ECONOMIA BRASILEIRA E HISTÓRIA ECONÔMICA GERAL
COFFEE AND INDUSTRY IN PARANÁ: DEPENDENCE AND INTERFERENCE IN BASES OF PRODUCTION (1930-1980)
Leonardo Antonio Santin Gardenal26 Juliane Roberta Santos Moreira27 Resumo
Durante as primeiras décadas do século XX, as atividades industriais no Paraná encontravam-se em estágio nascente, atuando, sobretudo, no beneficiamento de bens agrícolas, que constituíam a base da economia estadual naquele período. A dependência da agricultura, principalmente da atividade cafeeira desenvolvida na região norte do Paraná, área suscetível a variações de diversas ordens (fenômenos atmosféricos, ação de micro-organismos, desequilíbrio na oferta e demanda, entre outros) em sua produção, preocupava os atores envolvidos com a economia paranaense. Diante desse contexto, o fomento a atividades industriais ganhou maior intensidade, ao passo que também se promovia medidas de proteção ao café, principal gerador de renda, para financiar a infraestrutura no estado. Esse processo ocorrido em meio à política desenvolvimentista nos anos 1960 e fortalecido após o Golpe Militar de 1964 alterou a economia do estado, não apenas diversificando, mas atuando na remodelação das bases agrícolas através de uma modernização pautada na mecanização e uso de insumos químicos. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é compreender as características, a importância da cafeicultura, e os determinantes do declínio no processo de diversificação da economia paranaense ocorrido nos anos 1970. Este estudo se justifica pela melhor compreensão do papel da cafeicultura no processo de transformação da economia paranaense e para o desenvolvimento da indústria e agroindústria no estado, entre 1960 e 1975.
Palavras-chave: Paraná; Industrialização no Paraná; Cafeicultura.
Abstract
During the first decades of twentieth century, industrial activities in Paraná were composed by transformation of agricultural products, that represented the basis of the region economy in that period. The dependence of agriculture, mainly the coffee activity in northern Paraná (a climate variation susceptible area) concerned policymakers of the state. In this context, the promotion of industrial activities received more investiments of government, while it promoted measures to protect coffee economy to finance infrastructure for industry in the state. This process started in the begining of 1960’s, oriented by developmentalist policies and strengthened during the military regime, after 1964. This regime has changed the state’s economy diversifying and reshaping agricultural bases through modernization, mechanization and using chemical inputs.
Thus, the objective of this paper is understand the characteristics, the importance of coffee
25 Este trabalho é resultante das dissertações de mestrado: MOREIRA, Juliane Roberta Santos. Atividade cafeeira entre planos de governo e intempéries climáticas: o caso da cafeicultura no Paraná (1960/1970), defendida junto ao Programa de Pós-graduação em História, Cultura e Identidades. UEPG, 2018; GARDENAL, Leonardo Antonio Santin. Café e indústria no Norte do Paraná (1940-1970), defendida junto ao Programa de Pós-graduação em História Econômica. FFLCH/USP, 2018, que contou com o apoio financeiro da CAPES.
26 Mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo. E-mail: [email protected]
27 Mestre em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. E-mail: [email protected]
culture and the determinants of its decline and diversification process in 1970’s. This paper contribute to understand the significance of coffee capital to convert the Paraná economy in a developed industry based on agroindustry.
Key-words: Paraná; industrialization of Paraná; coffee culture.
Introdução
Este artigo analisa os principais fatores que permitiram a inserção da cafeicultura no Norte do Paraná, especialmente no Norte Novo e Novíssimo (porção central e noroeste, respectivamente), a partir da década de 1930 e os determinantes do declínio da atividade na década de 1970. O objetivo fundamental é compreender a relação entre a cafeicultura e as atividades industriais nessa região.
É importante ressaltar que justamente em um período de crise da economia cafeeira, pautado pela queda do preço internacional do bem e da substituição da cultura cafeeira nas regiões tradicionais de plantio (notadamente São Paulo e Minas Gerais) que o café se insere no Paraná e passa a registrar um significativo crescimento. Neste momento inicial da cultura, parece indissociável a relação entre produção cafeeira e algumas atividades industriais necessárias à ela e a própria manutenção da população que migra para a região. Posteriormente, será analisado também como a participação do capital gerado em torno da cafeicultura contribuiu para o desenvolvimento de infraestrutura e no financiamento industrial do estado.
De modo a alcançarmos nosso objetivo, subdividimos o presente artigo em duas partes, além dessa introdução e das considerações finais.
