8. RESPONSABILIDADE CIVIL DO TRANSPORTADOR MARÍTIMO
8.3 Jurisprudências sobre Causas Legais de Excludentes de Responsabilidade do
Como já visto anteriormente, o elevado desenvolvimento da tecnologia reduziu significativamente a probabilidade da existência da fortuidade. Se por um lado, não se pode prever a fúria e a intensidade de um fenômeno adverso da natureza, por outro, é perfeitamente possível saber que o mesmo fenômeno irá manifestar-se em um dado momento, num dado local, razão pela qual, sendo esperado, e previsível a possibili-dade de ele ser violento, não há que falar em caso fortuito.
Na mesma linha de raciocínio, conforme Cremoneze (2019) roubos e furtos são fatos perfeitamente previsíveis, sobretudo num mundo tão violento e socialmente in-justo, não existindo motivo algum a amparar a falta de proteção de um caso concreto.
Neste sentido, os julgados reproduzidos abaixo, demonstram claramente que nem todo evento da natureza, ainda que rotulado como danoso em princípio, é capaz de ensejar o conceito de fortuidade e, a reboque, exclusão de responsabilidade do transportador marítimo. A intenção é demonstrar que a matéria se encontra bem se-dimentada no seio jurisprudencial brasileiro e que há muito, portanto, a visão do Direito é no sentido de não se reconhecer com facilidade as alegações, quase sempre inde-vidas, dos transportadores em geral.
DIREITO COMERCIAL. CONTRATO DE TRANSPORTE MARÍTIMO DE MERCADORIAS. PERDA DE MERCADORIA. FORTUNA DO MAR INOCORRENTE[...] Não constituem excludente de responsabilidade os ven-tos ainda que fortes, perfeitamente previsíveis em face da moderna tecnolo-gia, não podendo o transportador invocar caso fortuito para afastar sua res-ponsabilidade. Mar grosso é fato normal do oceano e toda embarcação de transporte internacional estará aparelhada para enfrentá-lo, se estiver em perfeitas condições de navegabilidade e a carga por seu turno, estiver devi-damente arrumada CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR NÃO CARACTERIZADO. CONTRATO DE SEGURO - CLÁUSULA LIMITATIVA DE RESPONSABILIDADE. (TJ-RJ - APL: 00071705819998190000 RIO DE JANEIRO CAPITAL 18 VARA CIVEL, Relator: EDUARDO SOCRATES
CASTANHEIRA SARMENTO, Data de Julgamento: 16/09/1999, DÉCIMA CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 23/09/1999), grifo nosso.
Ação regressiva - Indenização por danos materiais - Seguro de contrato de transporte marítimo [...] Ocorrência de tormenta durante o transporte marítimo - Circunstância que não mais se reveste de imprevisibilidade a caracterizar força maior ou caso fortuito - Responsabilidade objetiva da transportadora, sobretudo diante da existência de circunstâncias a favorecer ou agravar o dano Acondicionamento incorreto da carga. (TJ-SP - APL:
00263054820048260562 SP 0026305-48.2004.8.26.0562, Relator: Miguel Petroni Neto, Data de Julgamento: 25/06/2013, 16ª Câmara de Direito Pri-vado, Data de Publicação: 05/07/2013), grifo nosso.
RECURSO ESPECIAL Nº 976.355 - SP (2007/0198349-3) RELATOR : [...]:
"RESPONSABILIDADE CIVIL - Contrato de transporte de mercadorias - Obri-gação assumida pela ré em transportar mercadoria e entregá-la em seu des-tino a coberto de risco - Obrigação que somente poderia ser afastada se com-provado caso fortuito ou força maior - Roubo da mercadoria durante o trans-porte que não se enquadra nas exceções legais, dada a frequência com que acontece referido delito - Hipótese, ademais, que não demonstrou a transpor-tadora ter tomado qualquer medida de segurança. RESPONSABIIDADE CIVIL [...] "Destarte, não se pode sustentar que o roubo das mercadorias, diante da freqüente onda de delitos dessa natureza, seja tido como ato im-previsível. Ao contrário, é fato mais do que previsível, razão pela qual as transportadoras, ao assumirem o risco do transporte de cargas, mesmo sa-bendo dos riscos do negócio, não podem, depois de ocorrido o sinistro, pre-tender verem-se liberada da indenização pelos prejuízos que tal fato, plena-mente previsível, causou. [...] Ademais, diante do crescente aumento de de-litos envolvendo roubo de cargas, é público e notório que as empresas trans-portadoras passaram a adotar uma série de medidas, senão para evitá-los ao menos para; mitigá-los, sendo que, no caso sub judice, não demonstrou a transportadora requerida tivesse adotado qualquer medida preventiva."(fls.
