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Tocamos em terreno sensível, embora em nossa opinião incontornável na construção desta tese: a boémia lisboeta e suas especificidades. Levantaremos certamente muito mais questões do que daremos respostas. Como em diversas outras matérias, há que consultar quem muito se dedicou ao tema, porque estamos a falar de algo com importância para as sociedades ocidentais durante o século XIX, relacionando-se com a tão falada modernidade. Será que em Portugal houve boémia ou apenas aquela

boemiazinha dourada de que falava Eça de Queirós em Os Maias?258 Aquelas soirées, nesse covil de solteirões (a mansão familiar), com partidas de whist e de bilhar, jogadas por velhos parceiros de Afonso da Maia, em grande parte, diplomatas, ministros,

funcionários do alto escalão administrativo e representantes das elites nobiliárquicas portuguesas, além da uma plêiade de artistas, músicos, literatos e antigos dândis, que bebiam cálices de punch — e não procuravam certamente nenhuma ruptura com a ordem estabelecida, com a qual, aliás, mantinham excelentes relações ou velhas cumplicidades. Mas, se em vez de partidas de bilhar, os velhos solteirões estivessem entretidos a namorar gentis balzaquianas em roupas sedutoras, isso seria boémia? Nada menos certo, porque mesmo os amores do conde de Vimioso pela Severa e outras damas da noite limitavam-se a constituir simples actos de licenciosidade, por sinal bem tolerados pela sociedade burguesa, que, aliás, chamaria casas de tolerância aos bordéis… Estes, por seu turno, que possamos testemunhar, já eram uma realidade na infeliz cidade de Pompeia… Lá estão ainda as ruínas e alguns frescos fanados, a provar algo tão velho como o mundo.

Professora universitária e feminista ou cientista feminista, como prefere ser tratada, a escritora britânica Elizabeth Wilson é autora de um livro bastante esclarecedor em múltiplos aspectos deste problema, cujo estudo nunca estará certamente terminado:

Bohemians: The Glamorous Outcasts.259 Será que um boémio, nos séculos XVIII e XIX, era alguém que pintava ou escrevia na maior das misérias, ou, pelo contrário, um

257 - João Pinto de Carvalho (Tinop), op. cit., p. 86.

258 - Cf. Eça de Queirós, Os Maias, Lisboa, Livros do Brasil, 3.ª edição, s/d, pp. 114 e ss.

102 indivíduo vestido de forma extravagante, useiro e vezeiro em tomar drogas e passar o dia em cafés da moda, procurando tornar-se famoso? Segundo a citada autora, o boémio pode ser ambas estas coisas, só uma delas ou até outras bem diversas… Em sua opinião, a boémia tem como elemento-chave a preferência de alguém pela cidade, para abolir os constrangimentos da vida na província. E essa cidade natal do fenómeno, para Elizabeth Wilson, é Paris, embora apresente como o primeiro grande boémio o seu compatriota Lord Byron (1788-1824), sem que se esqueça de Oscar Wilde ou Arthur Rimbaud, está bem de ver. Fazendo autênticas «viagens no tempo», por vezes incómodas de seguir e pouco ortodoxas, que transportam o leitor desde o Segundo Império até à Califórnia dos anos 50 do século XX, por exemplo, pretende estabelecer a sua ideia de boémia como algo que pode existir em qualquer altura e em qualquer lugar. Não se estranha, pelas suas opções não apenas académicas, que fale bastante das mulheres no ambiente da boémia, sejam elas musas inspiradoras, como Elizabeth Siddall, ou Alma Mahler, ou esposas sofredoras e também, claro, artistas tornadas famosas, casos de Louise Colet e George Sand. Vejamos um pouco da sua argumentação:

Fumar era mais do que uma maneira de passar o tempo. (…) Eu fumo, logo eu sou. Fumar orquestrava o tempo, dava-lhe ritmo, pontuava a fala, mimava teatralmente a masculinidade e a feminilidade, era o acessório intelectual necessário, e era também um gesto erótico, adensando o mistério de uma qualquer cliente desconhecida, sentado à sua mesa, velada pelo fumo azulado.

