1985.46 Mudou alguma coisa em relação aos prefeitos nomeados?
O Saturnino, que tinha um peliil de PMDB, foi eleito junto com o Jó Resende, que tinha um peliil de PT; mas estavam ambos no PDl Saturnino é um político enérgico,
46 As eleições diretas para prefeito de capital, extintas pelo Ato Adicional n° 3 de 05.02_ 1966, foram restabelecidas em 1985.
A reforma urbana empreendidl por
George HaUS5mann em Paris (1853- 1 870), segundo Jaime 8enchimol, transformou a capital irancesa no modelo de metrópole industrial moderna que passou a ser imitado mundialmente O centro de Paris foi rasgado por um conjunto monumental de largos e extensos bulevares em perspectiva, com fachadas uniformes de todos os lados, pondo fim aos populoos quarteirões populares e ao emaranhado de ruas estreitas e tOrtuOSIS Haussmlnn deu aos bulevares o carMer de grandes artérias, capazes de atender ao tráfego pesado e articular os principais terminais de
circulaçào de trabalhadores e de
mercadorias. Outra grande novidade urbanfstka foram as praças abertas ao grande público, concebidas como pulmões localizados em lugares de maior tráfego_ Em 17 anos, Haussmann realizou um conjunto sem precedentes de obras urbanfsticas que, a�m das avenidas e parques, inclufam mercados públicos, estações e quartéis, canalizações de água e esgoto.ver Jaime larry Benchimol, 1990
Pedro Te'lxeira Soares •
mas seu pefil é mais de legislador do que de governante. E faltou execução; planejava se muito e executava-se pouco.
Por mimetismo em relação ao governo federal, o Saturnino criou a Secretaria de Desenvolvimento Urbano - foi quando o governo federal criou o Ministério do Desen volvimento Urbano - para onde transferiu o Departanento de Edificações, que estava na Secretaria de Obras. Isto significou reunir no mesmo órgão, depois de muitos anos, o planejamento, o licenciamento e a fiscalização; a partir dai, elaborar a legislação, licenciar as obras e fiscalizar seu desenvolvimento passou a ser tarefa da Secretaria de Desen volvimento Urbano.
O secretário era o arquiteto Flávio Ferreira, e seu chefe de gabinete era o Sérgio Magalhães; pela primeira vez, tivemos um secretário com titulas acadêmicos: doutorado nos Estados Unidos. Bom arquiteto, falava de cidade, já tinha essa linguagem de cidade ... No fundo, ninguém entendia muito o que estava acontecendo, acho que em lugar nenhum do mundo. Depois da invasão do automóvel, estavam todos a fazer obras viárias, vias expressas e não-sei-mais-quê. Degradando a cidade para caber mais carro.
Não podemos nos esquecer de que todo o plano do Lúcio Costa para a ocupa ção da Barra da Tijuca, por exemplo, foi feito com o mesmo conceito rodoviário de
Brasília. Ele acabou de construir Brasilia em 60 e em 67 já estava fazendo o plano da
Barra. Agora, não podia ficar igual, porque na Barra as terras tinham dono, ao contrário de Brasília. As pessoas não se dão conta de que é muito fácil dizer: "Aqui vai ser assim
porque eu quero", quando as terras não têm dono. Recentemente, o jonal do Brasl de
cidiu fazer uma matéria sobre o Lúcio e OUVIU muitas pessoas, inclusive eu. Uma pergunta
que me fizeram foi: "O que foi desobedecido no Plano Lúcio Costa para a Barra?" Eu
respondi: " Menos de 1 0%. O Lúcio Costa estava à testa, porque foi assessor da Secreta
ria de Planejamento e da de Desenvolvimento Urbano até morrer. Discutiu passo a passo todos os decretos."
Mas ele não previu aqueles prédios altíssimos na avenida Sernambetiba,
Quando em 1 98 1 houve a regulamentação do hotel-residência, perguntaram a
ele onde poderiam construí-los. Hotel-residência é hotel? O Lúcio entendeu que é Depois que construíram prédios residenciais multifamiliares, disfarçados de hotel-residência e com altura de hotel, ele se revoltou: "Eu não previ essa quantidade de coias altas." Não pre viu, mas aconteceu. Não houve desobediência; aquilo estava contido nas potencialidades do Plano. Podemos discutir a obsolescência precoce daquele Plano, o que é outra coisa. Agora, o Flávio Ferreira tinha outra concepção urbanística. Trouxe para a politica
de planejamento urbano uma série de críticas à legislação pois, como muitos pós
modernos, ele considera a torre desestruturante da quadra francesa, da quadra contínua edificada, das fachadas iguais, do gabarito único das grandes ruas - a postura
haussmanniana, que deu Paris, Barcelona e uma porção de outros lugares; grandes
perspectivas, ruas retas.
t
bonito, sem dúvida alguma. O Plano Agache é isso: quadrascontínuas, prédios encostados um no outro, algumas galerias cobertas.
