3 JORGE AMADO NA MÍDIA FRANCESA DE GRANDE
3.2 MIDIA AUDIOVISUAL – ANÁLISE DO EPITEXTO II
3.2.10 Interview de Jorge Amado – Ivry-sur-seine (TV)
Em 1989, outra entrevista do escritor vai ao ar pela TV Ivry-sur-Seine. Dessa vez, foi a jornalista Colette Chevrier que conduziu o encontro. Na ocasião, Jorge falou sobre sua primeira tradução em 1938 – Bahia de tous les saints e Terres violentes, sendo que este último romance foi traduzido inicialmente do inglês para o francês, por Claude Plessis, e publicado pela Nagel, em 1946. Uma nova tradução com o título Les Terres du bout du monde foi proposta por Isabel Meyreles em 1985, desta vez foi a editora Messidor quem a publicou. Passados dois anos da entrevista em questão ir ao ar, mais precisamente em 1991, a Gallimard reeditou a obra lançando uma nova publicação do mesmo romance.
Jorge Amado falou, nesta emissão, sobre como era a sua vida na Bahia, e como e porque escreve sobre o povo baiano. Segundo o escritor, “[...] são histórias que eu conheço, que vivi. É algo que vem de dentro de mim”. Uma das temáticas abordadas por Chevrier em sua entrevista com Amado foi o candomblé. Sobre o assunto, o escritor falou a respeito de
sua posição de obá114 na religião em questão. O entrevistador questionou o fato de o escritor não ser negro e ainda assim ocupar lugar de destaque numa religião de origem africana. Amado explicou para o entrevistador que sua negritude é devida ao seu sangue negro e não à cor de sua pele, e elucidou que o candomblé não é uma religião somente para negros. Por fim, Amado fez ligações entre o catolicismo trazido pelos portugueses e os “santos” (Orixás) do candomblé.
Por um lado, a indagação do entrevistador sobre Amado não ser negro, considerando apenas a cor da pele do escritor e questionando, a partir disso, sua ligação com o candomblé, pode indicar que há, por parte de Chevrier, um desconhecimento tanto em relação à cultura dessa religião quanto às questões raciais e étnicas no Brasil – o que, provavelmente, é uma postura também acompanhada pelo grande público leitor na França. É possível que grande parte das discussões suscitadas pelo romancista baiano não sejam absorvidas em profundidade ou não compreendidas em sua totalidade apenas com uma leitura simplista da obra por parte do grande público. Se observarmos, por exemplo, a tematização das questões raciais e étnicas ligadas, em especial, à mestiçagem e, também, às noções de religião e sincretismo, em razão de abordarem contextos específicos brasileiros que, por vezes, nem o próprio país discute/reconhece com a seriedade que lhe é devida, é provável que uma leitura simplista não conduza o leitor à reflexão e aos desdobramentos sociopolíticos e históricos que tal abordagem contempla.
Por outro lado, leitores especialistas, como Roger Bastide, já estavam atentos às questões de religião e raça que atravessam o universo amadiano. Dois anos antes desta entrevista ir ao ar, o estudioso francês, que se dedicou ao estudo das religiões africanas no Brasil, já apontava para as questões religiosas presentes nos romances de Amado, chegando a prefaciar uma de suas narrativas, em 1986, Les deux morts de Quinquin-La-Flotte.
Ainda a respeito dos temas abordados nas obras amadianas, o entrevistador relatou para Amado que sentia uma certa obsessão temática em suas obras. Jorge Amado contrapôs dizendo que suas temáticas abordam uma problemática larga, que trata da mistura em todos os níveis de raça, de religião e etc. Amado falou ainda de sua inspiração para o oficio de escrever. Segundo o autor:
114Como Obá, Jorge Amado possuía direito de voz e voto no grupo que forma o corpo executivo do terreiro de
Candomblé, doze ministros que ajudam a mãe de santo na administração do templo. Trata-se de um título honorífico desta religião.
