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Classes Características e Conexões em Fibrados

Nesta seção, estudaremos as Classes de Chern para Fibrados suaves, por meio de polinômios invariantes munidos de uma conexão.

Sejam 𝐸 → 𝑀 um fibrado vetorial complexo suave e 𝑇*(𝑀 ) o fibrado cotan- gente de 𝑀 . Fixemos as seguintes notações: Ω𝑞(𝑀, 𝐸) = Γ(Λ𝑞𝑇*(𝑀 ) ⊗ 𝐸) e Ω𝑞(𝑀 ) = Γ(Λ𝑞(𝑇*(𝑀 ))), de modo que estamos considerando seções sobre o corpo dos complexos

C.

Definição 2.6.1. Dizemos que uma aplicação C−linear ∇ : Ω0(𝑀, 𝐸) → Ω1(𝑀, 𝐸) é

uma conexão para um fibrado vetorial complexo suave 𝐸 → 𝑀 quando, para quaisquer

𝑓 ∈ Ω0(𝑀 ) e 𝑠 ∈ Ω0(𝑀, 𝐸), vale que:

∇(𝑓 𝑠) = 𝑓 ∇(𝑠) + 𝑑𝑓 ⊗ 𝑠.

Observação: O conceito de conexão também pode ser definido para fibrados vetoriais reais.

Entretanto, estamos interessados unicamente no caso complexo. O leitor interessado no caso real pode consultar [2] ou [18].

Teorema 2.6.2. Seja ∇ uma conexão para um fibrado vetorial complexo suave 𝐸 →

𝑀 . Então, existe uma única família (∇𝑖)𝑖∈N de extensões lineares ∇𝑖 : Ω𝑖(𝑀, 𝐸) → Ω𝑖+1(𝑀, 𝐸) e uma forma 𝐾 ∈ Ω2(𝑀, 𝐸𝑛𝑑(𝐸)), chamada de forma de curvatura, satisfa-

zendo as seguintes condições: a-) ∇0 = ∇

b-) ∇𝑖(𝛼 ⊗ 𝑠) = 𝑑𝛼 ⊗ 𝑠 + (−1)𝑖𝛼 ∧ ∇𝑖𝑠, para quaisquer 𝛼 ∈ Ω𝑖(𝑀 ) e 𝑠 ∈ Ω𝑖(𝑀, 𝐸).

c-) ∇𝑖+1∇𝑖𝑠 = 𝐾(𝑠) para todo 𝑠 ∈ Ω𝑖(𝑀, 𝐸)

Demonstração. Considere a conexão ∇ sobre um aberto 𝑈 ⊂ 𝑀 de modo que 𝐸 possua

uma base de seções locais {𝑠1, . . . , 𝑠𝑞}. Defina ∇1(𝜃1𝑠1 + · · · + 𝜃𝑛𝑠𝑛) =

∑︁

para quaisquer 1-formas 𝜃𝑖. Isto nos fornece um mapa que satisfaz a condição b-) e podemos aplicar o mesmo raciocínio para obter a família de extensões procurada.

Além disso, sobre esse mesmo aberto, existem 𝜃𝑖,𝑗 ∈ 𝐴1(𝑀 ) tais que ∇(𝑠𝑖) =

𝑞

∑︁

𝑗=1

𝜃𝑖,𝑗⊗ 𝑠𝑗.

Desse modo, podemos calcular ∇∇(𝑠𝑖), obtendo:

∇∇(𝑠𝑖) = 𝑞 ∑︁ 𝑗=1 (𝑑𝜃𝑖,𝑗𝑞 ∑︁ 𝑘=1 𝜃𝑖,𝑘 ∧ 𝜃𝑘,𝑗) ⊗ 𝑠𝑗

Seja 𝐾𝑖,𝑗 = (𝑑𝜃𝑖,𝑗−∑︀𝑞𝑘=1𝜃𝑖,𝑘∧ 𝜃𝑘,𝑗). Esta expressão nos fornece uma definição local de 𝐾. Para globalizarmos esta definição, observe que para outra base seções locais {𝑠

1, . . . , 𝑠𝑞}, existe uma matriz inversível 𝐴 que satisfaz 𝑠= 𝐴𝑠 e, se 𝐾′denota a expressão local para 𝐾 nessa nova base de seções locais, pode-se provar que [14]:

𝐾= 𝐴𝐾𝐴−1

e segue o resultado.

