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11 COMEÇO, FIM E PERMANÊNCIAS INTERMITENTES

PARA SEMPRE É DECÍDUO

11 COMEÇO, FIM E PERMANÊNCIAS INTERMITENTES

O movimento paradoxal desta reconfiguração lírica desenvolve-se circularmente num quiasmo: por um lado, o Para sempre (dimensão por antonomásia tão irredutível aos conteúdos da experiência que a sua integração na noção de tempo só pode ter lugar a expensas

137To disappear enhances -

The Man that* runs away *who

Is tinctured* for an instant *gilded With Immortality

F1239 (1871)/J1209 (1872)

“We would’nt mind the sun, dear, if it did’nt set -.” (Carta 194, para Susan Gilbert Dickinson. 26 de Setembro de 1858) Cf. também: “You remember my ideal cat has always a huge rat in its mouth, just going out of sight - though going out of sight in itself has a peculiar charm. It is true that the unknown is the largest need of the intellect, though for it, no one thinks to thank God. ...” (Carta 471, para Louise and Frances Norcross. Agosto de 1876). A dialéctica entre luz e obscuridade ligada a este topos do ‘desaparecimento’ é desenvolvida magnificamente no nocturno de F868/J938 (1864): Fairer through Fading - as the Day/ Into the Darkness dips

away – /…/ Only to aggravate the Dark/ Through an expiring – perfect –look –.

138“These Indian-Summer Days with their peculiar Peace remind me of those stillest things that no one can

disturb and knowing you are not at Home and have a sister less I liked to try to help you. You might not need assistance?” (Carta 332, para Perez Cowan. Outubro de 1869)

139I’d rather recollect a Setting

Than own a rising Sun

Though one is beautiful forgetting* *Secession

And true* the other* one. *real/bland *the newer/the newest /And best the newest one/And fine…/ And fair… Because in going is a Drama

Staying cannot* confer - *could not To die divinely once a twilight* - *an evening/Limit

Than wane* is easier – *live

F1366/J1349 (1875)

de uma de-subjectivação radical dessa mesma noção) resulta identificado como o centro da apreensão subjectiva da temporalidade enquanto afecção entrópica universal, enquanto vector skhēmático de perda e corrosão (decíduo); por outro lado, o fim, o ser decíduo, no seu potencial único de beleza, configura-se como hipotipose simbólica da eternidade. Numa despedida radical das concepções classicistas de experiência estética como presentness, como anulação da transitoriedade na projecção atemporal meta-histórica,140 Dickinson declara que a temporalidade é condição intrínseca de beleza. O poeta não é o homem da luz, da visão meridiana de uma terra purificada das sombras, mas é pelo contrário quem procura a Escuridão,/ Até ser inteiramente pronto para a morte. “Valor in the dark is my Maker’s code”, escreve Dickinson numa raríssima afirmação poetológica entregue à correspondência (Carta 617. Para Forrest F. Emerson, cerca de 1879?) O trabalho da poesia é precisamente treinar- nos para acostumar-se à Escuridão (como diz um dos poemas mais icónicos de Dickinson), para aprender a ver sem luz (quando a Luz é afastada),141 ou mais radicalmente para aprender

140Tão não decíduas que se reproduzem de forma paradoxal em teorias da arte tão vanguardistas como a de

FRIED 1980 e FRIED 1998.

141O paradoxo da visão aberta pela escuridão, da invisibilidade estabelecida pela noite como condição de

revelação, é um topos shakespeariano de que Dickinson se apropria na sua linguagem figural. Cf. por exemplo os Sonetos XXVII (Looking on darkness which the blind do see:/ Save that my soul’s imaginary sight/ Presents thy

shadow to my sightless view) e XLIII (nos quais, porém, o poder epifânico da sombra é associado ao amor e aos

sonhos por ele gerados, não à morte, como nas líricas de Dickinson aqui comentadas):

When most I wink, then do mine eyes best see; For all the day they view things unrespected, But when I sleep, in dreams they look on thee, And darkly bright, are bright in dark directed. Then thou whose shadow shadows doth make bright, How would thy shadow's form, form happy show To the clear day with thy much clearer light, When to unseeing eyes thy shade shines so? How would, I say, mine eyes be blessèd made By looking on thee in the living day,

When in dead night thy fair imperfect shade Through heavy sleep on sightless eyes doth stay? All days are nights to see till I see thee,

And nights bright days when dreams do show thee me.

De que a leitura de Shakespeare tenha sido para Dickinson companhia constante ao longo de uma vida solitária em que os livros eram presença essencial, encontramos frequentes atestações na correspondência: “Thank you, Mr Sanborn. I am glad there are Books.

They are better than Heaven for that is unavoidable while one may miss these.

