2.3 Colonialidade do corpo
2.3.2 Colonialidade do corpo da mulher
Chegado este ponto, espero que você ainda me presentei com a sua leitura. Se está bem acomodada, saia de si, aceite passar pela via cruci do corpo. Sinta a pulsação da veia em seu pescoço, apalpe suas pernas (estão trêmulas?), submeta-se a suas exigências, relaxe, mergulhe no sangue que circula em alta velocidade por toda a carne, sinta seu gosto, livre-o das roupas, veja seu corpo nu, suspire, grite: nasci!
Esse desconforto intímo que talvez o tenha ignorado por toda a sua vida, é o primeiro passo para ver como não se reconheci que tem um corpo – a quanto tempo o tem deixado em um silêncio intenso e vazio? – para os homens, se tiver disposto, veja como é ser o outro, não, a outra, que é impidida de passar a visão sobre todo o seu corpo, perdão, quero dizer sua matéria e substância.
Vos (homens, mulheres) estou a obrigar a um esforço tremendo, eu mesma tive que fazê-lo, para pôr no papel, digo melhor, na folha, as marcas impressas na pele, pelos discursos, não, pelas falas, nos escritos, corrijo, nas escritas, sobre o que é ser uma mulher, o que pode
uma mulher “tal como deve ser”, segundo o pensamento simbólico ocidental da diferença entre os sexos.
Em linguagem objetiva e direta, a colonialidade do corpo submete as mulheres a maiores controles do que os homens, impondo uma divisão social do papel do corpo, na qual é representada enquanto espaço frio, seco, passivo, capaz de reprodução, mas não de criação, e por isso mesmo, não produz acontecimento, história e assim, não tem nada a dizer e senti. É constituida como o Outro, para usar a categoria beauvoriana36, que a (nos) coloca no lugar de objeto, e o Outro do Outro, para se referi Grada Kilomba (2012) ao enxergar a posição da mulher negra.
De logo é preciso evidenciar a pergunta: de quais mulheres estamos falando? Para mostrar que mulheres possuem situações diferentes, e pensar os fundamentados do sistema/moderno colonial de corpo pressupõem não universalizar categorias. O status da mulher branca nessa colonialidade oscila em se tratando de espaço/lugar onde podem pisar, (este estudo não arisca dizer o mesmo da percepção como objeto de cama e mesa, entre aspas), no caso das mulheres negras, são por muito, encerradas no “terceiro espaço” (SAFIA MIRZA, 1997), um espaço vazio, às margens da raça e do gênero, que as tornar inexistentes enquanto – ser – o eu.
Ciente de que é preciso considerar as interseccionalidades, ofereço subsídios para se pensar as representações do corpo da mulher, para além de sua concretude biológica, como local de inscrições culturais, políticas, sociais, em sua concretude histórica, além de como o concebe a colonialidade do corpo, como essa o trata. Pensando a parti da consciência de que essa atua sobre a mulher a inferindo tipologias de corpos, são elas para este estudo: corpo invisível, corpo subalterno, corpo disciplinado, corpo imobilizado, corpo envelhecido, corpo refletido, corpo violento, corpo não-erótico.37 Vale lembrar, que a existência de uma dessas tipologias sobre um corpo não anula a possibilidade coexistência de outras sobre o mesmo corpo.
Essa reflexão teórica vai caminhar junto com a experiência/fatos, pois se a teoria alarga a percepção da experiência, a concretude da realidade é fonte de toda teoria. É esse percuso que desejo fazer, pois é na cotidianidade, para fazer referência a Agnes Hellers (2016), que a colonialidade do corpo exerce-se normativamente na existência corpórea das mulheres.
36 A filosófa francesa Simone de Beauvoir, tomando como ponto de partida a dialética do senhor e do escravo de
Hegel, traz a perspectiva do Outro.
