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Com atividades ocupacionais ascendentes e empreendedoras

No documento PARTE I - TRAJETÓRIAS DE VIDA (páginas 139-194)

Anabela

Anabela nasceu em 1987, portanto tem vinte e sete anos em 2014. É natural de Lisboa, reinseriu-se no concelho de Lisboa, e tem nacionalidade portuguesa. Faz parte de uma fratria de quatro irmãos, dois dos quais passaram pelo sistema nacional de acolhimento, e advinham de uma outra resposta social da CPL. Tem uma irmã gémea11, também participante nesta pesquisa. Os motivos conducentes ao acolhimento foram o alcoolismo, problemas de saúde, prostituição, orfandade e carência socioeconómica no agregado familiar.

Quando foi admitida em LIJ na CPL, numa resposta social intramuros, relativamente ao CED a que estava afeto, no concelho de Lisboa, em 1992, contava cinco anos. À entrada para o acolhimento, Anabela não tinha escolaridade e na cessação do acolhimento frequentava o ensino superior. Usufruiu de escolas integradas na rede pública e na rede CPL e frequentou o ensino regular. Não teve b. p./p. t. e teve b. d./p. s. em 2011, aos vinte e quatro anos, sendo que esteve ligada ao sistema de acolhimento durante dezanove anos. Anabela cessou o acolhimento por maioridade, por autonomização, por conclusão dos estudos/formação e para se reintegrar na família nuclear. Na transição para fora do acolhimento estudava e passou pelo programa RAIA.

Antes de entrar em acolhimento, Anabela referiu instabilidade familiar, nomeadamente relativa à situação de orfandade materna, “(…) a minha mãe morreu e tornou-se uma situação instável (…) para o meu pai (…)” sendo que vivia “com os meus pais e com os meus irmãos.” Na perceção de Anabela, o acolhimento institucional teve lugar devido à situação de orfandade materna e instabilidade paterna, mas não foi chamada a participar na decisão, “(…) éramos umas miúdas.” Ao ter conhecimento que ia entrar em acolhimento, Anabela sentiu-se “(…) um bocado indefesa por estarmos a entrar num sítio que não sabíamos o que era (…).” Foi acolhida em conjunto com uma irmã na mesma unidade de acolhimento, o que foi importante, “claro… é minha irmã gémea.”

Na perspetiva de Anabela, o modo de organização do LIJ era diferente de uma família porque “(…) não havia intimidade entre as pessoas e não sentíamos uma família.

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Éramos muitos, todos muito, muito diferentes”, mas considerou que a sua adaptação às novas regras “(…) foi fácil, sim.” Anabela recorda as relações que tinha com outros jovens, seus contemporâneos no LIJ, “algumas melhores do que outras. Havia alguns problemáticos no nosso lar e não facilitava as coisas.” Em acolhimento a entrevistada poder-se-ia sentir “livre” ou “presa”, “livre quando, se calhar, já tinha idade para saber o que podia fazer, e presa, quando ainda não me tinham dado autonomia para isso.” O que Anabela mais gostava no seu quotidiano no LIJ era “(…) que houvesse atividades” e o que menos apreciava era “(…) ter que partilhar o quarto com tantas pessoas e não ter a privacidade que se tem numa casa.” Considerou, no entanto, que as regras foram de alguma importância, “sim, em certo ponto sim. Porque estabelece rotinas. (…) outras já as esqueci”, e pensa que em acolhimento não manifestou comportamentos que a instituição considerasse preocupantes.

Mencionou que o LIJ não lhe havia organizado um projeto de vida e que a vida ia acontecendo no imediato, “acho que era mais: vamos passando até ver.” A relação de Anabela com os adultos em funções no LIJ “era boa. Embora achasse que eles faziam o que podiam (…) eram poucos para tantos e acabavam por dar menos atenção aos menos problemáticos.”; contudo considerava um dos técnicos como sendo mais próximo de si. Como exemplos de ações desenvolvidas por parte dos técnicos/pessoal afeto ao LIJ que tenham sido importantes para a preparação do seu futuro, Anabela aludiu “(…) aquela rotina, (…) de nos obrigarem a estudar… mesmo pôr a mesa do jantar, levantar, lavar, tudo isso, eu acho que é importante para o nosso futuro.”

