Vejamos agora que retrato nos dá da Severa um outro especialista do fado, o nosso velho conhecido, o jornalista e político Alberto Pimentel (1849-1925), autor de A Triste
Canção do Sul, que dedica, como não podia deixar de ser, largas páginas à suma-
sacerdotisa da trova e suas aventuras, mas adoptando-a como personificação de uma época do delírio, que já se iria diluindo na memória. Recorre o autor aos escritos de
202 - In João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 1982, p. 62. 203 - Idem, ibidem, p. 67.
204- Idem, ibidem, p. 68. 205- Idem, ibidem, p. 70. 206 - Idem, ibidem, p. 83.
89 Miguel Queriol no jornal O Popular,207 aos textos de Raimundo António de Bulhão Pato (1828-1912) e do já atrás citado Luís Augusto Palmeirim, todos eles coevos da visada. De acordo com o primeiro, a Severa nunca foi cigana, mas uma esbelta e infeliz
filha de uma megera que a explorava, e era bem conhecida da polícia pela alcunha de Barbuda.208 Segundo as suas afirmações, Pimentel deduz:
(…) seria, como tantas outras portuguesas, uma mulher atraente, sem formosura, pela sua linha airosa e pelo encanto dos olhos e do cabelo.209
Queriol conheceu-a em casa do conde de Vimioso e ela, na ocasião, apresentava-se como uma serviçal e sem quaisquer pretensões a guindar-se a dona da casa:
Se bem me recordo era uma rapariga esbelta, bem apessoada, cabelo escuro e farto com um ar de desenvoltura sem ultrapassar as conveniências da sua posição para quem a favorecia, trajando limpa mas modestamente sem fazer lembrar a desgraça da classe em que menos o vício que a miséria a havia precipitado, e que pela sua timidez se mostrava contrafeita no meio social em que ali se achava.210
O autor do interessante testemunho não põe de parte que a Severa «no seu meio ordinário fosse a desregrada fadista da lenda», mas, assegura, e para confirmação do
que apelo para os que, ainda vivos, frequentaram as boas e más companhias da nossa mocidade, é que a impressão que conservo da desgraçada heroína, hoje tão celebrada, apenas se limita a uma satisfação passageira e caprichosa do conde (…)211 Curiosamente ou talvez não, Alberto Pimentel faz diversas cogitações e chega à conclusão que ela poderia estar a representar, a fazer de conta, como se diria agora, enfim:
(…) achava-se na situação hesitante, no momento indeciso, do actor que sai da realidade para entrar no mundo do sonho. (Depois) tangida a guitarra, ela era como uma artista em cena: comovia-se, soluçava, chorava, cantava chorando, arrebatava-se e arrebatava os outros.212
207 - Queriol foi testemunha privilegiada da época em que o fado tomou a forma que hoje conhecemos, movimentando-se este autor nos diversos meios sociais, incluindo os de convívio «inter-classista». 208 - Alberto Pimentel,, A Triste Canção do Sul – Subsídios para a História do Fado, Lisboa, Livraria Central de Gomes Carvalho, 1904, p. 142.
209 - Idem, ibidem, p. 149.
210 - Esta descrição de Queriol, com profunda carga de «análise sociológica», procura sobretudo, como diversas outras, apresentar a impossibilidade haver qualquer verdadeiro amor do conde pela Severa… 211 - Alberto Pimentel,, op. cit., p. 149.
