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2.5 COLETA DE DADOS

Constam explicitados, a seguir, os métodos e instrumentos de coleta de dados que foram utilizados na presente pesquisa, seguidos do apêndice no qual estão disponíveis, para melhor compreensão. Para abordagem aos professores, foi utilizado um Roteiro de entrevista, baseado em Zabala (1998) (APÊNDICE F) e para observação das crianças, foi utilizado um roteiro de observação para descrição narrativa baseado em BENTZEN, 2012 (APÊNDICE G).

A entrevista é caracterizada por um instrumento que prima pela conversação face a face entre entrevistador e entrevistado e é considerada um instrumento de excelência para coleta de dados durante investigações sociais (MARCONI; LAKATOS, 2005). Dentre os tipos de entrevista, a entrevista estruturada é aquela na qual as questões são direcionadas e previamente estabelecidas, com determinada articulação interna, visando obter dados fidedignos ao universo de sujeitos (SEVERINO, 2007; MARCONI; LAKATOS, 2005).

As entrevistas foram gravadas pela pesquisadora e, posteriormente, transcritas para a realização da sistematização e análise dos dados. Optamos por usar

entrevistas porque mostram-se mais adequadas para a coleta de dados por pessoas que talvez não estejam habituadas com procedimentos de pesquisa. Assim, na presença do pesquisador, dúvidas puderam ser sanadas, questões puderam ser melhor esclarecidas e a coleta de dados pôde se desenvolver de forma mais eficaz. Antes de entrevistar os participantes da pesquisa, foi realizado um estudo piloto com uma professora da Educação Infantil que não compunha a amostra de pesquisa, para a realização de ajustes e confirmação de que os dados desejados seriam coletados.

Para o contato com as crianças, optamos por utilizar a observação como técnica de imersão em campo para coleta de dados, a partir de um roteiro de observação. Tanto quanto a entrevista, a observação ocupa um lugar privilegiado nas abordagens de pesquisa no campo da educação, sendo considerada o principal método de investigação, por possibilitar um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado (LUDKE; ANDRÉ, 1986). Para Laville e Dionne (1999), a observação revela-se como um modo privilegiado de contato com o real, visto que é por meio dela que nos situamos, orientamos nossos deslocamentos, reconhecemos as pessoas, construímos e emitimos juízos, descobrimos coisas e aprendemos sobre elas.

A observação direta permite também que o observador chegue mais perto da ‘perspectiva dos sujeitos", um importante alvo nas abordagens qualitativas. Na medida em que o observador acompanha in loco as experiências diárias dos sujeitos, pode tentar apreender a sua visão de mundo, isto é, o significado que eles atribuem à realidade que os cerca e às suas próprias ações. Além disso, as técnicas de observação são extremamente úteis para "descobrir" aspectos novos de um problema. Isto se torna crucial nas situações em que não existe uma base teórica sólida que oriente a coleta de dados. -Finalmente, a observação permite a coleta de dados em situações em que é impossível outras formas de comunicação. Por exemplo, quando o informante não pode falar - é o caso dos bebês [...] (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 26-27).

Apesar desses benefícios e das potencialidades da observação nas pesquisas educacionais, qualitativas e com crianças pequenas, ela, como uma técnica de pesquisa, não é a mera contemplação passiva de um fenômeno. Também não pode ser um simples olhar atento e bem intencionado, logo, necessita ser um olhar ativo sustentado por uma questão de pesquisa e direcionada ao objeto de pesquisa (LAVILLE; DIONNE, 1999).

Lüdke e André (1986) também alertam os pesquisadores, sinalizando que a mente humana é altamente seletiva e que é comum que, ao olhar para um mesmo objeto ou situação, duas pessoas enxerguem diferentes coisas. Isso ocorre porque cada pessoa selecionaria para "ver" aquilo que sua história pessoal e sua bagagem cultural lhe

conduzem enxergar. Por isso, para que a observação seja utilizada como um instrumento válido, confiável e fidedigno de investigação científica, ela precisa ser controlada e sistemática, o que exige um planejamento cuidadoso do trabalho e uma preparação rigorosa do observador.

