realizados em 1993 e 1994.

250 Silva, 2014, p.35.

251 Rodrigues, 2006, p.177-8.

252 Esses debates, que permeiam a formação dos coletivos apresentados no tópico anterior, são sintetizadas por

Edna Roland (2000) em três posições: a negação da necessidade de autonomização dos movimentos de mulheres negras em função de diferenças internas; a defesa da subsunção das pautas das mulheres negras aos movimentos negros; a mesma defesa em relação aos movimentos feministas. Cf. tb. Nzinga Informativo, 1989, em Viana (2006, pp.231-246).

253 Essa crítica se relacionava também ao formato das comissões que organizaram os ENMN de 1988 e 1991, que

eram formadas por uma titular e uma suplente de cada um dos estados representados. Para Ribeiro, “esta forma, no entanto, não garante a diversidade das forças políticas que emergem neste processo, agilidade nos encaminhamentos, nem o fortalecimento do movimento nos estados que sediam os encontros, pois este não tem autonomia quanto à organização do evento. Apresenta-se, ainda, a necessidade de definir se a Comissão Nacional de Mulheres Negras constitui-se ou não representação das mulheres negras em nível nacional” (Ribeiro, 1995,