7 PERCURSO METODOLÓGICO
7.2 COM QUEM DIALOGAMOS
A presente proposta reforça os pressupostos apresentados em nosso referencial teórico: somos seres sociais que aprendemos com os outros, por meio das mediações promovidas por uma educação que busca a humanização dos sujeitos, ou o seu ser mais, a partir de uma práxis dialógica, problematizadora, libertadora.
Nosso diálogo foi estabelecido na proposta do trabalho por meio das sequências de atividades desenvolvidas com os estudantes da 2ª série do EM, entre os meses de agosto a novembro de 2018. Foi a partir desse trabalho intencional que pudemos chegar à análise dos dados que serão apresentados.
Todavia, antes de iniciarmos nossa intervenção por meio das sequências de atividades, pedimos aos estudantes que respondessem ao questionário “Para início de conversa18”, em que fizemos algumas perguntas sobre sua vida pessoal, social, familiar e acadêmica. Nosso objetivo era ratificar algumas informações, que de forma geral, já sabíamos, mas sentimos a necessidade de ter uma compreensão maior e melhor da realidade para sistematizar os dados.
O questionário foi respondido por 58 estudantes, destes 49% se declararam sendo do sexo masculino, 51% do sexo feminino19. Iniciamos o questionário buscando saber mais sobre as condições de estrutura familiar dos estudantes. Perguntamos com quem moravam, se seus responsáveis exercem função remunerada e quais
18 O modelo do questionário encontra-se disponível no apêndice de nossa pesquisa.
19 Nessa pergunta, como se pode ver nos apêndices, nós colocamos apenas assim: Sexo: ( )
Masculino ( ) Feminino, mas ao entregar o questionário para os estudantes, dissemos que se alguém não se enquadrasse nesses padrões poderia registrar outra opção, ou deixar em branco, todavia nenhum dos estudantes registrou outra opção e nem deixou em branco.
seriam essas funções. 87% responderam que moram com os pais; 10% moram com outros parentes – tios, avós, irmãos e 3% disseram que moram sozinhos. Quanto à função remunerada, 90% responderam que o responsável trabalha. As funções exercidas são as mais variadas: frentista, motorista, cobrador, eletricista, doméstica, carpinteiro, atendente, vendedor, secretária, pedreiro, camareira, cuidador de idosos entre outras. Os outros 10% restantes disseram que os responsáveis são pensionistas ou aposentados.
As respostas dadas nos levam a compreender que a realidade social, financeira e familiar da maioria é difícil, o que leva os estudantes a quererem entrar no mercado de trabalho o mais rápido possível. Alguns logo arrumam um estágio ou emprego informal com o objetivo de ajudar na renda familiar e outros querem ter condições de adquirir objetos que os pais ou responsáveis não têm condições de comprar.
Outro aspecto que nos chama atenção é que quando os estudantes dizem que moram com os pais, por exemplo, isso nem sempre significa que os pais estejam juntos. Muitos são filhos de pais separados, outros sequer conheceram seu progenitor, sendo criados apenas pela mãe, ou pelos avós. Alguns relatam que o pai abandonou a mãe e essa trabalha em outro município ou estado; outros relatam que ao construir um novo relacionamento, a mãe os deixou com outra pessoa. Alguns, por não se relacionarem bem com seu padrasto ou madrasta, acabam sendo levados a morar sozinhos, ou dividem espaço com outros colegas que estão em situações parecidas.
As conversas informais com esses estudantes, no contexto da sala de aula, nos fazem perceber, que muitos deles se sentem abandonados e não sabem lidar com essa situação. Buscam encontrar nos amigos ou namorado(a), uma fuga para seus problemas; outros tentam chamar atenção sendo indisciplinados; outros, infelizmente, buscam essa fuga nas drogas (lícitas e/ou ilícitas).
