4 A OBRA DE JORGE AMADO E O MERCADO EDITORIAL
4.1 EDITORES E TRADUTORES EM DESTAQUE
4.1.2 Collections: Bibliothèque Cosmopolite/Le Cabinet
A editora Stock foi pioneira na criação de uma coleção de literatura estrangeira na França. Os nomes das coleções citadas são variantes de uma mesma coleção que iniciou como Bibliothèque Cosmopolite, em um projeto que teve início em1896, mais precisamente, quando o fundador da coleção e da própria editora Pierre-Victor Stock comprou o fundo de edições, traduções e publicações estrangeiras do livreiro Albert Savine(tradutor). Com o passar do tempo, a coleção Cosmopolite se tornou referência na publicação de literaturas estrangeiras no território francês.
O primeiro sucesso foi com a Bibliothèque Cosmopolite, em seguida Pierre- Victor Stock confiou a direção da coleção a Delamain e Boutelleau, os quais prolongaram
a Bibliothèque Cosmopolite ao criarem a Le Cabinet Cosmopolite, “Les meilleures œuvres étrangères inédites en France ou devenues rares et curieuses”, em 1925. Nessa nova versão da coleção foram publicadas obras principalmente para leitores especialistas, em número limitado de exemplares. Estão presentes nessa coleção obras como Mrs. Dalloway (1927) e La Promenade au phare,de Virginia Woolf (1928).
Delamain e Boutelleau dirigiram a coleção até o início da Segunda Guerra Mundial, quando o mercado editorial começou a viver uma grande crise. Neste período, a coleção foi entregue a outro grande nome, André Bay. Ele entrou para as edições Stock inicialmente como chefe de leitores no domínio estrangeiro. Detentor de diversos títulos universitários, com especialização em língua inglesa, passou a dirigir a coleção, e, mais uma vez, sugeriu outro título, Le Nouveau Cabinet Cosmopolite. Mas, o início para Bay não foi nada fácil, a Guerra ganhou força e no mesmo ano Paris foi ocupada.
Dessa forma, o mercado editorial hibernou, as publicações passaram a ser controladas e submetidas à censura. Somente a partir de 1949, André Bay conseguiu reerguer a coleção que, a partir de então, ganhou força e se consagrou com a publicação de obras provenientes das mais diversas zonas geográficas, desde o Brasil com as publicações das obras de Jorge Amado, em sua maioria intermediadas por Alice Raillard (amiga pessoal do escritor), até obras asiáticas com as publicações da obra Le Fusil de Chasse,1961 do Japonês YasushiInoué, e a obra La Véritable Histoirede Ab Q, do chinês Luxun, em 1981.
Em 1972, a Stock lançou uma nova coleção cosmopolita, La Petite Bibliothèque Cosmopolite. Uma coleção de semi-poche, que, sob o nome fundador, surgiu com a intenção de divulgar para o grande público leitor obras estrangeiras no território francês. Toda a coleção, desde La Bibliothèque Cospomolite à La Petite Bibliothèque Cospomolite, foi apresentada em capa rosa. Independentemente do título que veio sendo aplicado na coleção, as capas foram elaboradas de modo muito similar e correspondem a critérios editoriais enraizados no território francês, onde as capas durante muitos anos foram consideradas como porta de entrada entre o leitor e o texto.
O objetivo dos editores na França seria deixar, na medida do possível, esta porta aberta. Isso significa, segundo Edgar Dubourg, em seu artigo Explorons en profondeur les couvertures des livres, “[...] laisser vierge l’imagination du lecteur, laisser blanche –
ou bleue, ou jaune – la couverture. Cela permet de mettre em valeur le texte” (DUBOURG, 2016, s/p )130. As cores citadas por Dubourg fazem referência às clássicas capas da coleção Blanche, da Gallimard; Bleue, da Stock; e Jaune, das Édition Grasset. A tradição de capas sóbrias no território francês pode ser entendida a partir do estudo da história da edição literária, que se desenvolveu em três “sacralizações” sucessivas: a do objeto livro, a do escritor e por fim a do editor131.
Assim, as edições com capas simples na França fazem parte do terceiro processo de sacralização, a do editor. Na França, contrariamente a países como EUA, o editor é o “rei”. As casas de edição que se formam no século XX são casas familiares, batizadas com os nomes de seus respectivos proprietários – Gaston Gallimard para Gallimard, Bernard Grasset para Grasset, Robert Laffont para Laffont, Ernest Flammarion para Flammarion, Albin Michel para Albin Michel.
Esses grandes editores queriam imprimir suas marcas pessoais em suas casas de edição e a partir delas desenvolver suas coleções que deveriam ser “repérables”; para uniformizar suas produções decidiram então criar uma mesma “embalagem” para cada coleção. Dessa forma, podemos reconhecer hoje, por exemplo, os livros publicados por Bernard Grasset, graças à sua capa amarela, as obras da Gallimard com sua clássica capa bege, e suas letras vermelhas e pretas da Collection blanche; o mesmo acontece com as capas rosa da Stock, com a Collection Cosmopolite.