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Como já vimos aqui, o Decreto n° 3.800, de 1 970, consolidou no Brasil o con ceito de torre - já havia um ou outro prédio alto, como o Caparaó, de que falamos; a Mesbla, no Passeio Público; o edifício de A Noite; alguns em Copacabana, prédios art déco muito bonitos. O decreto diz que, se o prédio estiver suficientemente afastado das divisas, pode ter altura ilimitada, a não ser em lugares proibidos por outra legislação - o gabarito dos hotéis de Copacabana foi limitado pela parábola de tiro do forte Copaca bana. Mas em lugares onde não havia outras limitações, para se incentivar o ramo hote leiro, permitiu-se a altura ilimitada Construídos no meio de uma quadra, esses prédios provocaram realmente sua desestruturação.
O Flávio era muito contrário a isso, pois o urbanismo que ele defendia tinha sido aprendido com os grandes mestres europeus. Reformulou o decreto, fixando mais alguns limites: o prédio pode ser construído afastado das divisas, mas a área total edificada tem que ser igual à obtida caso o prédio fosse construído encostado; a altura pode ser ultra passada, mas o volume deve permanecer o mesmo. Com isso, não há qualquer ganho especial em remembrar terrenos contínuos.
Paralelamente, ele criou um grupo de trabalho para consolidar e simplificar a legislação da época. Contratamos algumas firmas e dissemos o seguinte: "Teremos que fazer projetos de estruturação urbana para essas Unidades Especiais de Planejamento.
Nós fornecemos o levantamento aéreo das UEPs, e nele vocês vão inserir a legislação atual, sem qualquer crítica. E outra coisa: vamos fixar regras para a construção de residências unifamiliares, multifamiliares, hotéis, estabelecimentos comerciais etc. Assim, quem quiser erguer um prédio de apatamentos no Grajaú, vai pegar o caderninho do bairro e procurar as regras para prédios multifamiliares na área. Não precisa saber mais nada além disso." Era um maneira diferente de fazer o código de obras. Além disso, eu pedi ao Flávio: "Vou fazer uma radiografia da cidade. Peça ao prefeito para mantê-Ia imóvel durante três ou quatro meses, porque se ele modificar a legislação nesse meio-tempo, nunca conse guirei terminar o trabalho."
O Saturnino agüentou dois meses, mas aí vinha a eleição, vinham as pressões, e o trabalho ficou pela metade; essa foi uma experiência frustrada Uma pena, porque perdemos uma grande oportunidade de organizar tudo.
o vice-prefeito Jó Resende era egresso de movimentos comunitários.
Que influência isso teve nas ações de governo?
Ele tinha um conceito ainda inédito de participação popular e criou os Con selhos Governo-Comunidade. Você discutia no local com as associações de moradores afinal, ele próprio tinha presidido a Associação de Moradores do Cosme Velho e depois a FamerJ, como representante da Associação dos Mutuários do BNH. Mas o Jó é uma pessoa de temperamento difícil. Autoritário, fala alto, é espaçoso, muito espaçoso. A partir dos Conselhos Governo-Comunidade, interferia em todo o governo; tudo passava pelo seu gabinete. 47
47 Ver depoimento de J6 Resend? sobre f
sua passagem na vice-prefeitura do Rio .
Janeiro em Marieta de Moraes Ferreira. Dora Rocha e América Freire, 2001
dro Teixeira Soares .
Em 1 986, quando se iniciou a sucessão estadual, o Jó assumiu politicamente a posição de organizar a campanha do Darcy Ribeiro na cidade do Rio de Janeiro. E pegou pesado, não propriamente para eleger o Darcy, mas para evitar a eleição do Moreira Franco, que ele odiava, não sei por quê. Lembro que, às vésperas da eleição, fizeram uma "pajelança" no Maracanãzinho, e o Jó Resende perdeu inteiramente as estribeiras; ele urrava! Berrava coisas assim: "Não vou deixar nenhum cabo eleitoral do Moreira subir em nenhuma favela do Rio de Janeiro," Ele não tinha qualquer poder para isso, mas ameaçava. Com o final do governo, sumiu do mapa.
Como funcionavam os Conselhos Governo-Comunidade?
