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COLONIALIDADE DO SER

Como consequência desse padrão cognitivo hegemônico o que é diferente é considerado sem valor, subalterno. Toda forma de cultura e de saberes de índios e negros é considerada periférica, para atender às exigências do capitalismo colonial. A partir daí os saberes e as culturas passaram a ser hierarquizados, revelando-se a colonialidade epistêmica, ou, como denominou Edgardo Lander, a colonialidade do saber.7475

Enquanto a colonialidade do poder trata das relações entre as formas modernas de exploração e dominação, a colonialidade epistêmica ou do saber está relacionada à produção e reprodução dos pensamentos coloniais junto a uma obliteração dos demais (MALDONADO- TORRES, 2007). Além de reproduzir um legado epistemológico do eurocentrismo que transpassa o legado de desigualdade e as injustiças sociais da colonialidade do poder, ela

74 A referência ao termo colonialidade do saber aparece pela primeira vez no livro organizado por Edgardo Lander, A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais - perspectivas latino-americanas, embora os artigos que compõem o livro não elaborem esse conceito.

75 Quijano (2014a) trouxe pela primeira vez em sua obra a colonialidade do saber como forma de produção do conhecimento – mas não com esse termo – quando fez referência ao plano da subjetividade nas relações de dominação/exploração/conflito, considerando o poder como uma trama social dessas três relações, pelo controle de áreas decisivas da existência humana como: o trabalho, seus recursos e produtos; o sexo, seus recursos e produtos; a autoridade coletiva, seus recursos e produtos; a subjetividade/intersubjetividade, notadamente, a consciência, os saberes e o modo de produzir conhecimento (RESTREPO; ROJAS, 2010).

também nos impede de compreender o mundo a partir da própria realidade plural em que vivemos e das diversas epistemes que lhe são próprias (PORTO-GONÇALVES, 2005).

Como já vimos, a colonialidade do poder instituiu na América Latina uma hierarquia social em que o homem branco está na parte superior, enquanto ocupam os últimos degrau os índios e os negros – grupos construídos como identidades homogêneas e negativas. O uso e a institucionalização da raça como sistema e estrutura de classificação serviu de base para posicionar certos grupos sobre outros nas áreas do conhecimento.76 Esta outra dimensão da colonialidade é a colonialidade do saber, que não só estabelece o eurocentrismo como o único marco de conhecimento, como também descarta, completamente, a produção intelectual indígena e afro como conhecimento, desconsiderando, consequentemente, sua capacidade intelectual (WALSH, 2007, p. 104).

Para Boaventura de Souza Santos, a inteligibilidade do mundo tornada possível pela perspectiva renascentista foi conseguida a um preço muito alto: a imobilidade do olhar é necessária para criar uma visão única. Esta visão única é o que melhor caracteriza a ciência moderna e sua ruptura epistemológica com todas as outras formas de conhecimento. Essa visão única não consegue reconhecer visões alternativas; os outros saberes oriundos das práticas sociais só podem ser reconhecidos como “conhecimento” na medida em que sejam espelhos do “conhecimento científico”. Seja qual for o conhecimento; sempre que não represente uma imagem refletida, será rejeitado como uma forma de ignorância (SANTOS, 2003, p. 179).

A importância epistemológica que a ciência moderna outorga para si mesma resulta na destruição de todos os conhecimentos alternativos e na subalternização de grupos sociais que poderiam vir a questionar essa importância – grupos cujas práticas são desvalorizadas. Souza Santos classificou essa destruição como epistemicídio (SANTOS, 2003, p. 276). A produção e reprodução do conhecimento pressupõe um sujeito autorizado a enunciá-lo, enquanto “outros” sujeitos não autorizados a enunciá-lo ocupam a posição de espectadores, desprezados à condição de objeto do conhecimento.

Para Maldonado-Torres (2007), a interferência da colonialidade em diferentes áreas da sociedade fez surgir o debate sobre a colonialidade do ser. De acordo com Mignolo: “Da

76 É impossível deixar de perceber que a grande maioria dos explorados, dos dominados e excluídos são exatamente os membros das raças, etnias e nações em que foram categorizadas as populações colonizadas. É a distribuição de poder entre as pessoas de uma sociedade que as classifica socialmente, determinando as suas recíprocas relações e gerando as suas diferenças sociais, já que as suas características empiricamente observáveis e diferenciáveis são resultados dessas relações de poder, dos seus sinais e das suas marcas (QUIJANO, 2009; 1992a, p. 12).

colonialidade do poder e do saber emerge a colonialidade do ser” (MIGNOLO, 2004), como a dimensão ontológica da colonialidade, que tem no ser colonizado o seu lugar de enunciação. Enquanto a colonialidade do poder se refere à inter-relação entre formas modernas de exploração e dominação; e a colonialidade do saber está ligada à epistemologia e à produção do conhecimento; a colonialidade do ser tem relação com a experiência vivida pelas relações coloniais e seu impacto na linguagem.