No fundo, Paris possibilitava aos artistas a criação de um universo outro que não aquele em que os demais viviam, assinala a autora numa obra que acaba por cobrir um período de tempo muito alargado, nem sempre de forma muito convincente. Procuravam transformar o próprio acto de viver em algo da categoria da criação, potenciando uma lufada de liberdade para muitos jovens dos mais diversos extractos sociais.260 Também Robert Darnton se debruçou sobre a boémia em França, mas na época pré- revolucionária. Resulta desses e de outros estudos o que atrás se disse, ou seja, a diferença entre licenciosidade (evito o termo libertinagem, susceptível de significados diversos) e boémia, apesar de muitos boémios frequentarem as camadas mais baixas da sociedade e usarem de grande liberdade de costumes. Arauto da modernidade e figura ímpar, o poeta Charles Baudelaire (1821-1867) era um deles, mas o autor de As Flores

do Mal possuía um refinamento que promovia a vida a um acto artístico para desespero da mãe e do padrasto, general, embaixador e senador de Napoleão III, que não lhe

103 perdoavam, sobretudo, os gastos exagerados, as drogas e os casos amorosos com prostitutas. Lamentava Camilo Castelo Branco, em 1879, que tivesse acabado a poesia amorosa. E argumentava:

Não foi Charles Baudelaire, nem a devassidão dissolvente do segundo império, nem os progressos da etnografia e da química (…) A poesia sentimental acabou porque poetas que exercitem a arte por amor da arte já não há nenhum, nem tão pouco há mulheres que sintam no peito o vácuo dos sonetos; (…)261

Vinda de alguém que tivera fama de boémio — e tê-lo-á sido à nossa escala e maneira —, vê-se que entre Paris e São Miguel de Seide não eram apenas os quilómetros físicos que marcavam a separação…

Quis o destino que os nossos desregrados (evito chamar-lhes libertinos por razões já apontadas), mais ou menos aristocratas, fossem tomar o nome a um dos marqueses de Marialva, que, por sinal, nem parece ter sido dado a quaisquer especiais escândalos, como adiante veremos. Também Eduardo de Noronha meteu no mesmo saco boémio e marialva, ao abordar as figuras do marquês de Nisa e do conde Farrobo, na sua A

Sociedade do Delírio,262 tendo porém o cuidado de advertir no prefácio:

O marquês de Nisa e o conde de Farrobo, os dois leões mais falados da sociedade do seu tempo, não foram apenas dois extravagantes, dois gastadores, que deixaram os seus nomes vincados a estúrdias proezas e a deslumbrantes festas. Não. Ambos prestaram serviços importantes ao país. Cada um na sua esfera de acção. (…) Intercalando as suas rapaziadas com actos em extremo meritórios e de subido patriotismo, ambos souberam ser estroinas e cavaleiros ousados e artistas, galanteadores e religiosos, lhanos e cortesãos. (…) Equilibraram com afável galhardia a popularidade adquirida, sem nenhum esforço de adulação, com a remota aristocracia do nascimento.263

Parece-nos ter pouca razão de ser comparar um esteta como o conde de Farrobo com o marquês de Nisa, e muito menos com o conde de Vimioso, o marquês de Castelo Melhor, o conde da Anadia, para já não falarmos de outros aristocratas ou nobres duvidosos que andavam pelos bairros populares, onde o povo humilde muitas vezes vivia paredes-meias com mansões de titulares dos chamados com «grandeza», como acontecia em Alfama e no Bairro Alto.264 Para uma visão sobre este interclassismo habitacional, basta ler os livros de Júlio de Castilho e do jornalista Norberto de Araújo

261 - In Cancioneiro Alegre, prefácio e organização de Camilo Castelo Branco, Porto, Tip. de A. J. da Silva Teixeira, 1879, p. XI .

262 - Eduardo de Noronha, A Sociedade do Delírio, o Conde Farrobo e a sua época, Lisboa, Romano Torres, 1921.

263 - Op. cit., pp. 5-6.

