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PARTE I - TRAJETÓRIAS DE VIDA

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Trajetórias de Vida e Integração Social

de Jovens Pós-Institucionalizados.

Estudos de Caso na Casa Pia de Lisboa

(2002-2011).

Autor:

José Rosado Medinas Martins

Orientadora:

Professora Doutora Anália Cardoso Torres

Tese de doutoramento em Ciências Sociais na especialidade de Política Social

Anexos

Lisboa

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Título:

Trajetórias de Vida e Integração Social de Jovens Pós-Institucionalizados.

Subtítulo:

Estudos de Caso na Casa Pia de Lisboa (2002-2011).

Nome

: José Rosado Medinas Martins

Instituição:

Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas

Orientadora

: Professora Doutora Anália Cardoso Torres

Doutoramento em Ciências Sociais na especialidade de Política Social

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Índice

Introdução 8

PARTE I - TRAJETÓRIAS DE VIDA 10

1. Panorâmica longitudinal das trajetórias individuais

(eventos significativos) 10 2. Da precariedade à estabilidade e à integração 12 2.1 Com estabilidade profissional 12

Alan 12

Benito 17

Branca 22

Camila 27

Ísis 32

Leopoldo 37

Libânio 42

Mercedes 47

Nazaré 52

Olavo 57

Orfeu 62

Pelágio 66

Rosália 71

Samanta 76

Sidney 81

Zacarias 86

2.2 Com investimento educativo 91

Aldair 91

Ezequiel 95

Hipólito 100

Isaura 105

(4)

4

Júlia 115

Licínio 120

Madalena 125

Olegário 130

Otoniel 134

2.3 Com atividades ocupacionais ascendentes e empreendedoras 139

Anabela 139

Angélico 144

Brígido 149

Calvino 153

Clemente 158

Dinarte 163

Dinis 168

Domingos 173

Juliano 178

Osmar 183

Querubim 188

3. Na trajetória da instabilidade 194 3.1 Com situação ocupacional pontual/precária 194

Getúlio 194

Íris 199

Jamila 203

Levi 208

Santiago 213

Simão 218

3.2 Sem ocupação profissional/académica 224

Alírio 224

Aurora 229

Estrela 233

Josefa 238

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5

Nicolau 248

Quirino 253

PARTE II – ASPETOS METODOLÓGICOS 258

1. Autorização para investigação 258 1.1. Solicitação de autorização para investigação 258 1.2. Resposta à solicitação de autorização para investigação 260 1.3. Carta de compromisso estudo de investigação 261 2. Investigação e convite à participação 262

2.1 Draft para construção da base de dados 262

2.2 Esclarecimento dos serviços centrais da CPL à população 265 2.3 Esclarecimento do investigador à população 266 2.4 Modelo de registo dos follow-up telefónicos à amostra 267 2.5 Modelo de consentimento informado apresentado à amostra 268 2.6 Guião das entrevistas presenciais à amostra 269

3. Maus-tratos 275

3.1 Definição e classificação dos maus-tratos infantis 275 3.2 Tipologia dos maus-tratos infantis 277 3.3 Consequências psicológicas dos maus-tratos infantis 278

3.4 “Fatoresde proteção” das c/j relativamente aos maus-tratos 279

4. Consequências psicológicas da insuficiência e do

rompimento de vínculos afetivos 280

5. Acolhimento 281

5.1. Cenário internacional da tipologia de acolhimento

de c/j em risco/perigo 281 5.2. Tendências internacionais relativamente ao número de

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6.3. Competências do STASE 287 6.4. O Projeto R.A.I.A. (Residência e Apoio

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“Sou uma parte de tudo aquilo que encontrei no meu caminho.”

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Introdução

Os anexos deste trabalho de investigação intitulado Trajetórias de Vida e Integração Social de Jovens Pós-Institucionalizados. Estudos de Caso na Casa Pia de Lisboa (2002-2011),

repartem-se em duas partes substantivas: parte I (trajetórias de vida) e parte II (aspetos metodológicos).

A parte I, dedicada às trajetórias de vida, inclui uma panorâmica longitudinal dos eventos significativos das trajetórias de vida individuais dos elementos componentes da amostra e subdivide-se em dois pontos essenciais: 1. da precariedade à estabilidade e à integração e 2. na trajetória da instabilidade. O primeiro ponto abrange, de forma seccionada, os indivíduos com estabilidade profissional, os indivíduos com investimento educativo e os indivíduos com atividades ocupacionais ascendentes e empreendedoras. Por sua vez, o segundo ponto, compreende, igualmente de forma segmentada, os indivíduos com situação ocupacional pontual/precária e os indivíduos sem ocupação profissional/académica.

A parte II, incide sobre aspetos metodológicos da investigação e encerra sete pontos que se ramificam. O primeiro ponto denomina-se autorização para investigação e compreende a solicitação de autorização para iniciar a investigação, a resposta à solicitação de autorização para prosseguimento da investigação e uma carta de compromisso estudo de investigação.

O segundo ponto designa-se investigação e convite à participação e inclui o draft

para construção da base de dados, o esclarecimento dos serviços centrais da CPL à população, a aclaração do investigador à população, o modelo de registo dos follow-up

telefónicos à amostra, o modelo de consentimento informado apresentado à amostra e o guião das entrevistas presenciais aplicadas à amostra.

No terceiro ponto, que se intitula maus-tratos, apresentamos a definição e classificação dos maus-tratos infantis, a tipologia doa maus-tratos infantis, as consequências psicológicas dos maus-tratos infantis e os “fatores de proteção” das c/j relativamente aos maus-tratos.

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O ponto quinto chama-se acolhimento e abarca o cenário internacional da tipologia de acolhimento de c/j em risco/perigo, as tendências internacionais relativamente ao número de c/j que se encontram em acolhimento e os direitos das crianças acolhidas institucionalmente.

No ponto sexto, intitulado Casa Pia de Lisboa, apresenta-se a organização das respostas sociais dos centros de educação e desenvolvimento (CED) de tipo I, as competências dos serviços de acolhimento e proteção (SAP), as competências dos serviços técnicos de apoio socioeducativo (STASE), o projeto de residências de apoio à integração de adolescentes (RAIA).

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PARTE I - TRAJETÓRIAS DE VIDA

1. Panorâmica longitudinal das trajetórias individuais (eventos significativos)

Nasc. Idade na admissão em acolh.

Idade na bx prov./proc. trans.

Idade na bx def./proc. saída

Duração da fase de transição (anos)

Perceção de apoio institucional na transição Apoio institucion al (RAIA/AIF) 1.º empreg o aos…

1.º filho

aos… Estado civil Situação ocupacional Entrevistados (idade em 2014)

1986 (1996) 10 19 (2006) 20 1 Apoiado --- 18 Sem filhos U. facto Empregado Alan, 28 anos 1990 (1995) 5 15 (2008) 18 3 Apoiado --- 18 Sem filhos Solteiro Estudante Aldair, 24 anos

1989 (1993) 4 19 (2010) 21 2 Apoiado AIF 17 Sem filhos Solteiro Desempregado Alírio, 25 anos

1987 (1992) 5 --- (2011) 24 --- Apoiado RAIA 22 Sem filhos U. facto T.-Estudante Anabela, 27 anos 1985 (1996) 11 20 (2007) 22 2 Apoiado --- 19 Sem filhos Solteiro Empregado Angélico, 29 anos

1988 (2001) 13 --- (2009) 21 --- Apoiado --- 16 17 anos U. facto Desempregada Aurora, 26 anos

1985 (1995) 10 --- (2005) 20 --- Apoiado --- 18 28 anos U. facto Empregado Benito, 29 anos

1987 (2000) 13 19 (2007) 20 1 Apoiado --- 19 27 anos U. facto Empregada Branca, 27 anos 1986 (1995) 9 19 (2006) 20 1 Apoiado --- 18 Sem filhos Solteiro Empregado Brígido, 28 anos

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2. Da precariedade à estabilidade e à integração 2.1 Com estabilidade profissional

Alan

Alan nasceu em 1986, portanto conta vinte e oito anos em 2014. É natural de Lisboa, concelho em que se reinseriu, e tem nacionalidade portuguesa. Faz parte de uma fratria de cinco irmãos, que passaram pelo sistema nacional de acolhimento, e que advinham de uma família monoparental feminina em que a mãe ficou viúva, sendo que, muito cedo, se viu órfão de pai. Quando Alan foi admitido em LIJ, na CPL, numa resposta social intramuros, no concelho de Lisboa, em 1996, contava dez anos de idade e provinha de uma outra instituição de acolhimento. Nos seus registos processuais consta que foi acolhido devido a alcoolismo e a outros problemas de saúde no agregado familiar e, também, por ter sido abandonado pela mãe, tendo ficado exposto a modelos de comportamento desviante. Possuía família de suporte no distrito de localização do LIJ (avó) com a qual passava fins de semana e férias escolares.