Sejam 𝐹 um corpo de característica 0, 𝐹 [𝑥1, . . . , 𝑥𝑛] o anel polinomial em

𝑛-variáveis e 𝑆𝑛 o grupo de permutações. Temos uma ação de 𝑆𝑛 em 𝐹 [𝑥1, . . . , 𝑥𝑛],

𝜑 : 𝑆𝑛× 𝐹 [𝑥1, . . . , 𝑥𝑛] → 𝐹 [𝑥1, . . . , 𝑥𝑛]

dada por

𝜑(𝜎, 𝑓 (𝑥1, . . . , 𝑥𝑛)) = 𝑓 (𝑥𝜎(1), . . . , 𝑥𝜎(𝑛))

É evidente que esta ação preserva o subanel 𝐹 [𝑥1, . . . , 𝑥𝑛]𝑞 de polinômios ho- mogêneos de grau 𝑞.

A subálgebra dos polinômios invariantes pela ação 𝜑, ou seja, polinômios que satisfazem:

𝜑(𝜎, 𝑓 (𝑥1, . . . , 𝑥𝑛)) = 𝑓 (𝑥1, . . . , 𝑥𝑛)

é uma álgebra polinomial em certas funções elementares 𝜎𝑞 de grau 𝑞 [21] definidas por:

𝜎𝑞(𝑥1, . . . , 𝑥𝑛) =

∑︁

𝑖(1)<···<𝑖(𝑞)

𝑥𝑖(1). . . 𝑥𝑖(𝑞) ou seja, esta subálgebra é da forma 𝐹 [𝜎1, . . . , 𝜎𝑛].

seja, o anel dos polinômios da forma 𝑓 = 𝑚 ∑︁ 𝑖=0 𝑎𝑖𝐴𝑖𝑖

onde 𝐴𝑖 é uma matriz de ordem 𝑛 × 𝑛.

Podemos definir a ação de conjugação de 𝐺𝐿(𝑛, 𝐹 ) em 𝐹 [𝑥11, . . . , 𝑥𝑛𝑛] via:

𝐵.𝑓 (𝐴1, . . . , 𝐴𝑚) = 𝑓 (𝐵𝐴1𝐵−1, . . . , 𝐵𝐴𝑚𝐵−1)

e, a subálgebra de polinômios invariantes por essa ação é uma álgebra polinomial em elementos 𝑐1(𝑋), . . . , 𝑐𝑛(𝑋) definidos por:

𝑑𝑒𝑡(𝐼 + 𝑋𝑡) = ∑︁

0≤𝑖≤𝑛

𝑐𝑖(𝑋)𝑡𝑖 que denotamos por 𝐹 [𝑐1(𝑋), . . . , 𝑐𝑛(𝑋)]

Sabemos que 𝑑𝑒𝑡(𝐼 + 𝑋𝑡) = exp(−∑︀

1≤𝑗𝑇 𝑟(𝑋𝑗)−𝑡

𝑗

𝑗 ) e daí, temos a igualdade

𝐹 [𝑐1(𝑋), . . . , 𝑐𝑛(𝑋)] = 𝐹 [𝑇 𝑟(𝑋), 𝑇 𝑟(𝑋2), . . . , 𝑇 𝑟(𝑋𝑛)] .

Mas, 𝐾 se escreve localmente como 𝐾𝑖𝑗 = 𝑑𝜃𝑖𝑗−∑︀𝑘𝜃𝑖𝑘∧ 𝜃𝑘𝑗 e temos que, para duas cartas locais distintas nas quais 𝐾 se escreve como 𝐾𝑖𝑗 e 𝐾𝑖𝑗′ , existe uma matriz inversível 𝐴 que conjuga 𝐾 no seguinte sentido (𝐾𝑖𝑗) = 𝐴(𝐾𝑖𝑗)𝐴−1.