Na primeira parte busca-se compreender as razões que permitiram que a cafeicultura no Norte do Paraná tivesse êxito, dedicando-se a elementos que vão além dos tradicionalmente discutidos, como a fertilidade das terras e o cultivo em propriedades pequenas. Fica evidenciado no trabalho que a participação do capital estrangeiro no processo de colonização, a estrutura viária, de financiamento e a grande propaganda do empreendimento foram também fundamentais para o êxito.
Na segunda parte do trabalho analisa-se a relação existente entre o capital cafeeiro e a indústria nascente. Para tanto, busca-se entender como a base primária, grande produtora de renda do Paraná no período analisado, interferiu no surgimento e no desenvolvimento da base industrial. Finalmente, discutem-se os determinantes que levaram a cultura cafeeira ao declínio, observando-se que embora a grande geada de 18 de julho 1975 represente um drástico evento para o café no estado, ele também pode ser entendido como um marco simbólico de um processo de declínio e diversificação que já teve início nos anos 1960.
A cafeicultura paranaense
Para se entender a cafeicultura no Norte do Paraná é necessário remontar a alguns fatores que levam a extensão, e em muitos casos, a migração da atividade de São Paulo para o território paranaense. A cafeicultura paulista se deslocou em larga escala dentro da estrutura das famílias já produtoras, onde os descendentes recebiam terras mais ao oeste do estado para se estabelecerem e formarem fazendas. Como afirma Monbeig (1952:110), “se o avô tivesse uma plantação na área de Campinas, os filhos se radicariam na região da alta mogiana, próximo a Ribeirão Preto e, por sua vez, investiriam para os filhos em plantações de café na região da alta paulista”.
Kohlhepp (2014:83) afirma que a direção dessa expansão para o centro do estado de São Paulo também foi determinada pela formação geológica, de arenito crétace do grupo Bauru e para os espigões entre os afluentes do Rio Paraná. Ao sul do estado o cultivo foi limitado pelo clima mais frio tendo como limite a linha férrea de Itararé (TAUNAY, 1943:230). Também por influência geológica, o Norte Velho do Paraná passou a constituir-se o no destino da produção cafeeira pelos espigões de terra roxa que, posteriormente também se estendeu ao Norte Novo, (MONBEIG, 1945:11).
A presença da malha ferroviária paulista também foi um fator fundamental para viabilizar a cultura cafeeira no Paraná. A ferrovia Sorocabana, após cortar a região mais fria do estado de São Paulo, chegava a Botucatu e São Manuel e, posteriormente, a Ourinhos, de onde se faria a ligação com o Paraná. (TAUNAY, 1943:233). Até 1920, o escoamento da produção cafeeira paranaense se dava exclusivamente pelo porto de Santos, uma vez que não havia ligação do norte do estado com o porto de Paranaguá. Essa relação se perpetuou em larga escala até a década de 1960 (BALHANA et. al., 1969:221).
Com os limites impostos à cultura cafeeira pela crise de 1929, não houve mais condições de expansão inserida nas estruturas anteriores encontradas em São Paulo, que passou então da iniciativa de grandes fazendeiros para pequenos proprietários de terra, compostos muitas vezes por imigrantes europeus e orientais. A este efeito soma-se também a migração de trabalhadores do nordeste, como mão de obra na lavoura. (KOHLHEPP, 2014:83). Essa mudança na estrutura do cultivo do café representou um grande incentivo para o plantio no Paraná.
As regiões cafeeiras do Paraná foram classificadas pelo IBGE (1991) como mesorregiões Norte pioneiro, Norte Central Paranaense e Noroeste. Elas correspondiam na
época da colonização às Frentes Pioneiras do Norte Velho28, Norte Novo e Norte Novíssimo, como poder ser observado por meio da Figura 1. Esta classificação anterior vigorou até 1991 e é encontrada ainda hoje na literatura sobre o tema, além de estar presente no vocabulário dos descendentes de pioneiros que habitaram a região (IZEPÃO, 2008).
Figura 1. Divisão da Região Norte do Paraná.
Fonte: adaptação dos autores, com base em PADIS (1981), TOMAZI (1997: 127); IPARDES, 2010.
Especialmente no Norte Novo, a colonização se deu em âmbito privado, afastando a importância e autoridade de grandes plantadores, abrindo assim a possibilidade de que os pequenos e médios estabelecimentos agrícolas tornassem os dominantes no momento em que a cafeicultura começava a revigorar após a grande crise. (KOHLHEPP, 2014:85).
