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7. CONCEITO DE CONTRATO TRANSPORTE MARÍTIMO DE CARGAS

7.1 CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS MARÍTIMOS

Conforme Kiewel (2014), a evolução da organização do transporte marítimo também implicou na diferenciação de suas espécies negociais, onde os contratos ma-rítimos hoje podem ser classificados em hipoteca naval, contrato de praticagem, con-trato de trabalho da tripulação e do capitão, fretamento de navios.

7.1.2 Hipoteca Naval

Regida pelo art. 82 do Código Civil Brasileiro vigente, Código Comercial, e pela Lei 5056/66, constituindo-se mediante escritura pública, após a apresentação do título de propriedade naval, inscrevendo-se no Tribunal Marítimo.

O navio é, frequentemente, o instrumento garantidor de dívidas adquiridas pe-los comerciantes marítimos e, por isto, pode ser gravado de hipoteca naval. Conforme Gilbertoni (1998, p.164) a hipoteca naval é um contrato do tipo convencional, estabe-lecida pelas partes, que celebram entre si um contrato de natureza acessória, formal, sendo exigida a escritura pública como substância ao ato jurídico.

Pode ser constituída em favor do construtor ou financiador ainda que a embar-cação se encontre na fase de construção, qualquer que seja sua arqueação bruta, devendo nesse caso constar o nome do construtor ou do financiador, o número do casco, a especificação do material de construção e seus dados característicos.

A hipoteca naval, para ter eficácia, deve ser registrada perante o Tribunal Ma-rítimo. Até ser levada a registro, só produzirá efeito entre as partes contratantes. Po-rém, uma vez registrada, seus efeitos retroagirão à data da prenotação. Para efetivar o registro, qualquer das partes pode fazer o requerimento, a partir dele os registros são feitos em livro próprio e averbados à margem do título de propriedade.

7.1.3 Contrato de praticagem

A praticagem é um dos serviços auxiliares da navegação, sendo regulamen-tada pelo Decreto 2.596/98. A contratação dos serviços de praticagem tem como ob-jetivo a garantia da segurança da navegação em trechos perigosos ou de difícil acesso, visto que estes profissionais são especializados na realização de manobras em tais áreas.

Às vezes, dirigindo-se o navio para certas regiões em que a navegação exige maiores cuidados, torna-se necessária a existência, a bordo, de alguém que, melhor conhecendo aqueles lugares possa indicar com mais segurança o per-curso a fazer. [...] na entrada e saída dos portos, nos perper-cursos realizados em estreitos e canais ou em águas fluviais, precisam os navios de tomar a bordo indivíduos mais treinados e mais habituais à navegação nesses tre-chos, mesmo porque constitui serviço feito sempre por pessoas especializa-das destinaespecializa-das a esse fim: os práticos. (LACERDA,1984.p.141)

Conforme Gilbertone (1998, p.36), o início da execução dos serviços de prati-cagem ocorre com o embarque do Prático, seja no porto ou no local determinado den-tro das respectivas zonas de praticagem e finalizam com a atracação do navio.

Entretanto, quando as condições de tempo e mar dificultem o seu embarque, se considera iniciados os serviços a partir do momento em que a embarcação ou o navio passa a ser conduzido sob a orientação do prático, mesmo que este se encontre em terra ou nas proximidades, em sua embarcação de praticagem, isto porque, es-tando o navio navegando sob rumos práticos, presume-se que o trabalho de pratica-gem já teve seu início e se encontra em fase de execução, sujeitando-se o Prático, a todas as responsabilidades inerentes à profissão.

7.1.4 Fretamento de navios

Conforme Raphael (2003) é o contrato por meio do qual o armador ou proprie-tário do navio se obriga, mediante o pagamento de um frete, a transportar mercadorias de um porto a outro. Nele incluem-se a locação do navio, a prestação de serviços e o transporte, sendo este último o elemento central ou o objeto propriamente dito do con-trato.

Segundo Lacerda (1984.p.168), “é o contrato pelo qual alguém se obriga, me-diante o pagamento do frete, a transportar em um navio mercadorias de um porto a outro determinado, à escolha do carregador”. Em princípio, portanto, somente quando há a obrigação de transporte há fretamento, o que não ocorre nos contratos a prazo e a casco nu, os quais deveriam ser entendidos como locações de coisas móveis regi-das pelo direito civil, e não pelo comercial. Todavia, de acordo com as regras de direito internacional, tanto a cessão de um navio por viagem, quanto a prazo e a casco nu são compreendidas como contratos de fretamento.

