32 Os dados constam do livro
de Ucia Valladares, 1 980
No plano estadual. o governo Negrão de Lima foi o recordista em reassentamentos de favelas: 33 foram removidas, contra 27 do governo Carlos Lacerda, apesar da atuação da Codesco. que defendia a permanência dos favelados.32
O erro da Codesco foi generalizar. Erro, aliás, que vem sendo cometido por todas as administrações no Rio e no país. Acontece que favela não pode ter tratamento uniforme. Cada uma tem uma história diferente, topografia distinta, clima próprio e uma composição de pessoas inteiramente diversa. Há favelas ricas e outras muito pobres. Há os aspectos de risco. Há os casos de invasão de áreas de preservação. Tudo isso tem que
ser levado em conta. Não se pode simplesmente dizer: "Todas vão ficar ou todas vão sair".
t
a maior burrice que já ouvi na vida. Isso eu tive oportunidade de dizer ao pessoal da Codesco, numa reunião a que fui chamada. já no governo Negrão de Uma.A secretária dos Serviços Sociais, à qual estava submetida a Codesco, era a He loísa Dunshee de Abranches, sobrinha da condessa Pereira Carneiro, do lonal do Brasil.
Mas quem mandava de fato era o professor José Arthur Rios. O diplomata Marcllio Mar ques Moreira, amigo da família Dunshee de Abranches, também estava na Codesco Para eles, o governo federal entregou a outra parte do terreno que resolveria o problema da favela de Brás de Pina. Bastava fazer os arruamentos, implantar as redes de esgoto, água
e luz e remanejar as famílias. Seria feita uma outra Vila Kennedy, na beira da avenida Brasil
Mas, não conseguiram legalizar a transferência, não sei por que, e a coisa foi se arrastando. Havia lá, para atrapalhar, um religioso basco, o padre Artola, que era uma fi
gura! Era da mesma linha do professor Rios. Ignoro quem criou a lenda de que a favela de
Brás de Pina foi a primeira a ser urbanizada e que, graças a ela, a guerra contra a remo ção foi vitoriosa Essa foi a novela que inventaram. Mas não houve nada diSSO. Simples mente, a favela não saiu dali porque eles não tiveram competência para legalizar e usar
o terreno. Até hoje, isso é o mais doloroso, ninguém tem a titulação de propriedade em ordem. Fizeram malfeito, deixaram as ruas desalinhadas, não entenderam que havia um
espaço maior, para dar mais conforto e para as casas poderem aumentar, depOIS. Resultado: Brás de Pina é um dos piores exemplos de urbanização de favelas Nós fizemos muito melhor. O resultado final na Vila Vintém e na Vila da Penha é infini tamente melhor.
• o que f3zer com d populaão pobre? A favela nos anos 60
o governador Negrão de Lima ficou paralisado pela incapacidade da Cadesco.
A decisão da secretária Heloísa Dunshee de Abranches era firme: só urbanização. Mas acontece que nem isso eles faziam! Era discurso sobre discurso, mas não urbanizavam nada! Foi um vexame esse período. As favelas só fizeram crescer, principalmente com a notícia da urbanizaçào.
Nos anos 70, o problema habitacional passou a incluir também os conjuntos habitacionais. E a Cohab transformou-se em instrumento de politica c1ientelista?
Não é bem assim A política dos conjuntos já tinha sido praticada pela CHISAM,
que era federal. Foi a patir do governador Chagas Freitas que as Cohabs do estado do Rio se lançaram nesse projeto Graças a essa política eleitoreira e demagógica surgiram figuras como os deputados Miro Teixeira, Sandra Salim e alguns outros. Os novos conjuntos substituíram os antigos currais eleitorais. A cidade era mapeada da seguinte maneira: em cada conjunto, era feita a distribuição dos votos para os Integrantes da chapa do grupo do governador. Aqui fulano vai ter 335 votos, aqui sicrano vai ter 260, aqui beltrano vai ter 1 50. Eram uns t 5 nomes, distribuídos pelos conjuntos. No mais, a propaganda ficava inteiramente centrada no famoso cabeça de chapa. Graças ao voto proporcional - essa vergonha, que ainda está aí - o eleito em primeiro lugar puxava o resto. Toda essa manobra era realizada às custas daquele eleitor carente, que ficara na mão deles. Hoje não, graças a Deus, a cabeça das pessoas melhorou muito. Democracia é um negócio que, quando funciona, a turma aprende
Entre 1970 e 1974 o número de favelas saltou de 162 para 283, Não se poderia encará-Ias não como problema, mas como solução?
