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3. O COTIDIANO DO CORTADOR DE CANA: a atividade

3.4 Colheita Mecanizada

Entende-se que a mecanização da colheita de cana é um instrumento que modificou centenas de anos de uma produção pautada no esforço físico. A priori, deve-se compreender que as leis que regem o trabalho na cana-de-açúcar são instituídas para serem cumpridas no nível da União, Estado e, também, Municipal. Isto possibilita que cada Estado possua sua própria lei em referência ao trabalho com a cana-de-açúcar, assim, para esta dissertação foram utilizada as leis que são regidas no Estado do Paraná, conforme será esclarecido nos próximos capítulos. Mas, nem por isto serão negados os moldes e leis de outros Estados para compreensão do fenômeno no país.

Para início dos efeitos da mecanização nas plantações de cana-de-açúcar, vale destacar a Lei nº 11.24135, de 19 de setembro de 2002, que dispõe "sobre a eliminação gradativa da queima da palha da cana-de-açúcar e dá providências correlatas", dentro do Estado de São Paulo.

Com isto, "os plantadores de cana-de-açúcar que utilizam como método de pré-colheita a queima da palha são obrigados a tomar as providências necessárias para reduzir a prática", conforme as seguintes tabelas:

Tabela 02. Cronograma das metas estabelecidas para o fim da queimada em áreas mecanizáveis no Estado de São Paulo

Ano Área mecanizável onde não se pode

efetuar a queima da cana Percentagem de eliminação 1º ano (2002) 20% da área cortada 20% da queima eliminada 5º ano (2006) 30% da área cortada 30% da queima eliminada 10º ano (2011) 50% da área cortada 50% da queima eliminada 15º ano (2016) 80% da área cortada 80% da queima eliminada 20º ano (2021) 100% da área cortada Eliminação total da queima

35 Artigo 1º - Esta lei dispõe sobre a eliminação do uso do fogo como método despalhador e

Tabela 03. Cronograma das metas estabelecidas para o fim da queimada em áreas não mecanizáveis no Estado de São Paulo

Ano

Área não mecanizável36, com percentagem

de eliminação declividade superior a 12% e/ou da queima menor de 150 hectares

Onde não se pode efetuar a queima

10º ano (2011) 10% da área cortada 10% da queima eliminada 15º ano (2016) 20% da área cortada 20% da queima eliminada 20º ano (2021) 30% da área cortada 30% da queima eliminada 25º ano (2026) 50% da área cortada 50% da queima eliminada 30º ano (2031) 100% da área cortada Eliminação total da queima

Ou seja, dentro do Estado de São Paulo, as empresas de cana-de-açúcar teriam que se adaptar até 2021 ou até 2031, respectivamente, em áreas mecanizadas com terreno sem declividade ou não mecanizadas em terrenos com declividade. No entanto, por algum motivo, longe de ser em prol do meio ambiente ou pela saúde do trabalhador, este período foi encurtado para 2014. Segundo a Coletiva de Imprensa da União da Indústria de Cana-de-açúcar - UNICA, de 20 de dezembro de 2012, a colheita mecanizada no Estado de São Paulo foi de 87% do total de área plantada37, no Mato Grosso do Sul foi de 95%, Mato Grosso foi 90%, ao todo, a região do Centro-Sul38 contabilizou 85% de área onde a colheita foi mecanizada.

Por motivos ambientais e trabalhistas, as usinas sucroalcooleiras já conseguiram mecanizar 85% da colheita e 53% do plantio de cana da região Centro-Sul, responsável pela maior parte da produção brasileira de álcool e açúcar. O indicador é um alívio para dezenas de municípios que há até poucos anos sofriam com períodos anuais de queima da planta, que gera uma "neve negra" de cinzas prejudiciais à saúde, apesar das disputas pendentes na Justiça para a prorrogação dessa prática (BARROS, 2013, s/p).

36 Na Lei nº. 11.241, de 19 de setembro de 2002 vem descrito detalhado o que vem a ser área não

mecanizável, bem como o grau de declividade do terreno da plantação.

37 Estes números são referentes a área plantada das usinas, não inclui os fornecedores. 38 São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás.

