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Neste artigo, iremos apresentar e refletir sobre alguns elementos composicionais, tecnológicos, conceituais e performá- ticos ligados às obras para instrumentos de percussão e eletrôni- cos. Para essa reflexão, utilizaremos como pano de fundo a relação entre o Duo Paticumpá1 e nossas pesquisas de mestrado e douto- rado, desenvolvidas na mesma época no Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora da Universidade Estadual de Campinas (NICS – UNICAMP). Discutimos ainda os desdobramentos dessas experiências com nossas pesquisas individuais e orientações realizadas nos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Cleber Campos) e Universidade Federal de Uberlândia (Cesar Traldi).

Nosso interesse pelo repertório para instrumentos de percussão e eletrônicos em tempo real teve início em 2003, quando em um projeto conjunto entre o Grupo de Percussão (dirigido pelo professor Fernando Hashimoto) e o NICS, ambos da UNICAMP, tivemos contato pela primeira vez com uma obra

1 Duo de percussão formado em 2002 e que funciona como um laboratório de pesquisa composicional e performático.

que envolvesse performance interativa. Naquele momento, éramos estudantes de bacharelado em percussão e apesar de já conhecermos algumas obras mistas, ou seja, percussão e tape, a preparação da obra Olhos d’Água (2003) dos compositores Jônatas Manzolli e Raul do Valle foi nossa primeira experiência de performance desse repertório. Olhos d’Água é uma obra multi- mídia escrita para um quinteto de percussão, poema, narrador, vídeo, trilha eletroacústica e bailarinas. Durante os ensaios, já começávamos a notar algumas características que tornavam a preparação e a performance dessa obra diferentes das que estávamos acostumados até então. A interação com os sons gravados, a partitura com informações gráficas e as indicações temporais em minutos e segundos foram alguns dos desafios encontrados. Atualmente, essas questões nos parecem corri- queiras e relativamente simples, mas naquele momento nos surgiram como uma grande novidade e desafio a ser superado.

Figura 1 – Excerto da “partitura-guia” de Olhos D’água evidenciando a integração de novos elementos à linguagem musical.

Algumas questões surgiram a partir da interpretação dessa obra. Nesse sentido, questionamos: a formação tradicional dos instrumentistas de percussão prepara os alunos para inter- pretar e dialogar com sons não advindos de seus próprios instru- mentos? Uma vez que essas sonoridades eletroacústicas estavam dispostas durante o momento da performance, como integrá-las aos sons dos instrumentos de percussão? Quais técnicas devería- mos utilizar? Como imaginar nossos tambores, gongos, teclados etc., dialogando agora com poemas, vídeos, bailarinas, mediados ainda por formas distintas de escritura (partituras gráficas e indicações temporais) utilizadas na partitura?

Sabemos que, na maioria dos currículos de bacharela- do em percussão até o final do século passado, não consta- va, obrigatoriamente, dentro de suas matrizes curriculares, a preocupação com a execução de obras nas quais envolvessem algum tipo de interação com quaisquer recursos audiovisuais. Mesmo que nós, enquanto percussionistas, estivéssemos envol- tos e imersos pelo contexto da música contemporânea, de certa forma, trivial em nossos processos de formação como intér- pretes, obras interativas e principalmente multimodais não se encontravam presentes em nossa grade curricular.

Os desdobramentos dessa experiência e a busca pelas respostas dessas questões viriam a se tornar algo extrema- mente marcante em nossos futuros passos enquanto performers e pesquisadores. No ano anterior, em 2002, havíamos dado início à nossa parceria por meio da formação de um duo de percussão. A partir de 2003, o duo viria a se tornar nosso próprio laboratório de performance, dando grande impulso para nossas pesquisas de mestrado e doutorado. Nesse contex- to, então, nascia o Duo Paticumpá.

Naquela época, não existiam programas de pós- -graduação no Brasil com orientadores percussionistas, muito menos que focassem a composição e a performance com eletrônicos. A formação tradicional em instrumentos de percussão nós já tínhamos e o que estava faltando era o conhecimento e a experiên- cia com a tecnologia. Assim, buscamos realizar nossas pesquisas de mestrado e posteriormente de doutorado com um orientador que fosse especialista na interação entre instrumentos e aparatos tecnológicos, não necessariamente sendo um percussionista. Por sorte, ou destino, tivemos nossa primeira experiência em obras interativas com um dos principais compositores brasileiros desse repertório e foi a ele que procuramos. Assim, realizamos nossas pesquisas tendo como orientador o Prof. Dr. Jônatas Manzolli, no Programa de Pós-Graduação em Música da UNICAMP, realizando toda nossa pesquisa dentro do NICS.

A partir desse momento, iniciamos uma parceria entre compositor e intérpretes de forma que o processo criativo seria focado na elaboração de obras colaborativas, visando explorar diferentes meios de interação entre instrumentos de percussão e diversos aparatos eletrônicos. Os primeiros frutos dessa parce- ria ocorreram em 2005, com a estreia da obra Treliças II, durante a XVI Bienal de Música Brasileira Contemporânea, realizada na cidade do Rio de Janeiro. Peça para duo de percussão múltipla e sons eletroacústicos dispostos em suporte fixo (tape), Manzolli estabelece, nessa obra, uma ligação entre modelos de ressonân- cia, imitação e eco. No encarte do CD do Grupo de Percussão da UNICAMP “Configurações para Percussão Contemporânea”2, em que está gravada essa obra interpretada pelo Duo Paticumpá, o compositor comenta que

2 Configurações para Percussão Contemporânea: GRUPU/Grupo de Percussão da UNICAMP. CD. 2006. Selo IPH.

adicionam-se bolas de gude e tubos ressonantes aos tambo- res, marimbas e vibrafones, criando assim texturas sonoras inspiradas em estruturas arquitetônicas homônimas que suportam grandes coberturas e vãos livres.

Resumidamente, a principal questão que estávamos tentando responder naquele momento era: como tocar com sons eletrônicos? Ou melhor, como interagir com os sons eletrô- nicos? Nessa perspectiva, chegamos a uma palavra crucial: interatividade. Começamos a notar que a prática desse reper- tório nos permitia vislumbrar novas perspectivas interpre- tativas em nossos instrumentos, sempre em paralelo com a reflexão sobre os processos criativos e seus desdobramentos no momento da performance. Aspectos como a ampliação dos mecanismos de escuta, reflexões relacionadas ao gestual musi- cal utilizado durante a performance, sincronia com as sonori- dades eletroacústicas, tipos de mediação entre os intérpretes e os instrumentos (partituras, o espaço em que a performance ocorre, os aparatos tecnológicos utilizados), concepção e explo- ração de novas interfaces ampliando o leque de sonoridades da percussão, enfim, reflexões que acabariam por desenvolver novas sensibilidades interpretativas vinculados aos parâmetros de interação. De maneira geral, as composições musicais para instrumentos e eletrônicos estavam divididas basicamente em dois grupos: música mista (tape ou suporte fixo pré-gravado) e live eletronic music (eletrônicos em tempo real).

Na década de 1950, quando surgiram as primeiras expe- riências que resultaram na música eletroacústica, alguns compo- sitores estabeleceram parcerias com técnicos e engenheiros de som, focando suas obras nas possibilidades de manipulação do som em estúdio, abandonando, assim, de certa forma, as relações

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