Favela não é problema, nem solução. A favela é sempre o final infeliz de um processo errado de instalaçào urbana e de um processo, ainda mais errado, de trabalho no meio rural. A favela, para mim, era a solução dramática que algumas pessoas tinham encontrado para sobreviver na cidade grande. Esse esforço deles era e é digno de todo o respeito. Não é fácil a vida deles. Construir uma moradia relativamente segura Morar sempre bem longe do trabalho Acordar cedo e pegar um transporte penoso. Manter tudo razoavelmente limpo. Brigar pela escola dos filhos. E, nos dias de hoje, tentar impedir que o traficante consiga aliciá-los, é uma tarefa impressionante. A favela nunca me incomodou do ponto de vista estético. A favela ao lado não incomoda por tais motivos. O que incomoda é ver as pessoas tendo que viver daquela forma, sem participação real nas vantagens de uma cidade urbanizada.
Minha postura sempre foi de solidariedade e vontade de ajudar. Desde 1 955, quando fui vereadora, engajei-me em projetos de promoção social para a população favelada Eu achava, e ainda acho, que um dos maiores causadores de favelas é o sistema de transporte de massa Fui relatora do projeto do metrô, naquela ocasião. Não há favelas nas cidades bem servidas de metrô - falo de favelas como as nossas. Existem os guetos, mas isso é outra história. Eles se formam em qualquer sociedade, como uma doença. Não é o caso do nosso favelado. Ele é rigorosamente igual aos demais
Sandra Cavalcanti •
moradores da cidade.
É
gente (amo a gente, com os mesmos defeitos e qualidades. A diferença está no sofrimento de ter que morar daquele jeito.As favelas do meu tempo na Secretaria de Serviços Sociais eram muito diferentes das de hoje. Aquele caráter transitório e precário do barraco, acabou. Quando o governador Brizola permitiu que as construções pudessem ser em alvenaria, em 1 983,
houve uma revolução. Essa permissão, aliás, só existe no Rio. Esse é um dado que as pessoas devem levar em conta. A alvenaria mudou o morro. Não há barraco de madeira, zinco ou papelão. Só se vê tijolo e telha. A urbanização não tem maiS nada a ver com isso. Peguem a Rocinha, por exemplo: a única coisa que se pode urbanizar lá é o próprio favelado. Como? Oferecendo-lhe a mesma prestação de serviços públicos que qualquer pessoa encontra nas áreas legais.
A senhora paticipou da elaboração do programa Favela-Bairro? Não, porque só entrei para o governo César Maia em 1995. Mas o projeto
Favela-Bairro não traz nenhuma novidade. Não inventou a roda. Mas teve o mérito de repetir as boas experiências que haviam sido feitas no governo Carlos Lacerda, nas favelas menores. Eram pequenas intervenções urbanas, como a abertura de uma via de acesso para um carro de policia, uma ambulãncia, um socorro de bombeiros, um caminhão de lixo ou de entregas e, também, de um coche funerário Às vezes, uma escadinha segura para os dias de chuva. Colocando água, luz e telefone, e alguns serviços públicos, aquela comunidade já tinha um tratamento mais cidadão,
O prefeito César Maia encontrou mais dificuldades do que nós, porque tudo já está construido em alvenaria. O Favela-Bairro se preocupou mais em dar a esse favelado, que já construiu sua casa em alvenaria, a chance de ter água, pagar pela luz, pelo gás, pelo esgoto. E, resolvendo os casos de titularidade, pagar o IPTU. Enquanto a titularidade
não estiver legalizada, existem outros caminhos Uma de minhas sugestões, imediatamente aceita, foi a seguinte: já que eles não possuem titulação, devem organizar uma associação que, (omo pessoa jurídica, contrata os servíços públicos ou privados e paga as contas da comunidade. Mas não é nenhuma novidade; a novidade foi fazer o projeto e levá-lo adiante.