104 — ou então reparar, ainda hoje, ao percorrer esses espaços lisboetas, nas casas com pedras de armas. O fado, aliás, cedo se cantou em salões de titulares, adquirindo feição literária logo na segunda metade do século XIX (entre 1868-69), como afirma o seu historiador João Pinto de Carvalho.265 Muito se tem falado em Portugal, no entanto, em marialvas como boémios e, se seguirmos as opiniões de Elizabeth Wilson ou de Robert Darnton, autor de The Literary Underground of the Old Regime,266 dá-los como boémios — o que quer que seja uma coisa e outra… — parece carecer do mínimo sentido. Para o escritor e teatrólogo Carlos de Moura Cabral (1852-1922), o marialva é:

(…) brigão, audacioso, mas provocante, que apenas pelo luxo de ser falado, sem causa a justificar-lhe o acto, armava horrível contenda, onde o box e a cana da índia eram, por vezes, valiosos auxílios de triunfo; batia e levava com a maior frescata, antegozando uma notoriedade de valente e destemido, o prazer infinito de ser contado entre os verdadeiros bravos que, da sua bravura, só davam provas em casos de brio e honra.267 Se assim fosse, alguns dos nomes mencionados nada tinham a provar nesses domínios, tendo servido bem como militares e alcançando glória como cavaleiros tauromáquicos, o que se aplicava perfeitamente, por exemplo, ao conde de Vimioso. Também não se podem esquecer as incursões às zonas fadistas de burgueses curiosos e até de artistas plásticos. Eram também considerados marialvas?

Quem se der ao trabalho de encontrar uma definição mais afinada para esta figura que tanta controvérsia tem levantado — e representa, de alguma forma, a ligação do fado a outros universos, como o do espectáculo tauromáquico —, verá que ela faz parte de uma mitologia, que pouco condiz com a definição simplista de Carlos de Moura Cabral. Há até quem eleve o marialva à classe dos elementos de interrogação identitária, através da discussão da saudade e mesmo das grandes interrogações sebastianistas…

Trata-se, antes de mais nada, de uma figura lisboeta, derivando o epíteto de um antigo título nobiliárquico, recordemos. O Elucidário,268 do douto frade Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, nada sobre o assunto regista, pois de ‘marejada’ passa para maridança. A edição do Morais de 1789 não inclui a palavra, fica-se em mariel, mas já a de 1860

265 - João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 1982, p. 93.

266 - Publicado inicialmente pela Harvard University Press em 1982. Há uma versão francesa: Edition et sédition. L’univers de la littérature clandestine au XVIIIe siècle, Paris, Gallimard, 1991.

267- Carlos de Moura Cabral (1910), Lisboa alegre: Aspectos, tipos, costumes, episódios, Lisboa, A Editora, 1910, p. 39. Existe uma segunda edição aumentada com um novo capítulo, «os simplícios aderem, episódios alegres da revolução» (de 1910, claro). Surgiu em 1912.

268-

Recordamos que a versão ‘portátil’ da referida obra foi revista pelo autor e dada à estampa em 1825, pela Real Imprensa da Universidade de Coimbra.

105 regista uma definição que fará carreira, como se pode verificar pelo Grande Dicionário

da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, Maia-Porto, Amigos do Livro, 1981: ‘Relativo às regras de cavalgar, segundo o sistema instituído pelo Marquês de Marialva. Indivíduo que monta bem a cavalo; bom cavaleiro. Depreciativo: Indivíduo que gosta de touradas e cavalos e prima por extravagante e ocioso. Fadista que pertence a família distinta ou que o aparenta.’

O marquês de Marialva referido não é, portanto, o último detentor do título, D. Pedro José Vito de Meneses Coutinho (c. 1775-1823), 6.º marquês de Marialva e 8.º conde Cantanhede, militar e diplomata, que faleceria em Paris, quando regressava ao seu posto de embaixador, solteiro e sem descendência. Trata-se antes de D. Pedro de Alcântara de Meneses Noronha Coutinho (1713-1799), dado como autor da obra Luz da Liberal e

Nobre Arte de Cavalaria, também conhecido por Tratado de Marialva,269 que ganhou fama mesmo além fronteiras. Quarto detentor do título e sexto conde de Cantanhede, sucedeu-lhe D. Diogo José Vito de Noronha Coutinho (1739-1803), o quinto marquês, portanto, seguido do nobre atrás citado, falecido sem descendência.

