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COGNIÇÃO E AFETIVIDADE: dimensões que se integram na Subjetividade? 69

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 CAPÍTULO III 55

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 COGNIÇÃO E AFETIVIDADE: dimensões que se integram na Subjetividade? 69

“O gesto, até mesmo discreto, o brilho no olhar, etc., são tão expressivos, quanto as palavras. Dito de outro modo, a afetividade em ato, fala àquele que a recebe porque ela tem um sentido e informa sobre o estado daquele que a leva a falar, sobre suas intenções, seus julgamentos, sua disposição de espírito com relação ao destinatário, etc. E a atenção prestada, com todo o cuidado, a essas múltiplas manifestações, quase sempre fugitivas, desenvolve uma sensibilidade de tal maneira em vigília permanente que o sujeito que a cultiva faz com que ela venha a adquirir uma sutileza discriminativa de qualidade tão rara que ele aumenta sua capacidade de abertura a outrem, de escuta e compreensão, e sobretudo de sofrimento. Seja como for, a afetividade é sensibilidade ao sentido e às significações que ainda nenhuma semântica racional conseguiu penetrar e nenhuma metodologia foi capaz de revelar”. (Dolle, 1993, p. 120-121)

Falar sobre Subjetividade e sua constituição tem sido temática freqüente nas reflexões atuais acerca do fenômeno educativo, especificamente com relação às dificuldades de aprendizagem do Sujeito. A psicopedagogia (área de interface entre a Psicologia e a Pedagogia) aos poucos instala um discurso que necessita ser aprofundado, levando a ciência psicológica a um novo momento: aquele em que seconsigapôr fim a uma visão cartesiana de Homem – nesse caso, os ‘Sujeito Aprendente e Sujeito Ensinante’ (FERNANDEZ, 1990) - e propor sua abordagem holística, integrando seus processos psicológicos num funcionamento dinâmico. Diversas são as produções teóricas acerca de tal estudo, e torna-se mais que imprescindível que se analise em tais abordagens ‘de que sujeito se fala’.

Correa (1990) já discutia da impossibilidade da tecitura entre razão e desejo nos textos piagetiano e freudiano; para esta autora, refletir acerca da subjetividade a partir da ótica piagetiana é pensá-la como tributária de uma teoria do conhecimento, que, procurando romper com a tradição metafísica, aventurou-se na tentativa de unificar o empírico e o transcedental...” (p.59). Por outro lado, a Psicanálise teria proposto uma inversão ao sujeito cartesiano pela produção de um descentramento em relação à razão e a consciência, como já apontado anteriormente por Andrade (2000). Nessa direção, Correa (1990) aponta para a impossibilidade de uma assimilação recíproca entre esses dois teóricos – especialmente entre seus diferentes ‘Sujeitos’ – mas aponta para o caminho de uma tentativa de ‘cooperação’ científica (para ela tributada muito mais à Piaget), fator que “distingue a sabedoria do conhecimento, a fé racionada da busca da verdade” (p.64).

Uma outra posição teórica é a contemplada pelos adeptos da ‘Teoria da Mente’. Olson (1997) postula que a subjetividade estaria associada à consciência – da mente e das nossas crenças vulneráveis – originária de uma nova maneira de ler e escrever, o que produz uma nova compreensão da linguagem e do pensamento.

O enfoque sócio-histórico, de base vigotskiana, analisa a constituição do sujeito psicológico a partir das influências culturais e históricas e ontogeneticamente, privilegia o papel do social e do interativo na constituição e desenvolvimento do seu psiquismo. Dentro dessa ótica, algumas linhas de pesquisa têm desenvolvido a concepção de subjetividade, que aponta a expressão do psicológico em sua especificidade, complexidade e singularidade, tanto no nível individual como no social (intersubjetividade). Oliveira (1992, p.80) aponta que a formação da consciência se dá através do processo de internalização – que nada mais é do que o processo de constituição da subjetividade a partir de espaços de intersubjetividade. Tal percurso promove a construção da singularidade humana: sujeitos são únicos através das suas experiências de vida na relação com o mundo e com seus pares.

Assim, Vigotski parece buscar uma redefinição da dimensão psicológica humana, o que simultaneamente provoca uma reconstituição do objeto da psicologia não apenas por conceber a constituição histórica do sujeito e da subjetividade mas, sobretudo, porque ao propor isto, termina por transformar a concepção da natureza do fenômeno psicológico e a metodologia desta ciência. No momento em que afirma a constituição sócio-histórica dos processos psicológicos, Vigotski não perde o sujeito nem a subjetividade, pois os fenômenos psicológicos são relações sociais convertidas no sujeito através da mediação semiótica. Para este teórico, o contexto cultural é determinante na formação da subjetividade humana. Nesse sentido, como discute Molon (1999) o sujeito vigotskiano é ‘quase-social’, não apenas expressa o social e nem o internaliza em situações artificiais, mas se constitui e é constituinte dos outros pela linguagem.

Por fim, no campo da Psicanálise, a idéia de subjetividade está atrelada à produção psíquica, como explicita Mezan (1997, in Bock et. al., 2001):

[...] [a subjetividade] pode ser entendida de duas maneiras diferentes: como experiência de si e como condensação de uma série de determinações...No primeiro caso, caberia uma descrição fenomenológica das variedades e dimensões dessa experiência, tomando como alvo o sujeito enquanto foco e origem dela [...][por outro lado] a subjetividade como estrutura e experiência de si depende sobremaneira do lugar social que ocupa o indivíduo, o que, para dizer as coisas de modo claro, implica saber de que lado da luta de classes ele está – dos que produzem mais-valia ou dos que participam na sua apropriação (p. 87).

A posição adotada por este teórico reflete aqui não somente uma posição especificamente psicanalítica, porém, sobretudo, freudo-marxista.

Desse modo, a contribuição da psicanálise para a concepção de subjetividade traz em seu bojo uma visão dialética de sujeito, sendo esse criado, mantido e ao mesmo tempo, descentrado dele próprio por meio da inter-relação dialética entre consciência e inconsciente: não há uma posição privilegiada de um em relação ao outro, mas a coexistência de uma relação mútua de criação, preservação e negação. Ogden (1996) salienta que é o princípio da presença-em-ausência e da ausência-em-presença que se situa na base da concepção freudiana

de tal movimento dialético. Contudo, esta é uma abordagem mais contemporânea da Psicanálise que abarca os princípios freudianos mesclados a toda uma concepção sócio- histórica de sujeito; daí a pertinência da inclusão desta reflexão neste trabalho, salvaguardando apenas os aspectos informativos e ilustrativos de tal discussão.