Meus personagens existem em diversas pessoas. Por exemplo Gabriela é um conjunto de muitas mulheres que conheci. Eu não sei inventar uma história, eu reproduzo. Eu começo a escrever um romance e tenho ideias, por exemplo, certa vez eu ouvi essa frase: ‘O dia que a merda der dinheiro o cú do pobre tranca’ e queria que Antonio Balduíno dissesse, mas não coube, tentei por Jubiabá e não funcionou também. A narrativa para mim tem vida própria. Em Tocaia Grande tentei três vezes começar e não conseguia, não estava maduro então deixei de lado e passei a escrever outra coisa. O romance para mim é um trabalho artesanal. (AMADO, 1989)115.
O processo de criação das narrativas relatado pelo escritor Jorge Amado, no qual suas inspirações partem de referências reais, reforça a carga de representatividade que a obra apreende a respeito do povo nordestino, sobretudo baiano (sua história, religião, mestiçagem, dialeto local, dentre outros aspectos perceptíveis na obra). Ainda sobre o processo de escrita, Amado relatou, na mesma entrevista, ter o hábito de corrigir incansavelmente seus textos. Para ele, uma página escrita é muito, ao contrário da época de sua juventude, período em que escrevia bastante e sem muitas preocupações quanto às correções. Segundo o escritor, uma de suas obras mais despretensiosas, levando em consideração aspectos editoriais, foi a criação de Le chat et l’oiseau. Sobre essa obra, Amado declarou:
No aniversário de meu filho João, em Paris, ocasião onde recebi meus caros amigos...não tinha muito dinheiro para oferecer um bom presente para meu filho, quando resolvi escrever o livro e dar de presente a ele, e ensiná-lo a lutar contra o preconceito. Anos depois, Zélia editou, Carybé ilustrou. Nos dias de hoje escreveria um fim diferente, sou mais otimista que antigamente e o gato se casaria com a Rondelle. (AMADO, 1989).
Ainda que escrita de forma despretensiosa, esta obra ocupou seu lugar no mercado editorial. Com xilogravuras de Carybé, foi publicada inicialmente com o título O gato Malhado e a andorinha Sinhá, (historieta infanto-juvenil) em 1976. A editora francesa Stock mandou traduzir o texto para a língua francesa e publicou em 1983, mantendo a mesma capa com as xilogravuras do renomado artista Carybé.
Além de falar sobre suas atividades enquanto escritor, Amado falou sobre as de sua esposa e a publicação do livro dela (A senhora do baile). Este foi publicado no Brasil em 1984, e na França, pela Stock, no ano seguinte. Sobre a divulgação da obra de Zélia na Europa, Amado relatou que:
115Os trechos citados de Jorge Amado nessa seção foram extraídos da entrevista em material audiovisual com
Quando Zélia teve a publicação de seu livro de memórias em Lisboa – edição portuguesa, descemos do avião vindo do Brasil. Os jornalistas vieram ao meu encontro e eu disse, hoje o momento é da Zélia, ‘eu estou aqui na condição de marido e pretendo voltar na condição de gigolô’. (AMADO, 1989)
A fala de Jorge Amado demonstra, além de seu apoio às atividades de Zélia Gattai, igualmente escritora, o seu próprio reconhecimento no território europeu. As perguntas realizadas pelo entrevistador Chevrier nesta entrevista podem ser percebidas como questionamentos de qualquer leitor comum. As respostas de Jorge Amado são esclarecedoras, no sentido de aproximar o leitor ao seu universo, explicando, por exemplo, questões das religiões africanas, tão fortes na Bahia, e consequentemente os reflexos dessa religião na obra, bem como relata fatos cotidianos apresentando sua dinâmica de criação, suas inspirações.
Observamos que, no decorrer da entrevista, há uma junção de homem e obra que pode ser esclarecedora para o leitor comum, podendo suscitar também a curiosidade dos que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer os seus romances. Ademais, destacamos, de forma positiva, que os anos 1980 foram muito produtivos no que diz respeito à trajetória de Jorge Amado e sua obra no território francês. Nestes anos, o escritor participou de no mínimo cinco programas televisionados em canais abertos ao público. Além de ter dezenove obras publicadas,dentre outras reedições.