Had I a trait you would accept I should be most proud, though he has had his Future who has found Shakespeare – ” (Carta 402. Para F.B Sanborn, em volta de 1873). Cf. também a Carta 368 (Para T.W. Higginson, Novembro de 1871): “While Shakespeare remains Literature is firm –”, e quanto referido por Higginson no relato à mulher do seu primeiro encontro com Dickinson: “After long disuse of her eyes she read Shakespeare and thought why is any other book needed” (Carta de Higginson de 17 de Agosto de 1870). Em 1882, Dickinson escreve a Susan Gilbert Dickinson: “With the Exception of Shakespeare, you have told me of more knowledge than any one living - To say that sincerely is strange praise”, Carta 757).

a ver a escuridão abrigada no seio da luz (cf., infra, Capítulo VIII), ajustando a visão à Meia- noite.142 O poeta contempla incansavelmente a morte (como bem sabe quem leu Dickinson)

não por obsessão necrófila, mas porque esta é a única possibilidade para que a vida siga quase direita, para poder orientar-se no mistério impenetrável que é.143 Oximoricamente, temos de

142We grow accustomed to the Dark -

When Light is put away -

As when the Neighbor holds the Lamp To witness her Good bye –

A Moment - We uncertain step For newness of the night - Then - fit our Vision to the Dark - And meet the Road - erect – And so of larger - Darknesses - Those Evenings of the Brain - When not a Moon disclose a sign - Or Star - come out - within – The Bravest - grope a little - And sometimes hit a Tree Directly in the Forehead - But as they learn to see – Either the Darkness alters - Or something in the sight Adjusts itself to Midnight - And Life steps almost straight

F428/J419 (1862)

I fit for them - I seek the Dark Till I am thorough fit. The labor is a sober one

With the* austerer* sweet – *an *this sufficient That abstinence of mine* produce *me

A purer food for them, if I succeed, If not I had

The transport of the Aim –

F1129 (1866)/J1109 (1867)

143By a departing* light *absconding/ retreating

We see acuter*, quite, *sincerer/distincter Than by a wick that stays.

There's something in the flight That clarifies the sight

And decks* the rays *brims/fills/swells

olhar para a vida à luz da escuridão (da sombra) da morte, assim como só podemos ter uma ideia de para sempre na sua articulação opositiva ao fim.144

Para Dickinson, a inscrição lírica da subjectividade na exterioridade (não apenas espacial mas também temporal: o tempo é chronos, neste poema de Dickinson, não apenas kairós, não apenas produto da intencionalidade, mas transcendência física a que a consciência é exposta passivamente, na própria matriz corpórea) do objecto (do eu no mundo) não se produz como unificação ontológica, como descoberta metafísica da essência comum de consciência e natureza, mas como formulação e articulação simbólica das contradições inerentes a esta clivagem, assim como ao choque entre pensamento e conhecimento (no irredutível carácter antinómico de ambos), entre a insensatez do real e a necessidade subjectiva de sentido.145 É graças a esta sua abstinência metafísica146 que Dickinson pode dar-

144Só os dentes do Gelo revelam, no ar longínquo de Outubro, a maturação mais íntima (processo - subtraído à

visão -, escondido no carrapicho) que se dá na queda no chão do produto aveludado e esférico da maturação visível. Duasmaturações, uma dada à visão, outra a ela subtraída, puramente interior, combinam-se e divergem

como os dois começos do Verão de F1457/J1422 em F420/J332, poema de quinze anos antes, que pode ser lido como comentário do texto posterior, num jogo de reverberações típico da poética de Dickinson:

There are two Ripenings –

One - of Sight - whose Forces spheric wind* *round Until the Velvet Product

Drop, spicy, to the Ground – A Homelier - maturing - A Process in the Bur -

That Teeth of Frosts, alone disclose -

On far* October Air. *In still

F420/J332 (1862)

145Poderá por isto Dickinson ser qualificada como poeta romântica ou será já pós-romântica? Justificar uma

escolha deste cariz abriria uma discussão muito ampla, fora do nosso alcance. Dickinson é poeta romântica se utilizarmos esta designação como categoria geral mais do que como caracterização histórica (questionável do ponto de vista da reconstrução interpretativa), para realçar a centralidade poética da dialéctica sujeito-objecto (consciência-natureza). P. de Man critica com bons argumentos a ‘vulgata crítica’ que vê na reconciliação identificativa destes dois polos a ambição última da poética romântica, sugerindo deslocar a dialéctica numa vertente exclusivamente ‘temporal’: “The dialectical relationship between subject and object is no longer the central statement of romantic thought, but this dialectic is now located entirely in the temporal relationships that exist within a system of allegorical signs. It becomes a conflict bewteen a conception of the self seen in its authentically temporal predicament and a defensive strategy that tries to hide from this negative self-knowledge” (DE MAN 1971: 208). Contudo, o preço pago para justificar esta sua ambiciosa reconversão é qualificar grande parte da poesia caracterizada como romântica como uma “tenacious self-mystification. Wide areas of European literature of the ninenteeth and twentieth centuries appear as regressive with regards to the truths that come to light in the last quarter of the eighteenth century. For the lucidity of the pre-romantic writers does not persist.” (Ib.) Perante esta reconstrução é inevitável perguntar se é legítimo caracterizar grande parte da tradição poética (e crítica) de dois séculos como um colossal auto-engano, como um circo de falsa consciência (finalmente desvendado por um crítico) e se não será mais produtivo admitir que esta dialéctica (enquanto tensão não resolvida) é o problema central desta tradição literária (a que cada autor dá soluções diferentes, com graus diferentes de lucidez crítica, como emerge exemplarmente das objeções de Keats a Coleridge). Cf. também DE MAN 1984: 1ss.