3036) [...] 2. Descaracterização da força maior como excludente da respon-sabilidade civil. Súmulas 07 e 211/STJ. (STJ - REsp: 976355 SP 2007/0198349-3, Relator: Ministro Raul Araújo, DJ 23/02/2017), grifo nosso.
RECURSO ESPECIAL Nº 1.558.738 - MT (2015/0240278-7) [...] fundada em doutrina especializada, que aponta expressamente que 'simples ocorrência de uma tempestade, ainda que muito forte [não é capaz de configurar a for-tuidade]' Um tsunami pode ser considerado um fato extraordinário e inevitá-vel, ao tempo que uma tempestade, mesmo que forte, não pode ser conside-rada como força maior; as condições regulares da natureza integram o risco da atividade do transportador marítimo, insuscetíveis de causar a aplicação do art. 393, do Código Civil. A parte recorrente sustentou que a tempestade ocorrida à época da contratação caracterizou força maior, pois teriam sido verificadas rajadas de vento de até 103 Km/h, atingindo grau 11 na escala de Beaufort, com sucessivos atrasos. Tais elementos fáticos, porém, não estão contidos no acórdão recorrido, salvo a questão da tempestade, que foi consi-derada risco da atividade de transporte marítimo. Portanto, para alcançar o provimento do presente recurso especial seria necessária a revaloração do conjunto fático-probatório dos autos, com a finalidade de se reconhecer a ex-cludente da força maior, o que é vedado a esta Corte Superior, nos termos da Súmula 07/STJ. [...] (STJ-REsp: 1.558.738 - MT (2015/0240278-7), Rela-tor: Ministro Marco Aurélio Bellizze, DJ: 28/05/2018), grifo nosso.
AÇÃO REGRESSIVA – CONTRATO DE TRANSPORTE MARÍTIMO INTERNACIONAL DE CARGAS – PERDA DE CONTAINER PROCEDÊNCIA – ALEGAÇÃO DE FORÇA MAIOR A AFASTAR A RESPONSABILIDADE DA TRANSPORTADORA – PRETENSÃO DE REFORMA – DESCABIMENTO –
Os alegados problemas meteorológicos não são imprevisíveis quando em-pregada à tecnologia existente na atualidade. As condições de clima adver-sas, no transporte marítimo, por serem frequentes, não podem ser conside-radas imprevisíveis ou inespeconside-radas - Tanto que decidiu o comandante, se-gundo a exordial, com base em informações climáticas, alterar a rota da em-barcação em razão da previsão de mau tempo - Ademais, tais condições des-favoráveis são vinculadas à própria atividade da empresa ré, que assumiu uma obrigação de resultado de entregar a carga incólume ao seu destino fi-nal. Risco normal da navegação – [...] TJ-SP. Recurso desprovido. (TJ-SP - AC: 10314903020168260562 SP 1031490-30.2016.8.26.0562, Relator: Wal-ter Fonseca, Data de Julgamento: 01/08/2019, 11ª Câmara de Direito Pri-vado, Data de Publicação: 06/08/2019), grifo nosso.