Em contrapartida, as empresas de açúcar e álcool do Estado Paraná, seguem outras diretrizes, vinculados a Associação dos Produtores de Álcool e Açúcar do Paraná - Alcoopar, estes estão condicionados a Resolução SEMA nº 076, de 20 de dezembro de 2010, que dispõe sobre "eliminação gradativa da despalha da cana-de- açúcar através da queima controlada". Para isto, as empresas devem se enquadrar ao seguinte cronograma:

Art. 3º – Os plantadores de cana-de-açúcar que utilizem a queima controlada como método para a despalha de cana-de-açúcar são obrigados a eliminar a prática, nas áreas mecanizáveis, nos seguintes prazos e percentuais:

l – até 31 de dezembro de 2015 – 20% (vinte por cento) do total da área mecanizável de plantio da cana-de-açúcar;

ll – até 31 de dezembro de 2020 – 60% (sessenta por cento) do total da área mecanizável de plantio da cana-de-açúcar;

lll – até 31 de dezembro de 2025 – 100% (cem por cento) do total da área mecanizável de plantio da cana-de-açúcar.

Para terrenos não mecanizáveis, fica disposto que:

Art. 4º – Nas áreas não mecanizáveis, a utilização da queima controlada deverá ser eliminada até a data de 31 de dezembro de 2030, desde que exista tecnologia viável.

As diferenças de período entre Estados estão relacionados ao tipo de relevo, basicamente, enquanto que os Estados vinculados ao Centro-Sul possuem terrenos de baixo declínio e arenoso, no Estado do Paraná os terrenos possuem grandes declives com um solo argiloso. Neste caso, se enquadra no artigo nº 4 e esperam por uma tecnologia capaz de colher em terrenos em declive.

"Nos terrenos com declividade acima de 12%, onde as limitações técnicas não permitem mecanizar, a proibição torna impraticável a colheita, o que atingiria mais de 30% da área atual do Paraná, inviabilizando inclusive o funcionamento de algumas usinas" (Miguel Tranin, presidente Alcoopar) (JORNAL DO PARANÁ39, 2013, p. 13).

"No Nordeste do País, onde prevalece uma topografia mais acidentada, a situação é ainda mais complicada. Apenas 39% dos canaviais podem ser colhidos por máquinas, segundo a União Nordestina dos Produtores de

39 O Jornal do Paraná é uma publicação realizada em parceria com a Associação dos Produtores de

Álcool e Açúcar do Paraná - Alcoopar, sendo assim, suas publicações podem ser vulneráveis, conforme os interesses a classe dos produtores.

Cana (Unida). A situação implicaria na extinção de 218 mil postos de trabalho. E como a produção regional é substancialmente em regime de econômica familiar, a lei provocaria uma reforma agrária às avessas, obrigando o pequeno produtor a vender suas terras" (JORNAL DO PARANÁ, 2013, p. 13).

Como a empresa discutida nessa dissertação está localizada no Estado do Paraná, a mesma sofre com a falta de tecnologia para ter 100% da colheita mecanizada, localizada em uma região de grandes declives e com solo "roxo" (os habitantes são chamados de "pé vermelho"), assim, a empresa ainda necessita dos trabalhadores do corte manual. Pensando nisto, Marx (1982) relata sobre o avanço do maquinário nas empresas,

Além disso e sem dúvida, simultaneamente à maquinaria desenvolve-se também a agricultura em larga escala, que funciona de fato como produção mecanizada, dado que tanto a transformação da terra arável em pastagens, como o uso de melhores instrumentos e cavalos, aqui, tanto quanto na maquinaria, faz com que o trabalho passado surja como meio para substituição ou diminuição do trabalho vivo (p. 105).

Com o uso de suas palavras, o uso das máquinas40 visa diminuir e substituir o trabalho vivo, conforme Antunes (2009) esta forma de desenvolvimento maquinário e de mudanças estruturais e administrativas das organizações fazem parte de uma “engenharia da liofilização”, da qual a terceirização se torna um modo para a lucratividade. Enxugando o quadro de funcionários e aprimorando as tecnologias e máquinas faz-se cada vez mais a fragmentação do Ser pela divisão do trabalho e sua substituição por máquinas, dá-se fim a cooperação entre os homens (MARX, 1996) e do conhecimento do fazer em sua totalidade. O Ser conhece apenas uma particularidade do produto todo. Partindo por este pressuposto é que a terceirização das máquinas nos canaviais vem como uma "luva" para a economia organizacional. Ainda devagar, pois lhe faltam grandes tecnologias para certos tipos topográficos, mas que em médio prazo está dominando os canaviais, como já ocorre no Centro- Sul.