Assim, podemos dar a seguinte definição:

Definição 2.6.3. Seja 𝐸 → 𝑀 um fibrado suave com conexão ∇ e forma de curvatura

𝐾. Definimos as formas características de Chern 𝑐𝑗(𝐸, ∇) por meio da seguinte equação:

𝑐𝑗(𝐸, ∇) = 1

(2𝜋𝑖)𝑗𝑐𝑗(𝐾)

Proposição 2.6.4. Se a forma de curvatura se escreve como 𝐾 = 𝑑𝜃 − 𝜃 ∧ 𝜃, então

𝑑𝐾 = 𝜃 ∧ 𝐾 − 𝐾 ∧ 𝜃 = [𝜃, 𝐾]

Demonstração. Aplicando 𝑑 na expressão para 𝐾, temos:

𝑑𝐾 = 𝑑2𝜃 − 𝑑𝜃 ∧ 𝜃 + 𝜃 ∧ 𝑑𝜃 = −(𝐾 + 𝜃 ∧ 𝜃) ∧ 𝜃 + 𝜃 ∧ (𝐾 + 𝜃 ∧ 𝜃) = 𝜃 ∧ 𝐾 − 𝐾 ∧ 𝜃

Proposição 2.6.5. Seja 𝐸 → 𝑀 um fibrado suave de posto 𝑛 com conexão ∇. As formas

𝑐𝑗(𝐸, ∇) e 𝜑(𝐾) são fechadas, para todo polinômio invariante 𝜑 ∈ 𝐹 [𝑐1(𝑋), . . . , 𝑐𝑛(𝑋)].

𝑑𝑇 𝑟(𝐾𝑗) = 𝑇 𝑟(𝑑(𝐾𝑗)) = ∑︁ 𝑙+𝑖=𝑞−1

𝑇 𝑟(𝐾𝑙(𝑑𝐾)𝐾𝑖) = ∑︁ 𝑙+𝑖=𝑞−1

𝑇 𝑟(𝐾𝑙[𝜃, 𝐾]𝐾𝑖) = 𝑇 𝑟([𝜃, 𝐾𝑞]) = 0

Desse modo, 𝑇 𝑟(𝐾𝑗) é fechado, para todo 𝑗 ∈ N. Assim, como 𝐹 [𝑐

1(𝑋), . . . , 𝑐𝑛(𝑋)] =

𝐹 [𝑇 𝑟(𝑋), 𝑇 𝑟(𝑋2), . . . , 𝑇 𝑟(𝑋𝑛)], segue que as formas características e 𝜑(𝐾) são fechadas.

Dedicaremos o resto desta seção a estudar algumas propriedades homotópicas de conexões e curvaturas, de modo a conseguirmos relacionar as formas características de Chern com as Classes de Chern.

Seja 𝐸 → 𝑀 um fibrado vetorial suave. Duas conexões ∇0 e ∇1 para este

fibrado são homotópicas quando existe uma conexão ∇ para o fibrado 𝐸 × [0, 1] → 𝑀 × [0, 1] cujas restrições a 𝐸 × 0 e 𝐸 × 1 coincidem com ∇0 e ∇1, respectivamente.

Duas conexões quaisquer sobre um fibrado suave como o descrito acima são homotópicas, via homotopia linear:

𝑡 = 𝑡∇1+ (1 − 𝑡)∇0 (2.6.1)

e o mesmo vale para a forma 𝜃 associada à forma de curvtura.

Um outro modo de vermos este fato é notando que, se ∇ e ∇′ são conexões num fibrado complexo 𝐸 → 𝑀 , então, para quaisquer 𝑓 ∈ Ω0(𝑀 ), 𝑠 ∈ Ω1(𝑀, 𝐸) temos

que

(∇ − ∇′)(𝑓 𝑠) = 𝑓 ∇(𝑠)

de onde conclui-se facilmente que essa diferença é uma 1−forma tomando valores em seções de 𝐸. Desse modo, o espaço de conexões é, de fato, um espaço afim.

