2. COISA JULGADA
2.1. Coisa julgada e Estado de Direito
A coisa julgada é peça decisiva no atingimento de uma das funções precípuas do Estado de Direito, qual seja a de estabilizar as expectativas normativas dos jurisdicionados104. Dessa constatação decorre que, além de expressamente prevista no art. 5º, inciso XXXVI105, a coisa julgada é ínsita ao Estado de Direito, assentando-se também no caput do art. 1º da CRFB/88.
O discurso jurídico, como todo e qualquer discurso, precisa ser encerrado, sob pena de aqueles que nele tomam parte caírem num turbilhão infindável de argumentos106. Diferentemente do discurso ideal, àquele não se confere a liberdade de tempo e participação gozadas por este107.
Para que haja um efetivo acesso à tutela jurisdicional, é necessário que o processo avance não só de maneira apta a resguardar o direito vindicado, mas também
104 “O sistema jurídico diferencia-se funcionalmente dos demais subsistemas sociais exatamente por estar
incumbido de garantir a manutenção de expectativas normativas, ainda que venham a ser frustradas em virtude da adoção de comportamentos divergentes daqueles normativamente previstos” (TOMÉ, Fabiana Del Padre. A prova no direito tributário. 2ª ed. São Paulo: Noeses, 2008, p. 42)
105 “a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”. 106
“Argumentos são razões que resgatam, sob condições do discurso, uma pretensão de validade levantada através de atos de fala constatativos ou regulativos, movendo racionalmente os participantes da argumentação a aceitar como válidas proposições normativas ou descritivas.” (HABERMAS, Jürgen.
Direito e Democracia: entre a Faticidade e a Validade, volume I, 2.ed. revista pela Nova Gramática da
Língua Portuguesa, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2010, p. 281).
107 Retiramos de Alexy a noção de “discurso ideal”. No arrasto de sua doutrina, “Um discurso, sob cada
aspecto, ideal é um discurso no qual a resposta a um problema prático é buscada sob condições de tempo e participação ilimitadas, e de total ausência de constrição, no intuito de se alcançar uma completa clareza lingüística e conceitual, de uma informação também completa, da plena capacidade e disponibilidade ao intercâmbio de papéis, e de uma total liberdade de prejuízos.” No original, livremente traduzido: “Un
discurso que sería, bajo cada aspecto, ideal, es un discurso en el cual la respuesta a un problema práctico es buscada bajo las condiciones de un tiempo y una participación ilimitadas, y de una total ausencia de constricción, en el curso de alcanzar una completa claridad lingüística y conceptual, de una información también completa, de la plena capacidad y disponibilidad al intercambio de roles, y de uma total liberdade de prejuicios.” (ALEXY, Robert. Justicia como correccion. Alicante: Biblioteca Virtual
Miguel de Cervantes, 2005, p. 166). Disponível em
para que o estado de dúvida que lhe é inerente seja fulminado em tempo razoável108, evitando indevido alongamento de sua ínsita carga de sacrifícios109.
Inviável, assim, esperar que o fechamento do discurso processual ocorra somente com o levantamento de todas as informações e após a adução de todos os argumentos incidentes sobre a questão tematizada. Propugnar o exaurimento argumentativo para a tomada de decisão acarretaria a esterilização do processo judicial, porquanto em qualquer debate “não há um fim ‘natural’ no encadeamento dos possíveis argumentos substanciais; não se pode excluir a fortiori a possibilidade de novas informações e melhores argumentos virem a ser aduzidos.”110
Daí porque correto dizer que a conclusão de uma argumentação jurídica
contém alta dose de violência simbólica, uma vez que as condições ideais do discurso (não-contradição, coerência, clareza lingüística, ausência de constrição aos participantes, completa informação e liberdade de juízo) não se fazem presentes e o resultado pode ser assim considerado arbitrário.111
É nesse contexto em que a coisa julgada se insere, dando sua imprescindível contribuição ao direito. É ela que cumpre o papel de impedir o revolvimento de conflitos já equacionados pelo Judiciário: a coisa julgada formal, marcando o término do diálogo processual, e a coisa julgada material, colorindo, dentre os esquemas normativos possíveis, a solução definida em juízo, tornando-a indene a ulteriores questionamentos.