Contrato de fretamento é um acordo escrito mediante o qual o armador se compromete a transportar mercadorias por água, numa expedição marítima, recebendo em troca uma quantia em dinheiro denominada frete. [...] o frete marítimo é o valor em dinheiro que recebe o transportador para efetivar o transporte de mercadorias a si confiadas. (GILBERTONI,1998,p.170)

Para firmar o negócio, fretador e afretador utilizam-se de um intermediário co-nhecido por corretor de navios ou broker. Este procura no mercado o navio mais ade-quado às necessidades de seu cliente, o afretador, e dele recebe uma comissão por seus serviços, a taxa de corretagem (brokerage). Feita a negociação, o fretamento será firmado por escrito em documento chamado carta-partida ou carta de fretamento.

Não havendo disposição expressa em contrário, pode o afretador subfretar o navio a terceiros, transportando suas mercadorias e, assim, obter lucro com a diferença do frete que prometeu pagar ao fretador e o que cobra dos sub-fretadores, Da mesma forma, é possível a cessão a terceiros de todos os direitos provenientes do afretamento. (LACERDA,1984,p.174)

Para Lacerda (1984, p.185), os contratos de fretamento marítimo podem ser celebrados de duas maneiras, dependendo da quantidade de carga a ser transportada e do volume que ela ocupe no casco do navio, quais sejam:

1. Carta-Partida (charter party): é o instrumento que estabelece as relações jurídicas entre fretador e a afretador. Também pode ser chamado de con-trato ou apólice de fretamento (contract of affreightment). Utilizada quando o navio é fretado em sua totalidade e utilizado em conjunto com o conheci-mento do embarque quando o fretaconheci-mento é parcial (art.566 Código Comer-cial). Aliás, este código, em seu artigo 567, exige que conste na carta-par-tida se o fretamento é total ou parcial.

2. Conhecimento de transporte marítimo (bill of lading): instrumento de freta-mento parcial do navio, utilizado para pequenos lotes de mercadorias. É considerado um dos documentos mais importantes do comércio exterior em geral que visa:

a) declarar que as mercadorias a serem transportadas foram entregues, recebidas e embarcadas, estando sob a guarda do transportador; e b) evidenciar os termos do contrato de transporte marítimo acordado

entre o transportador e o titular da carga

c) incorporar um crédito fundado na promessa do comandante de en-tregar a carga no final da viagem, atribuindo ao seu portador um di-reito de crédito

Conforme Fernandes (2017), historicamente o conhecimento de transporte ma-rítimo começou por cumprir a função de simples recibo de mercadorias consignadas ao capitão para o transporte. Mais tarde, com o desenvolvimento do comércio, os car-regadores confiaram a pessoas residentes no lugar de destino o cumprimento das operações com as mercadorias (consignatários da carga). Daí a necessidade de um documento que, reconhecendo o direito sobre as mercadorias embarcadas, habili-tasse o seu correspondente a retirá-las.

Para este autor, o conhecimento de transporte marítimo é um documento juri-dicamente bastante complexo, não só pelas características que possui (prova do con-trato de transporte, recibo de mercadorias transportadas e título de crédito), mas tam-bém pelas interfaces que este documento tem com: o contrato de compra e venda das mercadorias; o contrato de financiamento de aquisição da mercadoria (se houver); o

desembaraço aduaneiro na expedição e no recebimento, no caso de transporte inter-nacional; o contrato de afretamento do navio, se o navio transportador tiver sido afre-tado pelo transporafre-tador com um terceiro; o seguro do navio; e o seguro da mercadoria.

Além destas interfaces, ainda destaca a interface fiscal, na medida em que al-guns casos este documento é usado para caracterizar o valor dos impostos a serem cobrados sobre o frete, caso do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) e Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM).

De acordo com Raphael (2003), a legislação brasileira e diversas legislações estrangeiras definem o conteúdo que o Conhecimento de transporte marítimo deve ter:

a) direito brasileiro: art. 575 do Código Comercial; art.10 da Lei 9.611/1998.

b) direito estrangeiro: Regras de Haia-Visby: sem detalhamento; Regras de Hamburgo: art.15; Código de Navegação da Espanha: art. 248; Código Comercial Alemão: seção 515.

Na doutrina e jurisprudência prevalecentes, o conhecimento detransporte ma-rítimo tem sido considerado um instrumento, documento ou contrato de adesão. Na gênese dos contratos de transporte marítimo, existem regras imperativas que se so-brepõem à autonomia da vontade das partes, remetendo, portanto, o conhecimento transporte marítimo à natureza jurídica de contrato instrumento ou documento de ade-são.

É um documento de adesão, sendo que o impresso é fornecido pelo armador e preenchido de acordo com as características do próprio conhecimento de embarque, bem como da carga que vai representar. Suas clausulas, que re-presentam a frente do conhecimento de embarque, não podem ser modifica-das e devem ser aceitas integralmente pelo embarcador. No máximo podem ser colocadas algumas observações de interesse do embarcador, no corpo do conhecimento, como número de carta de crédito ordem de compra ou venda, trânsito, transbordo etc. (KEEDI,2000,p.87)

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