Proposição 2.6.6. A forma de curvatura 𝐾𝑡 associada à conexão ∇𝑡definida em (2.6.1)

é dada por:

𝐾𝑡= (1 − 𝑡)𝐾0+ 𝑡𝐾1+ 𝑡(1 − 𝑡)(𝜃0− 𝜃1)2+ (𝜃0− 𝜃1)

Demonstração. Temos que 𝐾𝑡= 𝑑𝜃𝑡− 𝜃𝑡∧ 𝜃𝑡. Fazendo a substituição 𝜃𝑡= (1 − 𝑡)𝜃0+ 𝑡𝜃1

e usando que (1 − 𝑡) − (1 − 𝑡)2 = 𝑡(1 − 𝑡) com alguns cálculos simples, segue o resultado.

Defina o operador linear 𝑄 : Ω𝑞(𝑀 × [0, 1]) → Ω𝑞−1(𝑀 ) por :

𝑄(𝜔) = 𝑄(𝛼 + 𝛽 ∧ 𝑑𝑡) = (−1)𝑞−1

∫︁ 1

0

𝛽𝑑𝑡

Proposição 2.6.7. Seja 𝑗 : Ω𝑞(𝑀 ×[0, 1])×[0, 1] → Ω𝑞−1(𝑀 ) dada por 𝑗((𝛼+𝛽 ∧𝑑𝑡), 𝑠) =

𝛼𝑡=𝑠. Então, vale que:

𝑑𝑄 + 𝑄𝑑 = 𝑗1− 𝑗0

O passo chave para nossa construção está em aplicar o operador 𝑄 descrito acima na forma 𝜑(𝐾), onde 𝜑 é um polinômio invariante e 𝐾 é a forma de curvatura advinda de uma conexão em 𝑀 ×[0, 1], que já provamos ser fechada. Mais especificamente, se ∇0 e ∇1 são conexões em um fibrado suave 𝐸 → 𝑀 , ∇ é a homotopia linear entre

essas conexões e 𝐾 é a forma de curvatura associada a ∇, definimos, para todo polinômio invariante 𝜑 de grau 𝑞

𝜑(𝐾0, 𝐾1) = 𝑄(𝜑(𝐾)) ∈ Ω2𝑞−1(𝑀 )

E obtemos o resultado principal desta seção:

Teorema 2.6.8. Sejam ∇0 e ∇1 duas conexões para um fibrado vetorial suave 𝐸 → 𝑀

com formas de curvatura associadas 𝐾0 e 𝐾1, respectivamente. Seja também 𝜑 um polinô-

mio invariante homogêneo de grau 𝑞. Então, as duas 2𝑞-formas 𝜑(𝐾0) e 𝜑(𝐾1) definem

a mesma classe na cohomologia de de Rham. Em particular, as formas características de Chern 𝑐𝑞(𝐸, ∇) definem classes de cohomologia de de Rham de modo que não dependem

da conexão tomada para definir essas classes.

Demonstração. Apliquemos a fórmula 𝑑𝑄 + 𝑄𝑑 = 𝑗1 − 𝑗0 na forma 𝜑(𝐾0, 𝐾1). Como

𝑑𝜑(𝐾0, 𝐾1) = 0, temos:

𝑑𝑄(𝜑(𝐾0, 𝐾1)) = 𝑗1𝜑(𝐾0, 𝐾1) − 𝑗0𝜑(𝐾0, 𝐾1) = 𝜑(𝐾1) − 𝜑(𝐾0)

ou seja, 𝜑(𝐾1) e 𝜑(𝐾0) diferem por uma forma exata e portanto, na cohomo-

logia de de Rham, as classes definidas por elas coincidem, o que demonstra o Teorema.

Sabemos, pelo Teorema de de Rham, que existe um isomorfismo entre a coho- mologia de de Rham real 𝐻𝑑𝑅* (𝑀 ) e a cohomologia singular 𝐻*(𝑀, R), dado por

𝐼 : 𝜔 ∈ 𝐻𝑑𝑅𝑛 (𝑀 ) ↦→

∫︁

Δ

𝜎*𝜔 ∈ 𝐻𝑛(𝑀, R)

onde 𝜎 : Δ → 𝑀 é um simplexo singular. Sabemos que há um mapa canônico 𝐻𝑛(𝑀, Z) →

𝐻𝑛(𝑀, R) e que 𝐼(𝜔) pode ser visto, por meio da Dualidade de Poincaré, como um ele-

mento de 𝐻𝑛(𝑀, Z) se a integral assume valores inteiros avaliada em ciclos.