se ao luxo de explorar possibilidades ontologicamente incompatíveis, mas gnoseologicamente complementares, multiplicando enunciações poéticas metafisicamente contraditórias como a afirmação da morte post mortem e da imortalidade, da ausência de Deus e da sua existência como Deus impessoal - de cariz panteístico - ou como Deus pessoal - maligno ou bondoso -, identificável, ou alheio, ao Deus cristão.147

O Para sempre de Dickinson não é argumentativo-ontológico, mas simbólico-figural, e pode por isso conviver com outros Para sempre, em que outras insolúveis contradições temporais são formuladas como cognitivamente necessárias e não simplesmente insensatas. Como veremos no próximo capítulo, numa série de poemas eternistas compostos anteriormente a F1457/J1422, maioritariamente no magnífico quadriénio 1862-1865,148 Dickinson desenvolve várias tentativas de descrição proléptica daquele não decíduo Para sempre alegadamente acessível aos mortos e ao qual os vivos só podem aceder numa antecipação figural,149 na projecção analógica de alguns aspectos da sua experiência temporal. Postular este Para sempre eternista é cognitivamente necessário (diz Dickinson), porque ele é inerente à qualidade continuista da duração, que é coessencial da temporalidade. A sua contradição com a dinâmica sucessória abre contudo a possibilidade de descrições muito diferentes da sua natureza, e são algumas das perspectivas geradas por este pluralismo que os poemas eternistas exploram, dando amplo espaço ao anseio de sarar a contradição (e a inquietude por ela desencadeada) através da abolição da sucessão, através de uma ideia de eternidade como anulação da passagem na vitória de-finitiva, de-finitória da permanência. Nos poemas eternistas de Dickinson o Para sempre não decíduo da segunda vida, da

146Who never wanted - maddest Joy/ Remains to him unknown -/ The Banquet of Abstemiousness/ Defaces that of

Wine – (F1447/J1430 [1877]) Sendo a “deprivação” uma categoria essencial de toda a sua produção poética (cf.

WIBUR 1960; BURBICK 1990; POLLAK 1990). Para uma avaliação crítica desta leitura, cf. GILBERT/GUBAR: 564ss.

147Nada em Dickinson é permanente (forever), porque é o movimento da reflexão enquanto articulação lírica das

perguntas e dos problemas mais do que as conclusões, que para ela é relevante, no sentido keatsiano de negative

capability: desde cedo refractária a qualquer pertença religiosa institucionalizada, a autora oscila

desassossegadamente entre agnosticismo, explícito ateísmo e crença tão cheia de dúvidas quanto apaixonada. Cf. entre outras, a explícita declaração numa carta à amiga Mrs. Haven, mulher de um professor de filosofia e teologia em Amherst e depois em Boston: “Mr S. preached in our church last Sabbath upon «predestination,» but I do not respect «doctrines,» and did not listen to him, so I can neither praise, nor blame” (Carta 200. 13 de Fevereiro de 1859).

148Este foi o período de máxima pujança criativa para Dickinson: 849 dos 1789 poemas registados por Franklin

(contra os 1775 de Johnson), são atribuídos pelo crítico ao quadriénio 1862-1865: “She was most active in 1862 (227 poems), 1863 (295) 1864 (98) and 1865 (229) /..../. She wrote poems every year thereafter - in 1877 averring she had “no ohter Playmate” - but the number was never large, fewer than a dozen in some years, usually about twenty or thirty, occasionally more than forty. Although ill in the 1880s, she persevered to the end of life.” (FRANKLIN 1999: 1)

149Ou argumentativa, porque este Para sempre não decíduo corresponde à descrição do tempo purificada de

eternidade post mortem, é descrito em termos opostos aos de F1457/J1422, como subtracção do tempo objectivo (tenseless) à indexicalização subjectiva (tensed).150 Contudo, como

veremos, o preço desta operação é tão alto que Dickinson recuará apavorada, procurando modalidades alternativas (como em F1457/J1422) para pensar uma permanência que não apague a subjectividade. Porque se a eternidade é actualidade perpétua enquanto alheamento da percepção subjectiva da mudança (da passagem do passado, pelo presente e o futuro), então não há nela lugar para o sujeito, ou pelo menos o sujeito não teria algum interesse em ‘perdurar’ nela como intencionalidade privada de um “eu”.