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Capítulo 2 – Os agentes

2.1. Sujeitos Activos

2.1.4. Clero secular

Seguidamente, passemos a focar nos clérigos do tipo secular que, na sua

globalidade, foram mencionados enquanto sujeitos activos em 190 episódios. A nível quantitativo, este não era um grupo especialmente activo, e os casos apontados às instituições deste subgrupo são quase residuais. Exceptuam-se deste quadro as duas sés, do Porto e de Braga, que estavam muito ligadas ao território do Entre Douro e Ave, e que aqui detinham as suas bases patrimoniais. É, ainda, natural que lhes fossem

259 Em relação às usurpações, ver: P.M.H. Inq. 1258, pp. 628, 629, 633, 637 e 661. Quanto à identificação

de bens privilegiados, ver: P.M.H. Inq. 1258, pp. 628, 629, 637, 638, 640.

260 A categoria das ausências de direitos régios remete para casos da existência de propriedades não

tributárias. Estes casos foram atribuitos aos mosteiros de Freixo de Baixo (p. 470, 544, 586, 593), Águas Santas (p. 504, 505, 507, 512. 526, 532), Ferreira (p.541, 552, 558, 559), Arnoia (632, 635, 636, 641) e Costa (p. 552 e 736). Seguidamente, quanto às usurpações, são referidos casos das instituições seguintes: Águas Santas (p. 505, 507, 518), Ferreira (p. 520, 547, 578), Bustelo (p. 546 e 595), Freixo de Baixo (p. 554, 601, 601-602,609 e 627), Costa (p. 600, 616, 657, 699, 711, 735 e 738) e Arnoia (p. 635, 636 e 637). Relativamente à categoria das perdas de direitos régios, temos casos de Bustelo (p. 543, 546, 547, 602, 610 e 611), Freixo de Baixo (p. 543, 609 e 638) e Costa (p.549 e 617). Relativamente ao conflito, associado ao mosteiro da Costa (p. 617), e, por fim, quanto à usurpação de reguengos, associado a Águas Santas 8p. 506).

associados um maior número de episódios, considerando as suas abrangentes jurisdições, sobre o qual as mesmas pretendiam alargar as referidas bases patrimoniais.

Geralmente com muito menor expressão, as igrejas paroquiais foram pontualmente surgindo num ou outro caso. Uma parte considerável destas instituições foi mencionada apenas uma ou duas vezes, raramente surgiram referências superiores aos dois episódios. Com múltiplas menções, destacam-se somente as igrejas de Fervença (c. Celorico de Basto), Lordelo (c. Porto) e Antime (c. Fafe). Algumas instituições como a colegiada de Santa Maria de Guimarães, as leprosarias, da mesma cidade, e a de Alfena, referenciadas em alguns episódios, porém de pouca expressão. Noutro sentido, devemos ainda destacar os clérigos referenciados, a título individual, nomeadamente cónegos ou chantres.

Iniciando a abordagem pelas duas sés que referimos, a instituição portuense foi referida em 11 episódios e a bracarense em 10. Os episódios relativos à primeira aconteceram nos julgados vizinhos do burgo portuense, em Bouças, Gondomar, e na Maia, embora dois deles tenham sido identificamos mais longinquamente, em Aguiar e em Porto Carreiro. Registaram-se usurpações de direitos, de bens reguengos, e ainda a existência de propriedades defesas por honras, coutos e quintãs261. Quanto à instituição bracarense, os seus episódios revelam, como já tivemos oportunidade de citar, algum uso de agressividade, uma atitude ostensiva. Não obstante, identificamos 5 usurpações de direitos, 3 episódios de violência, uma usurpação de padroado e uma menção a bens privilegiados262, que se distribuem, maioritariamente, sobre julgados situados bem no

centro da sua diocese, Monte Longo, Travassós, Celorico de Basto e Vila Boa de Guilhofrei263

261 Concretamente, identificamos duas usurpações, uma em Bouças (p. 462) e outra na Maia (p. 513), uma

perda de direitos, por culpa de despovoamentos, também em Bouças (p. 463), e usurpações, duas em Gondomar (p. 515) e uma em Aguiar (p. 572). Relativamente a bens não tributários, dois estão localizados na Maia (pp. 475 e 512) e outros dois em Gondomar (pp. 518 e 521), restando referencia a um, situado em Porto Carreiro (p. 596).

262 Quanto às usurpações, ver P.M.H. Inq. 1258, pp. 491, 618, 637, 666 e 676. Embora já referidas, para

as violências, ver: P.M.H. Inq. 1258, pp. 666 e 676. A perda de direitos régios ocorreu em Travassós (p. 619) e o bem privilegiado situa-se em Celorico de Basto (p. 637).