Foi assim que no governo Carlos Lacerda fizemos a primeira escadinha segura do Pavão-Pavãozinho, com corrimão para as pessoas poderem subir e descer com segurança. Fizemos intevenções na Mangueira, no Borel. no morro do Formiga, em uma porção de lugares
Que pontos de convergência e de divergência existem entre a polítíca de reassentamento dos favelados praticada pelo governo Lacerda e o programa Favela-Bairro, praticado pelos prefeitos César Maia e Luiz Paulo Conde, a patir de 19937
Ambos partilham a visão de que é preciso dar melhores condições de vida àquelas pessoas; a visão de que a favela não é um problema, as pessoas é que têm problemas nas favelas; a visão de que temos que resolver esses problemas para eles, porque a solução de vida que eles encontraram foi aquela
• o que fazer com a populaçio pobre? A favela nos anos 60
Do meu ponto de vista, a solução tem que incluir transporte de massa decente e um sistema de crédito habitacional ao alcance do bolso das pessoas. No dia que tivermos isso no Brasil, não haverá novas favelas para urbanizar. Eu tentei de todo jeito que o governo federal entendesse a imporMncia de uma linha de metrô atravessando a avenida Brasil, indo da praça Mauá até Itaguaí. A maioria de nossas grandes favelas se situa nesse eixo urbano. Doxiadis observava que há duas maneiras de medir a distancia entre a sua casa e seu trabalho: ou em quilômetros ou em tempo. Aquela estação do Estácio, por exemplo, permite que os funcionários da prefeitura venham todos de metrô; nenhum vem mais de automóvel ou de ônibus, como antes; faz uma diferença enorme. As pessoas não sentem mais que moram distantes, porque o metrô as deixa no centro da cidade, ou mesmo em Botafogo. A Linha Amarela também fez isso. Encurtou distâncias' Não. Encutou tempo.
Considero a questão do transpote de massas uma tragédia em n0550 pais. As empresas estatais se entupiram de funcionários, o governo ficou sendo o árbitro demagógico dos preços, não se importou com os custos e não conseguiu ter lucro de espécie alguma para fazer novos investimentos. Basta ver como acabou a Central do Brasil e como o metrô acabaria, se não fosse privatizado. Sou inteiramente a favor da privatização. Acho que o poder público tem que investir o melhor que puder nessas coisas, mas a execução do serviço tem que ser feita por um grupo a quem o Estado amanhã possa dizer: "Vá embora" . E isso ele não faz com sua própria gente.
Que dificuldades de relacionamento entre as entidades da Federação contribuem para a demora da solução dos problemas urbanos, como o transpote de massas, por exemplo?
Essa questão é fundamental. O conceito de municlpio precisa ser revisto.
Qualquer pessoa que more no Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Magé, ou até mesmo Petrópolis, se sente um habitante de uma mesma região metropolitana, com problemas absolutamente integrados.
Por exemplo, se uma linha de metrô atravessasse a ponte Rio-Niterói e chegasse
até Rio Bonito, o problema de moradia de um monte de gente estaria resolvido, drenando para outras áreas as populações que se adensaram de forma insensata no miolo da cidade do Rio Isto provocaria, cetamente, o fim de favelas desnecessárias, tanto no Rio quanto na periferia.
Que pespetivas a senhora vê para os poblems urbans do Rio de Janeio?
