3 CAPÍTULO III 55
3.4 Dialogismo e Subjetividade: Algumas interlocuções 79
Como o social se constitui na relação com o sujeito, ou seja, para a sua subjetividade? Apenas por um construto que seja mediador entre o sujeito e o mundo, que o possibilite olhar usando este, simultaneamente, para dentro e para fora. Este construto é a Linguagem, por ser o processo que semiotiza tal encontro.
Segundo Linell (1998), existem, pelo menos, duas concepções de Linguagem quando abordamos tal temática inserida nas abordagens do diálogo: a primeira, de cunho formalista, concebe a linguagem como um sistema particular, estrutural, onde a lógica formal é auto- explicativa. Termos como sentença, fonema, significado léxico, proposição, sintaxe, substantivos, frases nominais, etc., são usuais nessa concepção. Em contraste com essa, a segunda, de âmbito funcionalista, defende que a linguagem necessita ser vista como discurso, prática, comunicação, já que só faz sentido se pensar sobre aquilo que é dito e, conhecido, por atores em contextos específicos. Dessa forma, o significado está presente no aqui e agora, mesmo que em certa parte limitado pela estrutura do sistema lingüístico. Inseridas nesta concepção, palavras como enunciado, interpretação, implicação, coerência, mensagem, contexto, gênero, resposta, perspectiva, posição, etc., ganham significados especiais. Assim, é a perspectiva funcionalista a que embasa os estudos acerca do diálogo que defendem a concepção do sujeito relacional, circunscrito um contexto sócio-cultural e autor de sua enunciação – a ação que este realiza no momento em que produz um enunciado. A linguagem é, nesse sentido, tomada como uma representação, constituída pelas práticas discursivas dos sujeitos em suas ações interdependentes.
Para tentar uma formalização de seu próprio conceito de Linguagem, Bakhtin constrói uma crítica às duas correntes consideradas como as expoentes dos estudos da Linguagem: o ‘objetivismo abstrato’, que tem como principal expoente Saussure, e que defende a linguagem como um sistema puro de leis governado pelas formas gramaticais, léxicas e fonéticas,
constituindo-se como normas invioláveis sobre as quais os falantes não têm controle algum; traduzindo, a Linguagem é vista como um acontecimento inteiramente fora da pessoa. Por outro lado, e em oposição a esta, o ‘subjetivismo idealista’ nega a pré-existência de normas e assegura que todos os aspectos da linguagem podem ser explicados em termos das intenções voluntárias de cada sujeito presente no diálogo: a linguagem está completamente dentro da pessoa. Como discutido por Brait (1997), para Bakhtin, o Dialogismo deveria se configurar como um caminho de ‘mediação’ entre essas duas correntes acima descritas: “O dialogismo é impensável fora da relação com linguagem”. (HOLQUIST, 1994, p. 40 - tradução nossa).
Holquist (1994) assinala que, na perspectiva bakhtiniana, o dialogismo é visto como uma epistemologia – ‘uma teoria do conhecimento pragmaticamente orientada’. Ou seja, uma importante epistemologia moderna que procura compreender o comportamento humano através do uso que os humanos fazem da linguagem. Nesse âmbito, tal concepção se destaca quando propõe como fundamental o ‘conceito dialógico de linguagem’. O termo ‘dialogismo’ não foi criado por Bakhtin, mas resume bem o conjunto interconectado de interesses acerca desta temática.
Os antecedentes filosóficos imediatos do dialogismo são encontrados nas tentativas realizadas pelos neo-kantianos para superar a dualidade entre matéria e espírito. Segundo Holquist (1994), a tentativa para estruturar uma concepção teórica acerca do conhecimento humano numa época em que dominavam as ciências naturais (e seus métodos) encontrou no dialogismo uma importante tendência no pensamento europeu para reconceptualizar melhor a epistemologia, de acordo com as novas versões da mente.