Levando em conta que 𝐻𝑑𝑅(𝑀, C) ∼* = 𝐻𝑑𝑅(𝑀 ) ⊗ C, pode-se mostrar, utilizando* o isomorfismo acima, que as formas características 𝑐𝑞(𝐸, ∇) são levadas nas classes de

Chern 𝑐𝑞(𝐸) ∈ 𝐻2𝑞(𝐸, Z). Para maiores detalhes, o leitor pode consultar o Apêndice C de [18].

Geometria Spin

3.1

Álgebras de Clifford e os Grupos Pin e Spin

Faremos nesta seção uma breve exposição da construção da Álgebra de Clifford associada a um espaço quadrático e de seus subgrupos Pin e Spin. Embora não tratemos da classificação destas álgebras, o leitor interessado pode consultar [17].

Seja 𝑉 um espaço vetorial sobre um corpo 𝐹 munido de uma forma quadrática

𝑞 que satisfaz a regra do paralelogramo e seja também 𝑔 a forma bilinear induzida por 𝑞,

definida pela seguinte equação:

𝑔(𝑢, 𝑣) = 1

2(𝑞(𝑢 + 𝑣) − 𝑞(𝑢) − 𝑞(𝑣)) Denotando por 𝑇 (𝑉 ) a álgebra tensorial de 𝑉 , ou seja,

𝑇 (𝑉 ) =

∑︁

𝑖=0𝑖𝑉

podemos definir 𝐼𝑞(𝑉 ) como sendo o ideal de 𝑇 (𝑉 ) gerado por elementos da forma

𝑣 ⊗ 𝑣 + 𝑞(𝑣)𝐼

para todo 𝑣 ∈ 𝑉 . Definimos então a álgebra de Clifford do espaço quadrático (𝑉, 𝑞) como sendo

𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) = 𝑇 (𝑉 )/𝐼𝑞(𝑉 )

Se 𝜋 : 𝑇 (𝑉 ) → 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) é a projeção obtida pelo quociente acima, é fácil ver que 𝜋|𝑉 é injetiva e, portanto, 𝜋 fornece uma inclusão natural de 𝑉 em 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞). Se 𝑣.𝑤 denota o produto de dois elementos 𝑣, 𝑤 ∈ 𝑉 em 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) induzido pelo produto em 𝑇 (𝑉 ) no quociente, é claro que este produto satisfaz, para todo 𝑣 ∈ 𝑉 , a seguinte propriedade:

𝑣.𝑣 = −𝑞(𝑣)𝐼

Além disso, se a característica do corpo 𝐹 for diferente de 2, podemos escrever a equação acima como:

𝑣.𝑤 + 𝑤.𝑣 = −2𝑔(𝑢, 𝑣)𝐼

A propriedade acima caracteriza álgebras de Clifford, uma vez que a seguinte propriedade é válida [17].

Proposição 3.1.1. Sejam (𝑉, 𝑞) um espaço quadrático, 𝐴 uma 𝐹 -álgebra associativa com

unidade e 𝑓 : 𝑉 → 𝐴 uma transformação linear que satisfaz, para todo 𝑣 ∈ 𝑉 , a seguinte equação:

𝑓 (𝑣).𝑓 (𝑣) = −𝑞(𝑣)𝐼

Então, 𝑓 possui uma única extensão a um homomorfismo entre 𝐹 -álgebras ˜𝑓 : 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) → 𝐴. Além disso, 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) é a única álgebra associativa com essa propriedade.

A propriedade acima traduz a universalidade da álgebra 𝐶𝑙(𝑉 ). De fato, se 𝐴

é outra álgebra que possui uma injeção 𝑖 : 𝑉 → 𝐴′ e que, para toda transformação linear

𝑓 : 𝑉 → 𝐴 satisfazendo 𝑓 (𝑣).𝑓 (𝑣) = −𝑞(𝑣)𝐼 para todo 𝑣 ∈ 𝑉 , 𝑓 possua extensão a um

homomorfismo de álgebras ˜𝑓 : 𝐴→ 𝐴.