Quando estava em acolhimento tinha amigos fora do LIJ, “tinha os da escola”, e na sua perspetiva, os amigos mais importantes eram “os de fora. Primeiro, porque eram com quem eu convivia mais todos os dias, oito dias. Depois, eram umas pessoas que eu achava mais normais, digamos assim, do que as pessoas que lá estavam.” Se não tivesse entrado no sistema nacional de acolhimento de c/j em perigo, a entrevistada não imagina como teria decorrido a sua vida, mas coloca a possibilidade de ter sido mais difícil, “não faço ideia. Se calhar, não estava onde estou hoje (…) Se calhar, nunca tinha ido para a faculdade, a minha família não era de grandes posses ou, se calhar, tinha ido porque eu sempre gostei da escola, portanto, não sei, não faço ideia…” Disse nunca ter tido, em acolhimento, necessidade de ter um apoio especial, na vida pessoal (psicólogo) nem na escola (explicador). A entrevistada indicou que “o apoio na altura da saída poderia ser diferente.”

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Anabela visitava a família semanalmente ou quinzenalmente, “de 15 em 15 dias ou de fim de semana em fim de semana, depende” e refere que, no LIJ, não lhe falavam sobre a família. Em acolhimento, não sentiu necessidade de ter podido passar mais tempo fora do LIJ.

Quando saiu do RAIA foi viver, por escolha sua, “(…) com os meus irmãos, alugámos uma casa.” Sentiu-se bem quando saiu do RAIA, essencialmente ao nível do aumento da privacidade, e passou a viver com os irmãos. Uma vez que ao longo do acolhimento tinha mantido permanente contacto com os familiares, quando saiu do acolhimento não notou alterações substanciais, “sempre mantive o contacto muito constante. Eles, também, foram acolhidos, portanto…” Quando Anabela saiu do RAIA sentiu-se “(…) bem… com um maior nível de independência mas, também, de responsabilidade.” A sua saída foi ao encontro do que desejava, “(…) Até tive bastante apoio… mesmo quando saí continuava a receber apoio, portanto…”, e referiu que, desde que saiu do acolhimento, até à atualidade, viveu, por opção pessoal, primeiro com a família nuclear e, depois, com família construída, “fui viver com os meus irmãos e, agora, com o meu namorado,” numa primeira fase no concelho de Lisboa, e depois, no concelho de Sintra.

A inquirida referiu que a verdadeira família, na atualidade, é parte da família nuclear e da família construída, “a minha irmã e o meu namorado. Habito com o meu namorado.” Apoia a família estando presente, “estamos lá uns para os outros. Acho que é o que é preciso. ” Revelou que tem, atualmente, um bom relacionamento com a família, “bem. Alguns melhores do que outros, neste caso, com o meu irmão o relacionamento não é famoso, mas, de resto, tudo bem.” Gosta da sua família tal como é, “obviamente que também gostava que os meus pais fossem vivos, mas se não são, gosto…” Anabela não tem filhos mas planeia vir a tê-los, pelo que pretende dar-lhes uma educação diferente da sua.

Começou a frequentar a escola “desde os 5” e quando foi acolhida frequentava “ 2.º ano”, tendo mencionado que as aulas corriam “bem”. Quando saiu do acolhimento (RAIA) encontrava-se a frequentar o ensino superior, “eu saí do RAIA no meu segundo ano de faculdade.” A entrevistada apreciava a escola na generalidade “(…) sempre adorei a escola… estudar, dos amigos, das brincadeiras, tudo.” Inicialmente, o que menos apreciava na escola era a obrigatoriedade de lá ter de ficar muitas horas “(…) era estar lá das 9 às 6 (…).” Referiu que teve apoio para estudar, no LIJ, até ao 5.º ano e a partir daí deram-lhe “(…) liberdade

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para estudar sozinha e convenhamos que a educação dos meus educadores não era assim tão boa que me conseguisse ajudar. Portanto, acabava por pedir ajuda, se calhar, mais externa do que aos educadores.” Dado que frequentou várias escolas afetas à Casa Pia, Anabela não se sentiu discriminada por viver num LIJ. Todavia, colegas e professores, por vezes, eram “(…) um pouco protetores quando sabiam… fora da Casa Pia.” Após sair do acolhimento, Anabela continuou a estudar, “fiz uma pós-graduação em microbiologia. Porque prezo a formação e o conhecimento”, e ainda projeta vir a retomar os estudos dado que tem objetivos esboçados.

