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colÓniA e repÚBlicA: UM eQUÍvoco persistente

Se os ideais republicanos afirmam que “todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos […]”, as colónias do sécu- lo XX, que constituem também um dos projetos mais empenhados das repúblicas europeias, não se diferenciando daquelas que outros regimes souberam consolidar, assentam na recusa dessa afirmação. As formas de dominação, de repressão, de desvalorização do colo- nizado emanam frequentemente de instâncias que pretendem ser a reprodução das instituições e dos modelos republicanos metropo- litanos. O exemplo da colonização portuguesa em África, durante a Primeira República portuguesa (1910-1926), que lançou as bases do colonialismo das décadas seguintes marcadas pela Ditadura, põe em evidência a contradição entre república e colónia, categorias cujos conteúdos são claramente antagónicos. Se a República, onde todos são iguais em direitos e em obrigações, é de fato o lugar que cria o povo soberano, os cidadãos, a colónia é o lugar de expres- são da força, da violência, do arbitrário, da exclusão, da ausência de igualdade e de liberdade, constituindo os seus habitantes uma massa de súbditos dominados, excluídos da cidadania. Se a exis- tência da República deve excluir a da colónia, nos seus princípios e na sua prática, verifica-se um paradoxo singular: os republicanos apresentam-se como obreiros ativos, incansáveis, apostando na aventura colonial, participando na construção jurídica, cultural e política de um império onde se concretizem os ideais da república. Sem se dar conta que a sua recusa — fundamentada na superiorida- de racial e civilizacional do homem branco — em considerar os ho- mens iguais na sua diversidade cultural, constituiu uma das linhas de fractura do universalismo republicano.

A relação íntima entre a república e as colónias, marcada por uma tradição republicana pouco atenta aos particularismos, assentou justamente na negação da liberdade e da igualdade de alguns, os in- dígenas. Se na metrópole se procedeu a operações desvalorizantes

do outro, destinadas a assegurar a sua inferiorização, recorrendo a imagens, descrições, emoções susceptíveis de fornecer representa- ções do “selvagem das colónias”, que transmitiam e legitimavam a desigualdade das raças, nas colónias, as políticas e as práticas do co- lonizador mostravam uma força criativa inédita capaz de inventar estatutos inovadores aplicáveis aos nativos, de modo a organizar e a consolidar a sua desigualdade física, social e cultural, recorrendo à missão civilizadora, esse braço falsamente desarmado da dominação colonial europeia.

Registe-se também o fato da república se pretender emancipa- dora, libertando os africanos das trevas da barbárie, e moderniza- dora, levando a luz do progresso e da sabedoria à África, fazendo obra universal, abrindo escolas, construindo hospitais, criando as mais diversas infraestruturas, sem nunca questionar o racismo, que alimentava os imaginários, as ideologias e as mais diversas formas de discriminação em relação ao colonizado. Cega em rela- ção aos africanos, a quem negou responsabilidade e participação na construção dos territórios colonizados, usando-os como seres irracionais bons para o trabalho, a república praticou ou tolerou constantemente as agressões dos colonizadores, comportando-se ela própria de forma violenta, destruidora das suas práticas sociais e culturais, deixando uma herança de dominação assaz organizada e projetos de exploração colonial rapidamente abraçados pela Dita- dura de Salazar.

Este continuum colonial dos séculos XIX e XX, marcado pela inexistência de fraturas relevantes, apesar de acontecimentos de extrema violência e de mudanças políticas que caracterizaram a vida das nações europeias, só veio a terminar em meados dos anos 1950 (1974, no caso português), quando as dinâmicas anticoloniais e independentistas mundiais se afirmaram de forma irreversível, pondo fim a uma hegemonia europeia que se havia afirmado du- rante séculos.

eM torno Do coloniAlisMo: incoMoDiDADes e novAs

ForMUlAçÕes

A segunda metade do século passado assistiu a uma banalização do termo e do fenómeno do colonialismo, não só para reforçar a neces- sidade de proceder ao seu estudo e de desmontar um dos seus com- ponentes mais estruturantes e atuantes nas sociedades atuais — o racismo —, mas também para legitimar opções ideológicas e práticas políticas, que se inscreviam nos processos de construção nacional dos novos Estados independentes, a braços com a elaboração de no- vos sistemas de pensar e de organizar as sociedades. Registe-se tam- bém a necessidade de alguns novos governantes (ex-colonizados) de justificar incompetências, violências e práticas corruptas, recor- rendo a políticas de vitimização assentes exclusivamente nos male- fícios herdados do colonialismo. No mundo civilizado, agora desen- volvido, o colonialismo ressuscita sob a forma do neocolonialismo, uma versão corrigida e adaptada à nova ordem económica e política internacional, que, sob a bandeira da ajuda e do desenvolvimento, pretende manter novas formas de hegemonia nas relações com os antigos colonizados. Esta nova ordem mundial despertou o interesse das grandes potências mundiais que não deixaram de procurar atrair os novos países para as suas esferas de influência. O fim do conflito Estados Unidos da América (EUA) x União das Repúblicas Socialis- tas Soviéticas (URSS) traduziu-se na organização de um sistema no qual os atores que exercem hegemonia não são apenas Estados, mas também organizações internacionais que através de mecanismos efi- cazes de ingerência, procuram impôr as suas decisões e reduzir as autonomias dos espaços nacionais.