37 Esses tipos de corporeidades foi pensado a parti dos tipos de corpo presente no estudo realizado por Elódia
Ninguém dirá que encontrei essas palavrarias na fila do pão – é banal demais para a ciência uma escrita de padaria – mas, a experiência intelectual de pensar a colonialidade do corpo da mulher, sendo mulher, se deu assim mesmo, entre francês, doce, de fôrma, de massa sovada, alguns bolos e salgados. Se acaso lhe pareça indisciplinado esse tipo de pensamento desde carne (melhor, desde pão), apelo, muito do que vou escrever já foi escrito em linguagem rigorosamente científica, em línguas, espacialidades, temporalidades e lugaridades diferentes, em arranjos textuais tipo crônicas, jornalístico, poético, literário, legislado, e mesmo assim parece não haver compreensão, e quando nasce o entendimento em nada tem salvado a vida das mulheres, encerraria essa escrita se não soubesse a que e a quem interessaria o silêncio de quem se propõem a escrever desde mulher – em geral, um texto científico começa assim, comido, repartido, de pão à pão. De nada adianta o jejum.
Estou a falar que escrever da colonialidade do corpo da mulher é considerar fatos profundamentes vividos e sofridos, que se tornaram habituaes e que assim o são ignorados e por certo reproduzidos. Em um grau de superficialidade que beira o absurdo, por muitas vezes essa colonialidade é evocada e expostas em imagens chocantes, na qual as mulheres estão como vitímas, ou seja, em situação de massacre, morte, o corpo da mulher ainda é colonizado, numa cultura de efevência de valores mercantis, constitui parte da normalidade tais imagens dos seus corpos enquanto valor de consumo.
Deixo explicíto a parti de Susan Sontag (2003) em “Diante da dor dos outros”, que o problema não está em evocar as imagens, digo, fotos e mesmo vídeos, e os tornem vistas numa era sobrecarregada de informação, o problema está em apenas recordar a fotos sem compeensão da história. A especularização pela mídia habitua ao horror da vida real, habituando ao horror da imagem, nesse caso, me refiro aos corpos violentados das mulheres.
Fotos/imagens e vídeos aflitivos não necessáriamente perdem o poder de chocar, mas em quase nada ajuda se o propósito é compreender, nesse sentido, do contrário atua como instrumento de colonialidade do corpo da mulher – o corpo da mulher é enxergado apenas como algo a ser visto – objeto.
Um vídeo mostra a vereadora Marielle Franco momentos antes de ser morta (está disponível online), na saída de um evento sobre racismo. Nomeada relatora da comissão que iria acompanhar a intervenção militar no Rio de Janeiro em 28 de fevereiro de 2018, em 10 de março denuncia violência policial em Acarí, em 14 de março de 2018 é executada, com quatro tiros próximos a cabeça. Referência para o movimento negro, feminista, era negra demais, lésbica demais.
Embora ainda em preto e branco, era 30 de dezembro de 1976, está em foto online o corpo de Angela Diniz de bruços, blusa e meia calça, descalço, assassinada pelo namorado, como três tiros no rosto e um na nuca. É “preta e branca” a foto do feminicído.
Também está online a foto do corpo de Claudia Lessin dentro de um saco, jogado nas pedras do Chapéu dos Pescadores, na Avenida Niemeyer, Rio de Janeiro, nua com pedras amarradas ao pescoço, assassinada por dois homens em 1977.
Está online em imagem colorida o corpo de Daniela Perez em um terreno baldio, blusa preta, cabelo solto, calça jeans, assassinada por um colega de trabalho com auxílio de sua esposa, com 18 perfurações.
A foto está online. É o corpo de Sandra Gomide, de bruços, blusa branca, calça marrom, chapéu caído ao lado, atrás de um tonel de lixo, depois de muitas ameaças e agressões, foi assassinada em 2000 por seu ex-namorado, até então diretor de redação do jornal Estadão. Em foto colorida.
Que não bastasse, foi tudo transmitído ao vivo, especularizado em tempo real o corpo em carcere privado de Eloa Pimentel, mantida refém por cem horas pelo ex-namorado e depois assassinada com um tiro na cabeça e outro na virilha, pelo mesmo, pela polícia imcompetente, por uma mídia espertacular e pelo Estado brasileiro.
Na foto colorida, o corpo de Mércia Nakashima boaindo na represa de Nazaré Paulista, interior de São Paulo, blusa longa roxa, calça jeans, atingida com um tiro no queixo e depois afundada com seu carro nas águas da repressa, pelo ex-namorado. A foto está online.