A entrevistada não frequentou curso de formação profissional nem exerceu qualquer atividade profissional enquanto esteve em acolhimento, tendo começado a trabalhar aos vinte e dois anos. Contudo, não se sentiu satisfeita com o primeiro emprego, e o facto de começar a trabalhar, influenciou o seu percurso escolar porque se não tivesse precisado de começar a trabalhar, naquela altura, teria estudado mais. Quando deixou o acolhimento, não teve dificuldade em encontrar emprego, e progrediu desde que iniciou o seu percurso profissional, embora não trabalhe na sua área de formação, “(…)Trabalhei numa clinica dentária. Depois, trabalhei na PT, como assistente de call-center e, agora, trabalho em assistente de vendas na T. R.. Acho que tem vindo a melhorar um bocadinho, mas fora da área (…).” Não teve períodos de desemprego, mas as atividades profissionais que tem exercido não vão ao encontro das suas expectativas, embora goste do que faz atualmente. A inquirida não consegue estabelecer uma relação entre o facto de ter estado acolhida institucionalmente e as oportunidades de inserção profissional, “não acho que tenha muito a ver uma coisa com a outra.” Atualmente está empregada e já beneficiou de apoios prestados pela segurança social.

Quando deixou de viver em acolhimento na CPL, Anabela “tinha 19” anos, sendo que a sua saída foi uma opção relativamente pessoal. Considerou que o RAIA foi um projeto de vida que a instituição desenhou para si, “(…) Já deu um apoio mais especializado às pessoas… muito melhor!” Tratou-se de uma decisão importante “para ser um bocadinho mais independente. Nós já o éramos ali. Já o éramos muito mais do que no lar em si, mas foi bastante positivo.” Recorda o momento em que saiu do acolhimento (RAIA), “com saudade. Nós éramos cinco raparigas, jovens, amigas umas das outras”, e não acha que tivessem havido outras soluções para poder ter saído mais cedo do acolhimento.

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A inquirida sentiu que foi apoiada pela instituição na preparação da sua autonomia através da sua passagem por um apartamento de autonomização, “(…) Ajudar-nos a fazer compras, ajudar-nos a pagar contas, ajudar-nos a ter um salário e gerir todo esse dinheiro. Portanto, foi bastante importante nesse aspeto.” Tem dificuldade em apontar aspetos que tenham corrido particularmente bem no seu processo de saída, “não sei o que correu assim melhor. Como disse o RAIA prepara-nos, também, para tudo isso (…).” As principais dificuldades que sentiu, quando deixou o apartamento de autonomização, relacionaram-se com o confronto com a realidade da gestão financeira.

No entanto, Anabela acha que os primeiros tempos fora do RAIA “foram bons, a rotina manteve-se na mesma.” Nesta fase não sentiu muitas dificuldades, tendo referido que “obviamente, temos tendência a não ter uma rotina tão estável como temos lá porque somos obrigados, digamos mas, de resto, não senti.” Anabela, quando se encontrava em acolhimento, tinha como sonho “criar uma família, ser feliz, aquelas coisas de miúdos.”, e imaginava que a sua vida, posteriormente, seria mais fácil do que na realidade veio a ser, “eu era um bocado naif, digamos. Eu achava que quando saísse da faculdade ia ter logo um emprego perfeito e crescer no emprego perfeito e as coisas não têm corrido dessa forma, mas de resto…” Hoje, considera que se encontrava preparada para sair do acolhimento na altura em que o fez.

Presentemente, Anabela contacta com poucos amigos desse tempo e referiu que mantém contactos com técnicos/pessoal afeto à instituição. Após a saída do RAIA, recorre a familiares quando precisa de algum tipo de apoio, “à minha família. Neste caso, ao meu namorado, à minha irmã.” Anabela indica que quando tem tempo livre o ocupa da seguinte forma: “corrida, gosto de ler, ouvir música, mais ou menos isso.” Nos dias de hoje, não há nada que gostasse de mudar na sua vida familiar.

Anabela referenciou, simultaneamente, que vive o dia a dia e que tem projetos para o futuro que passam pela construção de carreira profissional e de uma família. A entrevistada idealiza a sua vida a médio/prazo, “(…) já a ter um filho de um ano ou menos ou quase a ter, já com os cursos feitos, que eu quero, e já num emprego um bocadinho melhor do que o que eu tenho… não é que eu esteja mal, mas um bocadinho melhor.”