Do ponto de vista de gestão, deram algum resultado positivo, foram impor
tantes. Por exemplo, antes de fechar uma pista inteira da rua Jardim Botãnico para construir uma câmara subterrânea da Light em frente à ABBR, o vice-prefeito convoca
uma reunião com a Light, a CEE, a Associação de Moradores do Jardim Botânico e de
áreas que possam ser afetadas por retenções de trânsito, como São Conrado e Barra, e todos paticipam, dando sugestões, propondo alternativas.
A gestão de uma obra dessas era monitorada pelo gabinete do vice prefeito?
Sempre. Era o gabinete do vice-prefeito que julgava se a obra requeria a con vocação do Governo-Comunidade para dizer por que não se faz assim, não se faz assado. Agora, cada um só era chamado para uma área de seu conhecimento específico. Eu jamais compareci a uma reunião sobre problemas de Santa Cruz; quem ia era alguém com experiência na região. Mas a Secretaria de Desenvolvimento Urbano sempre partI cipava de tudo.
E o que faltou para essa experiência dar ceto?
As representações patronais, como Associação Comercial, Federação das Indús trias, Sindicato da Construção Civil etc. estavam habituadas a exercer sozinhas essa in fluência, atuando diretamente junto às autoridades, sem coordenação nem formalidade. Convidadas, compareceram uma vez, e nunca mais apareceram.
Como Robeto Saturnino foi levado a decretar a falência do municipio do Rio?
Considero seu governo bastante criativo para a cidade, extremamente inovador.
a fracasso de sua gestão foi absolutamente sem culpa, não foi uma má gestão do administrador que gastou errado; o Saturnino fez o que podia fazer, mas teve as receitas bloqueadas. A partir de 1 987, depois que saiu do PDT, então, tudo piorou mais ainda.
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Qual foi o legado do governo Saturnino para a política de desen volvimento urbano?
Sobrou pouca coisJ: fizemos apenas um código de construção multifamiliar,
comercial e de serviços -o de construção unifamiliar já estava feito. E fizemos mapas, que
aqueles escritórios apresentaram, mas com a legislação daquele momento; até hoje usamos mapas daquele tempo São 55 Unidades Especiais de Planejamento: bairros ou conjuntos de bairros que foram considerados coerentes em 1 978, no PUB-Rio e depois consagrados no Plano Diretor de 1 992. O PUB-Rio era "filho" do Plano Doxiadis. Foi onde primeiro se disse: "Não tem sentido fazer uma legislação única para uma cidade com esse território. Vamos tomar unidades menores, com alguma coerência, e legislar sobre ela." O foco mudou, mas era preciso ter primeiramente um macrozoneamento, as grandes manchas; em seguida, um plano de transportes, de hierarquização de áreas, que interligasse essas UEPs; é como um cacho de uvas.
Mas o processo começou toto. Começou no Grajaú, e por quê? Porque a recém-eleita vereadora Benedita da Silva fez uma lei determinando que o gabarito má ximo do Grajaú seria de três pavimentos, até que se aprovasse o projeto definitivo. Tive mos que obedecer � lei da Benedita. Foi um início sem regra, sem coerência, mas te riamos que tocar assim mesmo. Aí veio a briga do Saturnino com o Brizola e sua saida do PDT. O partido retaliou violentamente, inclusive retirando vários quadros da Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Flávio Ferreira e Sérgio Magalhães foram com o Saturnino para o PS8 e ficaram até o final do governo, mas outros que se identificavam mais com o PDT foram obrigados pelo partido a pedir demissão. Entre os últimos estava João Sampaio que mais tarde brilhou como prefeito de Niterói.
o transpote urbano no Rio de Janeiro sempre foi um setor muito deli cado, Como foi a atuaão do governo nessa área?
O Rio sempre teve grandes dificuldades na área de transpotes, porque só cabe ao município a concessão de linhas m unicipais e de autonomias a táxis. Mais nada. Isto é uma deformação que interfere fisicamente na cidade. Há duas enormes faixas de ferrovias que constituem bloqueios urbanos tenebrosos, funcionam precariamente, e são praticamente paralelas a eixos rodoviários. Trata-se de uma deseconomia cavalar! Depois, o metrô, que sequer é metropolitano. A Linha Um, logo no começo, só servia para transportar afice bay, pois ia da Glória à Central do Brasil; depois é que foi estendida. E o município não tinha qualquer ingerência, porque os trens eram federais e o metrô era estadual.
NessJ área, não havia praticamente relações, mas com o transporte rodoviário o relacionamento sempre foi tenso. A Fetranspor manda no município, ninguém consegue organizar; eles querem linhas dobradas, para ter duas ocupações. Só depois da posse de CésJr Maia na prefeitura é que o município começou a ter uma ceta independência, impondo tarifa única e uma série de outras medidas.