5. ESTADO E SINDICATO
5.1 Trabalhadores no universo neoliberal
No capítulo anterior foi possível entender as particularidades históricas que formaram o atual cenário sócio-econômico do Brasil, tomando como partida as relações de mercado externo com as políticas implantadas dentro do país, principalmente, para o setor de álcool e açúcar. Por outro lado, vale lembrar as palavras de Lukács (2012, p. 285) "o fato de a economia ser o centro da ontologia marxista não significa, absolutamente, que sua imagem do mundo seja fundada sobre o 'economicismo'". Não tendo essa dissertação bases de cunho econômico, o capítulo irá abordar o que os fatos relacionados no capítulo anterior interferiram no cotidiano das pessoas, colaborando para a totalidade histórica da consciência de classe dos trabalhadores rurais.
Percebe-se que muito do que for tratado neste capítulo faz parte da realidade objetiva do trabalhador rural, e que esta objetividade irá servir de fundamento para a consciência do ser, conforme pauta os estudos de Iasi (1999, p. 17) "a consciência seria o processo de representação mental (subjetiva) de uma realidade concreta e externa (objetiva), formada neste momento, através de seu vínculo de inserção imediata (percepção)", ou como ele resume, sendo "uma realidade externa que se interioriza". Da mesma forma, o externo que se interioriza possui relação com as regras que delineia o cotidiano, por exemplo, a jurisdição.
Não distante disso, a jurisdição em prol ou envolvendo o trabalhador rural pode-se dizer que faz parte de um conjunto de lutas da classe trabalhadora, sendo esta operária ou camponesa que reivindicavam os direitos trabalhistas e reconhecimento para a classe trabalhadora em geral97 (ALVES, 1991) através da participação efetiva dos sindicatos. Deste modo, a participação dos trabalhadores,
97 Coloca-se "em geral" para um sentido de massa de trabalhadores, sem a distinção entre classe
operária, camponesa, etc., pois pela compreensão do método utilizado, não seria possível realizar esta distinção dentro da classe trabalhadora. Como apresentado por Gramsci (1977, p. 69), "não somos, pois, como linha de princípio, contra a origem de novos sindicatos. Os elementos revolucionários representam a classe no seu todo, são o momento mais altamente desenvolvido da sua consciência com a condição de estarem com as massas, de lhes dividirem os erros, as ilusões, os desenganos. Se uma disposição dos ditadores reformistas obrigasse os revolucionários a sair da Confederação Geral do Trabalho e a organizarem-se a parte (o que naturalmente não pode excluir- se), a nova organização deveria apresentar-se e ser verdadeiramente dirigida com o único objetivo de obter a reintegração, de obter novamente a unidade a classe e a sua vanguarda mais consciente".
consequentemente, a instituição dos sindicatos, caminharam juntas com a história dos governos brasileiros, mostrando-se uma forte aliança no combate e na luta pelas desigualdades e precariedades dentro da empresa, como também, fora dela. Nisto resultou mudanças na relação tríade entre estado - empresa - trabalhador com os direitos e deveres de ambas as partes estabelecido pela Constituição Nacional. Entretanto, no início da década de 90, visto no capítulo anterior, o governo de Fernando Collor apresenta uma série de mudança com o objetivo de abaixar as altas taxas de inflação, mudanças que foram pautadas em um sistema econômico neoliberal que deflagraram em uma "precarização do trabalho". Segundo Giovanni Alves (2009),
A experiência da precarização do trabalho no Brasil decorre da síndrome objetiva da insegurança de classe (insegurança de emprego, de representação, de contrato etc.) que emerge numa textura histórica específica – a temporalidade neoliberal. Ela é elemento compositivo do novo metabolismo social que emerge a partir da constituição do Estado neoliberal. Possui como base objetiva, a intensificação (e a ampliação) da exploração (e a espoliação) da força de trabalho e o desmonte de coletivos de trabalho e de resistência sindical-corporativa; além, é claro, da fragmentação social nas cidades, em virtude do crescimento exacerbado do desemprego total e a deriva pessoal no tocante a perspectivas de carreira e de trabalho devido à ampliação de um precário mercado de trabalho (p. 189).
A precarização do trabalho em um sistema neoliberal faz jus a diversas mudanças econômicas e dos processos da administração organizacional, uma decorrente a outra, um efeito cascata que só pode ter sua efetivação decorrente das formas neoliberais de relação com o mercado global. A abertura do mercado brasileiro para os grandes investidores do exterior ocasionou uma crise no mercado interno já que as empresas não conseguiam competir com as potências financeiras dos grandes blocos econômicos no mundo. Além do mais, a "'Reforma do Estado', compreendendo a criação do 'Estado mínimo', isto é, desregulação, privatização, abertura de mercados, favorecimento de fusões e aquisições de empresas nacionais por transnacionais" (IANNI, 2000, p. 52), acarretou no fechamento de inúmeras empresas que, em conjunto com as tecnologias provenientes destas indústrias mundiais ocasionaram um "exército de mão de obra".
