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4 CONTINUIDADE E REALIZAÇÃO CINEMATOGRÁFICA – DOIS

4.1 OS REALIZADORES: BREVE FILMOGRAFIA

4.2.2 Com ou sem continuísta

O depoimento do diretor Marcelo Gomes, transcrito acima, revela que, apesar de em seus últimos três filmes ter trabalhado sem a presença de um(a) continuísta em seu set de filmagem, ele ainda, por vezes, sente a falta da parceria desse profissional. Por outro lado, quando discorreu sobre a questão da falta de importância do raccord para o cinema contemporâneo e, em particular, para o cinema que faz, foi taxativo em afirmar que a continuidade havia perdido sua função. O que pode parecer à primeira vista contraditório reside, talvez, na falta de uma visão mais ampla a respeito do trabalho de continuidade, e que é comum a vários realizadores contemporâneos.

Como já podemos perceber até aqui, Hilton Lacerda mantém outra relação com o trabalho da continuidade em seus filmes. Para ele, a função essencial de um continuísta é a de alguém que pode ajudar na construção das articulações espaço-temporais ou, pelo menos, estar atento à efetividade de suas propostas, tendo em mente a montagem do filme. Em sua entrevista, Lacerda fez uma interessante analogia entre o continuísta e o montador:

É muito parecido com a ideia de montador. Eu acho “cri, cri” essas pessoas, tipo: ele filmou, ele produziu, ele montou. É uma ideia muito boa de egoísmo, não sei se é boa ideia de cinema. (...) Mas, na montagem, o montador, ele te serve muito como interlocutor para te colocar em xeque. Mesmo que ele faça tudo o que você pensou, que tudo aquilo esteja certo. Ok. Mas, ele é o montador, aquele que está com o olhar

mais distante. Eu acho que, de uma certa forma, o continuísta tem isso. (LACERDA, Hilton. Entrevista concedida à autora, pessoalmente, em 19/12/2018)

Continuísta e montador: duas funções que, de certa forma, se complementam e que estão intimamente entrelaçadas. O continuísta, como uma espécie de “representante do montador” no set de filmagem e, tendo também esse olhar mais distanciado, pode indicar que determinado caminho para a resolução de uma cena não seja o mais apropriado. O montador, como aquele que vai constatar se o trabalho do continuísta foi correto, se o material que chegou às suas mãos é passível de uma montagem com sentido narrativo, e indicar se a estrutura dramática proposta pelo roteiro pode trazer maiores ganhos para a obra, se sofrer certas alterações.

Pensando isto sob o ponto de vista dos filmes de Marcelo Gomes, que não tiveram um trabalho de continuidade anterior ao processo de montagem, não significa que foram obras inviabilizadas para a edição. Muito pelo contrário, resultaram em obras potentes, importantes para a nossa cinematografia. Isto significa que seu estilo de filmar permite a ausência de um continuísta. Além do mais, se pode perceber que não houve uma ausência de continuidade em seus filmes, posto que são obras essencialmente narrativas. Então, de que maneira se dá o processo de construção desta continuidade durante a etapa de filmagem? E qual seria esse estilo que permite que o diretor filme sem a necessidade deste profissional no set?

Ao ser indagado mais incisivamente sobre o porquê de não ter trabalhado com um continuísta em seus últimos três filmes, Gomes coloca, sempre em primeiro lugar, a questão financeira: eram filmes de baixíssimos orçamentos e não teria tido condições de contratar um continuísta. Então, o que se faz? Na prática, a função da continuidade do filme é dissolvida entre cada departamento dele, o que reforça a ideia de que não há uma ausência de continuidade, apenas não há a presença física daquele que poderia concentrar todas essas informações. É o que se supõe de seu depoimento a respeito do tema no filme Joaquim:

E aí, João Júnior50 falou: “Eu não tenho dinheiro para trazer uma continuísta aqui para Diamantina. Eu só tenho dinheiro para filmar 4 semanas.” Eu falei: “Então, vamos embora! Gente: Figurino! Você vai ser a continuísta do figurino. Cabelo! Você vai ser a continuísta do cabelo e da maquiagem.” Aí, eu fiquei com muito medo. (...) Porque continuidade de maquiagem ia ser mais complicada porque todos os atores tinham dentes podres. (GOMES, Marcelo. Entrevista concedida à autora, pessoalmente, em 11/03/2019)

O temor do realizador com relação à continuidade da maquiagem acabou sendo infundado. Tudo resultou bem nesse sentido. A insegurança frente aos possíveis problemas com eixo de câmera Gomes procura resolver trabalhando com fotógrafos que tenham uma formação

cinematográfica mais sólida e que possam lhe ajudar nesse sentido. É fato que, geralmente, os diretores de fotografia possuem essa visão mais ampla da linguagem cinematográfica e acabam contribuindo com a decupagem e a questão dos eixos de câmera. Aliás, desde o período de transição entre o cinema primitivo e o cinema clássico que os fotógrafos absorveram um pouco essa função da continuidade (BORDWELL; STAIGER; THOMPSON, 1985).

