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Indiscutibilidade, imutabilidade, coisa julgada formal e material

3. SEGURANÇA JURÍDICA E COISA JULGADA

3.5 ATRIBUTOS DA COISA JULGADA

3.5.1 Indiscutibilidade, imutabilidade, coisa julgada formal e material

A lição clássica da doutrina aponta que o traço distintivo entre o que se denomina

“coisa julgada formal” e a compreensão de “coisa julgada material” está justamente na presença do atributo da imutabilidade exoprocessual, que caracteriza esse último, e não o primeiro. A imutabilidade, própria da coisa julgada material, impõe a impossibilidade de modificação do quanto decidido para além do próprio processo, com efeitos exoprocessuais para outras relações jurídicas-processuais.

De modo gera, a distinção entre coisa julgada formal e material sempre ocorreu no que diz respeito à extensão da “imutabilidade” da decisão; como ensina José Rogério Cruz e Tucci:

A dogmática identifica, a propósito, a distinção entre coisa julgada formal, que caracteriza as ‘sentenças terminativas’, tornando-as imutáveis no respectivo processo em que proferidas, e coisa julgada material, que se forma sobre as

‘sentenças definitivas’, vale dizer, sentença de mérito cuja imutabilidade se projeta

‘para fora’ do processo (pamprocessual) impedindo qualquer ulterior contestação ao que restou decidido.350

A coisa julgada, em seu caractere “formal” ou “material” é vista como diferentes etapas do mesmo fenômeno pela maioria da doutrina (“degraus do mesmo fenômeno”, na exata expressão de Arruda Alvim351), diferenciando-se em seu gradativo momento de formação temporal. José Frederico Marques chega a apontar, de forma elucidativa, que a coisa julgada formal é condição prévia para formação da posterior coisa julgada material352, afirmação que é também subscrita por Ovídio Baptista da Silva.353

Isso porque primeiro há ocorrência da indiscutibilidade do quanto decidido dentro dos limites da própria relação jurídica-processual, como prevê expressamente o próprio artigo 502 do Código de Processo Civil. O que foi decidido, não deve ser novamente discutido e redecidido – se não presentes as hipóteses excepcionais previstas na lei que, em verdade, trazem situações de alteração de causa de pedir que modifica propriamente o quanto pedido e decidido, sem identidade prévia, sequer havendo ocorrência da coisa julgada.

350 TUCCI, José Rogério Cruz E. Comentários ao Código de Processo Civil: arts. 311 a 538. Saraiva: São Paulo, 2017. P. 481

351 ALVIM, Arruda. Manual de Direito Processual Civil: Teoria Geral do Processo e Processo de Conhecimento.

17ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. P. 1033

352 MARQUES, José Frederico. Instituições de Direito Processual Civil. 1ª edição. Campinas: Millenium, 2000.

P. 353

353 SILVA, Ovídio Baptista da. Curso de Processo Civil. 8ª edição. Rio de Janeiro: Forense, 2008. P. 390

Após ser indiscutível no curso daquele processo, ao chegar ao fim, com a formação da coisa julgada material, a questão torna-se imutável, na forma que foi decidida.

A indiscutibilidade é atributo da coisa julgada que impede a rediscussão da decisão, com vistas a impedir a modificação do quanto decidido, para preservar o conteúdo da decisão. E, após o trânsito em julgado e vinda da proteção da coisa julgada material, fica vedada a possibilidade de modificação dessa decisão.

É justamente o atributo da indiscutibilidade da coisa julgada que traz a

“impossibilidade de questionar o que já foi decidido e transitou”, de modo a impedir que a mesma postulação seja levada mais uma vez à decisão do Estado, respeitando os anteriores efeitos da decisão prolatada.354

O atributo da imutabilidade, por seu turno, é usado pela doutrina para se referir à impossibilidade da coisa julgada ser desfeita ou alterada, via de regra.355

De toda forma, a distinção entre coisa julgada formal e material é vista como faces distintas do mesmo fenômeno, e não verdadeiramente institutos diversos (Liebman e Dinamarco).356

O fenômeno da imutabilidade da decisão, portanto, como ensina Candido Rangel Dinamarco, “implica em pôr um ponto final nos debates e nas dúvidas, oferecendo a solução final destinada a eliminar o conflito (coisa julgada material) ou ao menos a extinguir os vínculos inerentes à relação processual (coisa julgada formal)”357.