O cerne fundamental do dialogismo para Bakhtin é a ‘não identidade mente/mundo’, o que pode se ampliar para a ‘não identidade do conhecimento’ (distante, no entanto, de uma visão ‘idealista’). Para este teórico, a mediação se situa no como nós sabemos, ou seja, se baseia no diálogo, precisamente porque o lugar do conhecimento posto não é nunca unitário.
Dessa forma, como se pode nomear as relações entre a série de construtos que serão decorrentes em tal processo mediacional? Há um gap que parece intransponível entre os dois pólos e, então, se há uma diferença entre estes, a única relação possível de ser desenvolvida é a relação dialógica.
Nesse sentido, o conceito de autoria por ele proposto (que poderia ser aqui tomada em paralelo à subjetividade individual) promove a percepção/perspectiva de cada self/sujeito, que apenas podem ser encontradas e reveladas quando entram em contato no diálogo. Neste momento, há a produção da intersubjetividade que necessita da criação de um espaço comum, portanto, semiotizado, e que dessa forma só pode ser expresso pela Linguagem. A existência como linguagem é, assim, um evento compartilhado, e para Bakhtin, a chave está na compreensão no diálogo entre o próprio sujeito (self) e o ‘outro’ (other), desenvolvido num tempo e espaço de ‘simultaneidade’. No entanto, separação e simultaneidade são condições básicas da existência e, portanto, o dialogismo poderia ser visto como uma versão da ‘relatividade’13. Em um outro sentido, tal idéia (de separação e simultaneidade) poderia ser
remontada ao modelo de separação inclusiva proposto por Valsiner e descrito no Capítulo III, seção 3.1.4, do presente trabalho.
Outra idéia também defendida por Bakhtin foi a de estabilidade, que pode ser tomada como quase ‘abstrata’, já que defendia um momento de espaço único entre as subjetividades. Não há diálogo sem negociação de significados compartilhados. Tais significados são construídos, segundo Rommetveit (1990), nos ‘contratos temporários’ desenvolvidos entre o self e o other. Dessa forma, a ‘estabilidade temporária’ do outro também constrói os outros internalizados do self, que pela dinâmica ininterrupta, já enviam novas mensagens. Essa seria uma forma de garantir a identidade do sujeito que, existe, enquanto diálogo.
Assim, na perspectiva dialógica, a aprendizagem deve ser entendida como um
estabelecimento de um longo processo de negociação de sentidos, de significados potenciais que, algumas vezes, podem até ter relações com o canônico (como no contexto da sala de aula, por exemplo). A idéia de uma multiplicidade de sentidos construídos no diálogo torna-se importante para a compreensão das questões metodológicas e conseqüentemente para a análise do processo. Este fato parece estar sendo bastante negligenciado na ciência psicológica, podendo ser tal reflexão uma perspectiva que forneça uma visão diferente acerca dos processos psicológicos.
Como o diálogo é conectado com a linguagem? Segundo Holquist (1994) existem duas pressuposições para Bakhtin: ou (a) o diálogo é uma metáfora bakhtiniana extraída dos aspectos da linguagem comunicativa e então aplicado para outras categorias fora dos limites da Linguagem? ou (b) o diálogo é um princípio mestre governando a existência, que então encontra uma expressão paradigmática particular na linguagem da conversação? Bakhtin prefere o caminho dialético both/and, ao either/or. A sua resposta à questão da primazia é uma pressuposição básica e fundamental que defende que a priori nada é em si próprio: a existência é um evento de ‘co-sendo’.
Assim, a perspectiva dialógica enaltece a existência do diálogo enquanto processo contextualizado onde significados compartilhados são produzidos. Como discute Brait (1997, p.98), o dialogismo diz respeito ao permanente diálogo, nem sempre simétrico e harmonioso, existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade, uma cultura, uma sociedade. É nesse sentido que se pode interpretar o dialogismo como o elemento que instaura a constitutiva natureza discursiva da linguagem (...) por outro lado, o dialogismo se relaciona às relações que se estabelecem entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos que, por sua vez, instauram-se e são instaurados por esses discursos. E aí, dialógico e dialético aproximam-se, ainda que não possam ser confundidos, uma vez que Bakhtin vai falar do eu que se realiza no nós, insistindo não na síntese, mas no
caráter polifônico dessa relação exibida pela linguagem.