Embora alguns autores dêem o quarto marquês, gentil-homem da câmara e estribeiro- mor de D. José, cargo que manteve com a subida ao trono de D. Maria I, como figura conhecida na Mouraria, algo que parece difícil de confirmar ou desmentir, há quem o ponha a cantar o fado, coisa muito menos provável, porque tal trova ainda não surgira na cidade de Ulisses… Grande equitador, lidava toiros a cavalo e foi o decisivo reformador desta forma de toureio, que passou a designar-se arte de Marialva.270 O termo marialva faz porventura uma das suas primeiras aparições impressas num livro de um tal Braz Fogaça, alegado petintal de Alfama. Seguem-se alguns passos julgados significativos da crítica a esta categoria social com recortes miguelistas:

Marialvas! Chamam-vos Marialvas ! Ironia popular, que neste só nome resume a ideia das vossas duas únicas vocações: touros e cavalos! Mas o marquês de Marialva, insigne na arte de equitação, o marquês de Marialva, destro picador de touros, aquele mesmo que viu seu filho sacrificado a esse condenável passatempo, era o primeiro camarista d'el-rei D. José; era um verdadeiro fidalgo em toda a acepção da palavra, um cortesão educado nessa elevada escola, que se chamou a corte de D. João V; era um cavalheiro,

269

- Dado à estampa em 1790, o livro era assinado por Manuel Carlos de Andrade, um seu discípulo dilecto, conforme se pode ler in Jaime Duarte de Almeida et alii, História da Tauromaquia, vol. I, Lisboa, Artis, 1951, p. 148.

270

106 não era um rabejador; era um homem de carácter distinto, de fino trato, de espírito cultivado; não era um pacóvio analfabeto, ou um soez perdulário ; não era um cigano, enfim. Ora eu suponho que é às tradições do pai do infeliz conde dos Arcos que deveis o cognome. Sede, pois Marialvas! Mas vós, que tão ufanos vos mostrais de o ser, porque, à lembrança do destemido picador, que todavia não imitais, aos conselhos do experiente cavaleiro, que bem decerto nunca lestes; vós, que em nada mais de tantos dotes que o exaltavam curastes nunca de ver nele o espelho, porque vos não habilitais para participar também da glória que imortalizou o outro, o que veio antes deste, o que salvou Portugal nas linhas de Elvas, em 1659, sendo ainda conde de Cantanhede, o que seis anos depois se cobriu de glória em Montes Claros? Porque não preferis a nomeada e não aspirais antes à reputação do marquês de Marialva, por salvação da pátria vencedor dos espanhóis, do que à do marquês de Marialva, por divertimento régio vencedor dos touros? É simples a resposta. A vossa casta está condenada. Sois vós os destinados a dar-lhe o golpe mortal. Vossos pais, vossos avós, a aristocracia, enfim, teve a sua missão. Terminada ela, cessou a necessidade da vossa existência como casta privilegiada, como classe distinta no seio do labirinto de interesses que confundiu e amalgamou todas as castas numa só casta, todas as classes numa só classe: — a burguesia. 271

Muito mais modernamente, houve quem os definisse sem hesitações e de forma algo diversa, como aconteceu com um escritor quem privámos, José Cardoso Pires (1925- 1998), precisamente na sua Cartilha do Marialva, ensaio publicado em 1960:

Marialva é o antilibertino português, privilegiado em nome da razão de Casa e Sangue, cuja configuração social e intelectual se define, nas suas tonalidades mais vincadas, no decorrer do século XVIII. No convencionalismo popular (ou antes pequeno-burguês) marialva é o fidalgo (forma primitiva de “privilegiado”) boémio e estoura-vergas. Socialmente será outra coisa: um indivíduo interessado em certo tipo de economia e em certa fisionomia política assente no irracionalismo.272

É manifestamente uma leitura sociológica e política do epíteto, começando por se ressalvar o apodo de libertino, querido ao autor do Delfim, via o seu muito admirado Roger Vailland (1907-1965), descendente (literário) de importantes autores como o marquês de Sade e Choderlos de Laclos — e por Pires apontado como o modelo do libertino contemporâneo. Quanto ao outro, cita, no seu livro, este poema de Alexandre O' Neill, que assim tipificou tal criatura: «Nada na mão/ algo nav'rilha! remancho as

271 - Braz Fogaça, petintal de Alfama, Os Marialvas , Lisboa, 1876, pp. 40-41. 272 - José Cardoso Pires, Cartilha do Marialva, Lisboa, Dom Quixote, 2002, p. 7.