Anabela considera-se feliz no momento atual e espera ir, ao longo do tempo, concretizando os seus projetos.

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Angélico

Angélico nasceu em 1985, portanto conta vinte e nove anos em 2014. É natural de Lisboa, concelho em que se reinseriu, e tem nacionalidade portuguesa. Advinha de uma família monoparental masculina, em que o pai faleceu, e fora abandonado pela mãe muito novo. Os registos oficiais aludem a uma fratria de três irmãos. Angélico quando foi admitido em LIJ na CPL, numa resposta social intramuros, relativamente ao CED a que estava afeto, no concelho de Lisboa, em 1996, contava onze anos de idade e provinha da família alargada (tios). Quando entrou foi alvo de relatório de avaliação da saúde física e de estado psicológico.

À entrada em LIJ Angélico tinha frequência do 1.º ciclo e.b. e quando cessou o acolhimento havia concluído o 12.º ano, sendo que frequentou, em escolas da rede pública e da rede CPL, o ensino regular. Teve b. p./p. t. em 2005, aos vinte anos de idade e b. d./p. s. em 2007, com vinte e dois anos. O seu acolhimento efetivo durou nove anos e teve descarga do sistema onze anos após o despacho de admissão, sendo que durante um período de transição de dois anos foi apoiado pela CPL. Angélico cessou o acolhimento por maioridade, por autonomização, por inserção no mercado de trabalho, e quando saiu do acolhimento encontrava-se a trabalhar.

Antes de entrar em acolhimento, Angélico referiu uma constelação de adversidades “(…) vivia numa barraca (…) ficava muito tempo sozinho (…) a minha mãe abandonou-me quando eu era pequenino (…)”, sendo que vivia com o pai que se encontrava doente. No ponto de vista de Angélico, foi acolhido porque “(…) não tinha família na altura e a família que tinha não queria ter a responsabilidade de me criar.” No que concerne à decisão de acolhimento, referiu que foi ele que solicitou a integração em LIJ, “fui eu que pedi!” Quando soube que iria integrar o LIJ sentiu-se “contente. (…) vivi em casa dos meus tios e eu não estava habituado a ter regras (…) Eu contava os dias para ir para o lar”. Não referiu irmãos ao longo do seu testemunho.

Na ótica de Angélico o modo de organização do LIJ “era semelhante a uma família (…) muito numerosa. (…) tentavam que (…) crescêssemos num ambiente familiar (…).” A adaptação inicial às regras pautou-se por dificuldade e, mais tarde, por habituação, “(…) foi difícil mas eu sabia que era para melhorar (…) depois habituei-me.” Angélico recorda uma

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relação difícil com os outros jovens em acolhimento no mesmo LIJ, “(…) porque (…) eu passei a ser «o mais velho», com 12 anos. Era difícil porque eu era uma criança e era o mais velho. Portanto, eu tinha que estar sempre «em cima deles, eu era o «irmão mais velho», era um papel difícil”. Em acolhimento sentia-se “livre”, “(…) porque sentia-me bem. Sentia-me apoiado, sentia… que me ouviam, pronto, basicamente, sentia-me em casa.” Angélico mencionou que no LIJ não havia aspetos que não fossem do seu agrado, “(…) gostava de tudo” mas o que menos gostava era dos “(…) horários (…).” Angélico considerou as regras do LIJ importantes para o seu crescimento e desenvolvimento, “(…) foram importantes para mim porque lá ensinaram-me a importância do trabalho.” Durante esse tempo não teve, segundo indicou, comportamentos que a instituição considerasse preocupantes.

Sobre a existência de um projeto de vida desenhado individualmente e/ou em grupo, refere que “(…) encaminharam-me e ajudaram-me o melhor que puderam. Eu acho que eles tinham um projeto para cada pessoa porque cada pessoa tinha diferentes capacidades e (…).” A relação de Angélico com os adultos em funções no LIJ era “muito boa.” Para o entrevistado existem vários exemplos de ações desenvolvidas por parte dos técnicos/pessoal afeto ao LIJ que foram importantes para a preparação do seu futuro, tendo referido, “obrigaram-me a ir ter aulas de ballet. Eu não queria ter e fui, e hoje estou muito grato porque (…) trabalho em teatro musical (…) mas foram eles que realmente deram um «empurrão» (…) A Casa Pia proporcionou-me aulas de voz, também… portanto, eles ajudaram-me muito na minha formação profissional e pronto… e agradeço.” Angélico considera dois técnicos como sendo, nessa época, as pessoas mais próximas de si.