A presença do investimento estrangeiro direto é uma das mais representativas peculiaridades da cafeicultura no Paraná. Ao contrário dos latifúndios paulistas houve a presença no Norte do Paraná de empresas estrangeiras colonizadoras, como a Paraná Plantation Ltd.29, Em 1929, essa empresa inglesa tomou posse de 500.000 alqueires de terras no Norte Novo, verificando maior lucratividade por meio do loteamento e venda em pequenos
28 Monbeig (1945:14) observa em cidades do Norte Velho do Paraná, região que foi o primeiro acesso da cafeicultura no estado, elementos típicos da fazenda tradicional paulista. Portanto, entre a alta sorocabana (região de Ourinhos-SP) e o Norte Novo (região de Londrina-PR), com colonização dirigida, tem-se uma zona de transição das características de cultivo do café tipicamente paulista para o que se perpetuou no Paraná após a década de 1930.
29 Esta empresa se desdobrou em duas subsidiárias: a Companhia de Terras Norte do Paraná, com o objetivo de promover a colonização, e a Companhia Ferroviária São Paulo – Paraná, adquirida com o objetivo de estender a via férrea pelas áreas loteadas a partir do entroncamento já existente entre o município de Ourinhos – SP e Cambará – PR (CMNP, 2013).
lotes do que a partir da produção da cultura do algodão, que constituiu o interesse primário.
(IZEPÃO, 2008).
De acordo com dados da CMTP (2013), até o ano de 1943 foram comercializados 17.000 alqueires, e até 1953, 400.000 alqueires, num total de 26 mil lotes agrícolas. Uma ideia corrente na região, ainda hoje, é que pela rápida valorização, o loteamento de um único bairro de Londrina foi capaz de pagar o investimento inteiro da Companhia.
Para comercializar os lotes a Companhia de Terras Norte do Paraná os dividiu em três categorias: as denominadas datas, correspondentes aos terrenos urbanos, com a dimensão de 500 a 600m²; chácaras, localizados ao redor das cidades, patrimônios e vilas, com até 5 alqueires paulistas30, com o objetivo de compor um cinturão verde capaz de abastecer as cidades de alimentos; e, por fim, os lotes agrícolas, com dimensão a partir de 5 alqueires, localizados na zona rural, cujo preço variava conforme a distância e a facilidade de escoamento da produção (LUZ; OMURA, 1975).
Tipo de Lote Localização Dimensão Pagamento na
Entrada
Prazo de Pagamento
Datas Região urbana 500-600m² 50% 1 ano
Chácaras Redor cidades e vilas 5 alqueires paulistas 40% 2 anos Agrícolas Área rural A partir de 5 alqueires paulistas 30% 4 anos
Quadro 1. Financiamentos, dimensões e prazos na comercialização dos lotes da Cia. Norte do Paraná.
Fonte: Adaptação dos autores, com base em: LUZ; OMURA (1975).
Embora a produção cafeeira em pequena propriedade já estivesse presente em outras regiões ao longo da década de 193031, a segurança representada pela comercialização direta com a companhia loteadora e as condições de financiamento oferecidas representavam um grande estímulo a novos produtores. Além disso, a intensa propaganda da região veiculada na época contribuiu para o êxito do empreendimento.
As expectativas aos potenciais compradores foram intensas, gerando uma espécie de
“febre”, um efeito que é lembrado até hoje, como foi relatado pela Sra. Maria Angélica de Lima, em entrevista a Arias (1995).
E: A senhora já tinha ouvido falar no norte do Paraná quando a senhora veio pra cá?
D: “Já porque o Norte do Paraná fez propaganda como galinha quando bota ovo, não é? Que cocoroca bastante! Não tinha um pedaço do Brasil que não tivesse propaganda do Norte do Paraná! Toda parte tinha (...)”.
Dona Maria Angélica de Lima, proprietária de terra, 79 anos. (ARIAS, 1995: 73).
30 1 Alqueire paulista corresponde a 24.200m². (LUZ; OMURA, 1975)
31 Milliet (1941) destaca o aumento do número de propriedades com dimensões entre 1 e 25 alqueires ao longo da década de 1930 em todas as regiões cafeeiras do estado de São Paulo, com ênfase na região da Sorocabana.
Na região de Maringá, entre 1938 e 1973, o perfil dos primeiros compradores era composto predominantemente por brasileiros, seguidos pelos europeus.
Nacionalidade dos primitivos compradores de lotes rurais - Maringá (1938-1973)
NACIONALIDADE COMPRADORES %
Brasil 1453 76
Europeus 362 19
Asiáticos 85 4,5
Sul-americanos 4 0,2
Norte-americanos 2 0,1
Apátridas 3 0,1
TOTAL 1909 100
Quadro 2. Nacionalidade dos primeiros compradores de lotes rurais – Maringá (1938-1973) Fonte: adaptação dos autores, com base em LUZ; OMURA, 1975.