À entrada em LIJ, Alan tinha frequência do 1.º ciclo e.b. e, quando cessou o acolhimento, havia concluído um curso profissional de nível III, tendo sempre frequentado estabelecimentos de ensino da rede CPL. Teve b. p./p. t. em 2005, aos dezanove anos de idade e b. d./p. s. em 2006, com vinte anos de idade. O seu acolhimento efetivo durou nove anos e teve descarga do sistema dez anos após o despacho de admissão, sendo que teve um período de transição de um ano em que foi apoiado pela CPL. Alan cessou o acolhimento por autonomização, por inserção no mercado de trabalho, por sua vontade própria e para se reintegrar na família alargada. Nessa altura de transição trabalhava e estudava.

Antes de entrar em acolhimento, Alan havia sido deixado, tal como as irmãs, a cargo da avó materna, com a qual vivia, “(…) tive a minha mãe que me deixou com a minha avó

materna (…).” Foi acolhido em LIJ, na CPL, porque a instituição em que se encontrava

encerrou,e porque a avó não tinha capacidade económica para “(…) cuidar de tantos, não é?

(…) tinha uma reforma pequena.” Alan referiu não ter sido chamado a participar na decisão

de acolhimento. Quando soube que ia integrar o LIJ, na CPL, achou ser “(…) uma sensação

normal” por estar a transitar de uma resposta de acolhimento com as mesmas

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acolhimento afetas a outra instituição.

Para Alan, o modo de organização do LIJ era semelhante a uma família. Quando ingressou, a sua adaptação às novas regras “(…) foi fácil” e, no seu entender, a relação que tinha com os outros jovens que estavam também no LIJ “era bastante boa”. Enquanto esteve em acolhimento, Alan sentia-se “(…) livre!(…) tínhamos as regras. (…) Mas acho que

havia alguma liberdade”, e o que mais gostava “(...) era da hombridade que havia… da união

que havia (…)”, e do que menos gostava, na sua ida a casa, era o facto de sentir“(…) alguma

liberdade para fazer algumas coisas e no internato é diferente (…). Temos regras.” Pensa que as regras foram importantes, na medida em que desempenharam uma função disciplinadora. Durante o acolhimento não considera que tivesse tido comportamentos que a instituição considerasse preocupantes.

No que se refere à organização de um projeto de vida individual, Alan pensa que o mesmo foi preparado parcialmente, de uma forma generalizada. Alan referenciou que a sua relação com os adultos em funções no LIJ “era bastante boa”, eque todos os educadores o

“(…) tratavam da mesma maneira e eu a eles era igual. Pelo menos havia três mais

importantes e era igual.” Considerou que “(…) as regras (…) são importantes, mesmo até

para nos incutir alguma responsabilidade nas coisas e acho que por aí ganhei bastante (…)“,

porque este tipo de ações desenvolvidas por parte dos técnicos/pessoal afeto ao LIJ foram importantes para a preparação do seu futuro.

Quando Alan se encontrava acolhido, tinha amigos fora do LIJ e, para ele, todos os colegas, quer da escola quer do LIJ, foram importantes. Se, eventualmente, a sua vida não tivesse passado por um período de institucionalização, o entrevistado acredita que teria sido mais difícil, “eu acredito que tinha sido pior. Eu acredito que tinha sido pior… a minha avó, lá

está, não tinha grandes capacidades para cuidar de todos nós e, se calhar, tinha sido

bastante pior como eu tenho algum conhecimento de algumas pessoas.” Alan mencionou

que não teria mudado nada no seu percurso de acolhimento, pois “a Casa Pia ensinou-me o

que sei hoje sobre a vida.”

Alan visitava frequentemente a família,“(…) todos os fins de semana ia para casa.

(…)desde que combinado e autorizado.” No LIJ não era habitual que lhe falassem sobre a sua

situação familiar, porque no seu entender, não era das situações mais adversas, “(…) eu não

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necessidade.” Alan não gostava de ter podido passar mais tempo fora do LIJ.

Quando saiu do acolhimento foi viver com a família de onde havia saído quando ingressou em acolhimento,“(…) para a casa da minha avó”, o que não foi uma escolha sua,

“não havia mais ninguém…” Nesse processo de retorno, sentiu-se“se calhar, um bocadinho

desnorteado… eles (CPL) não deram grande apoio, lá está… nem na procura do primeiro

emprego, nem essas coisas todas que eu acho que, se calhar, nessa área podia ter sido um

bocadinho diferente… e a minha avó também era uma pessoa já um bocadinho com alguma

idade, não tinha grande paciência para algumas coisas (…).” Referiu que, quando se

reintegrou na família, sentiu diferenças, e a sua integração no novo ambiente não foi “(…)

muito fácil porque a minha avó era uma pessoa um bocadinho complicada (…).” Desde que

saiu do LIJ até à atualidade, Alan viveu, primeiro, com a avó e, depois, em união de facto, sempre no concelho de Lisboa.

Para o entrevistado, hoje em dia, a sua verdadeira família é a sua mulher, tendo dito que a família atual é composta“por mim e pela minha mulher… tem a mesma idade que

eu, vinte e sete anos e trabalha.” O inquirido diz estar a ajudar a sua família e revelou que

tem, atualmente, um bom relacionamento com a mesma, “bastante bem. Com as minhas

irmãs, (…) também temos bastante união. Elas também passaram pela mesma situação de

internato como eu e entendemo-nos bem uns aos outros.” Alan não tem filhos mas planeia vir a tê-los. Relativamente à educação de hipotéticos filhos que venha a ter, o entrevistado disseque espera“(…) poder fazer melhor”, estabelecendo uma analogia com a educação que recebeu.

O início da sua frequência escolar “(…) foi aos 6 anos” e à data da sua admissão em acolhimento frequentava o “(…) 8º ano”, sendo que antes de entrar em acolhimento considera que as aulas “corriam bem”. Enquanto esteve em acolhimento frequentou a escola “até ao 12.º ano… técnico-profissional”, e o que mais gostava em meio escolar era das instalações físicas e da possibilidade de fazer desporto, “(…) eu sempre gostei bastante das

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após a saída do LIJ porque teve que começar a trabalhar para se sustentar. No entanto, ainda pensa voltar a estudar, pelo que tem objetivos traçados.

Considera que o curso de formação que frequentou não foi importante para o seu percurso profissional. No entanto, como trabalha numa área afim, os conhecimentos adquiridos no curso revestem-se de alguma utilidade prática. Enquanto esteve em acolhimento, Alan não exerceu qualquer atividade profissional. Começou a trabalhar aos “18

anos” e sentiu-se satisfeito com o primeiro emprego, recordando a experiência “bastante

bem até. (…) ainda me dou com essas pessoas.” O facto de trabalhar influenciou o seu

percurso escolar. Quando deixou o acolhimento, Alan não teve dificuldade em encontrar emprego, uma vez que foi constante e determinado na procura e, desde aí, o seu percurso profissional tem sido regular, sem períodos de desemprego. As atividades profissionais que tem exercido têm ido, relativamente, ao encontro das suas expectativas e disse gostar do que faz atualmente. No que concerne a uma eventual relação que se possa pretender estabelecer entre o facto de ter estado institucionalizado e a sua inserção profissional, o inquirido explicou que tem encontrado potenciais empregadores que valorizam a CPL e outros que demonstram algum desagrado (preconceito) com o facto de ter por lá passado. Vive do seu salário, dado que se encontra empregado, e referiu não ter beneficiado nem beneficiar de quaisquer apoios advindos da segurança social.

