5. O CÓDIGO DE NAPOLEÃO

5.2. CODIFICAÇÃO: O DIREITO MODERNO

Entre as principais bases da cultura jurídica da modernidade, Antonio Carlos Wolkmer aponta a nova ordem econômica identificada com o capitalismo, cujo desdobramento é a ascensão da classe burguesa e a organização social em torno do liberalismo, filosofia intimamente ligada aos interesses da burguesia, bem como o individualismo pela linha do racionalismo194.

A tradição jurídica do império romano teve muito a influenciar o direito moderno especialmente no tocante à organização das leis em códigos. Por certo que a codificação nos moldes apresentados no Code Napoleón é modelo essencialmente moderno, embora se utilize a palavra “código” para muitas legislações e compilações, em especial remontantes à antiguidade – o Código de Justiniano é claro exemplo disso, pois tratava-se, em verdade, de uma compilação sucessiva de dispositivos legais, nem sempre relacionados, e sem a ideia de sistematização presente nos códigos da modernidade.

A codificação da qual falamos neste trabalho é essencialmente moderna, e é produto da Revolução não apenas em seu conteúdo, mas pela instituição de uma nova ordem jurídica e o fim dos pluralismos da Idade Média195.

Sobre o assunto, diz o professor Ricardo Marcelo Fonseca que o que marca a codificação em termos de direito civil é o Code Napoleón, responsável pela racionalização advinda do iluminismo; por reunir em um documento abstrato a complexidade do Direito civil; formalizar o direito pela nova lógica de resolução dos problemas da realidade pela abstração do critério nivelador da lei; concentrar as fontes do Direito na lei (direito passa a identificar-se à lei). O código como símbolo, também apontado por Fonseca, se manifesta na enunciação já anteriormente citada de Napoleão sobre a importância do Code, o qual seria o grande motivo pelo qual seria lembrado196. Ainda, nas palavras do autor:

A noção de código está vinculada não apenas à ideia de organizar a realidade, mas também à intenção de modelar a própria realidade política

194 WOLKMER, Antonio Carlos. Cultura Jurídica Moderna, Humanismo Renascentista e Reforma Protestante. Sequência: Estudos Jurídicos e Políticos, Florianópolis, v. 1, n. 50, p.9-27, jul. 2005. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia>. Acesso em: 27 jul. 2018.

195 CAPPELLINI, Paolo. Il codice eterno. La forma codice e i suoi destinatari: morfologie e metamorfosi di un paradigma della modernità. In CAPPELLINI, Paolo; SORDI, Bernardo (org.).

Codici: una riflessione di fine millennio. Milano: Giuffré, 2002.

196 FONSECA, Ricardo Marcelo. A modernização frustrada: a questão da codificação civil no Brasil do século XIX “in” TEIXEIRA, Ana Carolina Brochado e RIBEIRO, Gustavo Pereira Leite (orgs.).

e social. O direito, na modernidade jurídica, investe sobre a realidade, conformando-a. O direito, a partir deste momento, funcionará cada vez mais como um instrumento do poder político, que dele fará um instrumento da nova organização política pós-revolucionária, isto é, do Estado Liberal. O Código levantará no âmbito privado a noção de igualdade formal, o que permitirá erigir, por seu turno, a ideia da “autonomia da vontade” e do “sagrado” direito de propriedade. Ambos – autonomia da vontade e direito de propriedade serão os pilares estruturantes deste novo sistema jurídico, que exatamente por isto será extremamente funcional ao Estado Liberal oitocentista, ao livre trânsito jurídico e à circulação dos negócios e, enfim, ao desenvolvimento do capitalismo europeu.197

Neste sentido, o Code Napoleón é de suma importância para o direito moderno francês em diversas frentes.

Primeiramente, ao tratar de reduzir os juízes à função de bouche de la loi, estabelece um critério único para emitir juízos acerca de uma gama extremamente diversificada de hipóteses de fatos sociais. O Direito, então passa a identificar-se à Lei198.

Em segundo lugar, o Code é responsável pela conformação e regulação da sociedade francesa do século XIX segundo os ideais de igualdade formal e liberdade propostos pela Revolução de 1789. Neste ponto, é importante lembrar aquilo que já foi comentado acerca da noção de Victor Hugo, homem das leis bem como homem das letras, segundo o qual o papel do poeta é, também, de “conformador de modos”, diz o autor, inclusive, que o progresso se faz quando os homens que fazem as leis e os homens que criam os modos caminham juntos199.

Deste modo, o que temos é uma tradição jurídica moderna fundada nas expressões de igualdade e liberdade – princípios estes defendidos e erigidos nos termos da burguesia, é dizer, em termos de igualdade formal e liberdade voltada à autonomia da vontade para dispor de sua propriedade200. Ainda, a codificação significa o estabelecimento de um critério único para as decisões judiciais,

197 FONSECA, Ricardo Marcelo. A modernização frustrada: a questão da codificação civil no Brasil do século XIX “in” TEIXEIRA, Ana Carolina Brochado e RIBEIRO, Gustavo Pereira Leite (orgs.).

Manual de teoria geral do direito civil. Belo Horizonte: Del Rey, 2011, págs. 13/34.

198 STAUT JUNIOR, Sergio Said. Legisladores, juristas e os princípios jurídicos: quem tem o poder do direito em sociedade. Revista Jurídica Luso-brasileira, Lisboa, v. 1, n. 5, p.1343-1358, maio

2015. Disponível em:

<https://www.cidp.pt/publicacoes/revistas/rjlb/2015/5/2015_05_1343_1358.pdf>. Acesso em: 03 ago. 2018.

199 LETTRE DE VICTOR HUGO À LÉON RICHER: "Il est difficile de composer le bonheur de

l'homme avec la souffrance de la femme.". Paris, 01 fev. 2016. Disponível em:

<https://www.huffingtonpost.fr/morgane-ortin/lettre-de-victor-hugo-a-leon-richer_b_9112154.html>. Acesso em: 25 jul. 2018.

200 WOLKMER, Antonio Carlos. Cultura Jurídica Moderna, Humanismo Renascentista e Reforma Protestante. Sequência: Estudos Jurídicos e Políticos, Florianópolis, v. 1, n. 50, p.9-27, jul. 2005. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia>. Acesso em: 27 jul. 2018.

tornando-se a lei fonte única do Direito, situação completamente diversa da pré-revolucionária.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ FACULDADE DE DIREITO LUIZA TAVARES DA MOTTA. AS MISERÁVEIS Direito, Literatura, e a Mulher na França do século XIX (páginas 94-97)