AÇÃO REGRESSIVA [...] O contrato de transporte é de obrigação de resul-tado, obrigando-se o transportador a entregar a coisa recebida em seu des-tino, no mesmo estado e quantidade recebida. A responsabilidade do trans-portador e de seus agentes é objetiva, somente elidida em hipóteses de caso fortuito ou força maior, inocorrentes nos autos. Dever de ressarcimento. Ale-gação de que as avarias derivaram da má peação levada a efeito pela expor-tadora que não se sustenta, ante a ausência de ressalva das rés por ocasião do recebimento dos contêineres, presumindo-se que a carga estava em per-feito estado. [...] (TJ-SP - AC: 10042941120198260100 SP 1004294-11.2019.8.26.0100, Relator: Ramon Mateo Júnior, Data de Julgamento:
03/09/2019, 18ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 03/09/2019), grifo nosso.
EXCLUDENTE DE RESPONSABILIDADE. PRESSUPOSTOS DE IMPREVISIBILIDADE OU INEVITABILIDADE NÃO DEMONSTRADOS. MAR REVOLTO E MAU TEMPO. SITUAÇÕES CORRIQUEIRAS, PREVISÍVEIS E INERENTES AO TRANSPORTE MARÍTIMO. RISCOS DO NEGÓCIO.
INEXISTÊNCIA DE CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR. A caracterização de caso fortuito ou motivo de força maior tem como pressuposto a imprevisi-bilidade ou a inevitaimprevisi-bilidade do evento. Ocorre que o mar revolto e o mau tempo em transporte marítimo, além de serem fatos corriqueiros, previsíveis e inerentes à própria atividade, integram os riscos do negócio, circunstância que impede a configuração do caso fortuito ou motivo de força maior. [...] (TJ-SC - AC: 03004643120148240061 São Francisco do Sul 0300464-31.2014.8.24.0061, Relator: Gilberto Gomes de Oliveira, Data de Julgamento:
20/08/2020, Terceira Câmara de Direito Comercial), grifo nosso.
Os julgados são emblemáticos e muito ilustrativos, de tal sorte que, levando-se em conta as mais contemporâneas tecnologias de navegação, torna-se cada vez mais difícil em evento merecer o rótulo de realmente fortuito. Mesmo nos casos aparente-mente típicos de fortuidade é possível vislumbrar alguma falha do transportador, al-gum problema quando à condução, preservação e cuidado geral ou mesmo em rela-ção aos procedimentos regulares de estiva da carga afetada num dado sinistro.
Pode-se constatar que o transportador sempre responderá por faltas e/ou ava-rias das cargas confiadas para transporte, salvo se ele, de forma cabal e incontro-versa, provar a ocorrência das chamadas causas legais excludentes. O interessado
não precisa provar a culpa do transportador, mas é ele, o transportador, quem tem o ônus de provar sua eventual inocência.
Qualquer que seja a fonte legal aplicável pelo Poder Judiciário para determinar a responsabilidade civil do transportador, trata-se de fato incontroverso que seus de-veres objetivo de guarda, conservação e restituição são equiparados aos dede-veres de depositário, inferindo-se daí o rigor da sua responsabilidade e o peso da presunção legal de culpa.
9 CONCLUSÃO
O objetivo geral desse trabalho foi demonstrar a Responsabilidade Civil do Transportador no cumprimento do Contrato de Transporte Marítimo de Cargas, identificando as cláusulas excludentes desta responsabilidade e a interpretação dos Tribunais brasileiros acerca das alegações de fortuidade no cumprimento do Contrato de Transporte.
Pode-se evidenciar que a responsabilidade civil do transportador é disciplinada pela teoria objetiva imprópria, de tal sorte que o transportador é presumidamente responsável pelos danos e prejuízos decorrente da inexecução da obrigação de transporte, que é uma obrigação típica de resultado. Somente as causas legais de excludentes de responsabilidade (vício de origem, caso fortuito e força maios), poderão exonerar tal presunção de responsabilidade, sendo que a caracterização da fortuidade depende, a um só tempo, dos seguintes elementos essenciais: imprevisibilidade, inesperabilidade e irresistibilidade.
Mesmo provando a ocorrência de alguma causa legal de excludente de responsabilidade, ligadas a fortuidade, é imprescindível o caráter absoluto, pois a cada dia, revelado pelos julgados apresentados, torna-se mais difícil a caracterização de um fenômeno como efetivamente fortuito.