Alan já era quase adulto quando deixou de viver em acolhimento na CPL, e a sua saída foi relativamente ao encontro do que desejava; todavia não foi uma opção pessoal,

“(…) foi imposta.” Considera que a saída foi um projeto de vida que a instituição desenhou

para si “sim, no final da escolaridade tínhamos que sair.” O momento da sua saída do acolhimento, recorda-o “(…) como uma pequena despedida (…) E isso nunca é fácil. (…)”,

tendo sido um momento importante na sua vida “porque ia ficar, no dia a dia, sem as

pessoas com quem vivia.” Contudo, não acha que tivesse havido outras soluções para poder

ter saído mais cedo do acolhimento.

Na altura em que saiu não se sentiu apoiado pela instituição na preparação da sua autonomia, “(…) nessa fase, não acho que tenha havido assim grande, grande apoio, mas

porque a minha situação também o permitia. (…) Eu não precisava porque ia para casa de

família, não é? E a minha situação familiar não era assim tão complicada quanto isso. Mas

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organização da sua vida diária “foi mesmo eu ter arranjado casa própria, pouco tempo depois. Isso permitiu-me organizar melhor a minha vida… sim”, e nesta fase, a integração laboral foi de fácil concretização “(…) até arranjei emprego relativamente rápido. Não sinto

que tenha tido grandes dificuldades.”

Para o entrevistado, os primeiros tempos fora do acolhimento não foram fáceis, dado que, sentiu alguma solidão, e ultrapassou-a com o apoio da família e da namorada, mas, apesar disso, não existiram muitas diferenças entre a forma como pensou que a vida ia correr fora do acolhimento e o que efetivamente aconteceu “não houve assim muito, não.

(…) já na altura tinha a noção, que uma pessoa tem que se esforçar um pouco, às vezes

engolir alguns sapos e … e isso acontece, isso é verdade. Portanto, não houve assim grande diferença.”

Atualmente, ainda mantém contacto “com bastantes” amigos daquela época mas exteriores ao acolhimento “não é mais, porque o tempo é pouco.” Da mesma forma,desde que saiu do acolhimento, Alan mantém alguns contactos com técnicos/pessoal afeto à instituição e com amigos que lá deixou “(…) menos do que gostaria, mesmo por falta de

tempo, mas tenho os contactos normais, tenho facebook, tenho o número (de telefone) de

alguns, mas não falo assim tanto quanto isso.” Referiu também que, quando precisa de

algum tipo de apoio, recorre à sua companheira, “à minha mulher… só se for à minha

mulher.”

Alan menciona algumas atividades/ocupações de lazer nas quais se ocupa quando tem tempo livre “(…)gosto (…) de jogos no computador ou de consolas, etc. Ler, não tenho muito assim esse hábito, e gosto bastante de passear com a minha mulher. Às vezes, ir para

fora de Lisboa,(…) etc.” No presente, não há nada que gostasse de mudar na sua vida familiar, mas, no dia-a-dia, gostava de “… se calhar ter um emprego melhor ou continuar a

estudar.” Alan tem projetos para o futuro e “a médio prazo… tirar a licenciatura e procurar

qualquer coisa melhor, pelo menos uma área que me agrade mais.” A médio e a longo prazo,

imagina algumas diferenças no seu percurso de vida “(…) talvez cinco, não, mas dez anos, se

calhar, espero estar bem melhor na minha vida, sim. Bastante melhor.”

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pequenas. E com a minha idade, ainda falta muito… falta muito para andar.”

Benito

Benito nasceu em 1985, portanto conta vinte e nove anos em 2014. É natural de Oeiras, concelho em que se reinseriu, e tem nacionalidade portuguesa. Faz parte de uma fratria de oito irmãos, sendo que um deles passou pelo sistema nacional de acolhimento, que também compõe a população em estudo, e derivavam de uma família monoparental em que os pais haviam-se separado. Alguns membros do agregado familiar de Benito haviam emigrado e outros familiares estavam desempregados.

Quando foi admitido em LIJ na CPL, numa resposta social extramuros, relativamente ao CED a que estava afeto, no concelho de Sintra, em 1995, Benito contava dez anos de idade e provinha da família. Nos seus registos processuais consta que foi acolhido devido a negligência, maus-tratos psicológicos, carência socioeconómica, prostituição, toxicodependência, alcoolismo e a outros problemas de saúde no agregado familiar. Possuía família de suporte no distrito de localização do LIJ (avó e tias) com as quais passava fins de semana e férias escolares. Na altura da admissão em LIJ, Benito foi alvo de relatório de avaliação psicológica.

À entrada em LIJ Benito tinha frequência do 1.º ciclo e.b. e quando cessou o acolhimento havia concluído um curso profissional de nível II, tendo frequentado em estabelecimentos de ensino da rede CPL e da rede escolar pública, o ensino regular e o ensino profissional, tendo somado três reprovações letivas. Não teve b. p./p. t. e teve b. d./p. s. em 2005, com vinte anos de idade. Benito teve descarga do sistema dez anos após o despacho de admissão, sendo que não teve apoio da CPL na transição para a vida adulta. Benito cessou o acolhimento por maioridade, a pedido de outro familiar, por sua vontade própria e para se reintegrar na família alargada, encontrando-se a estudar.

O acolhimento de Benito deveu-se à orfandade total, “(…) coincidiu com a morte

dos meus pais (…)” e antes de ser acolhido encontrava-se a residir com a família alargada,

“com a minha avó.” Benito considera que o seu acolhimento se deveu à falta de condições

familiares,“(…) a minha avó achou que (…) não havia condições para nos ter e para nos criar

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chamado a participar na decisão porque “naquela altura (…) era muito novo (…).” Quando teve conhecimento que ia ingressar em acolhimento foi difícil, “(…) principalmente a

primeira semana foi um bocado complicado. Estar longe da família. (…) Encontrar aquelas

regras (…).” Foi acolhido com um irmão, no mesmo LIJ, e a presença deste foi “muito”

importante.

Pensa que o modo de organização do LIJ era semelhante a uma família, sendo que teve uma adaptação positiva às novas regras. Com os seus pares em acolhimento, Benito tinha “uma relação boa. Éramos uma família (…).” Em acolhimento, Benito sentia-se “livre.

Estudávamos fora. Todos os dias podíamos, a seguir ao jantar, podíamos ir jogar à bola até

às 10h, 9 e meia da noite, podíamos estar à vontade (…).” Benito salientou que um dos

aspetos de que mais gostou no LIJ, foi o próprio acolhimento, “fomos bem recebidos e correu

bem.” Considera que as regras aplicadas foram importantes“(…) porque se não fossem essas

regras e ter entrado para a instituição, não sei o que seria de mim hoje.”, embora durante o tempo que esteve em acolhimento tivesse manifestado comportamentos que a instituição considerou preocupantes, “(…) tive as minhas falhas como jovem, mas foram coisas que

serviram para aprender também.”

Benito observa que o LIJ lhe organizou um projeto de vida, o qual era comum aos restantes jovens. Benito mencionou que tinha “uma relação boa, de amizade” com os adultos em funções no LIJ. Sobre ações desenvolvidas, por parte dos técnicos/pessoal afeto ao LIJ, que tenham sido importantes para a preparação do seu futuro, o entrevistado referiu

“(…) É como os nossos pais em casa (…) para nos prepararem melhor para o futuro.” Não

aludiu a nenhum educador que tivesse sido mais próximo de si ou com o qual tivesse uma relação privilegiada,“(…) eles tentam tratar as pessoas de maneira igual para não haver… eu

acredito que para eles, nós éramos a família deles também.”

