7 PERCURSO METODOLÓGICO
7.3 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE
Nossa proposta de intervenção buscará promover a dialogicidade a partir também da problematização do conteúdo programático “não como uma imposição – um conjunto de informes a ser depositado nos educandos –, mas a devolução organizada e sistematizada e acrescentada [...]” (FREIRE, 2016, p. 109). Acrescentada do que lhe fora negado, de uma visão crítica do mundo, da constituição de um sujeito com identidade psicossocial, que tenha condições de operar com a língua para produção de conhecimento, para interação com o meio social, para participação ativa na sociedade. Compreendemos que “devolvendo o direito à palavra – e na nossa sociedade isto também inclui o direito à palavra escrita – talvez possamos, um dia, ler a história contida, e não contada, da grande maioria que hoje ocupa os bancos das escolas públicas” (GERALDI, 2006, p. 131).
A escolha do tópico ambiguidade se deu para que os estudantes percebessem que a leitura de um texto é sempre ambígua, ou seja, existem possibilidades de leituras, e os sentidos são produzidos de acordo, muitas vezes, com a intencionalidade de manipular o leitor, por isso precisamos estar atentos às leituras, fazendo inferências, levantando hipóteses, tendo um olhar crítico. E enquanto enunciadores, também precisamos estar atentos quanto ao que falamos ou escrevemos, para que possamos transmitir com mais eficiência a mensagem que desejamos passar ao nosso ouvinte ou leitor.
A fim de obter dados que acenassem para uma possível comprovação de nossa hipótese de pesquisa – a de que o ensino da Língua Portuguesa, a partir de uma abordagem epilinguística, contribuirá para que o sujeito possa ampliar a capacidade de manipular as noções subjacentes às expressões ambíguas orais e escritas e referenciar os sentidos dos enunciados, a fim de protagonizar o uso da linguagem de maneira crítica e criativa nos diferentes espaços sociais – elaboramos uma sequência de sete atividades, com base na análise diagnóstica que fizemos das turmas.
Ao refletirmos sobre todas as dificuldades dos estudantes e sobre a necessidade de desenvolvermos um ensino de língua portuguesa para humanização dos sujeitos, procuramos desenvolver uma intervenção, por meio de uma sequência de atividades nas quais pudéssemos verificar:
o envolvimento dos alunos com as aulas de português;
a autonomia na compreensão dos enunciados;
a facilidade/ ou dificuldade na resolução das atividades,
a coerência na interpretação das ambiguidades, ou seja, como o aluno se coloca no contexto de enunciação e sua capacidade de fazer inferências.
Os dados serão apresentados a partir dessas categorias de análise. Devido à grande quantidade de dados produzidos, trouxemos para este capítulo aquelas questões, respostas e episódios que mais nos chamaram atenção e que consideramos significativos para a proposta desta pesquisa.
No entanto, antes de iniciarmos o desenvolvimento e análise da intervenção proposta, apresentaremos, com base nas categorias de análise aqui traçadas, um diagnóstico das turmas. Esse diagnóstico foi realizado em nossas aulas, por meio de atividades diversas de leitura e interpretação de texto, bem como por meio das avaliações internas – exercícios no caderno, orais e provas. São eles:
I) quanto ao envolvimento dos alunos com as aulas de português: as duas turmas apresentavam características muito parecidas. Os alunos são disciplinados, mas poucos, especificamente aqueles com facilidade de aprendizagem, é que
participavam das aulas, dos debates e das correções orais. Isso nos incomodava bastante enquanto professora, pois como eram poucos os que participavam, a aula parecia desinteressante para os demais, por mais que tentássemos estimulá-los percebíamos que sempre havia o medo da exposição, do erro, de serem corrigidos em públicos e ridicularizados pelos colegas, com isso preferiam se calar;
II) em relação à autonomia na compreensão dos enunciados: 60% dos alunos apresentavam dificuldade para compreender tanto os enunciados orais quanto os escritos. Esses alunos dependiam da ajuda da professora ou do colega. O que nos chama atenção, quanto a esse aspecto, é que muitas vezes, o simples fato de lermos o enunciado de um exercício, por exemplo, já era esclarecedor para esse aluno que dizia: “Ah! Agora entendi!”;
III) quanto à facilidade/ ou dificuldade na resolução das atividades: por vezes, na correção das atividades de leitura e intepretação, ao ouvir a resposta do colega, ou o comentário da professora sobre uma questão, os alunos pediam para a professora ditar a resposta. Eles diziam: “Espera professora, como ficou essa resposta mesmo?” Eles não conseguiam traduzir o que entenderam com as palavras deles;
IV) e, em relação à coerência na interpretação das ambiguidades, ou seja, como o aluno se coloca no contexto de enunciação e sua capacidade de fazer inferências: 40% conseguiam inferir uma informação implícita no texto, ou os sentidos do texto; por vezes, nesse tipo de atividade, apenas a professora se colocava nos debates, e era muito interessante perceber a perplexidade dos estudantes ao serem descortinadas para eles algumas leituras ou intepretações e ideias contidas em um determinado texto.
Essa análise diagnóstica confirma para nós tanto as reflexões teóricas até aqui apresentadas, bem como alguns dos dados apresentados no questionário que os alunos responderam. Muitas de suas dificuldades em relação as habilidades de leitura, intepretação, escrita e reescrita de textos estão relacionadas ao fato de não terem o hábito de leitura, ou de não gostarem de ler, de terem tido experiências não exitosas em seu desenvolvimento escolar e também ao fato de já terem ficado
reprovados. Além disso, fatores externos ao ambiente escolar, como já dissemos, e até mesmo a falta de formação para que o professor possa pensar sobre esses problemas, acabam impactando no processo de ensino-aprendizagem.
A nossa proposta de intervenção, por meio de uma sequência de atividades, não será a solução para esses problemas, todavia, opondo-se ao modelo hegemônico e mecanicista de ensino da linguagem, adotamos em nossa intervenção a concepção de língua(gem) como forma de interação – oral e escrita – para que o sujeito possa operar com a linguagem, interagir com o seu meio, tornando-se também um produtor de conhecimento, humanizando a si mesmo e ao outro. Nesse sentindo, embora não seja a solução para todos os problemas apontados na turma, acreditamos que essa intervenção poderá contribuir com o processo de ensino-aprendizagem da LP.
A seguir explanaremos como nossa sequência de atividades foi organizada.