Quando estava em acolhimento, Angélico tinha amigos exteriores ao LIJ, mas não explicita que amigos foram mais importantes nessa época, tendo deixado implícito que existe uma tendência para não valorizar tanto as pessoas que se encontram mais próximas como é o caso dos colegas de LIJ. Na possibilidade de não ter passado pelo acolhimento, Angélico pensa que a sua vida teria sido diferente, porque não teria tido determinadas opções que a CPL lhe proporcionou, “provavelmente teria ido logo trabalhar para uma loja de qualquer coisa e, se calhar, ainda lá estava.” Em acolhimento, contou com apoio escolar “(…) explicação só a matemática.” Relativamente à sua experiência de acolhimento, o entrevistado mencionou que “mantinha tudo igual. Foi a melhor coisa que me poderia ter acontecido.” Angélico deslocava-se semanalmente a casa, “eu costumava ir aos fins de

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semana a casa. Podia visitar familiares. Depois do caso Casa Pia não podia visitar ninguém.” Ninguém da instituição lhe falava sobre a sua família. Não gostava de ter podido passar mais tempo fora do LIJ porque considera que “(…) foi o tempo ideal”.

Quando saiu do LIJ foi viver sozinho num “(…) T0 na Praça de Espanha”, o que foi uma escolha pessoal, e não regressou à família alargada de onde havia saído à data de acolhimento, até porque haviam emigrado, “não regressei à minha família biológica porque senti que com eles não era o meu lugar. Pronto, eles tinham a vida deles e a família deles e eu foi um bocado, tipo, cheguei lá porque não tinha mais ninguém e foi um bocado… eles tiveram que me acolher porque, também, é família mas, senti-me sempre bem-vindo, nunca me senti posto de parte mas não me sentia à vontade, pronto…” Quando Angélico saiu do LIJ sentiu-se “sozinho.”

Para ele, a verdadeira família, na atualidade, são “os amigos.” Não ajuda a família porque a relação não é de proximidade e omitiu o tipo de relacionamento que tem, neste momento, com a família mas é, sem dúvida, distante.

O entrevistado não tem filhos mas “talvez” venha a ter. Se tal vier a acontecer, referiu que “(…) há coisas positivas que aprendi no lar que poderia passar aos filhos… se os tiver.” Desde que saiu do acolhimento, até à atualidade, já fez diferentes opções habitacionais, “primeiro vivi sozinho, depois tinha um amigo meu (…) e basicamente ele vivia em Oeiras, eu vivia aqui em Lisboa, mas eu passava a vida em casa dele, pronto, não estava habituado a viver sozinho. (…) então acabámos (…) por decidir viver juntos, pronto, e é sempre mais fácil dividir despesas e não sei quê, e, pronto, até hoje vivemos juntos, só que este ano vamo-nos separar (…).”

“Tinha 5 anos” quando começou a frequentar a escola e antes de ingressar em acolhimento encontrava-se no “5.º ano”, tendo referido que nesse período as aulas “corriam bem. Eu sempre fui distraído mas bom aluno.” Angélico, em acolhimento, concluiu o “12.º “ ano. Não apreciava a escola, “eu não gostava muito da escola (…) depois, realmente, não quis ir para a faculdade, achei que não era necessário.”, mas tinha apoio para estudar em acolhimento, “quando era pequeno, mais novo, era o educador e uma aluna mais velha que era monitora, depois deixou de existir. Ela estava (…) a tirar Português-Inglês e eu praticamente fui o primeiro aluno dela por isso é que depois fiquei muito bom a inglês.”

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embora pense que existe preconceito em relação a c/j institucionalizados por terem um modelo de vida incomum, mas defende que os indivíduos têm diferentes tipos de atitudes e comportamentos perante a realidade. Depois de deixar o LIJ, Angélico não voltou a estudar porque considerou que tal não era necessário. Todavia, ainda considera retomar os estudos no estrangeiro.

O inquirido não frequentou qualquer curso de formação profissional. Angélico teve a sua primeira experiência de trabalho ainda em acolhimento, e demonstrou sentimentos ambivalentes em relação ao primeiro emprego “sim. Trabalhava na… assistência em viagem.

No documento PARTE I - TRAJETÓRIAS DE VIDA (páginas 139-194)

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