Enquanto esteve em acolhimento, Benito, teve amigos fora do LIJ, “amigos da

escola (…) éramos livres de levar colegas da escola ao lar.”, mas para o entrevistado, nesta fase, os amigos mais importantes foram “os do lar, porque éramos aquela família,

convivíamos todos juntos e toda a gente se ajudava uns aos outros.” Referiu que se,

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tal questão que eu falo sempre com ex-colegas e que não sei o que seria hoje. Sinceramente,

se não tivesse ido para lá, não sei mesmo, porque eu vejo rapazes da minha criação e que

não têm nada, não trabalham, não… e eu não sei se teria força para fugir disso ou se era

mais um deles.” Não usufruiu de apoio escolar específico no LIJ, “(…) os educadores

sentavam-se connosco à mesa, na hora do estudo. Eles próprios estudavam connosco,

porque as notas se viessem más era o acompanhamento que nós tínhamos deles, era esse.”

Relativamente ao seu percurso em acolhimento, Benito não teria mudado “nada. Foi uma

fase importante na minha vida. Não sei o que seria se por lá não tivesse passado.”

“Todos os fins de semana” Benito visitava a família, bem como podia visitar amigos

e familiares no exterior do LIJ. No LIJ, falavam-lhe sobre a sua situação familiar,“(…) e muitas

das vezes a família ligava para lá, durante o dia, para saber como é que nós estávamos e

ficavam à conversa da semana, como é que tinha corrido a semana, falavam bastante.”

Benito não gostava de ter podido passar mais tempo fora do LIJ,“(…) felizmente todos os fins

de semana eu tinha o fim de semana com a família e era o tempo que bastava para matar as

saudades e estarmos um bocado no conforto da família.”

Quando saiu do LIJ foi viver“para a casa da minha avó”, o que foi uma escolha sua, mas recorda o momento da saída com tristeza, “um bocado triste e já lá voltei. Voltei para

rever os educadores, para rever o lar… continua tudo na mesma e deixa saudades.” Gostou

de tornar à família de onde havia saído para ingressar em acolhimento e disse que tudo havia, entretanto, mudado, “a maneira de pensar, de ver as coisas. Quando entrei era uma

criança e saí um homem já.”Quando saiu do acolhimento, Benito sentiu-se satisfeito no seu

novo ambiente porque não deixou de ter contacto com a família enquanto esteve institucionalizado e a saída foi ao encontro do que desejava. Desde que saiu do acolhimento, já viveu com a família nuclear e com a família construída, sempre no concelho de Oeiras, o que tem sido uma opção pessoal, “com a minha avó e com o meu irmão, depois. Lá em casa

éramos os três. Depois, tenho tias perto. Agora, estou eu e a minha mulher e a minha filha.

Sim, tem sido a minha opção.”

Presentemente, considera que a sua verdadeira família é “o meu irmão e as minhas

tias. O resto, infelizmente, já partiu… e a minha mulher e a minha filha. Hoje, vivo com a

minha mulher e com a minha filha.”, e considera que ajuda a família “em tudo. Todos

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falte nada.” Relaciona-se “muito bem” com a sua família, “gosto… e andamos a pensar em

alargar a família.” O inquirido tem uma filha, que nasceu quando tinha vinte e oito anos de

idade, e planeia vir a ter mais filhos. Benito considera que a educação da filha é inspirada na sua própria educação, a qual é um motivo de orgulho para o próprio, “eu tento levá-la da

maneira como eu fui educado.”

Iniciou a escola aos “6 anos” e na altura do acolhimento frequentava a“4.ª Classe”, mas as aulas corriam “não muito bem. Não havia muito acompanhamento da família.” Em acolhimento, Benito estudou até ao “(…) 9.º ano, ou seja, fiz o curso de nível dois de «pintura

de automóvel».” O que mais gostava na escola “(…) era o curso, porque todos os dias

tínhamos a tarde inteira de curso e as aulas… há pessoas que conseguem estar mais focadas

nas aulas, outras menos, mas era do curso que mais gostava (parte prática).”, e o que menos gostava era“(…) de algumas aulas.” Em acolhimento tinha apoio para estudar por parte dos educadores e nunca teve problemas na escola nem se sentiu discriminado por viver num LIJ, sendo que tinha uma boa relação com colegas de escola e professores, “(…) quando os

convidávamos a conhecer o lar, eles iam lá.” Após sair do acolhimento, Benito não continuou

a estudar e atualmente, já não pensa voltar a estudar, “acho que não vale a pena.”

O curso profissional que realizou foi relevante para o seu percurso profissional,

“muito importante. (…) Eu já saí orientado do curso.” Benito, enquanto esteve em

acolhimento, não exerceu qualquer atividade profissional, “não… foi quando saí, que

coincidiu com o final do curso.” Começou a trabalhar aos “18 anos.” O entrevistado sentiu-se

satisfeito com o primeiro emprego, “sim, foi para o que eu estudei, para o que eu aprendi e

saí da Casa Pia com o intuito de seguir o curso.” O facto de trabalhar não influenciou o seu

percurso escolar. Quando deixou o acolhimento, Benito não teve dificuldade em encontrar emprego “porque já tinha emprego quando terminei o curso.” Após a sua saída do acolhimento, o seu percurso profissional até hoje “foi bom. Fiz cerca de 8 meses numa

oficina, depois, segui um sonho que eu tinha de criança que era jogar à bola. Deu para andar

uns anos, mas quando a idade já começa a aumentar e as coisas não se proporcionam, tive

que me virar para outro lado e agora tenho um trabalho fixo, estou bem.”

As atividades profissionais que tem exercido vão ao encontro das suas expectativas e gosta “muito” do que faz atualmente, “tenho um trabalho que gosto, pagam a horas, está

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positiva nas suas oportunidades de inserção profissional, “(…) porque foi fruto da educação

que eu tive, não ter que depender dos outros e ter que ir à procura dos nossos objetivos.”

Encontra-se empregado e nãobeneficiou ou beneficia de apoios da segurança social.

Benito era praticamente adulto quando deixou de viver no LIJ, “tinha 17 anos, a

caminho dos 18.” A sua saída foi ao encontro do que desejava,“sim, a família estava toda

(junta).” Referiu que não se tratou de uma opção exclusivamente pessoal, “foi uma opção

comum. (…) os educadores viam que o nosso tempo ali estava a esgotar-se, já estávamos

encaminhados, eu estava a terminar o curso (…) falámos todos, eu, a família, os educadores e achámos por bem no final do ano letivo dar saída do lar e dar lugar a outras crianças.” O entrevistado considera que a sua saída do acolhimento foi um projeto de vida que a instituição desenhou para si e, apesar de pensar que não havia outras soluções para poder ter saído mais cedo do acolhimento, hoje, considera que se encontrava preparado para sair do acolhimento na altura em que aconteceu.

O inquirido sentiu que foi apoiado pela instituição na preparação da sua saída “em

tudo”. O que correu melhor na organização da sua vida diária, segundo Benito, “(…) Foi ter

saído com trabalho. Não ter que depender de outras pessoas e foi isso…” Referiu não ter

sentido dificuldades “nenhumas” nesta fase de transição. Quando ainda vivia em acolhimento, sonhava vir a tornar-se jogador de futebol. Na sua perspetiva, o acolhimento cumpriu o seu objetivo e atualmente, considera-se feliz, “nós estamos lá dentro com o

intuito de vir cá para fora e ter uma vida estabilizada e construir uma família. Eu fui mais um

que tive a sorte de ter saído e ter construído a minha família e, hoje em dia, estar bem.”

Segundo o entrevistado, na atualidade, ainda mantém contacto “com muitos” desses ex-colegas, bem como mantém contactos com técnicos/pessoal afeto à instituição, e desde que deixou o LIJ, recorre “à família (…)“ quando precisa de algum tipo de apoio.

