Procedimentos Metodológicos
2.2 Coleta dos dados
Com base na abordagem metodológica acima esboçada, o presente estudo se propõe a investigar como se constituíram os “saberes” dos professores acerca da escrita e seu ensino, através dos depoimentos de vida e profissional destes docentes.
Segundo Lang (1996), o uso de fontes orais pode assumir três formas: relatos orais, histórias orais de vida e depoimentos orais. Tendo em vista os objetivos delineados para esta pesquisa, optamos por trabalhar com a perspectiva dos depoimentos orais, pois são concebidos como formas menos amplas de narrar, através das quais o narrador direciona o relato para determinados aspectos de sua vida. Como forma de direcionar o depoimento dos professores no sentido de resgatar sua trajetória pessoal e profissional e poder perceber como nesta trajetória se deu a construção das representações sobre escrita e seu ensino, utilizamos como instrumento de coleta de dados a entrevista. Esta, entretanto, não se constituiu de um caráter diretivo e como mera aplicação de perguntas, mas consistiu numa relação dialógica entre dois interlocutores, pois,
“o sujeito não pode ser percebido e estudado a título de coisa porque, como sujeito não pode permanecendo sujeito, ficar mudo; conseqüentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico”
A entrevista é, portanto, entendida neste trabalho como uma prática discursiva, como uma ação situada e contextualizada, por meio da qual se produzem sentidos e se constróem versões da realidade (Pinheiro, 2000). A dialogicidade aqui se refere à presença dos interlocutores envolvidos, mas também à presença de vozes e discursos diversos que se entrecruzam nos discursos tanto dos que enunciam as perguntas quanto dos que produzem as respostas.
Assim sendo, a entrevista foi composta de perguntas abertas. As questões por nós sugeridas serviram como uma orientação, visando guiar o relato na direção das dimensões da vida do professor que interessavam a esta pesquisa. Os relatos, entretanto, não se transformaram em simples monólogos frente a um ouvinte, mas buscou-se, durante todo o tempo, manter seu caráter dialógico.
As questões que fazem parte do roteiro da entrevista (vide anexo) estão divididas em dois blocos. O primeiro bloco, por sua vez, está dividido em dois eixos de questões: as lembranças do período de escolarização e a escrita no cotidiano das professoras. Nele as questões elaboradas objetivam resgatar a relação do professor com a escrita enquanto aprendiz e produtor de textos. No segundo bloco, as perguntas fazem referência à prática de ensino que o docente tem vivenciado em sua sala de aula.
Dizendo de outra maneira, no primeiro bloco de perguntas, procuramos resgatar as lembranças do período de escolarização das professoras, procurando verificar que eventos de letramento foram vivenciados por elas, observando: a) quais eventos de escrita costumavam vivenciar na escola e em casa, b) quais dificuldades com relação à escrita tiveram, c) a que atribuem tais dificuldades.
Com relação às práticas de escrita vivenciadas hoje pelas professoras, procuramos perceber: a) quais atividades de produção de texto costumam realizar no cotidiano, b) que avaliação fazem da própria escrita, c) que dificuldades encontram ao escreverem, d) a que atribuem tais dificuldades, e) que saberes consideram necessários quando precisam escrever um texto.
No que diz respeito ao segundo bloco de questões, buscamos verificar: a) que tipos de atividades de produção escrita costumam propor aos alunos, b) de que forma avaliam os textos dos alunos, c) quais as
dificuldades mais freqüentes dos alunos em relação à escrita, d) a que atribuem estas dificuldades, e) que soluções apresentam para resolver estes problemas, f) que objetivos destacam para o ensino da escrita, g) que conteúdos consideram relevantes, h) de que forma avaliam a própria prática de ensino de produção de texto.
Utilizamos também um pequeno questionário com basicamente 6 questões (roteiro em anexo) através do qual objetivamos construir um quadro com informações sobre: faixa etária, formação escolar das professoras e de suas famílias, estado civil e tempo de profissão.
O contato com as professoras se deu a partir da visita a um encontro de capacitação que estava sendo realizado com professoras da rede municipal de ensino do Recife.
Primeiramente procuramos explicar às professoras os objetivos do nosso trabalho, para em seguida convidá-las a participarem da pesquisa como informantes. Nesta primeira conversa, anotamos os telefones das professoras, para posterior contato, através do qual marcaríamos as entrevistas.
Na semana seguinte, iniciamos os contatos e marcamos com as professoras interessadas os encontros para a realização das entrevistas. Algumas professoras que, a princípio haviam se mostrado interessadas em participar, no segundo contato, já não demonstraram interesse. Das 09 professoras contatadas durante o encontro de capacitação, apenas 5 se dispuseram a participar da pesquisa. Aquelas que se comprometeram a conceder entrevista, ficaram à vontade para escolher o local e a data da mesma. Uma sexta professora entrevistada interessou-se em participar da pesquisa a partir do conhecimento que teve da pesquisa, através de uma de nossas entrevistadas.
Na terceira semana, após o primeiro contato, iniciamos as entrevistas. Foram escolhidos diferentes locais pelas professoras: três delas escolheram fazê-la em suas próprias residências, duas escolheram como local da entrevista uma biblioteca pública e uma professora preferiu fazer na própria escola em que trabalhava. As entrevistas foram realizadas no período de março a junho de 2002, de acordo com a disponibilidade das professoras.
Todos os relatos foram registrados em fita K-7 e o tempo de duração das entrevistas variou em torno de duas a três horas.
As entrevistas transcorreram num clima muito descontraído. Na verdade, constituíram-se numa prazerosa conversa entre colegas de profissão, pela qual, além dos relatos das entrevistadas sobre sua trajetória de vida e relação com a escrita, recordamos fatos e histórias do período em que trabalhamos ou estudamos juntas.
Gostaríamos de destacar o interesse que a maioria das professoras entrevistadas demonstraram em poder falar de si e de suas experiências profissionais. Isto nos chamou ainda mais a atenção para a necessidade de ouvirmos mais aqueles que fazem a escola, para que possamos entender melhor o que se passa entre seus muros.
Após a coleta dos dados, procedemos imediatamente ao trabalho de transcrição das fitas. Na verdade, não seguimos nenhuma norma de transcrição geralmente utilizada nos trabalhos científicos. Enfatizamos basicamente o conteúdo das respostas. Como defende Marcuschi (1986), “não existe a melhor transcrição. Todas são mais ou menos boas. O essencial
é que o especialista saiba quais os seus objetivos e não deixe de assinalar o que lhe convém”(p.9).
Transcritas as entrevistas, iniciamos a análise detalhada do conteúdo das mesmas. Primeiramente lemos cada entrevista, apenas para ter uma visão mais geral do material. Depois voltamos várias vezes a cada entrevista, lendo-a com mais cuidado e alternando leituras de trechos dos relatos com a leitura de outros trabalhos sobre representação de escrita e sobre letramento. Procuramos com este procedimento analisar os depoimentos das professoras a partir das lentes fornecidas pelo referencial teórico por nós utilizado.