90 Tecidos mais alguns considerandos pouco interessantes para o caso em apreço — e não contente em fornecer mais dois retratos originais para a galeria severiana, a mulher submissa e a artista transfigurada — decide harmonizar testemunhos, para concluir qual fino psicólogo, armado de positivismo epocal:
(…) é que na Severa, como em quase todas as pessoas de uma sensibilidade doentia, havia duas entidades diversas — a da realidade e a do ideal.213
Quando a atmosfera do sonho lhe faltava, quando queria preparar-se para cantar, sem
se encontrar num meio sugestivo que a levantasse, recorria ao vinho, diz a tradição; embriagava-se a valer.214 Por palavras actuais, a precursora fadista, a fonte original do melancólico canto, no tocante ao motor para conseguir boa forma interpretativa, teria um comportamento de certas estrelas rock de eras futuras e recorria ao psicotrópico possível. Pimentel tece ainda hipóteses de jogos de sedução que a levariam a preferir ser
sardinha toda a vida do que foie gras uma hora, num acto de inteligência — e concede, ele que acha que matou a lenda mas escreveu história:
Não há dúvida que a morte desta fadista célebre, que, prematuramente esgotada, faleceu aos vinte e seis anos de idade, em resultado de uma congestão que uma ceia de borrachos assados provocou, foi um acontecimento de sensação nas classes populares e até na boémia elegante de Lisboa.215
Seguem-se muitas páginas laudatórias sobre a nobre estirpe da família Vimioso, cujo 13.º conde não pode nunca ter amado verdadeiramente uma mulher como a Severa, na opinião deste autor, ele próprio também com pretensões a aristocrata, que, aliás, não passariam disso mesmo.
O escritor seguinte produz um retrato muito diferente desta mãe-fundadora do panteão fadista, se assim lhe podemos chamar. Foi um interessante cultor de temas históricos, a nível da divulgação, este Júlio de Sousa e Costa (1878-1938?) 216. Também ele se apoia em testemunhos, mas por vezes um tanto fantasmagóricos, no tocante à identificação (o sr. Oliveira, serralheiro, um velho empregado de humilde estabelecimento, etc.). Isto não significa que, por vezes, deixe de invocar vozes mais sólidas, como Bulhão Pato,
213 - Idem, ibidem, p. 151.
214 - Idem, ibidem, p. 153. 215 - Idem, ibidem, p. 156.
216 - Na abertura, o autor declara que o seu livro (Severa: 1830-1846, Lisboa, Bertrand, 1936) ‘teve por finalidade acarretar subsídios para a crónica ou para o estudo psicológico dessa mulher que teve a popularidade triste que todos conhecem.’
91 por exemplo, a fim de produzir uma obra cujas primeiras investigações terão começado quando o seu autor rondava os 19 anos, ou seja, em 1896217. Volta-se à questão recorrente — cigana ou não? —, que parece continuar a possuir uma importância de monta, tendo o sr. Oliveira afirmado que a mãe da jovem, a terrível Barbuda, por ele considerada bela mulher apesar do farto bigode, nada esclarecia sobre o assunto, correndo que o progenitor era um cigano contrabandista má vasilha e morto na
fronteira.218 Quanto à jovem, demos a palavra a esta testemunha, habitual frequentador da barbearia da rua do Conde, tal como Sousa e Costa:
Aos dezoito anos era alta, delgada, mas não magra, seio opulento, pele muito branca, olhos pretos, bastos cabelos negros, sobrancelhas carregadas, boca pequenina muito vermelha, belos dentes, cintura fina e pé pequeno. Punha todo o seu esmero na cabeleira que a tinha soberba, ondeada, e que ao sol tinha reflexos azulados, metálicos que eu não posso bem explicar. Onde estava o seu encanto era no olhar… 219
De notar que o carmim tão querido às suas companheiras de infortúnio, nunca ela o usou, segundo este honrado serralheiro, nem nas faces ou nos lábios 220— e é capaz de descrever, com interesse para o enquadramento da personagem na História da Arte, a forma como se vestia a famosa meneza:
(…) de Verão, casaco claro de manga curta com renda, saia preta com muitos folhos, de grande roda e barra de veludo da mesma cor e meia branca; nos pés, umas vezes chinela coimbrã de polimento e outras sapato de bezerro, sem tinta; no Inverno, invariavelmente, casaco escuro e meia cinzenta. (…) andava sempre de pescoço ao léu (independentemente das condições atmosféricas) e nele trazia fio de oiro com cruz de esmalte azul. Usava brincos muito grandes, à ovarina (e jamais lhe viu) anéis, cordões ou lenço na cabeça.221
Ao contrário de outros contemporâneos daquele autêntico anjo fadista, o sr. Oliveira interroga-se (ou o autor por ele…), como terá sucedido a sua queda na desgraça. E aventa, enigmático, que talvez as alcoviteiras tivessem essa grande responsabilidade, 222
217 - Idem, ibidem, p. 7.