Enquanto práticas de lazer, Benito referiu que joga futebol. Presentemente, na sua vida familiar não gostava de mudar nada. Similarmente, também não gostava de mudar nada no seu quotidiano, “faço o que gosto, tenho a minha família.” Benito vive, essencialmente, o dia-a-dia mas tem alguns planos para o futuro, sendo que a médio e a longo prazo idealiza uma vida melhor, mas está muito consciente da construção diária do futuro.

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22 minha filhota linda, por isso não peço mais.”

Branca

Branca nasceu em 1987, portanto tem vinte e sete anos em 2014. É natural de Almada e reinseriu-se no concelho de Lisboa, e tem nacionalidade portuguesa. Branca faz parte de uma fratria de três irmãos, tendo todos passado pelo sistema nacional de acolhimento, e sobrevinham de uma outra resposta social exterior à CPL. Um dos irmãos também participa nesta população. Os motivos conducentes ao acolhimento de Branca foram os problemas de saúde da própria e do seu agregado familiar, toxicodependência, prostituição, reclusão e carência socioeconómica que configuravam uma constelação de dificuldades. Quando foi admitida em LIJ na CPL, numa resposta social intramuros, relativamente ao CED a que estava afeto, no concelho de Lisboa, em 2000, Branca contava treze anos de idade.

Na altura em que foi admitida em LIJ, Branca teve acompanhamento psicológico, e foi alvo de relatório de avaliação da saúde física e psicológica. À entrada para o acolhimento, Branca frequentava o 1.º ciclo e.b. e na cessação do acolhimento frequentava um curso profissional de nível III. O seu percurso escolar foi feito através do ensino regular e do ensino profissional em estabelecimentos da rede escolar CPL. Branca teve b. p./p. t. em 2006, com dezanove anos de idade, e b. d./p. s. em 2007, aos vinte anos, sendo que esteve ligada ao sistema de acolhimento durante sete anos, tendo tido um ano de transição que mediou a b. p./p. t. e a b. d./p. s. Branca cessou o acolhimento por maioridade, a pedido dos pais, por autonomização, por inserção no mercado de trabalho e por mudança do contexto sociofamiliar, sendo que se encontrava a trabalhar nesta época.

Branca disse não ter uma memória bem definida dos tempos que antecederam à sua institucionalização, mas referiu que os pais foram presos. Antes de ser acolhida residia com a família alargada“(…) fiquei a viver com a minha avó.” Para a entrevistada o acolhimento foi uma boa decisão, “(…) foi a melhor coisa que nos poderiam ter feito”, mas não se recorda de ter sido chamada a participar na mesma, “não, não me recordo de nos

terem perguntado essa questão.” Quando soube que ia ser acolhida sentiu-se atemorizada

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elemento se lhes juntou vários anos mais tarde,“com um irmão. Tive, depois, outra irmã que

apareceu uns valentes anos depois.”

Considerou que a presença dos irmãos, principalmente do irmão, foi importante durante o período de acolhimento. No seu ponto de vista, o modo de organização do LIJ era semelhante a uma família e a sua adaptação às novas regras “(…) não foi assim muito

difícil…” Branca disse que tinha com os seus colegas de LIJ “uma relação de irmãos. (…) nós

éramos muito cúmplices”. Em acolhimento, Branca poder-se-ia sentir “livre” ou “presa”, mas

isso“dependia da situação. (…).” O que Branca mais gostava no quotidiano em acolhimento

era da relação interpares. As regras foram importantes e durante o tempo que esteve em acolhimento não teve comportamentos que a instituição considerasse preocupantes.

A inquirida sentiu que o LIJ organizava projetos de vida que eram comuns a todos os jovens que deixavam o acolhimento. Para Branca, a relação que tinha com os adultos em funções no LIJ era “excelente.” Ao nível de ações desenvolvidas por parte dos técnicos/pessoal afeto ao LIJ que tenham sido importantes para a preparação do seu futuro, a entrevistada disse que “ (…) quem me apoiou muito foi a educadora X…. (…) desde o início

ao fim, (…) Ela acompanhou a minha saída (…).” Branca referiu que sentia duas educadoras

mais próximas de si. Em acolhimento, Branca tinha “(…) amigos de escola.” Para ela os amigos do LIJ e os da escola eram incomparáveis, “(…) Os amigos do lar, são família. Os amigos de fora, são amigos (…).”

Caso não tivesse sido institucionalizada pensa que teria tido uma vida mais difícil,

“(…) provavelmente, não teria sido tão bom, depende se eu continuaria com o apoio da

minha família que tive ao início, se não teria…” Indicou que, em acolhimento, não teve

necessidade de ter um apoio especial, na vida pessoal (psicólogo), nem na escola (explicador). No que concerne à sua passagem pelo acolhimento institucional, Branca disse:

“tive excelentes apoios. Poderia ter aproveitado mais a nível de estudos.” Branca visitava a

família alargada, “eu tinha o apoio da minha tia e, ia nos fins de semana e nas férias para

casa dela.”

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passar mais tempo fora do LIJ. Quando deixou o LIJ, Branca entrou num processo de autonomia de vida tendo ido viver “para um quarto, durante seis meses”, o que foi uma escolha pessoal, recordando o momento de uma forma “muito festiva.” Branca não regressou à família de onde havia saído à data de acolhimento, embora continue a manter contacto, tendo explicado que “ (…) eu queria a minha independência e não queria correr o

risco de voltar tudo ao mesmo.” Quando Branca saiu do LIJ, sentiu-se bem. Desde que saiu

do acolhimento, até à atualidade, teve várias situações habitacionais, nos concelhos de Lisboa e de Sintra, por sua opção.

Hoje, a sua verdadeira família é a construída, a qual ajuda, com a qual se relaciona bem, “damo-nos bem”, e não mudaria nenhum aspeto ao nível familiar. Tem um filho, ao qual se refere de forma ternurenta, “uma bolinha muito fofinha.” A entrevistada teve o seu filho aos vinte e sete anos, “(…) Eu não tive pressa, foi com calma (…).” mas por razões de saúde, mais do que emocionais, não pretende ter mais filhos.Branca espera dar ao filho uma educação semelhante à que teve, mas sem os constrangimentos inerentes a um regime institucional.

Começou a ter frequência escolar “desde os sete (…)” anos e quando foi acolhida estava no “(…) 4.º” ano. Referiu que, anteriormente à sua integração em LIJ, havia reprovado

“(…) um ano por faltas (…) antes disso (…) era uma excelente aluna.” e conseguiu estudar

“até ao 12.º” ano, “Adorava a liberdade que a gente tinha na escola” e “(…) não gostava

nada de estudar.” Quando estava no LIJ tinha apoio dos educadores para estudar, e na sua

perspetiva, nunca teve problemas na escola nem se sentiu discriminada por viver num LIJ. Para Branca, os seus colegas e professores tratavam todos os alunos de forma igualitária. Após sair do acolhimento, Branca continuou a estudar, e concluído o curso profissional, não voltou a retomar os estudos.

Todavia, a entrevistada considera voltar a estudar de forma a ter mais oportunidades profissionais, “(…)Pensar, penso… a força de vontade é assim um bocadinho

pequenina, mas sim, espero voltar a estudar. (…) Mas o meu sonho é ter algo ligado à saúde. Daqui a três anos o meu contrato na tropa termina (…) e eu tenho que pensar em algo, por

causa do meu filho. Talvez um curso me ajude quando sair (…).” Branca frequentou um curso

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ao 9.º ano. Entretanto, pensei em mudar para «desporto». A educadora Y., mais uma vez,

apoiou e aconselhou-nos a mudar e a seguir os nossos sonhos, só que a ideia de mudar de

escola fez com que eu continuasse num curso que não gostava (…).”

Branca teve a sua primeira experiência profissional, aos dezanove anos, ainda em

acolhimento, “(…) fui educadora (monitora)um ano, dos miúdos lá do lar… da escola do lar.

Foi excelente!… Foi aí que conheci o meu namorado, portanto, ainda bem que ela

(educadora)me meteu lá.” Sentiu-se satisfeita com o primeiro emprego fora da instituição e recorda essa experiência de uma forma muito positiva, “(…) Foi boa. (…) foi a maior

experiência e onde eu aprendi.” O facto de começar a trabalhar “talvez” tivesse influenciado

o seu percurso escolar.