A aceleração da globalização desde os finais do século XX, mar- cada pelos fenómenos da mundialização das trocas, do aumento do volume das transacções financeiras, da redução dos preços dos transportes, do desenvolvimento das novas tecnologias da informa- ção e comunicação, assim como a deslocação atualmente crescente

de atividades do capitalismo industrial para os países do sul e do les- te e as alterações emergentes na divisão internacional do trabalho anunciam já um novo modo de exercício da hegemonia, que assenta, não numa base territorial, mas nas redes de trocas de informação e de capitais controlados pelas organizações internacionais reforçadas e pela nação ou nações mais poderosas.

No campo do conhecimento e da produção científica, assistimos neste século XXI a uma reorganização dos estudos ocidentais consa- grados à questão colonial novecentista, sobretudo europeia, em que a utilização dos termos e das noções põe em evidência a articulação entre os conteúdos e as ideologias e políticas dominantes, que im- põem, pelo silêncio ou através de reformulações, torná-los opera- cionais perante as novas realidades mundiais. Estamos perante uma dificuldade de romper com as velhas formas de legitimação ideoló- gica, de “des-ideologizar” as categorias classificatórias do passado recente. Assim, a noção de colonização aparece frequentemente em substituição daquela que seria apropriada e legítima, a noção de co- lónia. Trata-se de uma operação que pretende fugir da carga pejora- tiva adquirida pelo termo colónia, em virtude da sua ligação siamesa com o colonialismo, esquecendo que as colónias constituem um fe- nómeno incontornável da história contemporânea.

A colónia é hoje considerada, sobretudo nos países dos antigos colonizadores, como um terreno minado, um tema suspeito, politi- camente incorreto, pois não permite a cicatrização das feridas dei- xadas pelo colonialismo, impedindo ou pelo menos não facilitando a reconciliação entre os povos, não ajudando a silenciar um passado incómodo que prejudica as relações económicas e contribui para a fragilização das influências e para a substituição das velhas hege- monias.

Nas últimas décadas, o colonialismo, termo que chegou tarde ao vocabulário contemporâneo, transformou-se na dimensão pejorati- va da colonização, englobando a colonização, os seus excessos, a sua legitimação e ainda evocando o neocolonialismo. De fato, se o ex-

colonizador opta pela revitalização da categoria colonização, o ex- colonizado fala menos de colonização que de colonialismo, categoria que explica efetivamente a totalidade do fenómeno. É bem evidente que a colonização não se identifica inteiramente com o colonialismo: a colonização não se limita aos excessos do colonialismo, mesmo se ela contém um manancial de violência muito significativo que a his- tória do mundo fixou.

A natureza hegemónica da colonização e do colonialismo impôs a noção europocêntrica de descolonização (princípio dos anos 60), ig- norando o papel dos povos oprimidos no processo da sua libertação e reduzindo no mesmo movimento a importância das independências, umas obtidas pacificamente, outras, como no caso português, con- seguidas após anos de guerra, de violências, de combates, de des- truições.

Os historiadores utilizaram (utilizam!) abundantemente esta categoria, por comodidade ou não, tendo-a banalizado na maioria das sociedades ocidentais, confundindo-a com as independências, como se o passado pudesse ser eliminado. O que quer dizer “des- colonização”? Trata-se da retirada da potência colonizadora? Trata- se dos movimentos de independência? Trata-se de um ato justo que demonstra o reconhecimento europeu da violência colonial? Trata- se de uma benesse oferecida pelos colonizadores aos colonizados? Trata-se de um processo político? Económico? Social? Intelectual? A ambiguidade do termo permite evitar pensar a colónia na sua glo- balidade, cria/reforça a noção de situação pós-colonial, que se segue à situação colonial, antecedida pela situação pré-colonial, categorias sem consistência que recusam a autonomia histórica e cultural do outro. Na maioria dos casos o discurso e a linguagem dos historiado- res não estão ainda descolonizados.

Esta maneira de contabilizar a história permitiu também o apa- recimento do pós-colonialismo, pois a referência a essa nova noção implica obrigatoriamente a exaltação do colonialismo que forneceu a força para impor às sociedades africanas um perfil de sociedades

dominadas, esquecendo que as independências derivam de um mo- vimento destinado a recuperar as formas perdidas de autonomia. Trata-se de uma ratoeira ideológica que recompõe os marcadores da desigualdade civilizacional e que garante, na sua dimensão-mundo, a consolidação das hierarquias da globalização, a emergência contí- nua de novas formas de hegemonia. A ineficácia do pós é evidente: não se dissolve o mundo no pós, pois todo ele responde às condições do antes.

reFerÊnciAs

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corrupção