263 O único caso que ocorreu fora da sua diocese, surgiu no julgado da Maia, na fg. de Guilhabreu (c. Vila

Num patamar mais a baixo, identificamos, na qualidade de sujeitos activos, 99 igrejas paroquiais, mencionadas em 136 episódios. Embora bem distribuídas ao longo de todo o território alvo do nosso estudo, as paróquias identificadas aparecem, em maior quantidade, em julgados específicos. Referimo-nos a Celorico de Basto (26), Guimarães (18), Penafiel (16) e Monte Longo (12). Quanto à tipologia dos episódios, as instituições cometeram essencialmente usurpações de direitos (56264), e estavam ausentes de direitos régios (59265). Ocasionalmente, levaram o rei a perder direitos (15), usurparam bens reguengos (5) ou estiveram envolvidas num conflito.

Se este é o quadro geral, analisemos detalhadamente os casos das três igrejas que mencionamos, visto tratar-se das principais reincidentes. Além disso, servem-nos para abordar 3 casos de igrejas situadas em julgados diferentes. Comecemos pelo caso da igreja de Lordelo, localizada em Bouças. Paróquia que se situava na actual fg. de Lordelo do Ouro, usurpou dois bens reguengos e esteve associada em dois casos de usurpações de direitos régios266. Os casos que abordam esta paróquia revestem-se de

contornos únicos. Especialmente porque, fruto das diversas usurpações, os inquiridores convocaram e fizeram jurar, em pessoa, o pároco da igreja. Interrogaram-no acerca das suas posses, mas aquele desmentiu os anteriores jurados ao não referir a posse dos bens, alegadamente, usurpados. Insistindo, os inquiridores tornam a chamar homens bons que ali provaram que ele era detentor daqueles bens (“Tunc fecimus venire homines coram ipso prelato, et dixerunt ei coram nobis quod tenebat predictas hereditates, et per bonos homines ipsius ville probaverunt ei quod tenebat eas). Provavelmente para não humilhar

264 Verificadas sobretudo nas terras do Basto. Ver P.M.H. Inq. 1258, pp. 460, 490, 491, 499, 513, 515,

543, 544, 546, 553, 575, 587, 598, 604, 609, 611, 617, 618, 630, 631, 632, 633-634, 641, 645, 655, 657, 658, 661, 664, 665, 666, 669, 678, 681, 686, 690, 695, 698, 734, e 736.

265 Em relação às ausências, destacam-se os bens defendidos por honras, situação identificada em 19

ocorrências (P.M.H. Inq. 1258, pp. 475, 524, 545, 549, 557, 568, 580, 592, 613, 618, 623-624, 638, 641, 661 e 682); seguida dos 9 episódios de bens defendidos por quintãs (P.M.H. Inq. 1258, pp. 551, 554, 577- 578, 583, 612, 615 e 637), e ainda pelos bens abrangidos por coutos, mencionada em 6 ocasiões (P.M.H. Inq. 1258, pp. 560, 586, 611, 622 e 703). Subsistem ainda episódios onde os bens de certas igrejas estariam isentos por razão de serem defendidos por um dominium (P.M.H. Inq. 1258, pp. 479, 497, 500- 501, 543, 544, 564, 580-581, 584, 587, 588, 589 e 618). Dois episódios de bens que se encontravam dentro do passal da igreja, logo, eram bens imunes (P.M.H. Inq. 1258, pp. 646 e 652) e um bem defendido porque alegadamente estava abrangido pelo privilégio de ordem (P.M.H. Inq. 1258, p. 687).

266 Relativamente aos dois primeiros episódios, ver P.M.H. Inq. 1258, p. 460, e quanto às usurpações, ver

o pároco sob o olhar público267, os enviados régios mandaram ausentar as testemunhas

e, já secretamente, pediram ao pároco que se desapropriasse dos bens reguengos (tunc nos diximus ei in secreto quod dimitteret ipsas heredittes, et noluit eas dimittere”268).

Por seu turno, a igreja de Santa Maria de Antime, situada no julgado de Monte Longo, esteve associada a casos que levaram o rei a perder direitos régios, a um conflito, e a um bem imune. Os dois primeiros episódios decorreram de um amádigo identificado nas propriedades desta igreja269. Restando dois episódios, um respeitante à perda e outro a um conflito, ambos ocorridos nos “montes” da fg. de Antime (c. Fafe). Em ambos, a igreja conluiu ora com o prior do mosteiro da Costa ora com D. Maior de Bouças, impedindo os homens do rei de usufruírem de direitos associados aos reguengos, sobre os referidos montes e que, aliás, sempre lhes havia pertencido270. Quanto ao bem não tributário, este situava-se na fg. S. Gens (c. Fafe) e era tida, pelas testemunhas, como uma propriedade que sempre fora honrada271.