Quando deixou o acolhimento, Branca não teve dificuldade em encontrar emprego. Após a sua saída do acolhimento o seu percurso profissional, até hoje, foi “basicamente em

restauração. É o que é mais fácil de encontrar. De certa forma, eu gosto, tanto que eu penso

abrir um negócio nessa área. Tirando agora a oportunidade que surgiu de ser militar… em

que vi uma oportunidade de ingressar na área da saúde. Eu sou militar da parte da saúde…

uma experiência naquilo que sempre gostei de fazer.” As atividades profissionais que tem

exercido vão ao encontro das suas expectativas. Na opinião da entrevistada, o facto de ter estado institucionalizada, durante um período da sua vida, não tem qualquer relação com as oportunidades subsequentes de integração sociolaboral. Presentemente encontra-se empregada e nunca beneficiou de apoios prestados pela segurança social. Branca deixou o acolhimento quando atingiu a maioridade, por opção pessoal, e a saída foi ao encontro das suas aspirações, principalmente quando pôde ter casa própria.

Pensa que a sua saída fez parte de um projeto de vida que a instituição desenhou para si, “eu, ainda antes de sair, já estava a ter apoio com uns psicólogos para saber como é

que íamos fazer, como é que não íamos, e com a educadora X.” Considera que foi uma

circunstância importante. Acha que não havia outras soluções para poder ter saído mais cedo do acolhimento, “(…) porque na altura talvez tivesse pensado que podia vir-me embora, aquelas coisas de adolescência, mas acredito e felizmente não nos deixaram. Teria sido mais

difícil, sim.” A inquirida sentiu que foi apoiada pela instituição na preparação da sua

autonomia.

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após deixar o LIJ, foi “ter terminado os estudos. Não ter desistido. Ter terminado o último

ano que faltava, (…) o mais importante foi mesmo isso.” A maior dificuldade que sentiu na

sua organização quando saiu do acolhimento “(…) foi talvez, ao início, a adaptação, porque a

gente estuda… chega ao lar, tinha tudo feito. Quando saí estudava e quando chegava a casa

tinha tudo para fazer.” Para a entrevistada, os primeiros tempos fora do LIJ constituíram

“uma experiência maravilhosa e assustadora ao mesmo tempo.”

As principais dificuldades que sentiu nessa época relacionaram-se com a execução das tarefas domésticas, o que foi resolvendo com a prática, “chegava da escola e tinha tudo

por fazer. Uma questão de prática, de tempo, de experiência… a gente vai começando a

aprender, a adaptar-se.” Em acolhimento, Branca sonhava vir a ter, mais tarde, uma profissão no âmbito da saúde, “ser enfermeira ou veterinária… ingressar na área da saúde.” Quando se encontrava em acolhimento imaginava, que posteriormente à institucionalização, a vida seria mais fácil, sendo que veio a deparar-se com várias responsabilidades inerentes à sua vivência autónoma.

Hoje, considera que se encontrava preparada, naquela época, para sair do acolhimento. Atualmente ainda se relaciona com os seus ex-colegas de LIJ, “sim e fazemos

jantares de grupo, sempre que possível.”, bem como mantém contactos com

técnicos/pessoal afeto à instituição. Quando precisa de algum tipo de apoio recorre “ao meu

namorado. Alguma coisa mais pessoal, talvez à minha tia W.” Branca disse que, atualmente,

se encontra focalizada no acompanhamento ao filho e não passa muito tempo com amigos,

“(…) agora incluo o meu pequenino e ponho os amigos um bocadinho mais de parte para

aproveitar o pouco tempo que tenho com o meu pequenote.”

Na sua vida familiar não gostava de mudar nada, mas no dia-a-dia gostava de contar

com “um emprego fixo e não estar a pensar que, daqui a três anos, corro o risco de ficar

desempregada.” Branca vive o seu dia-a-dia tentando não se projetar no futuro dado que

não sabe se este lhe oferece estabilidade, nomeadamente profissional. Porém, ambiciona vir a conseguir “um emprego fixo em algo que eu goste.” A médio e a longo termo perspetiva, principalmente, o futuro do filho que deseja o melhor possível, e a sua segurança profissional, “com um puto cheio de saúde, excelentes notas, eu com emprego fixo e que

adoro…”

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a ficar desempregada.

Camila

Camila nasceu em 1984, portanto tem trinta anos em 2014. É natural do concelho de Cascais, reinseriu-se no concelho de Vila do Conde, e tem nacionalidade portuguesa. Faz parte de uma fratria de três irmãos, um dos quais passou pelo sistema nacional de acolhimento, e advinham de uma outra resposta social da CPL (CAT/UE). O irmão de Camila, que também esteve institucionalizado, faz parte da população deste estudo. A família de Camila era imigrante e, antes do acolhimento, o pai ficou viúvo, tornando-se uma família monoparental masculina, em que estava presente o alcoolismo e a orfandade. Os motivos conducentes ao acolhimento de Camila foram a orfandade (materna), negligência parental e o alcoolismo paterno. Enquanto esteve acolhida, Camila teve família de suporte no distrito em que se localizava o LIJ, embora muito ausente do processo.

Quando foi admitida em LIJ na CPL, numa resposta social intramuros, relativamente ao CED a que estava afeto, no concelho de Lisboa, em 1992, Camila contava oito anos. À entrada para o acolhimento, Camila frequentava o 1.º ciclo e.b. e na cessação do acolhimento frequentava um curso profissional de nível II. Usufruiu de escolas integradas na rede CPL e frequentou o ensino regular e o profissional. Não teve b. p./p. t. e teve b. d./p. s. em 2007, aos vinte e três anos, sendo que esteve ligada ao sistema de acolhimento durante quinze anos. Camila cessou o acolhimento por maioridade, por autonomização e por constituição de família.

Camila mencionou que antes de entrar para o acolhimento era órfã de mãe e que o pai tinha hábitos aditivos relacionados com o consumo de álcool, tornando-se negligente, perante a família nuclear. Inicialmente não lhe foi fácil aceitar a decisão que determinou o acolhimento mas isso aconteceu com o passar do tempo, embora não tivesse sido chamada a participar na decisão. Sentiu tristeza quando soube que ia ingressar em acolhimento, tendo sido, segundo disse, um processo rápido que lhe foi mal explicado. Foi acolhida, no

mesmo LIJ, com um irmão e a presença deste foi muito importante, “estamos muito unidos

desde pequeninos e até hoje…”.

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adaptação às novas regras foi boa. A relação de Camila com os seus colegas de LIJ era muito boa, sendo que em acolhimento, Camila sentia-se «livre» nunca «presa». Aquilo que Camila mais gostava no LIJ era das atividades e das férias. Considera que as regras implementadas foram importantes, e durante o tempo que esteve em acolhimento acha que não teve comportamentos que a instituição olhasse como sendo preocupantes. A entrevistada sentiu que o LIJ lhe havia organizado um projeto de vida que era comum aos seus colegas. A relação que tinha com os adultos em funções no LIJ “era boa.”, e refere-se às ações por eles desenvolvidas como parte importante para a preparação do seu futuro tal como o incentivo na frequência do “(…) curso de cozinha, não consegui, chumbei (…) e a minha educadora

tentou que eu entrasse para o curso de ótica e consegui entrar.” Indicou que tinha uma

relação próxima com uma educadora.

Quando estava em acolhimento, Camila tinha amigos fora deste, mas na sua perspetiva, nessa época, os amigos mais importantes eram “os de dentro, sem dúvida, os

que viviam comigo. (…) Ninguém melhor do que eles para me conhecerem.” Camila referiu

que a sua vida teria sido pior se não tivesse sido institucionalizada, “não faço uma pequena

ideia… desastrosa.” Ao nível pessoal teve acompanhamento psicológico. No âmbito de uma

análise holística feita pela própria entrevistada sobre o seu trânsito pelo sistema de acolhimento institucional, a mesma disse,“tive falta de apoio quando fiquei grávida (…).”

