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Um pouco do processo de trabalho do cineasta Marcelo Gomes

4 CONTINUIDADE E REALIZAÇÃO CINEMATOGRÁFICA – DOIS

4.4 UM OUTRO PASSADO REVISITADO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

4.4.1 Um pouco do processo de trabalho do cineasta Marcelo Gomes

De minha experiência anterior de trabalho com o realizador64, posso ressaltar o caráter minucioso com o qual Gomes conduz a preparação de seus filmes. Por exemplo, na ocasião da elaboração da cronologia do Era Uma Vez Eu, Verônica, o diretor reuniu-se comigo e com sua primeira assistente de direção e fizemos juntos a contagem exata dos dias em que se passava cada bloco de cenas (FIG. 69). Com isso, ficou determinado que o filme transcorria em exatos 106 dias. Tal precisão tem relação com seu tipo de cinema, que enfatiza a construção dos personagens. Detalhando a quantidade de dias exatos em que a narrativa se passa e o que acontece em cada um deles, o desenho da curva dramática do personagem pode ganhar mais força e clareza.

Figura 69 - Detalhe cronologia do filme Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes (Brasil, 2012) – Na primeira coluna à esquerda, fizemos a contagem exata dos dias transcorridos durante a narrativa.

Fonte: Arquivo pessoal

64 Trabalhei como continuísta em seu filme Era uma vez Eu, Verônica (Marcelo Gomes, Brasil, 2012), além de ter sido sua sócia e do cineasta Cláudio Assis na produtora Parabólica Brasil, nos anos de 1990.

O exemplo da elaboração da cronologia do Verônica – que é como o filme era designado por toda equipe – é apenas um pequeno detalhe dentro da relevância que a dramaturgia dos personagens tem em sua obra. Segundo Marcelo Gomes, a importância da construção dos personagens é tamanha que toda a concepção do filme tem que girar em torno deles. Neste trecho de seu depoimento, ele exemplifica como isso se deu no Cinema, Aspirinas e Urubus (Brasil, 2005):

Como eu faço filmes de personagens, eu acho que tudo tem que estar em função deles. Quando eu penso num personagem, eu falo: olha, a direção de arte vai ter que estar a reboque do personagem, a fotografia, a reboque do personagem, o pensamento estético, estilístico do filme tem que estar a reboque do personagem. O que é que o personagem sente, o que é que ele vive. O Ranulpho era um cara que estava indo embora do sertão porque o sertão era horrível, seco, sem perspectiva de vida. Então, eu não podia mostrar um sertão bonito, eu tinha que mostrar o sertão com 3 stops estourados, com aquela luz que expulsa a pessoa da região, né? E eu tinha, por outro lado, um personagem que era o Johann, que via aquele sertão de uma forma completamente nova. Então, assim, eu tinha que mostrar um sertão quase com aparência lunar. Por isso que a gente decidiu fazer uma fotografia estourada, que a gente decidiu fazer uma arte só com os tons de terra, ocre e marrom claro. (...) Então, a partir daí, foi feita a direção de arte e a luz. (GOMES, Marcelo. Entrevista concedida à autora, pessoalmente, em 11/03/2019)

Durante a pré-produção, Gomes dedica bastante tempo aos ensaios com os atores. Poderíamos dizer que é uma característica comum à maioria dos diretores. Porém, o que nem todos fazem é ensaiar e filmar todas, ou quase todas, as sequências do filme durante esse processo. Depois, ele edita todo o material captado e fica com uma espécie de rascunho da obra. Claro que não é ainda o filme decupado e, na maioria das vezes, quem opera esta câmera mais “caseira” são seus próprios assistentes de direção. Este rascunho serve muito mais para precisar a consistência da construção dramática e vislumbrar possíveis falhas narrativas.

Outro elemento fundamental na pré-produção de todo filme, por parte da sua direção, é a decupagem, sua planificação. Em seu processo de trabalho, Marcelo Gomes também deposita especial atenção a este quesito, sempre tendo em vista a perspectiva que é peculiar à sua dramaturgia.

A gente decupa durante os ensaios, a gente decupa depois que os ensaios acabam, a gente decupa na locação. E a gente sempre faz isso: “qual a função dramática dessa cena no filme? É mostrar que a Paloma está p...! Eles vão discutir: um vai mandar o outro tomar no c...” Não pode ser uma câmera distante, de tripé, parada. Podia até ser, mas o filme que eu quero fazer pede que eu me aproxime da emoção da Paloma. Então, a câmera está aqui, na mão (gesto de câmera em mão próxima ao personagem). E, o Zé está aqui, próximo dela. Eu faço um movimento de câmera onde eu persigo os dois e fico dentro daquela emoção que é 220W. Essa é a decisão da cena. Então, é assim: qual a função dramática da cena, o que é que a cena pede de decupagem? O que é que os personagens pedem naquele momento, qual o estado emocional deles? E a partir

daí, a gente se inspira para construir essa decupagem. (GOMES, Marcelo. Entrevista concedida à autora, pessoalmente, em 11/03/2019)

De um modo geral, um trabalho de pré-produção consistente e cuidadoso irá proporcionar uma filmagem mais tranquila e proveitosa. E esse é o desejo de todo realizador: tentar “dominar” ao máximo o filme que pretende fazer antes do momento do set, quando suas decisões terão a pressão do tempo e de toda uma equipe de filmagem a sua volta. Quando opta por não trabalhar com um continuísta no seu set de filmagem, Marcelo Gomes acredita que esse período da pré-produção tem que estar ainda mais sólido, e que toda a concepção do filme tem que estar muito clara para todos.

É na pré-produção que o filme se constrói. Então, quanto mais ensaio, quanto mais decupagem, quanto mais investigação, quanto mais compreensão de como a cena deve ser feita, considerando as limitações dos atores, as limitações de tempo, tudo, eu acho que dá certo. E aí, a continuidade vai dar certo também. (GOMES, Marcelo. Entrevista concedida à autora, pessoalmente, em 11/03/2019)

Suas experiências nesse sentido, até aqui, deram certo. Talvez, apenas um olhar mais cuidadoso possa identificar pequenos deslizes aqui e ali. O que tentarei no próximo tópico é buscar compreender melhor, através de suas concepções estilísticas no filme, o que possibilita esse êxito no Joaquim.