O corpo de Luana Barbosa dos Reis, em filmagens coloridas, está brutalmente espancado, camisa listrada, bermuda preta, só de meias brancas, sem sapatos, após (em seu direito) se recusar a ser revista por policiais homens, levada a delegacia deixaram-a apenas de top e cueca preta, o delegado afirmou não ter havido excesso de violência, Luana foi internada em uma unidade de emergência, morreu cinco dias depois, em decorrência de uma isquemia cerebral causada por traumátismo crâniano encefálico. Foi assassinada porque era negra demais, preriférica demais, lésbica demais. Também é colorida a imagem do feminicídio.
Com um número de identificação, blusa estampada, olhos fechados, marcas de tiro no maxilar e têmpora, assim foi fotografado o corpo de Sonia Maria de Moraes, executada no DOI- CODI do Rio em 1973, ela foi torturada e estuprada com um cassetete antes da execução. Afoto está onlne.
A foto está online, colorida, e o corpo é Dorothy Stang, de bruços numa estrada de barro, camisa branca, calça bege, tênis preto, o sangue molha a terra, foi assassinada a mando de um
fazendeiro, com seis tiros na cabeça e tórax, em 2005. Era ativista dos direitos das/os camponeses no interior do Pará.
De outros corpos de ativistas e camponesas assassinadas em um Brasil que mais mata ativistas, nem sempre há fotos e/ou vídeos. Não há fotos dos corpos de Nilce de Souza Magalhães (Nicinha), Leidiane Drosdroski Machado, Leidiane Souza Soares, Samylla Letícia Souza Muniz, Maria das Dores dos Santos Salvador e Zilquenia Machado Queiroz. Mulheres interrompidas.38
Também não há foto dos corpos de Áurea Eliza Pereira Valadão, Ana Rosa Kucinski Silva, Jane Vanini, Ieda Santos Delgado, Heleny Telles Ferreira Guariba, Ísis Dias de Oliveira, Jana Moroni Barroso, Dinalva Oliveira Teixeira, Maria Augusta Thomaz, Maria Regina Marcondes Pinto, Dinaelza Soares Santana Coqueiro, Maria Célia Corrêa, Helenira Rezende de Souza Nazareth, Suely Yumiko Kanayama, Walkíria Afonso Costa, Lúcia Maria de Souza, Luíza Augusta Garlippe, Telma Regina Cordeiro Corrêa. Dezoitos corpos não fotografados de desaparecidas políticas no Brasil e, porque não fotografados dúvida-se dos fatos.39
Não há fotos dos 3 anos que a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff esteve pressa, submetida a torturas, entretanto, há fotos, há criação de imagens, em que a Dilma Rousseff aparece perfurada por uma espada, em memes nos quais é ameaçada de estupro, assassinato, é xingada de “quenga”, “sapatão”, “filha dilma puta” e o principal, “bruxa.
São milhares. Ou, como em um poema antigo que tinha um severino, se há muitas severinas, não todas iguais a tudo na vida, mas iguais porque ao sangue que usamos dar-se pouca importância, em muitas morremos de morte igual, mesma morte severina, morte que as vezes se morrer de agressão antes dos trintas, até mesmo antes que nasça, e a cada dia um pouquinho, é que o machismo mata, e assim não tem idade essa morte severina. Somos muitas severinas.
Dessa reflexão, percebe-se a existência mais pesada da colonialidade do corpo da mulher, um imenso campo de silêncio que revela a forma mais dura da opressão, do sofrimento. O véu posto da invisíbilidade – é o corpo invisível – o peso posto pelo silêncio. Michelle Perrot (2003) reconhece que esse esquecimento histórico pesa primeiramente sobre o corpo, que mesmo onipresente nos dircursos – políticos, médicos, poéticos, artísticos – representadas em imagens de toda natureza (fotos, cartazes, quadros, esculturas), exposto, encenado, continua
38 Nomes apresentados em global witness, este pública relatório internacional sobre assassinatos no campo dos
conflitos socioambientais. Disponível em:
https://www.globalwitness.org/documents/17871/Deadly_environment_brazil_and_exec_summ_Portuguese.
39 Informações disponível no livro Direito à memória e à verdade: Luta, substantivo feminino, de autoria de
opaco, objeto do olhar e do desejo do outro, fala-se dele, mas obriga esse corpo a se calar, sempre como uma figura, objeto do desejo e da violência.
