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II. A mediação pela (re)produção de missiologia (1949-1955)

2. Combater o “secularismo” e as “seitas protestantes”

No momento pós-segunda guerra mundial, dois fenômenos foram reconhecidos pela Santa Sé como grandes desafios políticos para a atuação da Igreja Católica: secularismo (e comunismo) e igrejas protestantes.

Os movimentos pela secularização na Europa eram entendidos pela Santa Sé como contrários à reprodução da Igreja Católica, especialmente ações protagonizadas por agentes tidos como comunistas. Por meio de diversas ações que retiravam a propriedade da Igreja, que perseguiam padres, os estados comunistas entraram diretamente em conflito com a Igreja Católica. Isto fez com que o Papa Pio XII constituísse diversos atos contrários a pessoas que se associassem ao comunismo. O “decretum contra

communismum” (1949), por exemplo, foi um diploma que buscou fazer com que os

integrantes da Igreja Católica se mobilizassem em relação às práticas tidas comunistas. Além deste Decreto, as ações contrárias aos integrantes da Igreja Católica no Leste Europeu, principalmente, eram objetos de repressão do papa por meio da Encíclica “Datis

Nuperrime” (1956), em que este lamentava as ações que os comunistas estavam fazendo

para as populações cristãs. Segundo o Papa, o estado tinha uma função, mas sem a Igreja Católica, a sociedade teria um risco à moralidade:

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PASCOAL, Ezequiel. “E Portugal é a Sua sombra...”. Seara, Díli, ano 2, nº 1 e 2, janeiro e fevereiro de 1950.

99 Tal prática de divulgação da virgem Maria pelo império português já existia em momentos anteriores nos

século XVI e XVII (Souza, 2008). Em vez de ser a imagem de Nossa Senhora do Rosário, como acontecia nos séculos anteriores, a imagem de Nossa Senhora que apareceu na cidade de Fátima passou a ser o símbolo nacional.

100“Visita de Nossa Senhora de Fátima a Timor” Seara, Díli, ano 1, nº 7, julho de 1949. “Nossa Senhora de

Fátima vem, enfim, visitar-nos!. IN: Seara, Díli, ano 3, nº 1 e 2, janeiro e fevereiro de 1951.

101“Assim foi recebida N. Senhora de Fátima”. Seara, Díli, ano 1, nº 8, agosto de 1949; “Ecos da visita de

Uma sociedade sem Deus (...) acaba por se corromper, mais ou menos lentamente até à medula. Numa sociedade assim desvirtuam-se os conceitos de virtude, honra, pudor. Cada qual talha estas e outra virtudes a seu modo. Falta o supremo padrão.102

Táticas de enfrentamento a tais desafios faziam-se presente no periódico Seara. Por meio da reprodução das mensagens do Papa,103 a Diocese indicou que os missionários no Timor Português deveriam pedir para que os fiéis orassem e censurassem atitudes “comunistas” que fossem vivenciadas por agentes de estado, na medida em que isso contrariava a Igreja Católica. Seara também reproduziu textos que narraram as prisões dos padres no Leste Europeu, comparando-os a Pedro e Paulo, figuras da história da Igreja.

Ontem – há vinte séculos – Pedro, em Jerusalém, e Paulo em Roma – ambos Apóstolos – arrastaram pesados grilhões.Hoje, Mindszenty, na Hungria, e Stepinac, na Jugoslvia – Apóstolos também – estão a ferros. O motivo, ontem e hoje? O mesmo: - professar a Cristo.104

O chamado “comunismo”, no entanto, não foi o único movimento anticlerical no contexto da Europa narrado pela Diocese de Díli. Houve movimentos de nacionalização das universidades no Reino Unido, que foram objetos de disputa da Igreja com os estados nacionais capitalistas.105 Ainda que o Estado Português tenha refeito um laço cooperativo com a Igreja Católica, a Diocese de Díli mostrava textos em que os estados nacionais se mostravam cada vez mais anticlericais no restante da Europa, impedindo que a Igreja Católica atuasse aos moldes anteriores.

Apesar de a Revolução Protestante ter acontecido no século XVII, as novas Igrejas também eram entendidas como problemas para a Igreja Católica no século XX, na medida em que competiam com a Igreja Católica. Ainda que se reconhecessem os protestantes como cristãos, os textos metropolitanos publicados em Seara apresentavam percepções de que o “cristianismo católico”, exclusivamente, era o verdadeiro cristianismo, enquanto quaisquer outras denominações que pregassem Jesus Cristo eram tratadas como “seitas” e “pagãs”. Em um texto, Padre Ezequiel Pascoal falou que a Igreja Católica estava a reagir contra a expansão destas igrejas106:

O catolicismo é, na sua essência e origem, uma reacção - reacção contra a natureza humana propensa para o Mal e indisciplinada, devido aos germes de desordem que

102“Intenções de Março –Apostolado da Oração”. Seara, Díli, ano1, janeiro de 1949, nº 1, p. 16.

103 “A Hungria Mártir (Da mensagem do Santo Padre Pio XII ao mundo, a 10/XI/1956)”. Seara, Ano 9, nº

1, janeiro a fevereiro de 1957.

104 “Hoje como ontem”. Seara, Díli, ano 1, nº 5, maio de 1949, p. 107. 105

“Pelo mundo católico. Milhões de libras para educarem os seus filhos ao seu modo”. Seara, Díli, ano 1, nº 9, setembro de 1949.

106 Em outro texto, Ezequiel Pascoal também reafirma o antiprotestantismo como um dever da Igreja

Católica. (PASCOAL, Ezequiel. “O Grande Regresso”. Seara, Díli, ano 2, nº VII e VIII , julho e agosto de 1950).

dela se apoderaram em consequência da queda original (...) É o paganismo que ele veio destronar mas que volta sempre que a sua essência se dilui em palavras e sofismas que a procuram desvirtuar, dando-lhe um sentido que não é o próprio, e com que se pretende coadunar aquilo que ela condena.107

Além do protestantismo, referências a problemas que missionários estavam vivendo no “mundo maometano”108

foram também noticiadas, mas em menor recorrência, diferentemente dos fenômenos do comunismo. Assim, no período posterior a Segunda Guerra Mundial, a Santa Sé, personificada pelo Papa Pio XII, lidou com diversos fenômenos transnacionais que, por vezes, foram vistos como questões para a Igreja Católica. Em razão de a cúpula da Igreja tomá-los como importantes, tais fenômenos foram alvos de especulação reflexiva para a atuação de missionários.

Minha percepção é a de que tais questões sobre o protestantismo e o comunismo pouco se refletiram na produção de textos locais do período referente aos anos de 1949 a 1954, exceto nos esforços dos apostolados das orações. Aparentemente, as Igrejas protestantes não tinham grande inserção no território timorense, tampouco havia união de coletivos em torno de ideias referentes ao comunismo.109