Na Constituinte de 1 987-88 apresentei, junto com vários companheiros, uma proposta de divisão do exerclcio do poder no Brasil. Aos tradicionais níveIS federal, estadual e municipal, somarlamos um, o metropolitano. Mas o Ibam entendeu a proposta como uma tentativa de acabar com os municípios. E montou um gigantesco
lobby municipalista. Juntou todos os prefeitos do país e baixou em Brasília, alegando que
Sandra Cavalcanti .
Infelizmente não fomos compreendidos e as coisas chegaram agora a verdadeiros impasses. Doxiadis dizia que era muito difícil resolver problemas que extrapolam os limites do município onde se formam, sem ter qualquer jurisdição que permita ir além
deles. Nossa idéia era a de constituição de conselhos e câmaras metropolitanas, que
coordenassem a solução daqueles problemas que são comuns às áreas que compõem uma metrópole. No mundo inteiro há organismos assim. Paris, por exemplo, tem um conselho que junta a grande cidade e todos municípios à sua volta. Londres também tem esta estrutura. Mas aqui, no Brasil, nem pensar.
Esses líderes são muito curiosos. Constróem Brasília sem rede de esgoto, sem metrô e sem bonde. Urbanizam a Barra da Tijuca sem um projeto de transporte coletivo nem rede de esgoto. Desculpem, mas não dá para engolir. Se tudo continuar na mão desses nossos "geniais" urbanistas-desenhistas, estamos fritos. O último urbanista digno do nome que passou por aqui e deixou alguma idéia consistente foi o Doxiadis. Depois dele, não teve mais ninguém.
Mas o prefeito Luiz Paulo Conde, não foi um prefeito-urbanista?
Como traço dominante, não Ele foi antes de mais nada um ótimo administrador. Participou como arquiteto-urbanista no governo de César Maia No seu, cumpriu quase todo o projeto que herdou do César Maia, teve essa fidelidade. A meu ver, ele entende que a questão principal - isso já discutimos várias vezes - inclui necessariamente o transporte de massas. Somos um município-chave, cercado de outros municípios por todos os lados, que, por sua vez, também são cercados por outros municípios ... Não estamos conseguindo sequer resolver o problema crucial de um novo aterro sanitário. O de Gramacho, em Caxias, está no fim. Existe uma proposta privada,
para uma área enorme, em Saracuruna, que atende a todos os requisitos. O lixo va'l
poder ir por barcaça, não ficará mais atravessando as ruas em caminhões Pois até agora
ninguém conseguiu se entender. Uns concordam, outros não. A Comlurb torce o nariz,
porque é uma estatal e fica com medo de perder o monopólio sobre o transporte do lixo.
É
muito difícil. As pessoas não têm generosidade para abrir mão de uma expectativa depoder.
O fato é que cabe ao prefeito resolver o problema do lixo em seu município.
É
assim que está na lei. Mas, e se você depende de uma área que está em outro? Está escrito que você manda naquele município, mas na verdade, a segurança não é por sua conta, para o lixo você depende do município vizinho, para o metrô é preciso usar o governo federal, e assim por diante
A posição conciliadora, assumida pelo prefeito Conde, de tentar se relacionar
cordialmente com o governo do estado e com o governo federal, com o BID, e até com
o Papa, teve muito a ver com o seu temperamento, mas não tem apoio legal, Esse é o
erro do municipalismo excessivo, Quando um município cresce, extrapola, invade o
vizinho e acaba com áreas verdes que existiam entre ele e o outro, é porque ambos já deixaram de ser apenas municípios. Se o morador pega uma rua, anda nela, sai de um
. o que fazer cm a populaçAo pobre? A favela nos anos 0
municipio e entra no outro sem perceber, é porque dois municfpios já deixaram de ser unidades independentes; est�o numa conversa de surdos, e surdos esclerosados. Não poderemos mais fugir dessa discussão por muito tempo. O destino do Rio de Janeiro vai se alterar significativamente quando se equacionar essa questáo metropolitana .
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Carlos Nelson Ferreira dos Santos, década de 1 980.