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Capítulo 2 – Os agentes

2.1. Sujeitos Activos

2.1.3. Clero regular

Passemos a abordar no momento seguinte os membros cuja origem social conhecemos242. Comecemos pelos membros do clero. Relembramos que este é o maior grupo e conta com diversas instituições seculares, monásticas e ordens militares, contabilizando-se 178 entidades, entre as quais estão, além das mencionadas, alguns clérigos, nomeadamente frades, monges, cónegos, entre outros. Ao todo, estas entidades foram culpabilizadas por criarem 715 casos. São números que se destacam. A razão pela qual possuímos maior segurança face aos clérigos começa no discurso dos jurados, que na maioria dos casos identificou a instituição a que se referiam. Em segundo lugar, o facto dos seus patrimónios se estenderem ao longo de um território vasto também facilita no momento da sua identificação. Dito isto, no topo temos o mosteiro de Santo Tirso (72), seguido pela Ordem do Hospital (67) e, em terceiro lugar encontra-se o mosteiro de Pombeiro (43). A um nível intermédio, situam-se os mosteiros de Paço de Sousa (30), Refóios (28), Telões (20), Bustelo (17) e a ordem do Templo (17).

242 Para melhor compreender os dados deste ponto, convidámos o leitor a confrontar o que aqui vamos

expor com uma nova leitura do Mapa 1 (p. 29), essencialmente, quando adentrarmos numa análise individualizada e aprofundada dos principais casos.

Mapa 6

Como anteriormente mencionamos, em relação aos sujeitos sem a sua origem social identificada, também no clero existiram tendências de cariz individual e de cariz colectivo. No gráfico relativo à distribuição de episódios, a categoria denominada “S/D” diz, precisamente, respeito a dois tipos de episódios. Um primeiro, onde sabemos que determinado proprietário seria pertencente ao grupo clerical, mas não foi apurada, concretamente, a instituição mencionada. Num segundo, já de cariz colectivo, temos menções onde os jurados destacavam a presença de “ordens”, de uma maneira geral243.

243 Referimo-nos, em relação aos proprietários que não conseguimos identificar claramente o seu

subgrupo clerical, a “S. Romão” (P.M.H. Inq. 1258, p. 560), “S. Mamede” (p. 560), ao “Hospital de S. Tiago da Galiza” (p. 583) e a “Martim Mendes clerigo” (p. 614). Relativamente aos segundos, outro problema que surgiu decorre da presença de múltiplas instituições clericais aquando das menções dos jurados, sem que tivesse sido registado, cuidadosamente, a ordem ou as ordens implicadas. Nestes

Antes de abordarmos globalmente os mosteiros na posição de sujeitos activos, e de particularizarmos a acção de alguns destes, devemos salientar alguns aspectos que nos preparam e contextualizam para os dados que vamos depois avançar. Ao longo da nossa selecção constatamos que os inquiridores da 2ª alçada perguntaram, insistentemente, pela origem dos bens das “ordens” (leia-se do clero) onde quer que ele estivesse, ou seja, numa grande parte de todas as freguesias dos julgados. Destacamos este aspecto, pois achamos que existiu um contraste na forma de tratar, ou melhor, de abordar os patrimónios mediante o seu proprietário. Ou seja, verificamos que os inquiridores não foram tão constantes face aos bens, por exemplo, de nobres ou de herdadores244. Embora isto se verifique para todos os bens do clero, destaca-se um maior número de questões face à origem social dos bens dos mosteiros. Em último lugar, temos ainda de sublinhar a influencia que teve um dos objectivos principais das inquirições de 1258, isto é, apurar a legalidade de diversas honras e apurar o seu estatuto de novas ou velhas. Acontece que uma grande parte dos bens dos clérigos estará sempre imune por constar dentro de um couto, muitas vezes, sendo os próprios mosteiros os seus detentores. Noutros casos, os bens estariam isentos por estarem dentro de honras. Como se sabe, a relação entre o grupo nobre, onde as honras tendem a ter origem, e o clero, é bem próxima245.

Tendo tudo isto em conta, passamos a analisar as principais tendências nos casos relativos aos mosteiros. Desde logo, o que se denota é que dentro de todos os casos que abordam o clero, estes representam a maior “fatia”, ou seja, 435 episódios. Se como mencionamos, eles são um “alvo” primordial no questionário dos inquiridores, então vejamos na generalidade que casos lhes estão associados e onde é que estes

episódios, categorizamos o episódio tendo um suj. Activo do grupo clerical, mas do tipo colectivo. Quanto aos segundos casos, ver: P.M.H. Inq. 1258, pp. 486, 490, 502, 582, 629, 640 e 660.