Conceitualmente, Marcelo Gomes já deixou claro que o que mais importa para ele e para o seu cinema é a continuidade dramática, e que tudo o mais fica em segundo plano. Mas, o próprio diretor admite que, para se libertar de certas “amarras” que outros aspectos da continuidade aparente – daquilo tudo que se mostra na tela: cenário, figurino, maquiagem – podem impor, vai depender também de como o realizador planifica o seu filme: “porque quanto mais cortada a decupagem, mais a necessidade de continuidade dramática e mais a necessidade do raccord, mais você chega perto do cinema mais clássico” (GOMES, 2019). Portanto, um estilo mais “solto”, em termos de linguagem, mais planos sequências, mais câmera em mão, vai proporcionar esta liberdade.

Então, quando a continuidade vem ela tem que entender tudo isso e nos ajudar a construir essa história. Não dizer, assim, só: “Olha, o brinco aqui estava... O cabelo estava...” Tudo bem, você vai lá dá um jeito no cabelo, ajeita o brinco, etc. Sem atrapalhar ninguém, você faz seu trabalho silencioso. Mas, assim, tem um momento em que você tem que entender que filme você está fazendo, que é uma coisa que vai além disso, vai além dessas questões mais formais. (...) Agora, por exemplo, meu próximo filme é um filme que se passa num barco, que é o Relato de um certo Oriente51, com atores internacionais, atores nacionais, então, eu acho que eu vou precisar de uma decupagem muito segura. Talvez, eu vá precisar de uma continuidade mais consistente. Então, eu acho que cada filme é um filme, cada caso é um caso. Mas, sempre levando em consideração que meu cinema é um cinema em que o extracampo é importante, meu cinema é um cinema em que é importante o “não ver”, meu cinema é um cinema em que é importante você se emocionar, meu cinema é um cinema em que os personagens é que trazem a ação. Então, eu acho que isso é fundamental. (GOMES, Marcelo. Entrevista concedida à autora, pessoalmente, em 11/03/2019)

Chegamos, então, ao cerne da questão: não é que o realizador Marcelo Gomes desacredite totalmente da necessidade da continuidade num filme narrativo, apenas relativiza a importância dela, de acordo com o tipo de linguagem que utiliza em seus filmes. Observando com mais atenção: Cinema, Aspirinas e Urubus (Brasil, 2005) e Era uma vez eu, Verônica (Brasil, 2012), filmes que ele fez com a presença de continuístas em sua equipe, são mais decupados, talvez até mais complexos em termos de desenvolvimento de uma narrativa. Já O

Homem das Multidões (Brasil, 2013) e Joaquim (Brasil, 2017) são diferentes. No primeiro, as

cenas são quase que independentes, a câmera é quase sempre fixa, observando o cotidiano

daqueles dois personagens solitários. Em Joaquim, a decupagem é free-style, como define o próprio diretor. A mobilidade da câmera em mão permite cortes que não exigem raccord precisos, e há bastante uso do plano sequência.

Por outro lado, o cinema de Hilton Lacerda é um cinema mais planificado, mais decupado. Costuma fazer uso de planos sequências, mas de maneira mais pontual: “Eu não tenho nenhum tipo de fetiche com o plano-sequência, mas acho que ele é muito eficiente quando ele vem numa hora certa, quando ele acontece” (LACERDA, 2018). Não que essas características estilísticas determinem a importância que costuma dar à continuidade em suas obras, apenas podem contribuir para esse olhar mais atencioso com relação a esta questão. No nosso entender, a essência está na não relativização do papel da continuidade, em estabelecer uma relação de confiança e de diálogo. Seja qual for a proposta narrativa, o lugar da continuidade será o de ajudar a construir uma unidade, uma coerência ao filme. Para nós, continuístas, isso fica muito claro, até mesmo no depoimento do cineasta Marcelo Gomes, quando ele ressalta que “tem um momento em que você tem que entender que filme você está fazendo” e, no final, fala sobre o seu cinema. É neste ponto que acreditamos que deve existir a convergência ideal entre continuidade e realização.

4.3 IDEIAS TATUADAS NO TEMPO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE