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2. COISA JULGADA

2.2. Conceito de coisa julgada

A sentença de mérito116 é o ato culminante do processo judicial. Nela o juiz não só põe termo ao processo, antes soluciona a crise de direito posta sob sua apreciação. Uma vez superado o caminho das instâncias, a sentença reveste-se da “autoridade da coisa julgada”.

Fincada na lição de Liebman117, espraiou-se na doutrina nacional118 a noção de que a coisa julgada não é um efeito da decisão, senão uma qualidade outorgada à

114 MARINONI, Luiz Guilherme. Coisa julgada inconstitucional: a retroatividade da decisão de

(in)constitucionalidade do STF sobre a coisa julgada : a questão da relativização da coisa julgada. 2. ed.

rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 68.

115 Idem, ibidem, p. 68.

116 Termo aqui empregado genericamente, alheio à taxonomia dos pronunciamentos judiciais. Não se

descura, pois, da possibilidade de uma decisão interlocutória, havendo cúmulo objetivo de ações, resolver, com pretensão de definitividade, parte do objeto litigioso.

117 Segundo Liebman, coube a Chiovenda a separação do conceito da coisa julgada de fenômenos afins,

“isto é, em separar o seu conteúdo propriamente jurídico de suas justificações político-sociais; em distinguir, daí, a autoridade da coisa julgada da simples preclusão, que é a impossibilidade de se tornar a discutir no decurso do processo uma questão já decidida; em distinguir, consequentemente, a autoridade da coisa julgada (substancial) do fato processual da irrecorribilidade de uma sentença ou de um despacho interlocutório (coisa julgada formal); em limitar, por Isso, a autoridade da coisa julgada à decisão que decide o mérito da ação, para declará-la procedente ou improcedente; em subtrair, por fim, toda a atividade puramente lógica desenvolvida pelo juiz no processo, do campo de ação da coisa julgada, religando esta última ao ato de vontade ditado na sentença pelo órgão judiciário e acentuado energicamente a sua finalidade prática e o seu caráter publicístico.” (LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia e

autoridade da sentença e outros escritos sobre a coisa julgada. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 6)

118

Em sentido contrário: Pontes de Miranda (MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários

ao código de processo civil. Atualização de Sérgio Bermudes. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997, t. III,

p. 157), Ovídio Baptista (SILVA, Ovídio Baptista da. Sentença e coisa julgada. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 81 e Curso de processo civil: processo de conhecimento. 4ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, v.1, p. 498) e Araken de Assis (ASSIS, Araken de. Doutrina e prática do processo civil

contemporâneo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 243). Em maior ou menor medida, todos estes

autores compartilham da ideia defendida por Konrad Hellwig, segundo quem a autoridade recairia tão- somente sobre a declaração contida em toda e qualquer sentença. (LIEBMAN, Enrico Tullio. Ob.cit., p. 21)

solução dada ao objeto litigioso119, tornando-a imutável, isto é, insuscetível de rediscussão.

Nos dizeres do eminente processualista italiano, por coisa julgada entende-se

a imutabilidade do comando emergente de uma sentença. Não se identifica ela simplesmente com a definitividade e intangibilidade do ato que pronuncia o comando; é, pelo contrário, uma qualidade, mais intensa e mais profunda, que reveste o ato também em seu conteúdo e torna assim imutáveis, além do ato em sua existência formal, os efeitos, quaisquer que sejam, do próprio ato.120

Essa proposição, contudo, não remanesceu infensa a críticas.

Da mesma forma como Liebman fizera com o pensamento de Chiovenda, Barbosa Moreira buscou aprimorar o conceito lançado pelo mestre italiano, aduzindo que

na realidade, os efeitos da sentença não se tornam imutáveis com o trânsito em julgado: o que se torna imutável (ou, se se prefere, indiscutível) é o próprio conteúdo da sentença, como norma jurídica concreta referida à situação sobre que se exerceu a atividade cognitiva do órgão judicial.121

Tem-se, portanto, que, enquanto ponto final da enunciação judicialmente levada a efeito, a coisa julgada é a qualidade que recai sobre a norma jurídica veiculada pela decisão judicial de mérito definitiva - não mais sujeita a recurso -, tornando-a, pois, insuscetível de modificação.

A sentença de mérito definitiva, por este prisma, é veículo introdutor de norma122, tal qual o lançamento, a constituição, o contrato, etc. Todavia, ela se

119 “O objeto do processo é conjunto do qual o objeto do processo é elemento: esse é uma parcela daquele.

Enquanto o objeto do processo abrange a totalidade das questões postas sob apreciação judicial, o objeto litigioso do processo cinge-se a um único tipo de questão, a questão principal, o mérito da causa, a pretensão processual. Enquanto o primeiro faz parte apenas do objeto da cognição do magistrado, o segundo é o objeto da decisão final (ato final do procedimento)”. (DIDIER JR., Fredie. Curso de direito

processual civil: Teoria geral do processo e processo de conhecimento. Vol.1, 11ª ed., Salvador:

JusPODIVM, 2009, p. 295/296)

120

LIEBMAN, Enrico Tullio. ob. cit, p. 51.

121 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Coisa Julgada e declaração. In: Temas de direito processual –

Primeira série. São Paulo: Saraiva, 1977, p. 88.

122 Em Direito, todas as normas vêm aos pares. A norma de ponência, exercício de uma competência

diferencia dos demais veículos pelo fato de que, por força da coisa julgada, salvante por intermédio de mecanismos excepcionais, quais sejam, a querella nulitatis, a ação rescisória e a revisão criminal, e desde que satisfeitos seus específicos requisitos, a norma que introduz no sistema não pode ser alterada.

No que diz respeito à norma jurídica introduzida pela sentença trânsita, por ora, deve-se ter em mente que ela pode assumir feições diversas. Como veremos no tópico seguinte, as decisões inclinadas a regrar eventos futuros veiculam comandos cujo antecedente não se identifica com o das normas editadas por sentenças que se limitam a tratar de um ou de alguns fatos já predeterminados.