E esse silêncio que as envolve também impõem a função anônima e única da reprodução, e imperdi o livre realizar-se em sua sexualidade.40 Isso porque o processo de colonização europeu, que concebe o corpo e o sexo como lugar de interditos, pautado na ética e na moral do Cristianismo, verticalizou esses padrões e o legitimou pela instituição do casamento e pelo cumprimento da função reprodutora. Em uma pergunta, para notas de um caderno secreto: qual o lugar da liberdade para seguir os impulsos autênticos do afeto e do desejo? A colonialidade do corpo submete o afeto das mulheres a razão? Melhor, a que razão?
Objeto de interdição em vários campos, o direito das mulheres ao próprio afeto, esteve e ainda está submetido as oscilações dos padrões eurocêntrico. Em discussão de um imaginário e o corpo da mulher, Joana Maria (2005) pontua que as representações publicadas do corpo da mulher faz-se primeiramente em comparação com o masculino, dentro de um modelo patriarcal, a imagem modelada é delas, ora como fonte de toda perdição, outras como “vaso” ou “receptáculo”, reproduzida sobretudo pela igreja – o simbólo da virgem Maria era o exemplo a ser seguido pela mulheres – isso negava as moças o direito a educação sexual. Com mudanças nas representações lhe foi atribuída a imagem de criadoras e educadoras das novas gerações, mas, ligadas à esfera doméstica, ao privado, à virtude, o pudor e o recato continua a distinguir as mulheres honestas das levianas, seus desejos ainda são aprisionados.
Essa dualidade de imagem – a santa e a pecadora, a pura e a desvata – a partir do século XX, vou considerar ainda com base em Joana Maria (2005) esse recorte, criou uma realidade que divide, opondo-as entre si, numa outra linguagem, as pondos pelo maneira com elas próprias posicionam e agem sobre seus corpos umas contra as outras, em uma suposta separação: deste lado da linha as honestas, as santas; do outro lado da linha as infanticidas, as envolvidas com o aborto.41
Dessa constação, chegasse a problematica relacionada: o direito de autodeterminação das mulheres, quando o corpo invisível, esse mero espaço de atuação da igrja, escola, do Estado na criação, por exemplo, de política de planejamento familiar, torna-se visível, capaz de decidi
40 Rose Marie Murano, no livro Sexualidade da Mulher Brasileira (1983), aborda a sexualidade a aparti da
realidade que a cerca. Ligando-a a relação que temos como o nosso corpo, desde o nascimento, a posição que ocupamos no sistema reprodutivo e no sistema de classe.
41 No Brasil, o aborto é crime, no Código Penal a partir do artigo 124, reza que “provocar aborto em si mesma ou
consentir que outrem lhe provoque: pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos. Salvo, duas situações, onde não há punição, seja o chamado aborto necessário, para salvar a vida da gestante ou o aborto no caso de gravidez resultante de estupro, ambos previstos no art. 128 do CP.
de seus desejos, afetos, direitos sexuais, reprodutivos, entre os quais o aborto, de reinvindicar lugares na história, e o direito à própria vida.
Visto isso, é justo aqui retornarmos a pergunta de que mulheres estamos falando? Para lançar aos argumentos um olhar interseccional, importante à construção de uma reflexão não universalista que exclui. De como se dá a intervenção do Estado brasileiro sobre o corpo das mulheres negras no campo da sexualidade, lembro a história de Janaína Aparecida Querino, uma mulher negra em situação de rua, que passou por um procedimento de esterelização forçada, por meio de uma decisão liminar do juiz Djalma Moreira Gomes Júnior, e emitida em 2017 após pedido do promotor Frederico Liserre Barruffini. Em maio de 2018, a administração municipal recorreu, e a decisão foi anulada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, mas, já se fazia tarde demais, Janaína já havia sido esterilizada.42
O ocorrido nos remete ao contexto da década de 1980, onde mulheres negras eram esterilizadas forçadamente. Os estudos construídos pela pesquisadora e médica Jurema Werneck (2010) visibiliza a luta do movimento de mulheres negras na denúncia dessa realidade. As denúncias culminaram na criação nos anos de 1990 da CPI da esterilização, que viria a comprovar o uso indiscriminado dessa prática, fosse pela negação do acesso aos métodos contraceptivos, principalmente nas regiões mais carentes do país, ou pela utilização sem qualquer critério de métodos irrevessíveis.