107 noites/ e troto os dias/ entre tabaco/ viris bebidas/ fraco mas forte/ de muitas vidas/ Que eu já dormi/ co'as duas mães/ e as duas filhas/ que vão à missa / com três mantilhas/ ...bebo contigo/ cerveja, whisky/ p'ra que se veja / mais rubra a crista».273

Pires analisa a época do marquês de Pombal, para concluir que o provincianismo das zonas rurais, representado pela aristocracia terratenente, impusera o seu imobilismo às mudanças sociais preconizadas pelos que acreditavam no racionalismo e viviam nas zonas urbanas. Vozes como as do padre Luís António Verney (1713-1792) e do abade Correia da Serra (1750-1823), dois estrangeirados, foram insuficientes, segundo aquele autor, para que surgisse uma transição do Antigo Regime para uma nova era. Dentro desta leitura dialéctica, aponta a luta entre o pensamento racionalista citadino e o da reacção provinciana, nela se inserindo a natural oposição entre o marialva e o libertino. Faz remontar este último ao pensamento e acção dos goliardos franceses, defensores dos prazeres da vida, incluindo a liberdade sexual da mulher — e credita aos seus herdeiros intelectuais grande capacidade de previsão do futuro e desejos igualitários, entre os quais a plena paridade entre homens e mulheres. Este ideal de emancipação feminina seria defendido por Pierre Choderlos de Laclos (1741-1803), libertino, militar de carreira de extracção burguesa e, nomeadamente, autor de As Ligações Perigosas (1782) e de Des Femmes et de Leur Éducation (1783). Aponte-se como curiosidade que foi Napoleão Bonaparte, então primeiro-cônsul, a reintegrá-lo nas fileiras do Exército, onde este pai da moderna granada de artilharia atingiria o posto de general de brigada. Cardoso Pires critica a forma como a mulher é representada na nossa literatura do século XIX, por importantes nomes como Almeida Garrett e Camilo Castelo Branco, algo que não sucede nos romances escritos por autores libertinos, afirmando que o comportamento do marialva, machista por excelência, retirava qualquer possibilidade de uma igualdade entre os sexos no campo amoroso. E fundamenta as suas asserções com abundantes exemplos. Também se apoia numa definição que é dada por José Bacelar, em 1939, igualmente de cariz ideológico (vivia-se em ditadura, recorde-se), segundo a qual na classe dominante o que hoje impera apesar de tudo é uma espécie de

‘marialvismo’, quer dizer, o profundo desdém por todas as coisas de espírito, tomadas como manifestação ou sinal, seja de plebeísmo, ou melhor, de burguesismo impertinente e falho de gosto, seja duma desvirilização geral que é preciso desprezar e condenar pelo ridículo. E o mesmo autor sublinharia:

273- Op. cit., p. 71.

108 As atitudes boçais do português não provêm tão-somente da sua boçalidade nativa mas de um certo culto snob da brutalidade e do desdém pelas coisas do espírito considerados como traços de boa autocracia.274

Quanto a nós, o termo marialva só tem verdadeiramente amplificação e surge indelevelmente ligado ao fado, porque o dr. Júlio Dantas mudou o nome ao protagonista da sua peça e do seu romance A Severa (1901), passando-o de conde Vimioso para marquês de Marialva, título que se extinguira pela falta de descendência já referida. Também o primeiro fonofilme português (1931), inspirado na obra teatral do eterno académico, realizado por Leitão de Barros, projectou para o grande público tudo o que se relacionava com a famosa cantatriz, e, particularmente, o objecto dos seus amores romantizados, para quem as mulheres-amantes eram descartáveis e a Severa cénica e fílmica tratava por grosseirão. Talvez tenha sido pelo êxito alcançado primeiro pela peça e, depois, pelo filme que se popularizou um termo porventura nascido como sinónimo de bom cavaleiro, devido ao grande equitador atrás citado, e, depois, já com sentido depreciativo surgiu ligado a uma vida dissoluta e a certo tipo de fidalgos ou burgueses adeptos de vestuário específico e muito empenhados em touros e cavalos,275 ou seja, em corridas à portuguesa, adquirindo com o tempo uma carga política e social, tornando-se sinónimo de diversas formas duvidosas de comportamento cívico e humano. Começou a haver, por outro lado, quem gostasse do epíteto, colorindo-o com vagos tons nacionalistas, enquanto outros carregavam no significado que mais jeito dava. Alguns grupos bairristas passaram a designar-se pelos marialvas disto ou daquilo, certamente sem qualquer preocupação de ordem ideológica ou moral. O destino das palavras consegue, muitas vezes, ser insondável, como para nos provar que falamos e tecemos a escrita com seres complexos e misteriosos.

Vamos agora à boémia e aos nossos boémios mais famosos, tendo presente que lidamos

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