Vale ressaltar que a categoria dos “brasileiros” é composta em sua maioria por descendentes de italianos que vieram para o Brasil durante o processo imigratório do final do século XIX e início do século XX. Pelo que demonstra a tendência, foram colonos nas fazendas do oeste paulista e encontraram nas terras do Paraná condições de estabelecer lavoura própria (LUZ; OMURA, 1975).
Independentemente da nacionalidade, a estrutura fundiária do Norte Novo tendia a favorecer o pequeno produtor já habituado à cultura do café. Assim, a esses agricultores era possível vislumbrar a possibilidade de melhorar suas condições sociais e financeiras, uma vez que se tornavam proprietários das terras que iriam cultivar e, ao viver com a família na propriedade, contando com a mão de obra de todos, teriam reduzido o custo monetário de mão de obra (CANCIAN, 1981).
Além da propaganda dos loteamentos em outras regiões, sobretudo, em São Paulo, a disseminação da cultura cafeeira também teve influência das políticas de defesa do café32, considerado, até então, o centro motor do desenvolvimento capitalista no Brasil.
No ano de 1931, o decreto federal 19.688, de 11 de fevereiro, autorizava a compra pelo governo de todo o café retido até 30 de junho e não comprado pelo estado de São Paulo, além da instituição de um imposto de 1$000 para cada pé de café plantado pelos próximos cinco
32 O mecanismo de controle da oferta inicia-se com o Convênio de Taubaté, em 1906, proibindo o plantio de novos cafeeiros pelos maiores estados produtores (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), bem como a responsabilização dos respectivos governos pela compra e estocagem da produção excedente (SILVA, 1985).
A efetivação deste convênio, fora o impulso inicial dentre uma série de ações de controle de preços durante as décadas seguintes que influenciou para a extensão da cafeicultura em outras regiões.
anos, o que na realidade representava a inviabilidade da expansão da cultura. No entanto, sob a influência política do Paraná, e de outros estados produtores em menor escala, esta regra foi aplicada apenas para os estados com mais de 50 milhões de cafeeiros, o que favoreceu a expansão da cultura na região (DELFIM NETTO, 1959:144).
No cenário nacional, a produção cafeeira apresentou a partir de 1933 uma permanente redução nas regiões pioneiras do Brasil em decorrência da prolongada queda no preço internacional, fator que desestimulou os produtores. (CANCIAN, 1981) Como elemento adicional, a partir de 1931 a responsabilidade sobre a política cafeeira passou de São Paulo para o Departamento Nacional do Café (DNC), um órgão federal criado com o objetivo de combater a superprodução. O DNC passou a adquirir as safras, às quais se destinavam na proporção de 30% para estocagem, 30% para exportações, e os 40% restantes compunham a denominada
“quota de sacrifício”, que seria incinerado (ABREU, 2010).
Essa ação de sustentação de preços promovida por meio da incineração de sacas do café gerou desconfiança acerca da eficácia da política adotada pelo Brasil para o setor, resultando numa acentuada queda da produção no estado de São Paulo, então o maior produtor do bem.
Sobretudo após a geada de 1942, acentuou-se a erradicação por meio do abandono e do corte dos cafezais como solução imediata. No entanto, ao mesmo tempo em que ocorria este movimento de contenção da oferta do café no estado de São Paulo, observa-se a tendência inversa para o estado do Paraná, que passou a registrar altos índices de produção. (CANCIAN, 1981)
A fertilidade das terras encontradas no Norte do Paraná permanece também como um importante elemento para o êxito da cultura. O quadro 3 demonstra a produtividade das lavouras paranaenses em relação a São Paulo entre 1947 e 1951.
Produtividade das lavouras de café: São Paulo e Norte do Paraná - 1947/1951
Ano Em Kg/ha. Em Kg/1000 pés
N. Paraná São Paulo N. Paraná São Paulo
1947 586 338 929 440
1948 583 423 923 552
1949 621 369 992 480
1950 758 334 1202 432
1951 594 337 948 442
Quadro 3: Produtividade das lavouras de café: São Paulo e Norte do Paraná (1947 – 1951).
Adaptação dos autores, com base em: SERRA, 1992:71.
Diante dos dados pode-se concluir que a qualidade da terra roxa do Norte do Paraná e os cafeeiros novos permitiram uma produtividade bem maior que a paulista. Esse fator certamente foi importante para o crescimento da cultura mesmo após a Crise de 1929.
O Gráfico 1 demonstra a acentuada queda nos preços de exportação do café33 entre 1926 e 1950.
Gráfico 1. Índice de Preço de Exportação do Café (1995=100) Fonte: elaboração dos autores, com base em IBGE (2016).