108
Direito este que se encontra expressamente previsto na CRFB/88, no inciso do art. 5º: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação.”
Interessa-nos, no ponto, a ponderação de Flávio Cheim Jorge: “Se é certo que ao Estado incumbe solucionar os conflitos a ele levados, não é menos certo que a demora nessa solução é extremamente danosa. Quanto mais rápida for a entrega da tutela jurisdicional, com maior tranquilidade viverá a sociedade” (JORGE, Flávio Cheim. Teoria geral dos recursos cíveis. 4ª ed. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009, p. 24)
109
“Durante o litígio, dizíamos, reina a incerteza. Somente a sentença porá fim a ela. Se essa sentença declarar que o autor não tem razão, que a demanda é infundada, as coisas voltam a seu estado primitivo; mas o drama já estará consumado. O processo carrega consigo uma carga de sacrifícios (eu ousaria dizer de dor) que nenhuma sentença pode reparar.” (COUTURE, Eduardo J., Introdução ao estudo do processo
civil : discursos, ensaios e conferências. Belo Horizonte: Líder, 2008, p. 21.)
110 HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: entre a Faticidade e a Validade, volume I, 2.ed. revista
pela Nova Gramática da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2010, p. 282.
111 JEVEAUX, Geovany Cardoso. PEPINO, Elsa Maria Lopes Seco Ferreira. Comentários às súmulas
Por esse ângulo, o instituto em análise se apresenta como corolário do princípio da segurança jurídica112: sem ele, a qualquer dos envolvidos no processo seria possível atestar qual dos anseios fora efetivamente tutelado pelo Estado-juiz; caso inexistisse essa “tranca”, uma vez encerrado o feito, a parte que vira frustrada sua pretensão invariavelmente instauraria nova contenda, e assim sucessivamente, num ciclo que ressentiria de fim.
A par de prestar homenagem à segurança jurídica, pode-se dizer, outrossim, que à própria tutela jurisdicional a coisa julgada avulta imprescindível. Por obstar que tanto o Judiciário quanto os demais Poderes estatais possam revolver as decisões já transitadas em julgado, é a coisa julgada que marca o encerramento do litígio. Por somente ser possível predicar a decisão judicial de indiscutível / estável em razão da coisa julgada, resulta que, sem ela, a tutela jurisdicional seria efêmera, incapaz de arrefecer a tensão gerada pelos conflitos de interesse que invariavelmente exsurgem no seio social.
Não é demasiado dizermos, pois, que
a própria atividade jurisdicional não poderia realizar seus precípuos objetivos se não chegasse um momento para além do qual o litígio não pudesse prosseguir. É imprescindível colocar-se um limite temporal absoluto, um ponto final inarredável à permissibilidade da discussão e das impugnações. Sem isso, a jurisdição resultaria inútil e não valeria senão como exercício acadêmico, já que permaneceria indefinidamente aberta a possibilidade de rediscutir-se o decidido, com as óbvias repercussões negativas sobre a estabilidade das relações jurídicas.113
112
Anota Paulo de Barros Carvalho que o cânone da segurança jurídica se dirige “à implantação de um valor específico, qual seja o de coordenar o fluxo das interações inter-humanas, no sentido de propagar no seio da comunidade social o sentimento de previsibilidade quanto aos efeitos jurídicos da regulação da conduta. Tal sentimento tranqüiliza os cidadãos, abrindo espaço para o planejamento de ações futuras, cuja disciplina jurídica conhecem, confiantes que estão no modo pelo qual a aplicação das normas do direito se realiza.” (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário, 20a ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pág., 166.)
113 FURTADO FABRÍCIO, Adroaldo. “A coisa julgada nas ações de alimentos.” RePro 62. Abr.-jun./92,
Em síntese ao acima despendido, tem-se que a coisa julgada “serve à realização do princípio da segurança jurídica, tutelando a ordem jurídica estatal e, ao mesmo tempo, a confiança dos cidadãos nas decisões judiciais.”114
Disso resulta que, “Sem a coisa julgada material não há ordem jurídica e possibilidade de o cidadão confiar nas decisões do Judiciário. Não há, em outras palavras, Estado de Direito.”115