Camila visitava a família nuclear quinzenalmente mas não recebia visitas enquanto esteve em acolhimento e, quando via a família com menor frequência, sentia-se muito desapontada. Na instituição ninguém lhe falava sobre a sua família. Camila disse que não gostava de ter podido passar mais tempo fora do LIJ. Não foi possível regressar à família, de onde havia saído à data de acolhimento, por falta de condições sociofamiliares devido aos comportamentos alcoólicos do pai e manifesta agressividade, no entanto, tem vindo a manter contacto com a família ao longo do tempo. Referiu que, nesta fase da sua vida, o local e as pessoas com as quais passou a coabitar não foram uma escolha sua, sentindo-se muito mal no seu novo ambiente.

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tenciona vir a ter mais filhos. Na atualidade, a educação que Camila dá aos filhos é

“parecida” com a que teve. A entrevistada contou, em traços largos, como tem sido a sua

vida sociofamiliar e afetiva desde que saiu do LIJ até à atualidade, pelo que referiu varias relações afetivas e ruturas até conseguir atingir algum bem-estar emocional e socioeconómico. As alterações habitacionais nem sempre têm sido escolhas pessoais “ (…)

umas não, outras sim.”

Camila começou a frequentar a escola “aos seis” anos de idade mas não se recorda que ano escolar frequentava antes de ir para o acolhimento, nem a forma como decorriam as aulas. Camila, em acolhimento, estudou até ao “9.º ano.”, e na escola, o que gostava mais era do convívio interpares e das atividades extracurriculares mas não gostava de cumprir horários. Tinha apoio para estudar no LIJ, sendo que era ajudada pelos educadores e monitores.

Camila já se sentiu discriminada por viver num LIJ, mas disse que os colegas e professores reagiam “normalmente… igual aos outros” ao facto de estar acolhida. Após sair do acolhimento, Camila não continuou a estudar “(…) não estudei mais. Eu tentei tirar o

curso de animação… tem a ver com turismo, só que (…) daqui às Caldas (da Rainha) em dez

minutos estou lá (…) estava a gastar mais porque era todos os dias, e ir/vir era muito

complicado e acabei por desistir a meio do curso.” Atualmente, a inquirida não pensa

retomar os estudos mas considera a possibilidade de frequentar ações de formação de curta duração, para aumentar os conhecimentos na sua área profissional, pelo que objetiva

“melhorar profissionalmente.” Camila frequentou um curso de formação profissional, mas

este, por ser equivalente ao 9.º ano, não lhe tem oferecido oportunidades profissionais neste domínio, “fiz o curso de «ótica» até ao 9.º ano. Eu tentei, muitas vezes, entrar para a

área de «ótica» mas eles exigem muito o 12.º.”

Enquanto esteve em acolhimento, Camila não exerceu qualquer atividade profissional e começou a trabalhar quando deixou o LIJ, “(…) tinha para aí 16, 17 anos.” Sentiu-se satisfeita com o primeiro emprego mas sentiu medo, “(…) porque era o primeiro

emprego. Não sabia o que era trabalhar (…) a experiência foi boa.”, e o facto de trabalhar

não influenciou o seu percurso escolar. Quando Camila deixou o acolhimento, teve

“bastante” dificuldade em encontrar emprego, porque “(…) psicologicamente, não estava

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estava orientada, mas fui-me aguentando… encontrando este ou aquele e pronto…”

Desde que saiu do LIJ, tem vindo a trabalhar em áreas distintas, “restauração e

nesta área… área de geriatria”, as quais têm ido ao encontro das suas expectativas,

referindo o seu gosto no que faz na atualidade. No seu ponto de vista, ter vivido numa instituição não teve influência positiva ou negativa nas suas oportunidades de inserção profissional “(…) eu acho que foi positivo noutros aspetos, a nível de trabalho, acho que não,

não teve nada a ver.” Presentemente encontra-se empregada e já teve apoio da segurança social.

Camila saiu do LIJ aos dezassete anos por se encontrar grávida e a sua saída não foi uma opção pessoal nem um projeto de vida desenhado pela instituição, pelo que não foi ao encontro do que ambicionava, “nem por sombras... não esperava o que me aconteceu e o

que me fizeram.” A entrevistada tem uma má memória do momento em que saiu, tendo dito

que tal ocasião não foi importante “porque a resposta que me deram foi que eu não podia continuar no colégio (lar) grávida, foi isso. Deixaram-me acabar o 9.º ano… disseram-me

mesmo que me iam deixar acabar o 9.º ano, mas que tinha que sair.”

O processo de saída, relativamente ao acolhimento, envolveu a família nuclear, a família alargada, e a família em vias de construção, tendo a entrevistada explicado a forma como teve lugar a sua saída: “eu saí do lar e mandaram chamar os meus avós ao colégio,

foram ao lar e pediram apoio a ver se eles me podiam acolher. Não sei o que é que foi

decidido, mas o pai da menina que eu estava à espera é que me acolheu na casa dos pais

dele.”Sentiu-se praticamente expulsa do LIJ, no entanto, não acha que tivesse havido outras

soluções para poder ter saído mais cedo do acolhimento. Não sentiu que foi apoiada pela instituição na preparação da sua autonomia, e referiu ter sentido uma multiplicidade de dificuldades ao sair do acolhimento.Essas dificuldades foram colmatadas com o apoio de um elemento da sua família nuclear, “com a minha irmã. Tenho uma irmã mais velha que é um

porto de abrigo, sempre foi, desde o início, se não fosse ela…”

No que concerne à organização da sua vida diária, Camila acha que um dos melhores aspetos foi o seu amadurecimento, “eu acho que eu cresci um bocadinho…

mentalmente.” Por outro lado, sentiu muitas dificuldades em se organizar nesta etapa da

sua vida, “grandes… enormes! Eu por estar com a minha cabeça… com aquela revolta toda

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me com facilidade, (…) sou muito trabalhadora, sou uma boa mãe e eu tento que os meus filhos não passem por o que eu passei. (…) Às vezes falo, conto uma história aos meus filhos

«olha a mãe, na altura…», mas esses episódios, desde que eu saí, não falo, não comento,

porque eles, se calhar, notam que eu sofro um bocadinho a tocar nisso e eu não toco.”

Quando se encontrava em LIJ, Camila sonhava vir a “ser professora de danças de salão.” Os primeiros tempos fora do acolhimento foram “muito tristes (…)”, e autocensura-se pela sua gravidez precoce, pois imaginou que iria ser apoiada nessa fase mais crítica e não foi o que veio a acontecer.

Presentemente, considera que não se encontrava preparada para sair do acolhimento na altura em que tal aconteceu. Desde que saiu do acolhimento, Camila mantém pouco contacto com técnicos/pessoal afeto à instituição, mas tem contacto com amigos dessa fase da sua vida. Quando precisa de algum tipo de apoio recorre à família nuclear, “à minha irmã.”

Camila faz caminhadas quando tem oportunidade pois considera-as saudáveis,

“caminhadas, ginástica. (…) queria ir fazer zumba, a minha filha está na zumba… é uma mistura de danças de salão… eu adoro essas coisas. Caminhadas é ótimo para a cabeça e

aqui o que não me falta é espaço e eu queria, mas agora, como estou de bebé, não posso.”

Camila não gostava de mudar nada na sua vida familiar, mas sentiu-se abandonada pela instituição e ainda não ultrapassou essa questão emocional. No seu dia a dia também não gostava de mudar nada, sendo que valoriza o que possui, “(…) tenho um bom horário de

trabalho, tenho um bom marido, os meus filhos, tenho a minha casa.”

