mundo é capaz de produzir um texto. Que não é só o escritor, o autor de um livro que pode. Que todo mundo pode e erra. Embora eu também tenha medo de errar. Deve ter contato com bons textos. Por exemplo, aqueles textos “Vovó viu a uva”. Esses textinhos é só um jogo de sílabas que serve só pra fixar o padrão. Mas não vai ajudá-lo em nada a produzir um texto. Trazer bons textos, textos que tenham coesão, coerência, que sejam bem escritos.
P – Você acha que toda pessoa pode escrever bem? E - Acho, se for ensinado. Acho... (Bruna)
Embora se sentindo inseguras em afirmar como deveria ser um trabalho que objetiva o ensino da produção textual, Nair e Bruna afirmam ser possível realizar tal tarefa na escola. O que não significa que para elas seja uma coisa tranqüila:
“Eu tenho dificuldade. A minha maior dificuldade é produção
de texto, embora a minha monografia tenha sido sobre produção de textos. Trabalhar a história eu não tenho dificuldade. Agora, na prática, como era minha monografia eu investi dinheiro, loquei fita, comprava papel, xerocava história, botava pra colar, comprei cola, um monte de coisa. Agora, na prática, pela falta de material, pela falta de tempo, não é fácil fazer isso. (...)Eu sempre pego alguma coisa nova e tento incrementar, nem sempre com sucesso.” (Bruna)
“Minha questão principal agora é transformar o que eu tenho
em conhecimento teórico em prática, prática rica, variada e dinâmica. Esse tem sido o meu grande nó nos últimos tempos. Porque a gente sabe muita coisa e ao mesmo tempo apanha pra torná-la uma coisa prática. Como é que eu posso traduzir isso aqui em atividades práticas? Porque a gente passa 4 horas ali dentro, não é brincadeira não. Você ter atividades práticas e coerentes com aquilo que você aprendeu. Não é fácil não.
Você acaba batendo no tradicional de novo.” (Nair)
Ao tratarem de suas práticas de ensino da escrita, as professoras sujeitos desta pesquisa demonstram uma preocupação em tentar estabelecer uma prática que rompa com o modelo escolar ao qual foram expostas. Tentativa
que, segundo Bruna, nem sempre é bem sucedida o que leva, muitas vezes, à repetição do já conhecido. Isto poderia nos levar a concluir, como em outros trabalhos (Aebi, 1997), que a representação de ensino da escrita construída pelas professoras as leva irremediavelmente a reproduzirem em suas salas de aula o ensino que receberam.
No entanto, a heterogeneidade presente tanto no discurso quanto na prática das docentes, aqui entrevistadas, muito mais que revelar a pura reprodução de modelos de ensino a que tiveram acesso ou a presença de pensamento e prática contraditórios, revela a tentativa de construção da novidade, o que não implica o desvencilhamento de práticas que foram construídas ao longo da vida profissional destas professoras.
Anne-Marie Chartier (1998), analisando a prática de uma professora das séries iniciais, percebe a mesma lógica de ação e afirma que o que pareceria de um ponto de vista teórico como “ a coexistência heteróclita de atividades revelando modelos incompatíveis” se revela, do “ponto de vista dos saberes da ação, como um sistema dotado de uma forte coerência pragmática”(p.76).55 Esses saberes da ação se referem a esquemas
construídos pelos professores no decorrer de suas histórias de vida tanto profissional quanto escolar. Eles resultam não só de práticas vivenciadas pelas professoras em suas salas de aula, mas de trocas realizadas ao longo da carreira. Segundo Chartier (1998), o trabalho pedagógico se nutre muitas vezes de troca de “receitas” coletadas em encontros, e as que são validadas pelos colegas são mais facilmente levadas em conta que aquelas expostas em publicações didáticas.
Os relatos das professoras acerca de suas práticas de ensino revelam dados semelhantes aos apresentados por Chartier e por outros trabalhos que tratam do conhecimento docente (Albuquerque,2002 e Rosa, 2003), nos quais tem se demonstrado o quanto o professor valoriza muito mais as trocas de experiências e o contato intersubjetivo que os processos de formação formal: E - O que você acha que mais tem influenciado sua prática de
ensino?
P - Minha troca com as colegas de trabalho. Olhe...veja...
tiveram muitas pessoas importantes na minha vida....As capacitações, não as de hoje. Aquelas capacitações, não
55
“En effet, ce Qui pourrait apparaître, d’un point de vue théorique, comme la coexistence hétéroclite d’avtivités relevant de modèles incompatibles apparaîtt, du point de vue des “savoirs d’action”comme un système doté de forte cohérence pragmatique.”
sei se você alcançou, que era com os supervisores em escolas-núcleo, lembra? Eu ia pro Morro da Conceição...essas coisas assim. Nestas capacitações tinham muitas sugestões de atividades. Essa coisa mesmo de corrigir foi idéia de uma das capacitações. Outra pessoa que contribuiu muito foi A... Significativamente ele foi o divisor de águas. Ele não só discutia as práticas, como ele trazia sugestões de como trabalhar.(Nara)
“Eu me baseava no que aprendia nas capacitações. Mas
muito mais nas socializações de atividades junto a meus colegas. Eu tinha uma colega de escola que me ajudava muito. Eu via...quando eu vejo professores que estão dando certo eu gosto de tentar fazer igual, eu fico querendo experimentar pra ver se dá certo(...)” (Edilene)
“Quando você ingressa assim numa instituição pega as piores
turmas e aí você sem experiência tem muitos atropelos, né? E depois você já vai se acostumando, você vai trocando idéias com outros profissionais e vai melhorando(...)” (Diana)
Num movimento de tentativa de incorporação da novidade, as professoras procuram se apropriar das experiências compartilhadas entre elas, adaptando o que tem sido proposto para o ensino de escrita à realidade na qual se confrontam todos os dias: as condições disponíveis, as possibilidades dos alunos etc. Nessa perspectiva, Albuquerque (op.cit) afirma que
“o processo de apropriação é influenciado pelas experiências das professoras, experiências estas que possibilitam a incorporação de uma série de dispositivos relacionados ao desenvolvimento pedagógico” (p.345)
Como discutido anteriormente no capítulo referente aos pressupostos teóricos que embasam este trabalho, a exposição à novidade produz a não familiaridade, cabendo ao processo de construção das representações tornar o novo, o não familiar em algo familiar. Na dinâmica através da qual se processa essa familiarização, “os objetos, indivíduos e eventos são percebidos e compreendidos em relação a encontros e paradigmas prévios” (Moscovici, apud, Sá, 1995:36). Assim sendo, a apropriação da novidade não pode se
realizar a partir de um distanciamento do já conhecido, mas parte de um trabalho sobre e com os conhecimentos disponíveis.
Os múltiplos dizeres presentes nos relatos das professoras revelam diferentes saberes provenientes dos diferentes discursos acerca da escrita e seu ensino com os quais as professoras dialogaram ao falarem de suas práticas de ensino. Discursos estes que povoaram as experiências com a escrita vivenciadas pelas docentes ao longo de suas vidas. A análise dos relatos das professoras acerca dessas experiências evidenciaram os conflitos, resistências e tentativas de mudanças vividas pelas docentes no exercício de sua profissão.
É, portanto, neste espaço de conflito e tensão entre o novo e o velho e entre os diferentes discursos sobre a escrita e sua aprendizagem que as representações das professoras sujeitos desta pesquisa, vão sendo cruzadas e costuradas ao longo de suas histórias de vida.