O autor destaca, ainda, que o surgimento do conceito de colonialidade do ser responde a necessidade de esclarecer as dúvidas sobre os efeitos da colonialidade na experiência de vida dos sujeitos subalternos e não somente em suas mentes (MALDONADO-TORRES, 2007, p. 129-130). Esse ser colonizado nasce quando poder e pensamento se tornam mecanismos de exclusão. “Na esteira de Frantz Fanon (1968), o ser-colonizado pode ser também referido como o condenado da terra” (MALDONADO-TORRES, 2009, p. 356). A razão, o pensamento e o conhecimento estão diretamente ligados à qualidade de humano. Por isso, conforme a lógica aqui descrita, índios e negros não teriam capacidade de pensar, pois são considerados menos humanos dentro de uma escala hierárquica de humanidade.

Caterine Walsh destaca que é na ligação entre ter razão e ser humano que aponta a colonialidade do ser, como dimensão de caráter ontológico da modernidade/colonialidade, manifestando-se quando alguns indivíduos se impõem aos outros, exercendo controle e perseguição das diferentes subjetividades. As raízes da colonialidade também podem ser encontradas nos relatos históricos sobre o analfabetismo dos índios, mas da mesma forma pode-se dizer que tais concepções já haviam sido previamente formuladas diante da suspeita da não humanidade dos povos em questão. Por outro lado, essa suspeita pode ter sido baseada na ideia original de que povos indígenas não tinham nenhuma religião (MALDONADO- TORRES, 2007, p. 145).

O privilégio do conhecimento na modernidade e a negação das faculdades cognitivas em sujeitos racializados são a base para a negação ontológica. O paradigma que privilegia o conhecimento de uns “superiores” em detrimento de outros “inferiores”, torna-se um instrumento privilegiado de subalternização. O lema é: os outros não pensam, então eles não são. Não pensar se converte em sinônimo de não ser para a modernidade (MALDONADO- TORRES, 2007, p. 145).

Neste sentido, a colonialidade do ser não se caracteriza propriamente pela violência ontológica, mas sim pelos personagens preferidos dessa violência, que é explicada pela colonialidade do poder, isto é, quando alguns seres autodenominados superiores se impõem sobre outros, tidos como inferiores. A colonialidade do ser tem raízes na história e no espaço

(WALSH, 2007, p. 105). Em razão disso, o “ser”, que para alguns é a sua própria significação, para outros representa algo que os torna alvo de aniquilação. Tal situação faz com que alguns seres humanos sintam a vida como um “inferno inescapável”, causa de uma desigual distribuição do sofrimento por se sentirem durante tanto tempo encurralados entre diferentes formas de violência que se perpetuam no tempo, sem qualquer horizonte de esperança de que esses indivíduos e suas coletividades deixem de ser alvo dessa violência (MALDONADO-TORRES, 2009).

Segundo Maldonado-Torres, a colonialidade do ser é o processo pelo qual o senso comum e a tradição são marcados por dinâmicas de poder de caráter preferencial que discriminam pessoas e tomam por alvo determinados povos e comunidades. Esse caráter preferencial da violência pode ser traduzido pela colonialidade do poder, que liga o racismo, a exploração capitalista, o controle sobre o sexo e o monopólio do saber, relacionando-os com a história colonial moderna (MALDONADO-TORRES, 2009, p. 363).

Identificações fabulosas nascem da colonialidade do ser: o índio, o negro, o migrante, a mulher, tornam-se pontos de partida para qualquer reflexão sobre essa forma de colonialismo. Míticas descrições são produzidas sobre essas categorias; a sexualidade do homem negro e da mulher negra são uma expressão disso. O homem negro é retratado como um animal sexual agressivo que deseja estuprar mulheres, particularmente brancas. A mulher negra, por sua vez, é vista como um objeto sexual, um ser altamente erótico, cuja principal função é satisfazer o desejo sexual e a reprodução, sempre pronta com antecedência para o violador olhar do branco e fundamentalmente promíscuo (MALDONADO-TORRES, 2007, p. 146, 148).

As mesmas construções fabulosas são comumentes vistas com relação às outras categorias criadas pelo pensamento colonial: o ser-colonizado é sempre uma ameaça, um obstáculo. Os povos indígenas são relacionados a pessoas preguiçosas, traiçoeiras, sinônimo de subdesenvolvimento, ameaça à soberania e à integridade territorial. Sob essa episteme colonizadora do ser, que se traduz como episteme colonizadora da vida, os povos indígenas, “os diferentes”, representam verdadeiros entraves ao desenvolvimento de um estado “coeso”, “unificado”, por isso são tratados como heranças indesejadas da história colonial.

3.3 O JURICÍDIO CARACTERIZADO PELA COLONIALIDADE DO PODER NO