O terceiro caso remete-nos para o julgado de Celorico de Basto e aborda a igreja de Fervença que está, por sua vez, grandemente ligada a diversas usurpações de direitos régios272. O mordomo não entrava numa grande parte dos seus bens, embora não fossem

associados a propriedades não tributárias. É particularmente elucidativo que o mordomo não entrasse, inclusivamente, nas propriedades reguengas, como aconteceu no episódio identificado no lugar de Vessada, situado na fg. Fervença (c. Celorico de Basto). Embora detentor de uma terça parte da vinha, e a igreja das restantes duas partes, o oficial régio não entrava ali273.

Conforme tivemos oportunidade de analisar, as igrejas foram essencialmente associadas a duas das nossas categorias. Concretamente, encontramo-las ora a usurpar

267 Afirmamos isto considerando que esta é uma acção absolutamente única e que não se tornou a repetir.

Ao inédito, acrescentem-se o aspecto de terem, explicitamente, feito referência ao sigilo (“in secreto”), e ao facto de terem questionado a legitimidade daquele pároco relativamente ao cargo que desempenhava, questionando-lhe e pedindo que mostrasse a sua carta de confirmação. Este último, todavia, já não foi uma característica desencadeada, pois comummente os enviados régios perguntaram aos párocos pelas cartas de confirmação.

268 P.M.H. Inq. 1258, p. 460. 269 P.M.H. Inq. 1258, p.615. 270 P.M.H. Inq. 1258, pp. 616 e 617. 271 P.M.H. Inq. 1258, p. 618.

272 P.M.H. Inq. 1258, pp. 631, 632, 633-634, 634, 645. Também há um caso onde os bens da igreja estão

escusados por razão de uma quintã (p. 637).

ora a ser defendidas por outras propriedades não tributárias vizinhas. Estes casos contam-nos uma história, que nos permite aproximar das vivências sociais do período medievo. Por um lado, provavelmente usurpariam, porque muito dificilmente receberiam doações, ricos legados de que eram alvo outras instituições clericais, as sés e os mosteiros. A competição, a predominância do minifúndio, típico do entre Douro e Minho, levaram a uma constante pressão, sentida por mosteiros médios e mesmo pelas sés, nomeadamente a portuense, as centenas de igrejas paroquiais viam reduzidas as hipóteses de alargar as bases patrimoniais, logo de obter mais réditos, possibilitar a acumulação de riqueza traduzida na posse de terras. Pelo outro, seriam protegidos pelos cavaleiros locais, pelas famílias nobres, ou outros patronos, visando tirar parte dos privilégios das propriedades vizinhas daqueles. A protecção, como já tivemos oportunidade de desenvolver, era um elo de ligação muito comum entre nobres e clérigos, e que pode ser por aqui verificado e comprovado.

Por fim abordemos algumas colegiadas, leprosarias, e alguns clérigos que figuram enquanto sujeitos activos, mas a título pessoal. Estes últimos foram identificados a partir do cargo que serviam. Por exemplo, temos episódios onde surgem cónegos, chantres, ou outras pessoas do mundo eclesiástico. Relativamente às primeiras, já aqui mencionadas, surgiram 5 episódios que mencionam a colegiada de Santa Maria de Guimarães274, 3 que envolvem a leprosaria de Alfena275, e um ligado à leprosaria de

Guimarães276. Quanto aos agentes, destacamos 6 cónegos, 3 párocos277 e o capelão de

D. Afonso I, já atrás mencionado. As instituições referidas, aparecem em casos onde os inquiridores possuíam dúvidas em relação a determinados privilégios que as testemunhas lhes apontavam. Quanto aos agentes, eles surgiram sobretudo como usurpadores de direitos régios e quase sempre encetam os seus casos em parceria com outro agente social.

274 P.M.H. Inq. 1258, pp. 658, 686, 700, 708 e 711. 275 P.M.H. Inq. 1258, pp. 507, 512 e 526.

276 P.M.H. Inq. 1258, p. 619.

277 Quanto aos cónegos, referimo-nos a Pedro Mendes, cónego do Porto, Gomes Alvites, cónego

bracarense, e aos cónegos vimaranenses, Afonso Anes, Pedro Soares e João Domingues, ver, respectivamente, P.M.H. Inq. 1258, pp. 497, para o primeiro, 657, quanto ao segundo, e para os vimaranenses, 686, 690, 692, 708, 712, 713 e 724. Por fim, relativamente aos párocos, D. Hermigio e Mendo Mendes, ver P.M.H. Inq. 1258, pp. 676 e 680