218 - Idem, ibidem, p. 8. 219 - Idem, ibidem, p. 9.
220 - Este pormenor é subtil, dado que introduz um inegável toque de modéstia na figura da rameira. 221 - Idem, ibidem, p. 9.
222 - O aspecto interessante reside no facto de outros autores, como Tinop ou Pimentel, considerarem como coisa totalmente banal a entrada de Severa na vida de prostituta.
92 não atribuindo, como outros, à feroz Barbuda a entrada da filha na prostituição. Facto, aliás, que não prejudicava a Severa junto da gente comum.223 Porquê?
A fama da sua alma caridosa, o carinho que tinha com as crianças do bairro, o sorriso alegre e franco para todos e a sua conversação sem ditos grosseiros, davam-lhe tratamento à parte.224
Desprezava as jóias e nunca o sr. Oliveira lhe ouviu um palavrão, ao contrário de Palmeirim. Não quis o escritor Sousa e Costa deixar de fazer o que em jornalismo se chama o recorte da informação. Confrontou todos os dados obtidos junto do sr. Francisco Maria da Silva, que era empregado numa drogaria da Mouraria e rijo septuagenário que tudo apontava em livrinho de notas.225
Confirmou ele praticamente a totalidade da descrição, desde a bondade ao seio e flancos
esplêndidos e cabeleira de rara beleza, salientando que era independente, altiva e corajosa.226 Irradiava ternura, porém, como afirmaria o conselheiro de Estado António de Serpa Pimentel (1825-1900).227 Já o poeta Bulhão Pato seria mais sucinto: — Que
mulherão! Que belo mulherão! E sempre acrescentaria que era tão generosa como
pronta a partir a cara a qualquer que lhe fizesse uma tratantada!...228
Sucedem-se os testemunhos laudatórios dos dotes físicos e morais da Onofriana, que quanto mais melancólica melhor cantava o fado.229 Todos a sabiam dada a paixões (carnais) sinceras, como testemunharia o poeta popular Luís de Araújo, colaborador do
Diário de Notícias, no século XIX, conhecido pelo Padreca, ele próprio cantador e tocador famoso, capaz de resumir a sua colorida existência desta forma saborosa:
Meu tio, rico patola Era escrivão da Justiça. Meteu-se-lhe, porém, na tola Que eu fosse padre de missa!!! Não quis…pois fiz bem mal
Hoje ria-me de quem se ria!
223 - Outro factor de diferenciação que o autor, através de quem presta o testemunho, introduz com subtileza…
224 - Idem, ibidem, p. 10. 225 - Idem, ibidem, p. 13. 226 - Idem, ibidem, p. 14
227 - Esta personagem é classificada como ‘homem de bem, sincero e honesto, romântico, esquecido deste mundo, avesso a exibições, modesto com alto merecimento, escritor, jornalista, poeta, em coisa alguma parecido com os políticos portugueses…’
228 - Idem, ibidem, p. 18. 229 - Idem, ibidem, pp. 19-30.
93 Mas padre sou afinal
Da igreja da Mouraria!...230
Quanto à Severa, cuja voz teria progressivamente enrouquecido, começaria, pelos 26 anos, a deitar sangue pela boca (teoria da tísica), a ter dores no peito (hipótese de doença coronária), mas tal não a impedia nem de defender os fracos e desprotegidos (pagava sempre comida a quem tinha fome)231 ou de entrar em rixas bravas. Numa delas terá quebrado a cara a um saloio com uma guitarra. Era mulher de múltiplas façanhas, e, para além de tudo isto, sabia ler, escrever e contar, segundo afirma Sousa e Costa. Se quisermos fazer uma ideia do que estes últimos predicados significam numa rameira da primeira metade do nosso século XIX, bastará lembrar que Portugal, apesar de ter conhecido modificações estruturais de monta e uma modernização acentuada em diversos sectores ao longo dessa centúria, se encaminhava para a cauda do Velho Continente232. Atingi-la-ia, precisamente, em 1913, passando a ser considerado o que então se chamava uma nação decadente 233, apresentando, nomeadamente, uma taxa de analfabetismo de 70% em 1910, sem favor das mais elevadas da Europa e com o drama de possuir uma taxa de escolarização baixíssima, ou seja, um terço da verificada, por exemplo, na Hungria.234
Reza a lenda, entretanto, que não terá sido apenas o Vimioso a única personagem de classe elevada a passar pelos braços com a brancura do leite da Severa. O já nosso conhecido sr. Silva assevera, mesmo, ter procurado assegurar os serviços alheios ao canto da suma-sacerdotisa fadista, o comércio carnal, portanto, um oficial de alta patente, ajudante-de-campo do rei D. Fernando II (1816-1885). Vozes mais atrevidas dão como verdadeiro interessado o segundo marido de D. Maria II, que tinha por alcunha Zé Nabo, e era grande apreciador de gargantas cristalinas,235 como um dos visitantes bíblicos da beldade, aparecendo esta irreverente e anónima quadrinha:
E afinal quando é ao cabo, Além do sôr capitão,
230 - Idem, ibidem, pp. 27-28.