Desse modo, a inclusão 𝑓 de 𝑉 em 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) possui uma extensão ˜𝑓 , que torna

o diagrama abaixo comutativo

𝑉 𝑓//  𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) 𝐴′ ˜ 𝑓 ;;

e o isomorfismo entre 𝑉 ⊂ 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) e 𝑖(𝑉 ) ⊂ 𝐴induz um isomorfismo entre 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) e

𝐴′, como no diagrama abaixo:

𝑉 𝑖 // 𝑓  𝐴𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) ∼ = ;;

A propriedade também nos permite construir uma extensão de qualquer trans- formação linear 𝑇 : (𝑉, 𝑞) → (𝑉, 𝑞) que preserva as formas quadráticas, ou seja, 𝑞(𝑇 (𝑣)) =

𝑞(𝑣), dada por um homomorfismo ˜𝑇 : 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) → 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞′). Em particular, toda trans- formação ortogonal 𝑇 ∈ 𝑂(𝑉, 𝑞) se estende a um automorfismo ˜𝑇 ∈ 𝐴𝑢𝑡(𝐶𝑙(𝑉, 𝑞)).

homomorfismo 𝛼 : 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) → 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) que é dado pela extensão do endomorfismo

𝑣 ∈ 𝑉 ↦→ −𝑣 ∈ 𝑉

Como 𝛼2 = 𝐼, podemos decompor 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) como a soma dos autoespaços de

𝛼. Escrevendo 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞)± como sendo o autoespaço associado ao autovalor ±1, respecti- vamente, temos então que

𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) = 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞)+⊕ 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞)

e com essa decomposição, 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) se torna uma álgebra Z2-graduada.

Estamos interessados em estudar certos subgrupos de 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞). Começamos considerando o subgrupo dos elementos inversíveis de 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞), denotado por 𝐶𝑙*(𝑉, 𝑞), dado por

𝐶𝑙*(𝑉, 𝑞) = {𝜑 ∈ 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞); ∃𝜑−1 com 𝜑.𝜑−1 = 𝜑−1.𝜑 = 1}

e observe que para todo 𝑣 ∈ 𝑉 tal que 𝑞(𝑣) ̸= 0, temos que 𝑣 ∈ 𝐶𝑙*(𝑉, 𝑞), uma vez que

𝑣.𝑣 = −𝑞(𝑣)𝐼.

Lembremos que 𝐴𝑑 é definida pela expressão

𝐴𝑑𝜑(𝑥) = 𝜑𝑥𝜑−1

para quaisquer 𝑥 ∈ 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞),𝜑 ∈ 𝐶𝑙*(𝑉, 𝑞). Ainda, definimos ˜𝐴𝑑 levando em conta o mapa 𝛼 definido anteriormente:

˜

𝐴𝑑𝜑(𝑥) = 𝛼(𝜑)𝑥𝜑−1

para quaisquer 𝑥 ∈ 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞),𝜑 ∈ 𝐶𝑙*(𝑉, 𝑞).

Utilizando a representação adjunta 𝐴𝑑 ou a representação adjunta torcida ˜𝐴𝑑,

podemos considerar 𝐶𝑙*(𝑉, 𝑞) como um subgrupo de 𝐴𝑢𝑡(𝐶𝑙(𝑉, 𝑞)) e estamos interessados em estudar alguns de seus subgrupos.

Proposição 3.1.2. Seja 𝑣 ∈ 𝑉 ⊂ 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) tal que 𝑞(𝑣) ̸= 0 e assuma que 𝑐ℎ𝑎𝑟(𝐹 ) ̸= 2.

Então, 𝐴𝑑𝑣(𝑉 ) = 𝑉 = ˜𝐴𝑑𝑣(𝑉 )

Demonstração. Temos que 𝑣−1 = −𝑣/𝑞(𝑣). Daí, para todo 𝑤 ∈ 𝑉 , temos:

−𝑞(𝑣)𝐴𝑑𝑣(𝑤) = −𝑞(𝑣)𝑣𝑤𝑣−1 = 𝑣𝑤𝑣 = (𝑣𝑤)𝑣 = (−2𝑔(𝑣, 𝑤)𝐼 − 𝑤𝑣)𝑣 =

de onde segue que 𝐴𝑑 é sobrejetiva. De maneira análoga, obtemos

˜

𝐴𝑑 = 𝑤 − 2𝑔(𝑣, 𝑤) 𝑞(𝑣) 𝑣

de onde segue que ˜𝐴𝑑 é a reflexão pelo subespaço ortogonal a 𝑣 e segue, portanto, o

resultado.