Para dar formas concretas à potencialidade das máquinas, utiliza-se dos cálculos de produção41. Uma máquina colhedora é capaz de colher 6 hectares/dia,

40 Consideram-se como maquinário as colheitadeiras ou colhedoras, tratores reboques, transbordo,

caminhões, equipamentos de plantio e de tratos culturais, entre outros.

com uma média de 80 toneladas/hectares, no final do dia (24 horas) uma máquina é responsável por colher 480 toneladas de cana, como são utilizadas 7 máquinas nesta usina em estudo, no final do dia a indústria mói 3,2 mil toneladas de cana colhidas mecanicamente, ou seja, 61,5% de toda colheita de cana própria42 é realizada mecanicamente, enquanto 38,5% é por meio de colheita manual.

Se a média de corte de um trabalhador manual é de 9 toneladas de cana43, a máquina está substituindo 53 empregados, isto trabalhando 24 horas, enquanto que o cortador de cana trabalha apenas 8 horas/dia, totalizando 373 cortadores de cana substituídos.

Aqui, portanto, com maior evidência aparece o estranhamento das condições objetivas do trabalho - do trabalho passado - em oposição ao trabalho vivo como sendo aquela contradição imediata na qual o trabalho passado - e, por conseguinte, as forças sociais gerais do trabalho que compreendem tanto as forças da natureza quanto as da ciência - se apresenta diretamente como uma arma que atira à rua o trabalhador, transformando-o num sujeito supérfluo; que rompe e dilui com sua especialização, sufocando aquelas necessidades nela fundadas, e que submete o trabalhador ao despotismo acabado e organizado da forma de ser da fábrica (Fabrikwesen) e à disciplina militarizada do capital (MARX, 1982, p. 108)

Transformando em valores é possível que não seja tão rentável a mecanização, por um motivo simples: a tecnologia de uma máquina ainda é muito nova tornando-a cara na compra e em sua manutenção.

Uma máquina de colher cana pesa cerca de 20 toneladas e custa, em média, R$ 900 mil. Quando quebra, o prejuízo à usina é enorme, já que, por dia, serão 500 toneladas de cana que deixarão de ser colhidas. O mesmo acontece com outras máquinas da operação agrícola. Por essas e outras, ainda hoje o corte da cana pode ser a única solução (BATISTA, 2013a, s/p). Uma colheitadeira de cana substitui os braços de 80 a 100 trabalhadores, dependendo da produtividade do cortador. Nos últimos cinco anos, as usinas e fornecedores de cana investiram cerca de R$ 14 bilhões para alavancar a substituição do homem pela máquina, mas, até agora, o resultado não agradou. A razão é que a mecanização mudou o patamar de produtividade dos canaviais, provocando um declínio sistêmico de rendimento. Produtores com décadas de experiência no setor estão tendo que "reaprender" o manejo da cultura. E, quatro anos depois, o setor está apenas no meio de um a reação, afirma João Guilherme Iglézias, diretor de operações agrícolas da Agroterenas (BATISTA, 2013b, s/p).

42 Não inclui de fornecedores.

43 Há casos de um cortador ter a média em 12 toneladas, conforme a qualidade e o alinhamento da

plantação. Há casos no Estado de São Paulo onde a média de um cortador está entre 19 a 21 toneladas de cana por dia.

Com a mecanização, além de ter que estruturar todo o campo para o plantio e colheita, o uso das máquinas acaba gerando outros problemas como a compactação do terreno, ocasionado pelo peso das máquinas; perdas de pedaços de cana que poderiam ser moídos e ficam jogados no campo; por impurezas (terra, pedras e outros materiais44) que se tornam um peso inutilizável e que gera gastos e quebras nas máquinas da indústria; por pragas que antes eram queimadas junto com a palha e, com a mecanização, a palha que retorna ao campo em forma de um colchão de adubo ao solo, acaba sendo um local de procriação destas pragas.