Na verdade, a nova temporalidade histórica do capital, marcada pela precarização do trabalho no Brasil, tende a reconverter a “cultura de greve” para o âmbito das empresas. Consolida-se um defensivismo de novo tipo
que irá marcar a cultura sindical sob a era neoliberal. A nova territorialidade das greves, restritas à empresa e não mais à dimensão da categoria de trabalhadores assalariados (ou mesmo da classe social) é expressão da nova morfologia social da precarização do trabalho. Esta “nova ordenação socioespacial” das greves é um traço explícito do particularismo sindical- corporativo em seus rebatimentos territoriais, que contribui para alimentar a ideologia do sindicalismo propositivo (ALVES, 2009, p. 192).
Do ponto de vista sindical, a flexibilização no plano organizacional que sufocou a massa dos trabalhadores dentro da empresa, sucumbiu os sindicatos da mesma forma. A falta de um Estado intervindo nas relações entre empresa - trabalhador feriu gravemente os meios para ações sindicais com a empresa, o neoliberalismo coloca a empresa como potência máxima nas suas políticas internas, pensando apenas na sobrevivência dentro de um mercado competitivo e concorrente. Com isto, o trabalhador é principal agente para a sobrevivência das empresas, destacando-se ao máximo dentro de uma política para o favorecimento da mais-valia cada vez mais subjetiva. Sem a força dos trabalhadores, do operariado fabril e dos trabalhadores rurais, o sindicato não encontrou outros meios de sobreviver dentro de um sistema neoliberal sem fazer acordos com as empresas, tornando assim um sindicato - organização.
A base objetiva da precarização do trabalho se caracteriza pela intensificação (e a ampliação) da exploração (e a espoliação) da força de trabalho, pelo desmonte de coletivos de trabalho e de resistência sindical- corporativa; e pela fragmentação social nas cidades em virtude do crescimento exacerbado do desemprego em massa (ALVES, 2009, p. 189).
Um dos marcos para o aparecimento do sindicato-organização foi a Constituição Federal de 1988, que contribuiu para a fragmentação do poder da força trabalhadora com a dissolução da centralidade dos sindicatos em prol da classe trabalhadora em geral. Na constituição vale destacar o artigo 8º, que estabelece a criação de novos sindicatos desde que tenha o consentimento e a autorização do Estado, caso necessário, o Estado pode intervir na organização sindical conforme os seus interesses, valendo para qualquer forma de organização de trabalho, conforme o Parágrafo único em respaldo aos trabalhadores rurais.
Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte: I - a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao poder público a interferência e a intervenção na organização sindical;
II - é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município;
III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas; IV - a assembleia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei;
V - ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato; VI - é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho;
VII - o aposentado filiado tem direito a votar e ser votado nas organizações sindicais;
VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei.
Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições que a lei estabelecer (BRASIL, 1988)
A fragmentação do poder sindical deixou a luta pela classe trabalhadora instaurada em nível de categoria salarial, perdendo sua estrutura horizontalizada (classe trabalhadora) para uma estrutura sindical verticalizada (categoria salarial, exemplo: sindicato dos psicólogos, sindicato dos bancários, sindicato dos trabalhadores rurais etc.). Desta forma, o sindicalismo no Brasil é afetado em sua base de cunho social, significando uma "regressão relativa do sindicalismo no Brasil, principalmente no tocante à sua capacidade de agitação social e de militância política" (ALVES, 2002, p. 92). O sindicato-organização com sua ação verticalizada, necessita modificar sua forma de relação com a empresa, não mais com lutas, manifestações, greves, mas com uma forma de parceria, empresa e sindicato dando as mãos para ambas sobreviverem dentro de um sistema neoliberal. Como afirma Gramsci (1977), décadas antes sobre o sindicalismo na Itália:
O sindicalismo revelou-se nada mais do que uma forma da sociedade capitalista, não uma potencial superação da sociedade capitalista. Organiza os operários não como produtores, mas como assalariados, isto e, como criaturas do regime capitalista de propriedade privada, como vendedores da mercadoria trabalho (p. 60).
Neste novo cenário de ações sindicais, temos a fragmentação da classe trabalhadora rural, não mais com uma ação para os trabalhadores rurais em geral, mas dividida por territórios (Inciso II, Art. 8º da Constituição Federal de 1988), como é o caso do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jacarezinho - PR, que tem suas
ações focadas apenas nos trabalhadores de Jacarezinho - PR, não importando trabalhadores de outros lugares, ou mesmo, dos trabalhadores da cidade que atuam em outras regiões. Para conhecimento das atuações do Sindicato dos Trabalhadores de Jacarezinho - PR, foram realizada entrevistas com seus representantes para uma compreensão desta noção de fragmentação sindical e de um Estado mínimo.