A presença das obras de Jorge Amado nesta coleção da Stock a partir dos anos 1970 marca o início de uma consagração pelo mercado editorial francês. Das 24 publicações de obras de Jorge Amado pela Stock, nove foram nas coleções La Cosmopolite. Apresentamos, a seguir, as capas propostas pela editora:
130“[...] deixar virgem a imaginação do leitor, deixar branca – ou azul, ou amarela – a capa. Isso permite
valorizar o texto” (DUBOURG, 2016, s/p tradução nossa)
131Para melhor compreensão dos três processos de sacralização: do livro, do escritor e do editor que
envolvem as questões mercadológicas aqui trabalhadas, consultar os textos de: DUBOURG (2016); COMPAGNON (ANO; 2014).
Figura 5 – As primeiras capas rosas.
1974 1986 1992 1983 Fonte: Editora Stock, 2012.
Figura 6 – Continuação da coleção.
1978 1996 1998
Fonte: Editora Stock, 2012.
Como citado anteriormente, em todas essas edições figuram na capa o nome do escritor, o título da obra e o da coleção, sendo que, em algumas, há também o nome do tradutor e/ou gênero do texto. Decidimos analisar essas primeiras edições em conjunto, pelo fato de não apresentarem, em suas respectivas capas, informações relevantes que nos remetessem ao texto ou ao processo de difusão e vulgarização da obra na França, com exceção da publicação de Les deux morts de Quinquin-La-Flotte, que tem em sua capa a informação do prefácio escrito por Roger Bastide.
Essa obra foi duas vezes publicada na coleção e a importância do prefácio de Bastide se dá pelo reconhecimento do estudioso no território francês e sua relação com a cultura brasileira, sobretudo as de origem africanas. Bastide tevesua história marcada no Brasil pela “missão francesa da USP”132, por ele integrada em 1938, quando, junto a
outros professores/intelectuais franceses, ocupou a cátedra de sociologia da recém-criada Universidade de São Paulo – USP. Durante décadas (1930-1960), dedicou-se ao estudo das religiões afro-brasileiras, tornando-se inclusive um “iniciado no candomblé”.
Em sua estadia no Brasil, Roger Bastide e Jorge Amado se conheceram na Bahia e tornaram-se amigos. Podemos perceber o reflexo dessa amizade, através do artigo intitulado Lembranças de Roger Bastide na Bahia e em Paris escrito por Amado, publicado pela revista Afroasia, em 1974. No texto, o escritor afirma generosamente que “poucas pessoas compreenderam e sentiram tão completamente a Bahia quanto Roger Bastide” (AMADO, 1974, p. 62). Assim, o prefácio do renomado estudioso francês na publicação de Les deux morts de Quinquin-La-Flotte, agrega valor e reconhecimento da obra. No prefácio Bastide afirma que:
Alors qu’il est difficile, par exemple, à un lecteur français qui n’a pas connu le Nord-Est brésilien de comprendre les romans de José Lins do Rego, tellement ils collent à la réalité sociale sans pouvoir s’en distancer et trouver ainsi une dimension universelle – la prison et l’exil ont forcé Jorge Amado à se distancier de son pays, à le reconstruire dans son imagination, à travers sa nostalgie et sa mémoire, et à lui donner ainsi cette dimension d’universalité, qui fait de ses héros les frères compréhensibles des hommes de tous les pays et de toutes les races, quelle que soit la couleur de leur peau.(BASTIDE, 1986, p. 9)133.
A valorização dos aspectos apontados por Bastide, presentes na construção da
132A missão francesa foi criada em 1934, inicialmente no intuito de inaugurar as atividades docentes na
Universidade de São Paulo (USP). Tal movimentação deve ser entendida como um desdobramento da vigorosa política cultural e científica empreendida pela França na América Latina, e que se intensifica no Brasil, a partir de 1908, pela atuação de Georges Dumas, porta-voz do Groupement des Universités et
Grandes Écoles de France pour les relations avec l’Amérique Latine (1907-1940).
133“Ainda que seja difícil, por exemplo, a um leitor francês que não conhece o Nordeste brasileiro
compreender os romances de José Lins do rego, eles colam à realidade social sem conseguir se distanciar e encontra assim uma dimensão universal – a prisão e o exílio forçaram Jorge Amado a se distanciar de seu pais, a reconstruí-lo em seu imaginário, através de sua nostalgia e sua memória, e a dar a ele assim uma dimensão de universalidade, que faz de seus heróis os irmãos compreensíveis dos homens de todos os países e de todas as raças, qualquer que seja a cor de suas peles”. (BASTIDE, 1986. p. 9 – Tradução nossa).
narrativa amadiana – a reconstrução da realidade a partir de sua memória alimentada pelo sentimento de nostalgia – caracterizam a universalidade da obra de Jorge Amado. Do mesmo modo, essa universalidade aliada à memória e à nostalgia apontam para a consequente popularidade da produção literária do escritor baiano.