No debate da sexualidade, o outro lado da objetivação é a herotização do corpo das mulheres negras. O propósito de exploração e subjugação da imagem da mulher negra disponível para os desejos eróticos, com a constituição de um discurso que as reduzem a partes erotizadas do corpo foi (é) crucial para o processo de imposição do colonialismo. Cito um dos exemplos mais simbólicos da objetivação e hipersexualização da mulher negra, Sarah Baartman, a Vênus Hotentote.
Pertecente a comunidade Khoi-San do sul da Àfrica, a jovem Sarah tinha 21 anos, foi levada para Londres pelo cirurgião inglês Willian Dunlop, onde era a atração especial do espetáculo circense Freak Shows do Piccadilly Circus, devido ao tamanho dos seus quadris, do seu orgão sexual, o tamanho dos lábios vaginais de Sarah eram maiores e incomuns em comparação aos das mulheres europeias. Ela foi mantida em Londres durante quatro (04) anos quando foi vendida a um exibidor de animais francês (MILENA BELTRÃO, 2014).
42 Eliana Alves Cruz escreve um texto intítulado “O caso Janaína me lembrou que o Brasil já fez esterilização em
massa – com apoio dos EUA”. Ela problematiza os direitos reprodutivos das mulheres negras, pensando e nos fazendo pensar a relação corpo, raça, classe social, gênero e autodeterminação dos afetos e vontades desde as mulheres. Disponível em: https://theintercept.com/2018/07/18/laqueaduras-esterilizacao-forcada-mulheres.
Na França, seu corpo desperta o fascínio e o interesse científico, de acordo com Janaína Damanesco (2008) era exibida semi-nua em reuniões científicas, onde tinha seu corpo observado, medidog, desenhado, modelado em cera, se escrevia sobre cada detalhe de sua anatomia. É quando seu corpo é racionalizado e sexualizado pelo aval da ciência.
A redução do seu corpo aos orgãos sexuais (mecanismo de ação da colonialidade do corpo) lhe impõe os termos binários: animal, selvagem, primitiva. E marca em seu corpo o esteriótipo do fetichismo. Pelo caráter do fetichismo ocorre o deslocaemnto do interesse sexual pela genitália, para o traseiro de Sarah. Isso representou à maneira pela qual a existência da mulher negra foi racionalizada e legitimada, enquanto existência mais baixa da hieraquia humana.
Segundo Janaína Damanesco (2008, p. 4), a exibição pública de Sarah não terminou com a sua morte. Ela foi dissecada, sua genitália, seu esqueleto e o molde de seu corpo passaram a ser expostos no Museo do Homem em Paris. Depois de muita reinvindicação pelo povo khoi- san, seus restos mortais foram devolvidos à África do Sul, e finalmente pode ser velada e enterrada na cidade do Cabo em 2002.
Aqui, não se propõem expor detalhadamente o princípio da autonomia e da vontade da mulher diante da intervenção da igreja, da escola e/ ou do Estado sobre o seu corpo e, ou como os direitos sexuais e reprodutores ainda, em atualidade, se acham amoldados por um Estado, uma escola e uma igreja conservadora. Apenas, explicita-se que o sistema moderno/colonial dos valores sexuais conduz e sustentam esse imaginário sobre o corpo da mulher.
O silenciamento – o corpo invisível – se torna a barreira que se quer instransponível para não acessarem seus próprios corpos, razão pela qual, para oferecer exemplo, o torcar a se mesma é objeto de estigma, assim como é, todo comportamento que se difere da norma (homossexualidade, transexuais, travestis, etc).
Como não se teve a intenção de definir previamente o sentido de sexualidade, se está sendo utilizada em torno da feminilidade e da masculinidade, ou se é usado no sentido de domínio de práticas sexuais, comportamentos, corpo para prazer e reprodução da espécie, tomou-se a liberdade de transitar entre esses dois significados possíveis, sem muito autocontrole, para desenhar provocações necessárias a discussão. A compreensão da sexualidade que defende este estudo é aquela que se realiza desde os afetos e vontades das mulheres, fora de uma ideologia dominate que prega, para além de outras questões, que as mulheres não precisam sentir prazer, e aquele que atualmente tem se mostrado uma nova idelogia dominante, que as mulheres tem que senti prazer em toda relação.