A palha forma um colchão que traz impactos positivos como maior proteção do solo contra erosão, conserva a umidade, aumenta as taxas de infiltração de água no solo e a capacidade de retenção, além de reduzir a amplitude térmica nas camadas superficiais do solo e evaporação. Mas o acúmulo de palha no solo também traz impactos negativos, disse a pesquisadora (Rafaela Rossetto, pesquisadora da Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócio - Apta), como os riscos de incêndio, falha na brotação principalmente em regiões mais frias, aumento de pragas como cigarrinha e dificuldades para executar operações de cultivo (AIRES, 2013a, p. 6). Estudos mostram que uma tonelada de palha tem 40% de celulose e rende 287 litros de etanol por tonelada de palha através da hidrolise. Com isso além dos 7 mil litros de etanol por hectare a partir do caldo da cana, dá para produzir 7 mil litros a partir do bagaço e da palha, já que o poder calorífico da palha é semelhante ao do bagaço (AIRES, 2013b, p. 7).

Com essas notícias, revelam que o setor ainda está em adaptação e muitos estudos e pesquisas estão sendo feitos para melhor rentabilidade da cana-de- açúcar. No caso da empresa deste estudo, os números aqui discutidos acabam interferindo na colheita manual, já que os números de máquinas - valor e produção - são conhecidos e mais estáveis. A ponta mais frágil é do trabalhador do corte de cana manual, de onde pode ser retirada a mais-valia que alimenta o bolso dos usineiros.

Após algumas reflexões, retorno a este ponto para buscar realizar o papel científico dessa pesquisa. Não se pode concluir esta temática da mecanização sem ao menos discutir sobre o seu efeito frente à produção de sentidos para o trabalhador do campo. Não é certo de que a pesquisa em psicologia social, principalmente do estudo sobre os sentidos, tire conclusões sobre o fenômeno utilizando dados estatísticos e matemáticos, como está sendo feito até o momento,

44 Já aconteceu de aparecer um tronco de árvore que, após investigação, foi constatado que o tronco

fora escondido embaixo do monte de cana para dar maior volume e, consequentemente, aumentar o peso colhido.

fazendo isto, estaríamos retornando a uma ciência positivista, tal como a crítica de Lukács (2012),

Durante longo tempo, a teoria do conhecimento foi um complemento e um acessório para ontologia: sua finalidade era o conhecimento da realidade existente em si e, por isso, a concordância com o objeto era o critério de todo enunciado correto. Somente quando o em-si foi declarado teoricamente inapreensível a teoria do conhecimento torna-se autônoma, e os enunciados precisam ser classificados como corretos ou falsos independentemente de tal concordância com o objeto; ela está centrada unilateralmente na forma do enunciado, no papel produtivo que nela desempenha o sujeito para encontrar os critérios autônomos, imanentes à consciência, do verdadeiro e do falso. Este desenvolvimento culmina no neopositivismo. A teoria do conhecimento transforma-se por inteiro numa técnica de regulação da linguagem, de transformação dos signos semânticos e matemáticos, de tradução de uma “linguagem” em outra. Com isso o elemento matemático impõe cada vez mais que a ênfase seja transferida, exclusiva e crescentemente, para o caráter formalmente não contraditório dos objetos e métodos da transformação e para que os próprios objetos sejam utilizados como mera matéria das possibilidades de transformação (p. 58).

Desta forma, o retorno para este capítulo faz-se necessário para que o objeto não seja matematizado, como se os números e cálculos sejam apenas fórmulas para descrever/confirmar uma práxis com uma "finalidade concreta determinada" (ibidem, p. 56). Se o objetivo deste capítulo é de mostrar como o universo e suas particularidades - planejamento organizacional - fundamentam o cotidiano das pessoas utilizando como princípio a lucratividade, constituindo uma dimensão subjetiva - cortador de cana - será um absurdo fatídico esquecer que a própria mecanização é determinante de construção de sentidos, ora basta ver nos jornais e noticiários sobre a mecanização como ameaça ao fim do trabalho.

O flamenguista José Araújo dos Santos, de 52 anos, corta oito toneladas de cana das 7h às 15h todos os dias com seu afiado facão nos canaviais da Usina da Pedra, em Serrana, região de Ribeirão Preto, a principal produtora de açúcar e álcool do país. Como recebe R$ 4,15 por tonelada cortada, chega a ganhar pouco mais de R$ 1 mil por mês. Mas ele não reclama de ganhar pouco e trabalhar exaustivamente sob um sol escaldante. Pelo contrário, ele está preocupado é com o fim dos cortadores de cana. Hoje as máquinas já colhem 90% da cana plantada na região e no ano que vem esse índice deve ser de 100%. As usinas vão dispensar os cortadores. Só vai ter emprego quem souber pilotar as máquinas. Como sou analfabeto, não tenho como aprender. Sem emprego, vou morrer de fome se continuar aqui. Vou ter que voltar para a Bahia, de onde vim para cortar cana. Meus amigos estão indo trabalhar na construção civil, em Ribeirão Preto - disse José dos Santos, que corta cana com a mulher Terezinha, de 42 anos, que também deve ficar sem emprego no ano que vem (OLIVEIRA, 2013).