O próprio Código de Processo Civil, em seu artigo 502, traz o conceito legal de coisa julgada material: “Denomina-se coisa julgada material a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso.”

A lei não traz definição acerca do instituto da coisa julgada formal, cabendo à doutrina a sua conceituação.

354 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, volume 2. 10ª edição. São Paulo: Saraiva, 2021. P 361

355 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, volume 2. 10ª edição. São Paulo: Saraiva, 2021. P. 361

356 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de direito processual civil: Volume III. 7ª edição. São Paulo:

Malheiros, 2017. P. 356

357 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de direito processual civil: Volume III. 7ª edição. São Paulo:

Malheiros, 2017. P. 356

Tradicionalmente, a doutrina, como faz Arruda Alvim, denomina a coisa julgada em sentido formal como “preclusão máxima”358, reservando o termo “coisa julgada” apenas para compreensão da coisa julgada material. Para o autor, a coisa julgada formal (preclusão máxima) é a qualidade da imutabilidade de uma última decisão do processo, um termo final a determinado conflito de interesses, com encerramento da fase de conhecimento.359 Em linhas gerais, é essa a compreensão adotada pela doutrina brasileira a respeito da coisa julgada formal.360

Nas lições de Araken de Assis:

encara-se a coisa julgada, realmente, sob dois ângulos distintos, mas complementares: (a) coisa julgada formal, quando obsta o prosseguimento das atividades processuais e a reapreciação do decidido no mesmo processo ex officio ou por iniciativa do interessado, por isso também chamada de preclusão máxima, mas não obsta a instauração de nova demanda com idêntico objeto; (b) coisa julgada material, quando o decidido não mais poderá ser apreciado em outro processo, em sentido divergente ou convergente, mediante a instauração de uma nova demanda com idêntico objeto (função negativa) ou de outra demanda, completamente distinta, mas cujo desfecho poderá contradizer, no todo ou em parte, o primeiro processo (função positiva).361

A coisa julgada formal, portanto, cinge-se aos limites do processo em que a decisão por ela acobertada foi proferida.

E, por seu turno, a coisa julgada material é “a qualidade de imutabilidade e consequentemente indiscutibilidade do comando contido na decisão de mérito que transborda as dimensões do processo em que foi proferida, projetando-se para todo e qualquer processo”362.

Aqui a coisa julgada (material) serve como protetora dos efeitos substanciais da sentença (ao menos na compreensão da teoria de Liebman, adotada por Dinamarco), no sentido de proteger os efeitos da sentença para fora do processo, sobre a vida das pessoas;

para além da tutela da sentença contra possíveis questionamentos do processo, trata-se de

358 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de direito processual civil: Volume III. 7ª edição. São Paulo:

Malheiros, 2017. P. 359

359 ALVIM, Arruda. Manual de Direito Processual Civil: Teoria Geral do Processo e Processo de Conhecimento.

17ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. P. 1031

360 No mesmo sentido: PORTO, Sérgio Gilberto. Coisa julgada civil. 3ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. P. 63

361 ASSIS, Araken de. Ação Rescisória. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2021. P. 27

362 ALVIM, Arruda. Manual de Direito Processual Civil: Teoria Geral do Processo e Processo de Conhecimento.

17ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. P. 1033

efetivamente imunizá-la de forma segura aos seus litigantes, em cristalização dos direitos e deveres; isso como nos ensina Candido Rangel Dinamarco.363

A coisa julgada em seu aspecto “formal” é vista por boa parcela da doutrina como um último grau de máxima preclusão processual; de modo a compreender que “coisa julgada”

se refere, apenas, a coisa julgada na compreensão material, substancial, que torna imutável e indiscutível o conteúdo da decisão de mérito.364

363 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de direito processual civil: Volume III. 7ª edição. São Paulo:

Malheiros, 2017. P. 355

364 THAMAY, Rennan Faria Kruger. Manual de Direito Processual Civil. 2ª edição. São Paulo: Saraiva, 2019.

P. 355; e CABRAL, Antonio do Passo. Coisa julgada e preclusões dinâmicas. 3ª edição. Salvador: Juspodivm, 2019. P.72-74