SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 44, N. ESPECIAL 2, P. 132-144, JULHO 2020 Vieira MS, Alves RB
142
corresponsabilização entre a comunidade e os setores público e privado. A comunidade raramente é ouvida ou convidada a fazer parte da construção do planejamento das atividades de gestão de riscos de desastres.
Considerações finais
O estudo evidenciou quais são algumas das ações intersetoriais executadas pelas políticas públicas analisadas para a redução de riscos de desastres no município pesquisado, destacan-do principalmente a parceria entre a Defesa Civil com o setor de Educação e com o Corpo de Bombeiros Militar. As atividades desen-volvidas entre esses órgãos voltam-se, princi-palmente, para o diálogo com a comunidade para evitar situações de ocupação irregular e informar sobre como agir em um desastre.
Nessa direção, o estudo demonstra que, na cidade pesquisada, o desastre não é discutido como um fenômeno socialmente construído a partir do desenvolvimento da vulnerabili-dade. Percebe-se que esse assunto é evitado pelos demais serviços, que atribuem a res-ponsabilidade à Secretaria de Assistência
Social. A partir desse resultado, espera-se que a temática seja trabalhada em todas as etapas da gestão de riscos de desastres de forma transversal, articulada entre todos os atores desse processo. A implantação de protocolos integrados de atendimento pode favorecer essa intervenção intersetorial.
Por fim, observa-se que há divergência quanto às respostas sobre a qualidade da comu-nicação entre as organizações. A diversidade de opiniões pode ocorrer devido a parte dos participantes ocuparem ‘cargos de confiança’.
O discurso político tende mais a ocultar do que revelar as ações realizadas, e este aspecto se apresenta como uma limitação para a pesqui-sa. Portanto, sugere-se que sejam executados estudos em nível macrorregional para analisar se as ações realizadas por cidades vizinhas possuem articulação entre si e como os inte-resses políticos interferem nessas relações.
Referências
1. Favero E, Sarriera JC, Trindade MC. O desastre na perspectiva sociológica e psicológica. Psicol. estud.
2014; 19(2):201-209.
2. United Nations Office for Disaster Risk Reduction.
The human cost of weather-related disasters 1995-2015. Geneva: UNISDR; 1995-2015.
3. Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Uni-versitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres.
Relatório de danos materiais e prejuízos decorren-tes de desastres naturais no Brasil: 1995 – 2014. Flo-rianópolis: UFSC; CEPED; 2016.
4. Brasil. Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil – PNP-DEC; dispõe sobre o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil – SINPDEC e o Conselho Nacional de Proteção e Defesa Civil – CONPDEC; autoriza a cria-ção de sistema de informações e monitoramento de desastres; altera as Leis nos 12.340, de 10 de dezem-bro de 2010, 10.257, de 10 de julho de 2001, 6.766, de 19 de dezembro de 1979, 8.239, de 4 de outubro de 1991, e 9.394, de 20 de dezembro de 1996; e dá outras providências. Diário Oficial da União. 10 Abr 2012.
5. Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Uni-versitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres.
Gestão de riscos e de desastres: Contribuições da psicologia. Florianópolis: UFSC; CEPED; 2010.
6. Nogueira FR, Oliveira VE, Canil K. Políticas públicas regionais para gestão de riscos: O processo de imple-mentação no ABC, SP. Ambient. soc. 2014; 17(4):177-194.
7. Elsevier. A Global Outlook on Disaster Science. Ams-terdam: Elsevier; 2017.
8. Fontelles MJ, Simões MG, Farias SH, et al. Metodo-logia da pesquisa científica: Diretrizes para a elabo-ração de um protocolo de pesquisa. Rev. Paran. Med.
2010; 2(24):57-64.
9. Fontanella BJB, Ricas J, Turato ER. Amostragem por saturação em pesquisas qualitativas em saúde: Contri-buições teóricas. Cad. Saúde Pública. 2008; 24(1):17-27.
10. Nico LS, Bocchi SCM, Ruiz T, et al. A Grounded The-ory como abordagem metodológica para pesquisas qualitativas em odontologia. Ciênc. Saúde Colet. 2007;
12(3):789-797.
11. Londe LR, Marchezini V, Conceição RS, et al. Impac-tos de desastres socioambientais em saúde pública:
Estudos dos casos dos Estados de Santa Catarina em 2008 e Pernambuco em 2010. Rev. bras. estud. popul.
2015; 32(3):537-562.
12. Assumpção RF, Séguin E, Kligerman DC, et al. Pos-síveis contribuições da integração das políticas pú-blicas brasileiras à redução de desastres. Saúde de-bate. 2017; 41(2):39-49.