Em uma pesquisa que desenvolvemos nessa mesma escola, no ano de 2014, em que contamos com a participação de 123 alunos, constatamos que 45% utilizavam algum tipo de droga ilícita e/ou álcool (CASTRO; ANDRADE, 2017, p. 199). O motivo, na maioria dos casos, era motivado por problemas familiares. De lá para cá,
essa realidade parece não ter mudado, pois não é rara a presença em sala de aula, de um ou mais estudantes sob efeito de entorpecentes. Infelizmente, há também, alunos envolvidos com o tráfico de drogas; vítimas de violência física, sexual e emocional.
Continuando nosso questionário, procuramos saber também, um pouco mais sobre as experiências escolares desses meninos e meninas. As respostas podem ser conferidas nos gráficos abaixo, em que questionamos aos alunos se gostam de ler (Figura 19) e se ficou reprovado (Figura 20):
Figura 19 – Gosta de ler?
58% 42%
Sim Não
Fonte: Elaborado pela autora (2018)
Figura 20 – Ficou reprovado alguma vez?
47% 53%
Sim Não
A partir dos dados dos gráficos (figuras 19 e 20) constatamos que quase metade dos estudantes não gosta de ler e já reprovou durante algum ano/série da educação básica. Poderíamos dizer ainda, como vimos no diálogo que construímos com a pesquisa de Farias (2013), no capítulo “Diálogo com outras pesquisas” – esses estudantes têm medo de ler. Medo de não conseguirem entender o texto, as palavras, de serem ridicularizados. Esse dado evoca para nós a necessidade de despertarmos nos estudantes a leitura tanto como atividade prazerosa, quanto como necessidade para produção de conhecimentos e entendimento do mundo.
Nossa realidade escolar nos revela problemas relacionados às dificuldades de aprendizagem e também problemas referentes ao processo de ensino- aprendizagem. Interfere nesse processo a falta de infraestrutura da escola, de recursos didáticos, e de formações para que o professor possa problematizar, refletir e buscar soluções, junto a seus pares, sobre os desafios do cotidiano escolar. Interfere também a falta de estrutura familiar, as dificuldades financeiras, a baixo autoestima dos estudantes, a violência a que muitas vezes são expostos, a falta de orientação, de objetivos e de metas. Mas, apesar das dificuldades, não podemos deixar de relatar que nesta comunidade também já obtivemos muitas vitórias, alunos inseridos socialmente, na faculdade, em cursos técnicos, constituindo família, enfim, mudando um futuro imprevisível ao decidir lutar contra a opressão. Esses alunos, vez ou outra, dão uma "passadinha" na escola apenas para conversar com algum professor, ou mesmo para ajudar em algum projeto educativo, desenvolvendo oficinas e colaborando com depoimentos.
Enquanto educadores, precisamos estar atentos à realidade de nossa escola, às necessidades de nossos estudantes. Retomando as palavras de Saviani (2013, p. 70-71) não podemos esquecer que na escola lidamos com indivíduos concretos, que são constituídos em suas relações sociais, inteiros, vivos - ou seja, indivíduos que têm muitas habilidades, mas também muitas fragilidades, alegrias e tristezas, esperanças e desesperanças. É em relação a esse aluno que nossa atividade deve ser pensada, levando em conta seus interesses, mas sem desconsiderar que nem sempre, em se tratando de adolescentes, as aspirações correspondem a necessidades reais, definidas pelas condições culturais que os situam no mundo.
Enfatizamos a importância de se pensar em um ensino que parta da prática social, para motivar esses sujeitos a explorar positivamente suas potencialidades nas ações em sociedade, visando à transformação. Quando falamos de transformação, evocamos o conceito de práxis freiriana, para o qual, não há ação sem reflexão. Para Freire (2016, p. 108), “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra no trabalho, ação-reflexão”. E é nesse sentido que o diálogo precisa ser evidenciado e ganhar força. “[...] somente o diálogo, que implica um pensar crítico, é capaz, também de gerá-lo. Sem ele não há comunicação e sem esta não há verdadeira educação” (FREIRE, 2016, p. 109).