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mas planejava-se demais e executava-se muito pouc o primeiro prefeito eleito do Rio de Janeiro foi Robeto Saturnino, em

No documento Capítulos da memória do urbanismo carioca (páginas 158-163)

1985.46 Mudou alguma coisa em relação aos prefeitos nomeados?

O Saturnino, que tinha um peliil de PMDB, foi eleito junto com o Jó Resende, que tinha um peliil de PT; mas estavam ambos no PDl Saturnino é um político enérgico,

46 As eleições diretas para prefeito de capital, extintas pelo Ato Adicional n° 3 de 05.02_ 1966, foram restabelecidas em 1985.

A reforma urbana empreendidl por

George HaUS5mann em Paris (1853- 1 870), segundo Jaime 8enchimol, transformou a capital irancesa no modelo de metrópole industrial moderna que passou a ser imitado mundialmente O centro de Paris foi rasgado por um conjunto monumental de largos e extensos bulevares em perspectiva, com fachadas uniformes de todos os lados, pondo fim aos populoos quarteirões populares e ao emaranhado de ruas estreitas e tOrtuOSIS Haussmlnn deu aos bulevares o carMer de grandes artérias, capazes de atender ao tráfego pesado e articular os principais terminais de

circulaçào de trabalhadores e de

mercadorias. Outra grande novidade urbanfstka foram as praças abertas ao grande público, concebidas como pulmões localizados em lugares de maior tráfego_ Em 17 anos, Haussmann realizou um conjunto sem precedentes de obras urbanfsticas que, a�m das avenidas e parques, inclufam mercados públicos, estações e quartéis, canalizações de água e esgoto.ver Jaime larry Benchimol, 1990

Pedro Te'lxeira Soares •

mas seu pefil é mais de legislador do que de governante. E faltou execução; planejava­ se muito e executava-se pouco.

Por mimetismo em relação ao governo federal, o Saturnino criou a Secretaria de Desenvolvimento Urbano - foi quando o governo federal criou o Ministério do Desen­ volvimento Urbano - para onde transferiu o Departanento de Edificações, que estava na Secretaria de Obras. Isto significou reunir no mesmo órgão, depois de muitos anos, o planejamento, o licenciamento e a fiscalização; a partir dai, elaborar a legislação, licenciar as obras e fiscalizar seu desenvolvimento passou a ser tarefa da Secretaria de Desen­ volvimento Urbano.

O secretário era o arquiteto Flávio Ferreira, e seu chefe de gabinete era o Sérgio Magalhães; pela primeira vez, tivemos um secretário com titulas acadêmicos: doutorado nos Estados Unidos. Bom arquiteto, falava de cidade, já tinha essa linguagem de cidade ... No fundo, ninguém entendia muito o que estava acontecendo, acho que em lugar nenhum do mundo. Depois da invasão do automóvel, estavam todos a fazer obras viárias, vias expressas e não-sei-mais-quê. Degradando a cidade para caber mais carro.

Não podemos nos esquecer de que todo o plano do Lúcio Costa para a ocupa­ ção da Barra da Tijuca, por exemplo, foi feito com o mesmo conceito rodoviário de

Brasília. Ele acabou de construir Brasilia em 60 e em 67 já estava fazendo o plano da

Barra. Agora, não podia ficar igual, porque na Barra as terras tinham dono, ao contrário de Brasília. As pessoas não se dão conta de que é muito fácil dizer: "Aqui vai ser assim

porque eu quero", quando as terras não têm dono. Recentemente, o jonal do Brasl de­

cidiu fazer uma matéria sobre o Lúcio e OUVIU muitas pessoas, inclusive eu. Uma pergunta

que me fizeram foi: "O que foi desobedecido no Plano Lúcio Costa para a Barra?" Eu

respondi: " Menos de 1 0%. O Lúcio Costa estava à testa, porque foi assessor da Secreta­

ria de Planejamento e da de Desenvolvimento Urbano até morrer. Discutiu passo a passo todos os decretos."

Mas ele não previu aqueles prédios altíssimos na avenida Sernambetiba,

Quando em 1 98 1 houve a regulamentação do hotel-residência, perguntaram a

ele onde poderiam construí-los. Hotel-residência é hotel? O Lúcio entendeu que é Depois que construíram prédios residenciais multifamiliares, disfarçados de hotel-residência e com altura de hotel, ele se revoltou: "Eu não previ essa quantidade de coias altas." Não pre­ viu, mas aconteceu. Não houve desobediência; aquilo estava contido nas potencialidades do Plano. Podemos discutir a obsolescência precoce daquele Plano, o que é outra coisa. Agora, o Flávio Ferreira tinha outra concepção urbanística. Trouxe para a politica

de planejamento urbano uma série de críticas à legislação pois, como muitos pós­

modernos, ele considera a torre desestruturante da quadra francesa, da quadra contínua edificada, das fachadas iguais, do gabarito único das grandes ruas - a postura

haussmanniana, que deu Paris, Barcelona e uma porção de outros lugares; grandes

perspectivas, ruas retas.

t

bonito, sem dúvida alguma. O Plano Agache é isso: quadras

contínuas, prédios encostados um no outro, algumas galerias cobertas.