13. Shoaf K. Organizing the health sector for response to disasters. Ciênc. Saúde Colet. 2014; 19(9):3705-3715.
14. Valencio N, Gonçalves JC, Marchezini V. Colapso de barragens: aspectos sócio-políticos da ineficiência da gestão dos desastres no Brasil. In: Valencio N, Siena M, Marchezini V, et al., organizadores. Sociologia dos Desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: Rima; 2009. p. 160-175.
15. Rosa TS, Mendonça MB, Monteiro TG, et al. A edu-cação ambiental como estratégia para a redução de riscos socioambientais. Ambient. soc. 2015; 18(3):211-230.
16. Noal DS, Vicente LN, Weintraub ACAM, et al. Estraté-gia de Saúde Mental e Atenção Psicossocial para Afeta-dos da Boate Kiss. Psicol. cienc. prof. 2016; 36(4):932-945.
17. Díaz GE. Puesta en práctica de una política de de-sastres: Los instrumentos de la gestión de riesgos en México. Bulletin de l’institut français d’études andi-nes. 2014; 43(3):611-632.
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 44, N. ESPECIAL 2, P. 132-144, JULHO 2020 Vieira MS, Alves RB
144
18. Santos R. Gestão de desastres e política de assistên-cia soassistên-cial. Rev. katálysis. 2012; 15(1):32-40.
19. Silva JCB, Menezes JA. O risco de desastre e as ci-dades: uma análise discursiva sobre práticas em De-fesa Civil. Rev Ciênc Hum. 2016; 50(2):528-547.
20. Santos FG, Acordi CF. Competência legislativa do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina acerca dos desastres naturais. Rev Ordem Púb. Defesa Soc.
2016; 9(1):47-162.
21. Manso DF, Suterio R, Belderrain MCN. Estruturação do problema de gerenciamento de desastres do
es-tado de São Paulo por intermédio do método Strate-gic Options Development and Analysis. Gest. Prod.
2015; 22(1):4-16.
22. Costa FG, Flauzino RF, Navarro MBMA, et al. Abrigos temporários em desastres: A experiência de São José do Rio Preto, Brasil. Saúde debate. 2017; 41(2):327-337.
Recebido em 03/09/2019 Aprovado em 18/02/2020 Conflito de interesse: inexistente Suporte financeiro: não houve
RESUMO O presente estudo buscou compreender as ações mitigadoras propostas como resposta ao impacto provocado pelo rompimento da barragem da Samarco na cidade de Mariana, Minas Gerais. Como parte de um estudo maior, este recorte enfoca as políticas públicas de saúde e as cidades de Colatina e Linhares, no estado do Espírito Santo. Por meio de métodos qualitativos, investigaram-se o arranjo político-administrativo que envolve a empresa Samarco, o Comitê Interfederativo (CIF), a Fundação Renova e os poderes públicos, interrogando sobre o papel dos atores na produção de medidas compen-satórias e reparatórias. Foram utilizadas a análise de documentos, sobretudo, os relatórios disponíveis no site da Fundação Renova (de março de 2016 a maio de 2018), e sete entrevistas semiestruturadas com atores de referência nas duas cidades estudadas. A análise foi orientada pelo escopo teórico do ciclo de políticas públicas. Identificou-se uma estrutura político-administrativa formulada de forma nitidamente top down, com ênfase na etapa da formulação de políticas em detrimento da entrega de serviços e com pouca articulação entre os atores públicos e da sociedade civil na busca de solução de problemas de saúde.
PALAVRAS-CHAVE Planejamento em desastres. Saúde pública. Política pública.
ABSTRACT The present study sought to understand the mitigating actions proposed in response to the impact caused by the rupture of the Samarco dam in the city of Mariana, Minas Gerais. As part of a larger study, this section focuses on public health policies and the cities of Colatina and Linhares, in the state of Espírito Santo.
Through qualitative methods, the political-administrative arrangement involving the company Samarco, the Interfederative Committee (CIF), the Renova Foundation and public authorities was investigated, question-ing the role of the actors in the production of compensatory and remedial measures. Document analysis was used, especially the reports available on the Renova Foundation website ( from March 2016 to May 2018), and seven semi-structured interviews with leading actors in the two cities studied. The analysis was guided by the theoretical scope of the public policy cycle. A clearly structured top-down political-administrative structure was identified, with an emphasis on the formulation of policies at the expense of service delivery and little articulation between public actors and civil society in the search for solutions to health problems.
KEYWORDS Disaster planning. Public health. Public policy.