Podemos então definir 𝑃 (𝑉, 𝑞) como sendo o subgrupo de 𝐶𝑙*(𝑉, 𝑞) gerado pelos elementos 𝑣 ∈ 𝑉 , tal que 𝑞(𝑣) ̸= 0. As restrições das representações 𝐴𝑑 e ˜𝐴𝑑

fornecem representações de 𝑃 (𝑉, 𝑞) em 𝑂(𝑉, 𝑞), o grupo ortogonal do espaço quadrático (𝑉, 𝑞).

Observe também que, se 𝑞(𝑣) ̸= 0, então, para todo 𝜆 ∈ 𝐹 , temos que 𝐴𝑑𝜆𝑣 =

𝐴𝑑𝑣 e ˜𝐴𝑑𝜆𝑣= ˜𝐴𝑑𝑣, o que nos motiva a definir dois subgrupos muito relevantes de 𝑃 (𝑉, 𝑞):

Definição 3.1.3. Seja (𝑉, 𝑞) um espaço quadrático sobre um corpo 𝐹 cuja característica

é diferente de 2. Definimos o grupo Pin de (𝑉, 𝑞), denotado por 𝑃 𝑖𝑛(𝑉, 𝑞), como sendo o grupo gerado pelos elementos 𝑣 ∈ 𝑉 tal que 𝑞(𝑣) = ±1. O grupo Spin, denotado por

𝑆𝑝𝑖𝑛(𝑉, 𝑞), é definido como sendo

𝑆𝑝𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) = 𝑃 𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) ∩ 𝐶𝑙+(𝑉, 𝑞)

Desse modo, podemos escrever

𝑃 𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) = {𝑣1. . . 𝑣𝑙; 𝑞(𝑣𝑖) = ±1 para todo 𝑖 = 1, . . . , 𝑙}

𝑆𝑝𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) = {𝑣1. . . 𝑣𝑙 ∈ 𝑃 𝑖𝑛(𝑉, 𝑞); 𝑙 é par }

Diremos que 𝐹 é um corpo spin se 𝑐ℎ𝑎𝑟(𝐹 ) ̸= 2 e se pelo menos uma das equações 𝑡2 = 𝑎 e 𝑡2 = −𝑎 possui solução em 𝐹 , para todo 𝑎 ∈ 𝐹 ∖ {0}. Como exemplos

de corpos spin, destacamos R, C e Z𝑝, com 𝑝 ≡ 3 mod 4. A importância dos grupos Pin e Spin é decorrente do seguinte Teorema, cuja demonstração pode ser encontrada em [17]:

Teorema 3.1.4. Seja (𝑉, 𝑞) um espaço quadrático não-degenerado de dimensão finita

sobre um corpo spin 𝐹 e suponha que−1 /∈ 𝐹 . Então, existem sequências exatas {1} → Z2 → 𝑆𝑝𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) → 𝑆𝑂(𝑉, 𝑞) → {𝐼}

{1} → Z2 → 𝑃 𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) → 𝑂(𝑉, 𝑞) → {𝐼}

que nos fornecem os recobrimentos de duas folhas ˜𝐴𝑑 : 𝑆𝑝𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) → 𝑆𝑂(𝑉, 𝑞) e ˜𝐴𝑑 : 𝑃 𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) → 𝑂(𝑉, 𝑞).

No caso em que (𝑉, 𝑞) ∼= (R𝑛, 𝑞

𝑛), com 𝑞𝑛(𝑥1, . . . , 𝑥𝑛) =∑︀𝑛𝑖=1𝑥2𝑖, temos que ˜𝐴𝑑 :

𝑆𝑝𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) → 𝑆𝑂(𝑛) é recobrimento universal, para todo 𝑛 ≥ 3. Nesse caso, denotamos 𝑆𝑝𝑖𝑛(𝑉, 𝑞) por 𝑆𝑝𝑖𝑛𝑛 e 𝐶𝑙(𝑉, 𝑞) por 𝐶𝑙𝑛.

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