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Como já vimos aqui, o Decreto n° 3.800, de 1 970, consolidou no Brasil o con­ ceito de torre - já havia um ou outro prédio alto, como o Caparaó, de que falamos; a Mesbla, no Passeio Público; o edifício de A Noite; alguns em Copacabana, prédios art déco muito bonitos. O decreto diz que, se o prédio estiver suficientemente afastado das divisas, pode ter altura ilimitada, a não ser em lugares proibidos por outra legislação - o gabarito dos hotéis de Copacabana foi limitado pela parábola de tiro do forte Copaca­ bana. Mas em lugares onde não havia outras limitações, para se incentivar o ramo hote­ leiro, permitiu-se a altura ilimitada Construídos no meio de uma quadra, esses prédios provocaram realmente sua desestruturação.

O Flávio era muito contrário a isso, pois o urbanismo que ele defendia tinha sido aprendido com os grandes mestres europeus. Reformulou o decreto, fixando mais alguns limites: o prédio pode ser construído afastado das divisas, mas a área total edificada tem que ser igual à obtida caso o prédio fosse construído encostado; a altura pode ser ultra­ passada, mas o volume deve permanecer o mesmo. Com isso, não há qualquer ganho especial em remembrar terrenos contínuos.

Paralelamente, ele criou um grupo de trabalho para consolidar e simplificar a legislação da época. Contratamos algumas firmas e dissemos o seguinte: "Teremos que fazer projetos de estruturação urbana para essas Unidades Especiais de Planejamento.

Nós fornecemos o levantamento aéreo das UEPs, e nele vocês vão inserir a legislação atual, sem qualquer crítica. E outra coisa: vamos fixar regras para a construção de residências unifamiliares, multifamiliares, hotéis, estabelecimentos comerciais etc. Assim, quem quiser erguer um prédio de apatamentos no Grajaú, vai pegar o caderninho do bairro e procurar as regras para prédios multifamiliares na área. Não precisa saber mais nada além disso." Era um maneira diferente de fazer o código de obras. Além disso, eu pedi ao Flávio: "Vou fazer uma radiografia da cidade. Peça ao prefeito para mantê-Ia imóvel durante três ou quatro meses, porque se ele modificar a legislação nesse meio-tempo, nunca conse­ guirei terminar o trabalho."

O Saturnino agüentou dois meses, mas aí vinha a eleição, vinham as pressões, e o trabalho ficou pela metade; essa foi uma experiência frustrada Uma pena, porque perdemos uma grande oportunidade de organizar tudo.

o vice-prefeito Jó Resende era egresso de movimentos comunitários.

Que influência isso teve nas ações de governo?

Ele tinha um conceito ainda inédito de participação popular e criou os Con­ selhos Governo-Comunidade. Você discutia no local com as associações de moradores ­ afinal, ele próprio tinha presidido a Associação de Moradores do Cosme Velho e depois a FamerJ, como representante da Associação dos Mutuários do BNH. Mas o Jó é uma pessoa de temperamento difícil. Autoritário, fala alto, é espaçoso, muito espaçoso. A partir dos Conselhos Governo-Comunidade, interferia em todo o governo; tudo passava pelo seu gabinete. 47

47 Ver depoimento de J6 Resend? sobre f

sua passagem na vice-prefeitura do Rio .

Janeiro em Marieta de Moraes Ferreira. Dora Rocha e América Freire, 2001

dro Teixeira Soares .

Em 1 986, quando se iniciou a sucessão estadual, o Jó assumiu politicamente a posição de organizar a campanha do Darcy Ribeiro na cidade do Rio de Janeiro. E pegou pesado, não propriamente para eleger o Darcy, mas para evitar a eleição do Moreira Franco, que ele odiava, não sei por quê. Lembro que, às vésperas da eleição, fizeram uma "pajelança" no Maracanãzinho, e o Jó Resende perdeu inteiramente as estribeiras; ele urrava! Berrava coisas assim: "Não vou deixar nenhum cabo eleitoral do Moreira subir em nenhuma favela do Rio de Janeiro," Ele não tinha qualquer poder para isso, mas ameaçava. Com o final do governo, sumiu do mapa.

Como funcionavam os Conselhos Governo-Comunidade?

