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Coisa julgada como qualidade dos efeitos da sentença

3. SEGURANÇA JURÍDICA E COISA JULGADA

3.4 COISA JULGADA: CONCEITO

3.4.2 Coisa julgada na doutrina brasileira

3.4.2.1 Coisa julgada como qualidade dos efeitos da sentença

A compreensão da coisa julgada como qualidade dos efeitos da sentença, ou seja, característica que recai nos efeitos da sentença, advém da lição de Liebman, que reconstruiu a teoria de Chiovenda, como exposto anteriormente.

No Brasil, em geral, as lições processuais de Liebman foram amplamente difundidas e adotadas, sobretudo por forte influência da escola de processo civil da Universidade de São Paulo, tendo Candido Rangel Dinamarco como um dos principais expoentes.

A principal justificativa para os adeptos dessa teoria que assim compreendem a coisa julgada é o fato dos efeitos da sentença serem possíveis de serem sofridos por terceiros, por sujeitos que não participaram do processo judicial. E, por outro lado, a coisa julgada detém eficácia subjetiva limitada às partes do processo judicial. Portanto, a coisa julgada não seria um dos efeitos da sentença. A coisa julgada não poderia ser confundida, por exemplo, com a efetividade do comando decisório (este sim, um efeito da sentença), que recai sobre terceiros, inclusive.324

Ademais, a coisa julgada não seria um efeito da sentença porquanto a sentença surte efeitos assim que prolatada, não se submetendo ao trânsito em julgado como condição para sua efetividade – condição, todavia, para formação da coisa julgada. E, destarte, coisa julgada e efeito da sentença seriam diversos, com marcos iniciais distintos.325

A coisa julgada, portanto, seria justamente uma qualidade que recai nos efeitos da sentença: a qualidade de indiscutibilidade e imutabilidade da sentença, que ampara com estabilidade os seus efeitos. A coisa julgada é vista como um manto de proteção da sentença que permite a plena fluência de seus efeitos em total força e eficácia.326

324 CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 29ª edição. São Paulo: Malheiros, 2013. P. 341

325 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, volume 2. 10ª edição. São Paulo: Saraiva, 2021. P. 359

326 NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de Direito Processual Civil: volume único. 8ª edição.

Salvador: Juspodivm, 2016. P. 797

Assim, a coisa julgada seria um “estado de segurança jurídica quanto às relações entre os que litigaram no processo”, incidindo sobre os efeitos da decisão de mérito; como ensina Dinamarco, na linha das lições de Liebman.327

A sentença, portanto, gera efeitos e tem eficácia independente da coisa julgada. É o que se extrai atualmente da possibilidade de cumprimento provisório de sentença, hipoteca judiciária legal, e pela própria redação de dispositivos do Código de Processo Civil, como, por exemplo, o artigo 502 que distingue coisa julgada e efeitos da sentença; eles, de fato, e para esta teoria, que parece ter sido adotada pelo diploma processual, não se confundem.328

A doutrina tem apontado que a alteração de redação do anterior Código de Processo Civil de 1973 para o atual Código de Processo Civil de 2015, ao modificar o termo

“eficácia” do revogado artigo 467 para o atual termo “autoridade” constante do mencionado e vigente artigo 502 é prova cabal da adoção da teoria de Liebman pelo sistema jurídico processual brasileiro, com adoção do próprio vocábulo (autoridade) do italiano.329

A coisa julgada é vista, assim, na linha do que Liebman preconizava, como uma autoridade que se agrega à eficácia da sentença, mas não se confunde de forma alguma com seus efeitos (eficácia).330

Nas lições de Liebman, traduzidas ao vernáculo por Alfredo Buzaid:

Nisso consiste, pois, a autoridade da coisa julgada, que se pode definir com precisão como a imutabilidade do comando emergente de uma sentença. Não se identifica ela simplesmente com a definitividade e intangibilidade do ato que pronuncia o comando; é, pelo contrário, uma qualidade mais intensa e mais profunda, que reveste o ato também em seu conteúdo e torna assim imutáveis, além do ato em sua existência formal, os efeitos quaisquer que sejam do próprio ato.331

327 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de direito processual civil: Volume III. 7ª edição. São Paulo:

Malheiros, 2017. P. 365

328 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, volume 2. 10ª edição. São Paulo: Saraiva, 2021. P. 359

329 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, volume 2. 10ª edição. São Paulo: Saraiva, 2021. P. 359; e DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de direito processual civil: Volume III. 7ª edição. São Paulo: Malheiros, 2017. P. 366

330 PIZZOL, Patricia Miranda. Coisa julgada nas ações coletivas. Disponível em <

https://www5.pucsp.br/tutelacoletiva/download/artigo_patricia.pdf > Acesso em 06 jan 2022

331 LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia e autoridade da sentença e outros escritos sobre a coisa julgada. edição. Rio de Janeiro: Forense, 1984, P. 54

Extrai-se daí, portanto, que a coisa julgada seria um “estado de segurança jurídica quanto às relações entre os que litigaram no processo”, como ensina Candido Rangel Dinamarco, expoente da teoria de Liebman no Brasil, de modo que a res judicata incide nos efeitos da decisão, com função de capa protetora que imuniza tais efeitos e os protege.332

Essa compreensão de coisa julgada como qualidade dos efeitos da sentença, na linha de Liebman, é a mais aceita e difundida na doutrina brasileira.333

332 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de direito processual civil: Volume III. 7ª edição. São Paulo:

Malheiros, 2017. P. 365

333 THEODORO JUNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil, volume 1. 56ª edição. Rio de Janeiro:

Forense, 2015; DINAMARCO, Cândido Rangel; LOPES, Bruno Vasconcelos Carrilho. Teoria geral do novo processo civil. São Paulo: Malheiros, 2016; NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil Comentado. 16ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016; MARQUES, José Frederico.

Instituições de Direito Processual Civil, volume 4. 3ª edição. Rio de Janeiro: Forense, 1969; BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, volume 2. 10ª edição. São Paulo: Saraiva, 2021.