A acentuada redução no preço de exportação do café, cuja deterioração se inicia no ano de 1929, apresenta uma breve recuperação entre 1931 e 1932, e volta a se deteriorar a partir de 1932, somente apresentando uma tendência de recuperação a partir de 1940. Considerando que as primeiras safras no Norte Novo iniciam-se por volta de 1934, é possível se afirmar que a cafeicultura na região se intensificou mesmo diante de preços internacionais significativamente desfavoráveis.
No cenário brasileiro, a produção paranaense de café passa a ser representativa em meados de 1946. No ano de 1959 o Paraná registrou pela primeira vez a maior safra dentre os demais estados produtores, exportando 20.691 mil sacas de café, frente à 15.620 mil sacas exportadas por São Paulo. Esse resultado volta a se repetir diversas vezes até fins da década de 1960, quando já é possível se verificar um declínio da cultura em todas as regiões brasileiras34.
O Gráfico 2 demonstra a importância da produção de café no estado do Paraná, em relação à produção brasileira, cujo resultado torna-se significativo durante a década de 1940.
33 Gráfico elaborado com base no índice do IBGE (1995=100%). Adotam-se os preços médios de exportação de café convertido em dólares, e os preços de exportação publicados no Anuário Estatístico do Café (IBGE, 2012).
34 Ver: Produção brasileira de café. (MARTINS; JOHNSON, 1992).
0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 30,00 35,00 40,00
1926 1927 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937 1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946 1947 1948 1949 1950
Índice de Preço de Exportação do Café (1995=100)
Gráfico 2. Produção Brasileira de Café – Paraná/Brasil, em % (1920/1968).
Fonte: elaboração dos autores, com base em CROCETTI (2007).
Compreende-se que a produção paranaense permaneceu pouco significativa até a década de 1930 (período de cultivo no Norte Velho), havendo um aumento de participação que acentua-se na década de 1940, quando atinge 5,8% de participação na produção brasileira.
Posteriormente, na década de 1950, a participação apresenta novamente significativo aumento, atingindo cerca de 25% de participação na produção total e, após acentuada redução em 1955, voltou a se recuperar, atingindo na década de 1960 as maiores níveis de participação com destaque para o apogeu em 1965, onde representou 55% de toda a produção brasileira de café (CROCETTI, 2007).
Para se ter uma ideia do que representou a atividade cafeeira para o Paraná no período, apresenta-se na tabela 01 os resultados da produção cafeeira para os anos de 1961 a 1965 com preços correntes de 1967 e preços constantes de 1953.
Tabela 1. Renda Interna Estadual e Produção Cafeeira (em Cr$ Bilhões)
Renda Interna Estadual Produção Cafeeira
Ano Preços Correntes
Fonte: adaptação dos autores, com base em CODEPAR. (1967) 0
1920 1925 1930 1935 1940 1945 1950 1955 1960 1965 1968
Produção de Café(Paraná/Brasil)
Durante todo o período apresentado a participação cafeeira permanece elevada, atingindo o maior percentual em 1962, que representou 31,5% do total35 de participação da cafeicultura na renda interna do Paraná.
Ao concluir esta primeira seção, destacamos como característica adicional da produção cafeeira no Norte Novo a dissociação entre produção e beneficiamento, que tradicionalmente era internalizada na mesma propriedade. Portanto, era possível ao produtor vender o café em coco, passando por intermediários que se dedicavam exclusivamente a esta atividade de beneficiamento, as chamadas “Máquinas de Café”.
Essa atividade de beneficiamento vai representar o embrião das atividades industriais na região, pois, é possível conceber uma estreita relação entre o capital cafeeiro e o desenvolvimento de atividades industriais correlatas à cafeicultura, no que podemos chamar de
“efeitos de encadeamento para trás e para frente”, como definidos por Albert Hirschman36.
Dependência e interferência entre as bases de produção
Na década de 1930, as atividades industriais no norte paranaense eram compostas por centenas de serrarias, pelo beneficiamento de café, algodão e arroz, cervejarias, moinhos de trigo, fábricas de óleo de amendoim, fábrica de café solúvel entre outras atividades realizadas dentro de um critério de essencialidade (POZZOBON, 2006). A conformação dessas atividades
Na década de 1930, as atividades industriais no norte paranaense eram compostas por centenas de serrarias, pelo beneficiamento de café, algodão e arroz, cervejarias, moinhos de trigo, fábricas de óleo de amendoim, fábrica de café solúvel entre outras atividades realizadas dentro de um critério de essencialidade (POZZOBON, 2006). A conformação dessas atividades