Do ponto de vista de gestão, deram algum resultado positivo, foram impor­

tantes. Por exemplo, antes de fechar uma pista inteira da rua Jardim Botãnico para construir uma câmara subterrânea da Light em frente à ABBR, o vice-prefeito convoca

uma reunião com a Light, a CEE, a Associação de Moradores do Jardim Botânico e de

áreas que possam ser afetadas por retenções de trânsito, como São Conrado e Barra, e todos paticipam, dando sugestões, propondo alternativas.

A gestão de uma obra dessas era monitorada pelo gabinete do vice­ prefeito?

Sempre. Era o gabinete do vice-prefeito que julgava se a obra requeria a con­ vocação do Governo-Comunidade para dizer por que não se faz assim, não se faz assado. Agora, cada um só era chamado para uma área de seu conhecimento específico. Eu jamais compareci a uma reunião sobre problemas de Santa Cruz; quem ia era alguém com experiência na região. Mas a Secretaria de Desenvolvimento Urbano sempre partI­ cipava de tudo.

E o que faltou para essa experiência dar ceto?

As representações patronais, como Associação Comercial, Federação das Indús­ trias, Sindicato da Construção Civil etc. estavam habituadas a exercer sozinhas essa in­ fluência, atuando diretamente junto às autoridades, sem coordenação nem formalidade. Convidadas, compareceram uma vez, e nunca mais apareceram.

Como Robeto Saturnino foi levado a decretar a falência do municipio do Rio?

Considero seu governo bastante criativo para a cidade, extremamente inovador.

a fracasso de sua gestão foi absolutamente sem culpa, não foi uma má gestão do administrador que gastou errado; o Saturnino fez o que podia fazer, mas teve as receitas bloqueadas. A partir de 1 987, depois que saiu do PDT, então, tudo piorou mais ainda.

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Qual foi o legado do governo Saturnino para a política de desen­ volvimento urbano?

Sobrou pouca coisJ: fizemos apenas um código de construção multifamiliar,

comercial e de serviços -o de construção unifamiliar já estava feito. E fizemos mapas, que

aqueles escritórios apresentaram, mas com a legislação daquele momento; até hoje usamos mapas daquele tempo São 55 Unidades Especiais de Planejamento: bairros ou conjuntos de bairros que foram considerados coerentes em 1 978, no PUB-Rio e depois consagrados no Plano Diretor de 1 992. O PUB-Rio era "filho" do Plano Doxiadis. Foi onde primeiro se disse: "Não tem sentido fazer uma legislação única para uma cidade com esse território. Vamos tomar unidades menores, com alguma coerência, e legislar sobre ela." O foco mudou, mas era preciso ter primeiramente um macrozoneamento, as grandes manchas; em seguida, um plano de transportes, de hierarquização de áreas, que interligasse essas UEPs; é como um cacho de uvas.

Mas o processo começou toto. Começou no Grajaú, e por quê? Porque a recém-eleita vereadora Benedita da Silva fez uma lei determinando que o gabarito má­ ximo do Grajaú seria de três pavimentos, até que se aprovasse o projeto definitivo. Tive­ mos que obedecer � lei da Benedita. Foi um início sem regra, sem coerência, mas te­ riamos que tocar assim mesmo. Aí veio a briga do Saturnino com o Brizola e sua saida do PDT. O partido retaliou violentamente, inclusive retirando vários quadros da Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Flávio Ferreira e Sérgio Magalhães foram com o Saturnino para o PS8 e ficaram até o final do governo, mas outros que se identificavam mais com o PDT foram obrigados pelo partido a pedir demissão. Entre os últimos estava João Sampaio que mais tarde brilhou como prefeito de Niterói.

o transpote urbano no Rio de Janeiro sempre foi um setor muito deli­ cado, Como foi a atuaão do governo nessa área?

O Rio sempre teve grandes dificuldades na área de transpotes, porque só cabe ao município a concessão de linhas m unicipais e de autonomias a táxis. Mais nada. Isto é uma deformação que interfere fisicamente na cidade. Há duas enormes faixas de ferrovias que constituem bloqueios urbanos tenebrosos, funcionam precariamente, e são praticamente paralelas a eixos rodoviários. Trata-se de uma deseconomia cavalar! Depois, o metrô, que sequer é metropolitano. A Linha Um, logo no começo, só servia para transportar afice bay, pois ia da Glória à Central do Brasil; depois é que foi estendida. E o município não tinha qualquer ingerência, porque os trens eram federais e o metrô era estadual.

NessJ área, não havia praticamente relações, mas com o transporte rodoviário o relacionamento sempre foi tenso. A Fetranspor manda no município, ninguém consegue organizar; eles querem linhas dobradas, para ter duas ocupações. Só depois da posse de CésJr Maia na prefeitura é que o município começou a ter uma ceta independência, impondo tarifa única e uma série de outras medidas.

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