Este trabalho foi muito importante para meu conhecimento e aprofundamento deste tema, porque permitiu-me conhecer e compreender a dinâmica da relação negocial envolvendo o contrato de transporte, que coloca o transportador numa condição inegável de superioridade, devido a força e importância da navegação marítima de cargas na sociedade mundial, mas que assume ampla responsabilidade pelas cargas confiadas para o transporte marítimo.
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ANEXO I – RESOLUÇÃO CAMEX Nº 16, DE 2 DE MARÇO DE 2020
DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO
Publicado em: 18/03/2020 | Edição: 53 | Seção: 1 | Página: 18
Órgão: Ministério da Economia/Câmara de Comércio Exterior/Comitê-Executivo de Gestão
RESOLUÇÃO Nº 16, DE 2 DE MARÇO DE 2020
Dispõe sobre Incoterms e estabelece que nas expor-tações e imporexpor-tações brasileiras serão aceitas quaisquer condições de venda praticadas no comér-cio internacomér-cional, desde que compatíveis com o or-denamento jurídico nacional.
O COMITÊ EXECUTIVO DE GESTÃO, no uso das atribuições que lhe fo-ram conferidas pelos incisos II e III do art. 7º do Decreto nº 10.044, de 4 de outubro de 2019, resolve:
Art. 1º Nas exportações e importações brasileiras, serão aceitas quaisquer condições de venda praticadas no comércio internacional, desde que compatíveis com o ordenamento jurídico nacional.
Art. 2º Para fins de identificação da condição de venda praticada, nos do-cumentos e registros de controle dos órgãos da Administração Federal, deverão ser adotados os seguintes códigos:
I - Termos Internacionais de Comércio (Incoterms) discriminados pela In-ternational Chamber of Commerce (ICC) em sua Publicação nº 723-E, de 2020:
CÓDIGO DESCRIÇÃO
EXW
EX WORKS (named place of delivery) NA ORIGEM (local de entrega nomeado)
O vendedor limita-se a colocar a mercadoria à disposição do comprador no estabelecimento do vendedor, no prazo estabelecido, não se respon-sabilizando pelo desembaraço para exportação nem pelo carregamento da mercadoria em qualquer veículo coletor.
Utilizável em qualquer modalidade de transporte.
Nota: em virtude de o comprador estrangeiro não dispor de condições le-gais para providenciar o desembaraço para saída de bens do País, fica subentendido que esta providência é adotada pelo vendedor, sob suas expensas e riscos, no caso da exportação brasileira.
FCA
FREE CARRIER (named place of delivery)
LIVRE NO TRANSPORTADOR (local de entrega nomeado)
O vendedor completa suas obrigações e encerra sua responsabilidade quando entrega a mercadoria, desembaraçada para a exportação, ao
transportador ou a outra pessoa indicada pelo comprador, no local nome-ado do país de origem.
Utilizável em qualquer modalidade de transporte.
Comprador e vendedor poderão utilizar transporte próprio em trechos do deslocamento.
FAS
FREE ALONGSIDE SHIP (named port of shipment)
LIVRE AO LADO DO NAVIO (porto de embarque nomeado)
O vendedor encerra suas obrigações no momento em que a mercadoria é colocada, desembaraçada para exportação, ao longo do costado do navio transportador indicado pelo comprador, no cais ou em embarcações utili-zadas para carregamento da mercadoria, no porto de embarque nomeado pelo comprador.
Utilizável exclusivamente no transporte aquaviário (marítimo ou hidroviá-rio intehidroviá-rior).
FOB
FREE ON BOARD (named port of shipment) LIVRE A BORDO (porto de embarque nomeado)
O vendedor encerra suas obrigações e responsabilidades quando a mer-cadoria, desembaraçada para a exportação, é entregue, arrumada, a bordo do navio no porto de embarque, ambos indicados pelo comprador, na data ou dentro do período acordado.
O vendedor encerra suas obrigações e responsabilidades quando a mer-cadoria, desembaraçada para a exportação, é entregue, arrumada, a bordo do navio no porto de embarque, ambos indicados pelo comprador, na data ou dentro do período acordado.