Essa exigência de rigor para uma observação criteriosa nos levou a adotar o método de Descrição Narrativa (BENTZEN, 2012) para a apreensão dos dados ligados aos comportamentos infantis. Este método consiste no registro, de forma contínua e em detalhes, do que a criança faz e diz, por si só e em interação com outras pessoas, ambientes ou objetos. O objetivo principal do registro narrativo é obter uma análise detalhada e objetiva de comportamento sem inferências, interpretações ou avaliações. Nesse método, o vídeo ou áudio gravado (e sua posterior transcrição) pode ser usado sozinho ou em combinação com notas escritas para registrar uma análise permanente do comportamento da criança.

A descrição narrativa é o mais aberto de todos os métodos de observação, resultante da falta de seletividade e da quantidade de informação que permite reunir. O registro deve preservar descrições de comportamentos, sequências cronológicas e contextos. Os dados ficam disponíveis em sua forma original, não transformados para posterior exame e análise (BENTZEN, 2012).

A descrição narrativa não é seletiva, ou seja, tudo o que ocorre dentro de um período de observação é anotado (embora a seletividade seja inerente a todos os métodos de registro, já que um observador não consegue ver tudo, nesse método ela opera minimamente). No momento em que está observando e registrando, é necessária pouca inferência, porque tudo o que acontece é direcionado para o registro (BENTZEN, 2012).

As principais vantagens deste método são listadas por Bentzen (2012): 1. Abertura do método e ausência de seletividade; 2. Pode fornecer um relato completo do que ocorreu durante o tempo que esteve no fluxo de comportamento de uma criança; 3. Compreender o contexto (cenário e situação), junto do comportamento; 4. Entender os comportamentos com base nas situações vivenciadas; e 5. Captar todos os comportamentos, contextos e estilos sob condições naturalistas.

Apesar de não ser um método encontrado ainda em muitas pesquisas brasileiras, o estudo de Gallo (2016) já aponta potencialidades para essa utilização, inclusive no campo educacional. Bentzen (2012) aborda também os benefícios da utilização deste método no contexto da Educação Infantil.

A sala de aula da educação infantil pode ser considerada uma peça de teatro (um drama), continuamente em progresso sempre que as crianças estiverem no espaço de acolhimento, independentemente do tempo que permanecerem nesse espaço. A equipe de profissionais produz a peça; eles fornecem todos os recursos necessários para que a peça seja encenada. Esses recursos incluem o espaço físico/local, os equipamentos e materiais e o currículo que determina ou influencia o modo como o espaço e os equipamentos serão utilizados. As crianças, por sua vez, são os roteiristas e os atores. Os scripts são, em grande parte, espontâneos: eles podem mudar potencialmente de um momento para outro, e incluem tudo o que as crianças dizem e como dizem, além de tudo o que fazem e como fazem. As crianças criam seus atos e suas cenas. Você, o observador, está na plateia assistindo à peça e tentando observar e registrar essas mudanças nos atos e cenas, bem como as ações e o diálogo que as crianças/os atores escreveram espontaneamente no script. No entanto, você não está na plateia como um crítico de teatro. Seu objetivo não é decidir se a peça é boa ou ruim nem fazer uma crítica sobre como os atores dizem suas falas ou retratam seus personagens. Você está lá para aprender como as crianças mudam com o decorrer do tempo e porque elas fazem o que fazem (BENTZEN, 2012, p. 112- 113).

O excerto acima evidencia que Bentzen (2012) considera que o entendimento ou a interpretação significativa do comportamento infantil dependem realmente do conhecimento do observador sobre a criança e da observação de seu comportamento ao longo do tempo e em muitos contextos diferentes.

Familiarizar-se com a criança ajudará a acessá-la e a estar mais em sintonia com a forma como ela pensa e, possivelmente, com o porquê de ela fazer o que faz. Por isso, consideramos esse método adequado diante da nossa adoção de um olhar ocupacional às crianças, entendendo-as em sua integralidade e demonstrando a viabilidade deste método para a realidade apresentada, assim como coerência com os objetivos por nós almejados.

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