Sabe-se que, para a Psicologia Sócio-Histórica, o trabalho é determinante para formação do ser social, "por isso a práxis está inseparavelmente ligada ao conhecimento; por isso o trabalho, conforme procuraremos mostrar no capítulo indicado45, é a fonte originária, o modelo geral, também da atividade teórica dos homens" (LUKÁCS, 2012, p. 56). Sem ele não é possível falar em um ser social. Não se trata, neste caso, de falar que o trabalhador do corte de cana sem o seu emprego irá perder a potencialidade de objetivação, isto é infindo, o que acontece é que a produção de sentidos pelo trabalho irá ocasionar mudanças subjetivas - metamorfoses - nos significados das coisas e de si, pois é a atividade mediada pelos significados que constrói a consciência (AGUIAR; et al, 2009, p. 56).

Portanto, não é a teoria que determina a redução do homem à abstração; é a realidade mesma. A economia é um sistema e uma regularidade de relações nas quais o homem se transforma continuamente em "homem econômico" (KOSIK, 2011, p. 95) (Grifos do autor).

O homem econômico como sendo uma célula pertencente à incógnita das frações e dos cálculos, incógnita importante para a obtenção dos lucros e de sua fragmentação frente ao conhecimento da realidade que, após a dominação do sistema capitalista, vê-se mergulhado em um mundo manipulado transformando a realidade em pseudoconcreticidades creditadas pelo sujeito. Em pseudoconcreticidades como a do desenvolvimento através do estudo, de sua situação social - cortador de cana - como resultado da falta de formação educacional.

Trabalhador Rural: _Queria trabalhar como vocês, dentro da sala com ar- condicionado.

Funcionária do RH: _É fácil, só estudar pra conseguir chegar aqui no meu lugar. (Diário de Campo, set. 2012. Contratação da turma do Polaco).

Ou na crença de que estes trabalhadores estão sendo treinados e preparados para ocuparem as cabines das colheitadeiras, dos tratores, pensando que uma máquina necessita de 3 ou 4 operados, e que elas fazem o trabalho de 80 pessoas, como fica a situação de 76 trabalhadores? Em pseudoconcreticidades de que as empresas estão pensando em capacitar estes trabalhadores para ocuparem outros

45 Capítulo 1 do livro "Para uma ontologia do ser social II" de Gyorgy Lukács (2013). Lançado em

cargos e funções dentro da própria usina, como é o caso da notícia "Cortador troca o facão pelo volante", do jornal Tribuna do Vale (DAMÁSIO, 2013, p. 5), onde faz menção a capacitação profissional de um único trabalhador rural chamado Paulo Henrique Nunes Adão, que fala:

“Sempre falei que dava certo e hoje todos veem que eu consegui atingir meu objetivo. Iniciei no corte de cana por falta de opção, mas tomei a iniciativa, consegui ser tratorista e vou continuar investindo na minha carreira”

Não sabe ele que é o único trabalhador no meio de 459 que fora recrutado para realizar o curso de tratorista e que os outros trabalhadores do corte de cana fazem sempre no início de safra os cursos de "Cana Motivacional"46, "Corte de Cana Básico" e "Avançado"47, "Corte de Cana - Apontamentos"48, entre outros, nenhum em sentido de capacitação para ocuparem outros cargos e funções, todos os cursos para aumentar a produtividade do corte de cana; não sabe ele que a empresa paga todos os seus gastos de transporte e não seria rentável pagar para aos outros este mesmo custo de transporte; não sabe ele que a matéria fora manipulada junto com a jornalista e um dos sucessores da empresa; não sabe ele que 44 trabalhadores rurais foram demitidos em abril de 2013, nesta mesma empresa em que este jornal escreveu a matéria "Mão de obra escassa acelera mecanização da cana-de-açúcar" em março de 2013 (DAMÁSIO, 2013); não sabe ele que será demitido se não mudar