Na tentativa de compreender a construção do sentido, ou para outros teóricos, como Bruner, a produção de significado, Bakhtin argumenta que o signo ocupa um lugar de interface entre o organismo e o mundo. Esta é uma realidade semiótica, pois o signo está situado em sua possibilidade de ser externo e interno simultaneamente. A via semiótica termina por ser ‘a grande via’, pois a maneira como o sujeito apreende a sua realidade interna também é através do signo, que se constitui no seu mundo simbólico, de construções semióticas.
Bakhtin, afirma:
a realidade do psiquismo subjetivo é a do signo. Sem material semiótico, não se pode falar em psiquismo. Por natureza, o psiquismo subjetivo localiza-se no limite do organismo e do mundo exterior, ou seja, na fronteira dessas duas esferas da realidade. É nesse limite que se dá o encontro entre o organismo e o mundo exterior, mas este encontro não é físico: o organismo e o mundo encontram-se no signo. A atividade psíquica constitui a expressão semiótica do contato entre o organismo e o meio exterior. Eis porque o psiquismo subjetivo não deve ser analisado como uma coisa; ele não pode ser compreendido e analisado senão como um signo. (...) o que faz da palavra uma palavra é a sua significação; o que faz da atividade psíquica uma atividade psíquica é, da mesma forma, sua significação. Se abstrairmos a significação, perdemos, ao mesmo tempo, a própria substância da vida psíquica subjetiva (BAKHTIN & VOLOCHINOV, 1995, pp. 48/49).
Desta forma, esses dois processos de constituição do psiquismo humano apresentam uma imbricada interface, como pudemos observar. Falar de dialogismo sem considerar um espaço de intersubjetividade é impossível; discutir intersubjetividade sem fazer menção à constituição da subjetividade individual é sem sentido. Portanto, subjetividade e dialogismo só podem ser produzidos em inter-locuções.
É no espaço da dialogicidade, da ‘polifonia de vozes’ que o sujeito, para Wertsch, pode se constituir. Smolka et. al. (1998) discutem de forma bastante promissora a questão da formação da consciência individual ou a constituição do sujeito individual, considerando duas abordagens: uma que privilegia e analisa o funcionamento individual fundamentado nos princípios sócio-genéticos (baseada nas propostas de Valsiner); e outra que se apóia no
conceito de intersubjetividade (retomado por Wertsch a partir da contribuição de Rommetveit, conforme já discutido). Segundo Smolka et. al. (1998), Rommetveit afirmava que a intersubjetividade era uma condição da verdadeira comunicação humana onde os interlocutores acreditavam num mundo experimental compartilhado de forma recíproca: “a intersubjetividade deve, de algum modo, ser tida como confiável para ser atingida. Esse semiparadoxo pode, na verdade, ser imaginado como um postulado pragmático básico do discurso humano” (1985, in SMOLKA ET AL., 1998, p. 146).
Partindo dessas premissas e enfatizando o fenômeno que aqui está sendo estudado, destacamos a relevância da narrativa e do diálogo, seja em sala de aula ou em outros espaços da instituição escolar, que revelam e expressam a construção desse sujeito enquanto professor, e especificamente, enquanto professor DE matemática. A descoberta do significado e de como se tem elaborado a função social exercida é produzida na trama das multi-determinações do processo histórico cultural, constituindo-a como prática e modo de ser do indivíduo.
A narrativa, presente em espaços dialógicos como a sala de aula, não é uma expressão da linguagem comprometida somente com o contexto relacional, mas antes disto, é uma expressão dos sujeitos que a constroem, na mesma medida em que é uma expressão dos interlocutores desse sujeito dentro do espaço social em que é produzida.
O capítulo seguinte revela a proposta metodológica para a investigação processual do fenômeno delimitado para este estudo.