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periFeriA, COMMODITIES e neopAtriMoniAlisMo

É comum encontrar entre os africanistas a ideia de que a lógica pre- dominante de organização social nesse continente é dada pela pre- dação patrimonialista do estado, vinculada ademais frequentemente ao exercício do clientelismo de cunho étnico. Há bastante de verdade nisso de um modo geral, mas nem a questão étnica parece ter rele- vância no caso dos países africanos lusófonos, nem se deve tratar a questão de maneira a-histórica. Esta última questão se patenteia em primeiro lugar, em particular, por este tipo de prática ter sido aná-

tema no período socialista rigorosamente frugal e ilibado em que a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) dirigiu este país. Se em Angola o patrimonialismo sempre se mostrou um problema, foi com a transição para o capitalismo em que se desdobrou a derrota do projeto socialista na África lusófona que a corrupção — ou a lógica efetivamente neopatrimonial — se generalizou.

Em Angola, é necessário de início destacar dois elementos: a persistência das “elites criolas” de Luanda, capital do país e base da colonização desde o século XVIII, e em especial a abundância de petróleo, que parece uma maldição, pois não apenas tem levado a uma confiança na exploração infinita desse recurso, mas também a uma apropriação privada da riqueza que ele gera para o Estado, isto é, por parte exatamente daqueles grupos que dominam a economia e a política do país, reconfigurando-se com a independência condu- zida pelo outrora marxista-leninista Movimento Popular de Liber- tação de Angola (MPLA), hoje convertido a um neoliberalismo neo -patrimonialista. Se o controle dos recursos petrolíferos por parte do Estado foi crucial para a vitória na guerra civil que travou contra a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), que durante bom tempo, por outro lado, conseguiu controlar a grande riqueza em diamantes de que também desfruta este país, era em par- te o próprio controle desses recursos que estava em jogo na brutal luta que era então sobredeterminada pela geopolítica da Guerra Fria — o MPLA apoiado pela União Soviética e Cuba; a Unita, pelos Esta- dos Unidos e África do Sul. Com o fim da guerra civil e a conversão dessas organizações ao jogo liberal-democrático, limitado contudo, o MPLA se firmou como partido dominante e efetivou-se um proces- so de privatização de várias áreas da economia, incluindo o setor de diamantes. O atual presidente, José Eduardo dos Santos, no poder há muitos anos, utilizou-se dos recursos privatizados exatamente para consolidar seu poder, criando uma nova classe dominante que se mistura ao Estado. Embora na prática a exploração do petróleo da plataforma continental seja realizada por companhias estrangeiras,

ele não foi privatizado, mantendo-se monopólio estatal, com os re- cursos oriundos de sua taxação inserindo-se em um orçamento pa- ralelo e altamente opaco, o qual é patrimonializado pelos grupos que controlam o Estado, diretamente ou por meio de políticas de edu- cação e saúde que lhes são generosamente dirigidas. O restante da economia do país é muito limitado, com grande parte da população concentrada nas grandes cidades. Se os ovimbundos, que compõem o principal grupo étnico do país, predominavam na Unita, a guerra nunca assumiu de fato caráter étnico, nem é esse o fundamento da distribuição de recursos patrimonializados.

Moçambique, país em que cerca de 80% da agricultura é campo- nesa de subsistência e em que a criação de uma fábrica de alumínio recentemente dobrou o PIB, mudou muito também com a privati- zação. De uma Frelimo altamente puritana, passou-se, terminada a guerra civil em larga medida inventada pela África do Sul e que de- vastou o país, a um regime capitalista neoliberal-neopatrimonial, frente ao qual os organismos financeiros internacionais e as agências dos países doadores de recursos jamais se posicionaram de fato, des- de que a política de privatização e neoliberalização mais geralmen- te continuasse a ser perseguida. Com a Frelimo afirmando-se como força absolutamente dominante, foi essa política que levou à criação de uma nova classe dominante, com o partido dividido entre uma ala mais desenvolvimentista e outra mais explicitamente predadora, ambas de todo modo enriquecidas pela patrimonialização do Estado e pelas privatizações, das quais foram as grandes beneficiárias, o país sendo muitíssimo mais pobre que Angola. Tampouco aí essa cons- trução clientelista dependeu mormente de laços étnicos. Quanto aos países lusófonos insulares da África, se Cabo Verde possui um Estado cuja dinâmica não passa pela predação, inclusive devido à ausência de recursos a serem predados, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau evidenciam um perfil mais próximo àquele que se encontra em An- gola e Moçambique, embora os recursos sejam mais escassos no úl- timo deles, petróleo e florestas se destacando no caso do primeiro. A

questão étnica tampouco comparece à constituição de redes verti- cais de distribuição de prebendas.

Aqui é preciso, contudo, indagar a respeito da própria definição de patrimonialismo, uma vez que na clássica definição de Max We- ber ele seria explícito, aberto e legítimo. Mesmo nos estados africa- nos, nos quais hoje tende a ser a regra, não é porém esse o caso, uma vez que a ideia de estado liberal, cidadania e divisão entre público e privado impera formalmente. Ou seja, embora esta seja uma lógica predominante na prática, formalmente se oculta — no caso do Brasil podendo-se sugerir o contrário, isto é, ainda que não se apresente como lógica predominante, é importante, mas não pode tampouco manifestar-se abertamente, pois contradiz os princípios formais de funcionamento e legitimação dos estados modernos clássicos, ou seja, ocidentais, além de contar com a influência decisiva dos agen- tes privados, com frequência empresas. Se, como argumentarei adiante, o estado constitui-se sempre como aparato de dominação, o (neo)patrimonialismo — que encontramos não apenas, mas não necessariamente, na África moderna — introduz outro elemento de desigualdade social, em que se mesclam poder político e riqueza ma- terial, de forma particularmente dramática no caso de Angola, mas também de Moçambique, após o fim do socialismo real nesses países. Na verdade em grande medida assenta-se sobre ele o seu sistema de classes, localizados esses países na periferia rica ou mais pobre do capitalismo, fundada em commodities ou inclusive basicamente na economia de mera subsistência.

Em termos de dados básicos e limitados, como o índice de Gini, que nos assinala as extremidades da desigualdade — ou a igualdade absoluta quando zero —, mas não revela a estratificação social em seus elementos diversificados, vale observar que ele atingia 58.6 em An- gola, em Cabo Verde atingindo 50.5. Moçambique e a Guiné-Bissau, muitíssimo pobre, se seguiam com, respectivamente, 47.1 e 35.5 no fim da década passada. O Timor Leste, país em que cai o valor do índi- ce para 39.5, apesar, ou em função, de sua extrema pobreza, luta para

recuperar sua economia, devastada pela guerra de independência e complicada pela tentativa de substituir a economia agrícola de subsis- tência do país por produtos de exportação, como o café, o que não vem funcionando, devido aos baixos preços internacionais. (ONU, 2009)