231 - O feitio caritativo da cantatriz está sempre em pano de fundo…
232- Jaime Reis, O Atraso Económico Português em Perspectiva Histórica: Estudos sobre a Economia Portuguesa na Segunda Metade do Século XIX (1850-1930, Lisboa, INCM, s/d, p. 11.
233- Miriam Halpern Pereira, «`Decadência´ ou subdesenvolvimento: uma reinterpretação das suas origens no caso português», in Análise Social, vol. XIV, 1978, p.7.
234 - Jaime Reis, op. cit., p. 29.
235- Recorda-se que o soberano desposaria em segundas núpcias, morganaticamente, uma cantora de ópera suíça, Elise Friedericke Hensler (1836-1929), feita condessa de Edla.
94 o nosso Rei, o Zé Nabo
vai até ao Capelão!!!... 236
Quanto à cantatriz, cada vez mais melancólica e doente, interrogava-se já nestes versos que lhe são atribuídos:
Lá na fria sepultura Nessa cova tão escura
Irei enfim descansar? Pressinto que em expiação
E, novamente, ao baldão Aqui terei de voltar!...237
Falava que queria ser lançada à vala comum do Alto de São João, esta mulher que não se soube bem de que moléstia faleceu,238 tanto mais que existem diversas versões (coronárias, apoplexia, indigestão de borrachos?). Sabe-se que não recebeu os últimos sacramentos, porque não os terá pedido, finando-se em sofrimento.239 O primeiro facto é referido na sua certidão de óbito, patente no livro da freguesia do Socorro, da cidade de Lisboa, folhas 143, verso, dos anos de 1833 a 1852:
No dia 30 do mês de Novembro de mil oitocentos quarenta e seis anos, na Rua do Capelão, número trinta e cinco A, faleceu apopléctica, sem sacramentos, Maria Severa Honofriana, natural de Lisboa, idade vinte e seis anos, solteira, filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa. Foi a sepultar no cemitério do Alto de São João, de que fiz este assento. O Prior (assinado) Félix do Coração de Jesus.240
Quanto ao registo de enterramento, foi passado no ‘1.º Cemitério de Lisboa (Oriental – Alto de São João), L.º n.º 3, a fls. 117’:
Nome: — Maria Severiana Honofriana
Idade:— Vinte e seis anos.
Estado: — Solteira Meretriz.
Onde faleceu: — Rua do Capelão n.º 35 –A –Loja.
Freguezia: — Socorro
236- Júlio de Sousa e Costa, Severa (Maria Severa Onofriana): 1830-1846, Lisboa, Bertrand, 1936, p.135. 237- Idem, ibidem, p. 136.
238 - Idem, ibidem, pp. 141-145.
239- Um cirurgião militar, José António Marques, terá dito que «ela sofria bastante de palpitações desordenadas», ou seja, taquicardia, como pode ler-se na p. 142.
95
Quando faleceu: — Às 21 horas de 30 de Novembro de 1846.
Entrou no Cemitério:— Às 16 horas e trinta de 1 de Dezembro de 1846.
Quando sepultada: — Às 7 horas de 2 de Dezembro de 1846.
Onde: — Vala comum.
Faleceu de: — Congestão cerebral.241