244 Neste momento, está no prelo um artigo da nossa autoria, a ser publicado na revista de história da

faculdade de letras da Universidade do Porto, dedicado aos jurados e aos depoimentos da inquirição de 1284. Entre outros aspectos, vamos salientar o modo como os inquiridores abordaram, sistematicamente, certos bens que pertenciam aos nobres. Seja como for, em 1258 as questões são frequentíssimas em relação aos bens dos clérigos, questionando-se sempre como é que as “Ordens” obtiveram os bens e quando.

245 Sobre este assunto, consultem-se as diversas obras citadas de José Mattoso e José Augusto de

Sottomayor-Pizarro. Relativamente ao segundo, além das já citadas, v. SOTTOMAYOR-PIZARRO, José Augusto de — “Nobreza e território” In I Congresso Internacional da rota do Românico (2011). Pp. 32- 35.

aconteceram. Estes episódios ocorreram sobretudo nos julgados de Celorico de Basto (69), Maia (55), Penafiel (54) e Refóios (44)246. Em praticamente metade dos casos, os inquiridores detectaram bens de mosteiros escusados por se encontrarem ou honrados/coutados por si ou dentro de uma propriedade não tributária (210). A este grupo, seguem-se episódios que levaram à usurpação de direitos régios (156) ou acções que culminaram na perda de direitos régios (54), bem como à usurpação de propriedades reguengas (11). Por fim, identificaram-se casos pouco frequentes que envolveram a usurpação de bens não reguengos (2) ou conflitos (1).

Mapa 7

246 A estes julgados seguem: Santa Cruz com 38 episódios, Guimarães com 34, Aguiar com 28, Bouças e

Lousada ambos com 23 cada, Cabeceiras de Basto com 13, Porto Carreiro com 9, Gondomar com 8, Monte Longo com 7, Vermoim com 3 e Freitas com 1.

De seguida, vamos focar em algumas das instituições que referimos. Iniciaremos pelo mosteiro de Santo Tirso247, um símbolo incontornável por diversas razões. Situado administrativamente, em 1258, no julgado de Refóios, é um símbolo do monaquismo medieval português e um dos mais importantes centros culturais medievais248. Por

diversas vezes foi agraciado com importantes doações régias, condais e patronais, legados ricos que engrandeceram a instituição, tornando-a de uma importância “comparável à de uma diocese”249. Nesse sentido, destacam-se as doações de um couto

pelo conde D. Henrique e as “valiosas doações” de D. Sancho I e de Mafalda250. Este

mosteiro, em consonância com outros de grande importância que seguidamente vamos abordar, viu o seu património ser um alvo directo na inquirição de 1258251. Certamente, isto demonstra uma atitude bastante ostensiva da parte do rei, que tentava apurar as legalidades e ilegalidades dentro das bases patrimoniais de cada um deles. Não obstante, talvez tenhamos captado um maior número de casos relativos às ordens regulares muito por culpa destes inquéritos directamente promovidos sobre os seus coutos e sobre as freguesias onde estes se situavam.

No que concerne aos casos da instituição tirsense, a maior parte deles ocorreu nos julgados de Refóios (25), Maia (17) e Aguiar (12). No primeiro destes três, os inquiridores apuraram que a maioria dos casos se devia à presença de bens imunes (15), aos quais se seguem algumas usurpações, por via de compras ou escambos (5) e ainda algumas acções que levaram o rei a perder direitos sobre determinadas propriedades, como aconteceu na fg. de Refojos de Riba de Ave (c. Santo Tirso), por razão do

247 CORREIA, Francisco Carvalho — O mosteiro de Santo Tirso, de 978 a 1588: a silhueta de uma

entidade projectada no chão de uma história milenária. Santiago de Compostela: Universidade de

Santiago de Compostela, 2008. Tese de doutoramento.

248 MATTOSO, José — “O mosteiro de Santo Tirso e a cultura medieval portuguesa” In Santo Tirso -

Boletim Cultural Concelhio. Separata. Vol. I, nº 1 (1977). Pp. 1-29.

249 MATTOSO, José — O mosteiro de Santo Tirso…, pp. 6-7: “Quanto ao domínio fundiário, basta dizer

que as inquirições de 1258 atribuem ao mosteiro, só na diocese do Porto, segundo a contagem aproximada que efectuámos, cerca de 540 casais (…)”.