Camila tem projetos profissionais para o futuro, mas neste momento encontra-se focalizada na gravidez e no bem-estar dos filhos, sendo que os seus projetos incidem, essencialmente, na educação dos mesmos relegando-se para um segundo plano, “os meus

planos agora são outros. Já estava a tentar engravidar há mais tempo, não estava a

conseguir, tive alguns problemas. Mas vou ter grandes planos de futuro, mais em relação aos

meus filhos do que para mim, neste caso. Eu, agora, não penso muito em mim, penso mais é

neles. Há quem diga: «a Camila não era assim, era uma miúda que estava sempre tão

bonita, e agora está tão desleixada.»” A médio e a longo prazo perspetiva o seu sucesso

profissional e o bem-estar dos filhos acima de outros aspetos.

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para o seu amadurecimento.

Ísis

Ísis nasceu em 1993, portanto conta vinte e um anos em 2014. É natural de Lisboa, concelho onde se reinseriu-se, e tem nacionalidade portuguesa. Ísis tem duas irmãs, também participantes nesta pesquisa, que são filhas da madrasta (irmãs de criação). O pai de Ísis formava uma família monoparental, sendo viúvo, e reconstituiu família, pelo que a inquirida é órfã de mãe desde muito cedo. Quando foi admitida em LIJ na CPL, numa resposta social intramuros, relativamente ao CED a que estava afeto, no concelho de Lisboa, em 2001, contava oito anos de idade e contava com família de suporte aos fins de semana e em períodos de férias no distrito em que se localizava o LIJ. Quando Ísis deu entrada em LIJ provinha da família, e os motivos conducentes ao seu acolhimento foram o desemprego no agregado familiar, problemas de saúde da c/j, problemas de saúde no agregado familiar e carência socioeconómica marcada por más condições habitacionais.

À entrada para o acolhimento, Ísis frequentava o 1.º ciclo e.b. e na cessação do acolhimento frequentava o 3.º ciclo e. b. Usufruiu de escolas integradas na rede pública e na rede CPL e frequentou o ensino regular.Ísis teve b. p./p. t.em 2008, aos quinze anos, e teve b. d./p.s., nesse mesmo ano, antes de completar os dezasseis anos, sendo que esteve ligada ao sistema de acolhimento durante sete anos, com escassos meses de transição. Na transição para fora do acolhimento Ísis estudava e foi apoiada pela CPL através do programa SAIA/AIF. Ísis cessou o acolhimento a pedido do pai, por vontade própria, por mudança do contexto sociofamiliar e para se reintegrar na família nuclear.

Relativamente às condições em que vivia antes de ser acolhida, Ísis referiu que a

“(…) casa, não era lá muito boa (…).” Nesta fase, a entrevistada declarou que “vivia com a

minha madrasta, com as minhas irmãs, pronto, «emprestadas», e com o meu pai.”

Mencionou que não teve dificuldades de aceitação quando soube que passaria a viver num LIJ, “(…) habituei-me rapidamente (…) “, e a família incluiu-a na tomada de decisão em relação ao acolhimento, “(…) A X perguntou-me, e o meu pai, se não havia problema e eu

disse: “claro que não”. Quando soube que ia entrar para acolhimento teve uma habituação

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acolhida em conjunto com as filhas da madrasta, no mesmo LIJ, o que foi importante porque

“foi um apoio (…).”

O modo de organização do LIJ era, relativamente, semelhante a uma família,

“família, família, não era. Mas, era mais ou menos. Porque nos dávamos bem uns com os

outros, mas não tínhamos ali os nossos pais.” A sua adaptação às novas regras foi positiva, mas considerava as tarefas árduas, “ao princípio fez-se bem mas, depois, custava um pouco

por causa das tarefas (…).” Ísis recorda a relação que tinha com os outros jovens que

estavam também no LIJ, “bem, no geral. Claro que havia sempre pequeninos atritos, também

ainda éramos novos, mas no geral era tudo muito bom.” Em acolhimento, sentia-se “livre.

Nunca me senti presa. Eu acho que nós podíamos fazer tudo. Claro que há sempre controlo

como há em casa.” O que Ísis mais gostava no dia a dia em acolhimento era “(…) quando

estávamos todos em convívio com os educadores, com eles todos”, e o que menos gostava

era “(…) das tarefas queeram um pouco mais duras (…).” As regras do LIJ foram importantes

para a entrevistada que ainda recorre às mesmas, “(…) tanto que eu hoje ainda as lembro

bem. Foram boas.” Durante o tempo que esteve em acolhimento não teve comportamentos

que a instituição considerasse preocupantes.

A entrevistada sentiu que o LIJ lhe tinha organizado um projeto de vida, o qual era comum a todos os seus pares contemporâneos no LIJ, “(…) Eu acho que, no geral, foi para

todos.” Ísis relacionava-se de uma forma positiva com os adultos em funções no LIJ, “(…) Não

havia nenhum que eu não me desse bem”, evalorizou as assembleias com os educandos que eram realizadas como forma de partilha e de interação com os pares e com os técnicos, “eu

acho que era quando nós conversávamos todos nessa assembleia, porque discutíamos vários

temas (…) também no dia a dia estavam sempre a dar conselhos, a falarem connosco, (…).”

Referiu que não tinha relações privilegiadas com nenhum dos técnicos, “(…) não havia

distinção.” Ísis não teve necessidade de ter um apoio especial na vida pessoal, ao nível

escolar e/ou psicológico.

Quando estava em acolhimento, Ísis tinha amigos fora deste, referindo que, tão importantes foram os amigos que tinha no LIJ, como os do exterior ao acolhimento, “(…)

dava-me bem com todos, não faço distinção de ninguém. Ninguém para mim é preferido.

Todos no geral… dava-me bem.” A entrevistada pressupõe que, se não tivesse passado pelo

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calhar, não tinha estudado até mais tarde ou sim, ou tinha estudado, não sei. Mas, sim, um

pouco mais de dificuldades, porque estar aquele tempo no lar deu para estabilizar não só a

mim mas, também, a família para poder encontrar o sítio em que estou hoje, para poder

estabilizar nos momentos mais difíceis. Acho que ter estado no lar ajudou bastante, não só a

mim, como à minha família.” Ísis não teria mudado nada na sua passagem pelo acolhimento,

“correu tudo bem.”

De acordo com a entrevistada, no LIJ poderia receber visitas e ia a casa da família com regularidade, “acho que tínhamos visitas nos anos e, depois, tínhamos ida aos fins de

semana… íamos para casa dos nossos pais.” Na instituição falavam-lhe sobre a sua família.

Ísis não gostava de ter podido passar mais tempo fora do LIJ, “tive lá desde os oito anos até

2008… foram oito anos (…) aquele tempo foi bom. Deu para estabelecer, eu estou bem cá

fora, estive bem lá dentro, preparou-me.”

Quando saiu do acolhimento foi viver com a família reconstruída, o que foi uma escolha pessoal, não sentindo diferenças na mesma pois nada havia mudado ao nível das relações interpessoais. Ísis sentiu-se bem no seu novo ambiente quando saiu do LIJ dado que foi ao encontro do que desejava. Desde que saiu do acolhimento, até à atualidade, foi vivendo, sempre no concelho de Lisboa, “com as mesmas pessoas de antes de ir para o lar, ou seja, o meu pai, a minha madrasta, no princípio com as duas irmãs mas, agora, a

Mercedes1 foi-se embora.” A opção de viver inserida neste agregado, desde que deixou o acolhimento até ao presente, é assumida livremente pela inquirida, “(…) continuar a viver

com o meu pai e com a P., é uma escolha minha. Agora, a Aurora2 e a Mercedes é uma

escolha delas.”

Presentemente, a entrevistada considera que a sua verdadeira família são as pessoas com quem esteve no LIJ e a família com que coabita. A inquirida ajuda a família

“monetariamente… também dou uns certos conselhos(…).”, e gosta de ter a família que tem

porque têm um bom relacionamento, “(…) eu dou-me bem. Porque há qualquer problema, nós podemos falar, podemos resolver. Não há problema algum em expormos os nossos

problemas… estamos lá uns para os outros.” Ísis não tem filhos, mas não descarta essa

hipótese, “aos quarenta! Sim, mais tarde…”, e pensa que dará aos seus filhos uma educação igual à sua.

Referências

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