250 Ibidem

251 A própria acta da inquirição faz questão de mencionar “inquisitio monasterium…” em relação aos

mosteiros de Santo Tirso (p. 533), Pombeiro (p. 548), Mosteiro de Ferreira (p. 562), Paço de Sousa (p. 590), Vila Boa de Quires (p. 597), Mancelos (p. 606), Freixo de Baixo (p. 627), Arnóia (p. 634), Refóios (p. 666), Souto (p. 714), Costa (p. 735).

amádigo da rainha D. Mafalda252, subsistindo por fim um caso que envolve um

reguengo. No julgado da Maia, os casos diversificam-se, registando-se usurpações (6), a presença de bens imunes (5), perdas de direitos régios (3), malfeitorias e casos sobre bens reguengos e bens não reguengos (com um caso cada categoria). Em terceiro, em Aguiar, registam-se maioritariamente ausências de direitos régios e bens imunes (9) e usurpações (3).

Por sua vez, quanto ao mosteiro de Pombeiro, os episódios que referenciam esta instituição localizam-se principalmente fora do julgado onde este e o seu couto se situam. Em Felgueiras, apenas foram apontados 10 casos, todos revelam situações onde os inquiridores identificaram, logicamente, bens privilegiados, não tributários ao rei253. Este perfil também se repete no julgado da Lousada, onde lhes foram atribuídos 3 episódios, bem como em Aguiar, Penafiel e Santa Cruz254. A maior parte dos casos, todavia, ocorreu nos julgados das terras de Basto, predominantemente em Celorico (15), e mais modestamente em Cabeceiras de Basto (3). Nestes territórios, já verificamos muitas usurpações255. O mesmo se regista em Guimarães256.

Passando a abordar o mosteiro de Paço de Sousa, situado no julgado de Penafiel, território onde se situam predominantemente os casos desta instituição. Foram, portanto, mencionados em 19 episódios, sem que nenhum deles demonstrasse contornos ilegais, revelando apenas o carácter privilegiado da grande parte dos seus bens257. Os restantes

11 casos distribuíram-se ao longo dos julgados de Aguiar, Maia, Lousada, Porto Carreiro e Santa Cruz258.

Relativamente ao mosteiro de Telões, os seus casos concentram-se exclusivamente no julgado onde este se situa, ou seja, em Celorico de Basto. Ele surge mencionado em 20 episódios, maioritariamente associados às usurpações (15) e mais contidamente ao

252 P.M.H. Inq. 1258, p. 525: “Interrogatus si intrat ibi Maiordomus in Guimarey et in Cabeza, dixit quod

non. Interrogatus quare, dixit quod propter honorem Miane que nutrivit Reginam Donam Maphaldam. Interrogatus quare non intrat ibi postquam Domina Regina decessit, dixit quod nescit."

253 P.M.H. Inq. 1258, pp. 549, 550, 551, 553, 555, 557.

254 P.M.H. Inq. 1258, pp. 560, para Aguiar, 578 e 593, quanto a Penafiel, e 610 e 611, relativamente a

Santa Cruz.

255 P.M.H. Inq. 1258, pp. 628, 637, 638, 653, 654, 655, 657, 658, 659, 661, 662, 667. 256 P.M.H. Inq. 1258, pp. 679, 681, 700, 704.

257 P.M.H. Inq. 1258, pp. 579, 580-581, 581, 583, 585, 586. 587, 588, 589, 590, 591, 593, 595.

258 P.M.H. Inq. 1258, pp. 563, 571, 572, quanto a Aguiar, pp. 543, 544, relativamente à Lousada, p, 494,

estatuto privilegiado e não tributário dos seus bens (5)259. Não iremos abordar todos os

mosteiros individualmente, mas foquemo-nos numa leitura geral acerca dos episódios em torno de outros mosteiros que se situam neste território, Freixo de Baixo, Ferreira, Costa, Águas Santas, Bustelo e Arnóia. Ao todo, foram-lhes apontados 71 episódios, que se distribuem do seguinte modo: 31 casos de ausências de direitos régios, 27 usurpações, 11 perdas de direitos régios, um conflito e uma usurpação de bens reguengos260. Verificamos, igualmente, que estes 6 mosteiros desenvolveram as mesmas tendências já identificadas nos casos dos cenóbios anteriormente referidos. Com efeito, subsistem dois grandes padrões, por um lado, um que podemos denominar como sendo de expansão, caracterizado pela identificação de uma base patrimonial forte, que logo seria complementada com obtenções agressivas “fora de portas”. Nestes casos, normalmente os mosteiros empreenderam essas usurpações noutros julgados vizinhos. Quanto ao segundo modelo, ele é mais conservador, verificando-se que os mosteiros optavam por munir os seus bens “dentro de portas” e o alargamento da base patrimonial, menos hostil, passava pelos legados dos fiéis, mormente da parte da nobreza.