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Comentário geral

No documento Direito Processual Civil (páginas 31-37)

A Imparcialidade é garantia do estado Democrático de Direito e atributo necessário para que se possa julgar.

É um dos elementos do princípio do Juiz Natural (art. 5º, XXXVII e LIII, CF).

Não podem existir quaisquer dúvidas sobre os motivos de ordem pessoal que possam influir no ânimo do julgador. Não basta que o juiz alegue a imparcialidade na sua consciência. O CPC fixa causas objetivas de presunção absoluta (impedimentos) e de presunção relativa (suspeição) que impedem que o juiz atue em determinada causa.

Aplicam-se os motivos legais de impedimentos e suspeições tanto a juízes singulares quanto a tribunais. São motivos interpretados em sentido estrito, não permitindo aplicação analógica ou interpretação extensiva, pois afetam o poder jurisdicional.

Aplicam-se aos procedimentos de jurisdição contenciosa e voluntária.

Na Justiça do Trabalho, há regra expressa sobre o tema: art. 801, CLT. Não se faz distinção entre impedimento e suspeição, referindo-se somente ao direito de recusar o Juiz. Os motivos para recusa são: Amizade íntima, inimizade pessoal, parentesco por consanguinidade ou afinidade até o terceiro grau e interesse particular na causa.

O parágrafo único, acrescenta que “se o recusante houver praticado algum ato pelo qual haja consentido na pessoa do juiz, não mais poderá alegar a exceção de suspeição, salvo se sobre- vindo novo motivo. A suspeição não será admitida se do processo constar que o recusante dei- xou de alega-la anteriormente, quando já a conhecia, ou que, depois de conhecida, aceitou o juiz recusado ou, finalmente, se procurou de propósito o motivo de que ela se originou”.

Art. 144. Há impedimento do juiz, sendo-lhe vedado exercer suas funções no processo:

I – em que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito, funcionou como membro

do Ministério Público ou prestou depoimento como testemunha;

II – de que conheceu em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão;

III – quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministé-

rio Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive;

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IV – quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou parente, con-

sanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive;

V – quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa jurídica parte no

processo;

VI – quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes;

VII – em que figure como parte instituição de ensino com a qual tenha relação de emprego ou

decorrente de contrato de prestação de serviços;

VIII – em que figure como parte cliente do escritório de advocacia de seu cônjuge, companheiro

ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório;

IX – quando promover ação contra a parte ou seu advogado.

§ 1º Na hipótese do inciso III, o impedimento só se verifica quando o defensor público, o advo-

gado ou o membro do Ministério Público já integrava o processo antes do início da atividade judicante do juiz.

§ 2º É vedada a criação de fato superveniente a fim de caracterizar impedimento do juiz.

§ 3º O impedimento previsto no inciso III também se verifica no caso de mandato conferido a

membro de escritório de advocacia que tenha em seus quadros advogado que individualmente ostente a condição nele prevista, mesmo que não intervenha diretamente no processo.

Comentário

Os casos de impedimento são objetivos. Não se indaga sobre a causa ou o motivo da atuação. Não há necessidade de poderes especiais para o advogado arguir o impedimento.

Atos proferidos por juiz impedido levam nulidade e podem ser atacados por ação rescisória (art. 966, II, CPC).

O juiz deve pronunciar o impedimento de ofício. Pode ser alegado o impedimento por petição simples (art. 146, CPC). Houve extinção do procedimento do CPC de 73, que tratava o caso como de exceção. Não há preclusão.

Há jurisprudência no sentido de que o juiz que apenas ordena a citação na primeira instância não está impedido de julgar a apelação. Se proferiu a decisão de saneamento, não pode julgar o processo em apelação.

Intervenção anterior (inciso I). Se fazia parte do MP, somente está impedido se participou de ato e exteriorizou sua opinião (em matéria penal, no mesmo sentido, Súmula 234, STJ).

Conhecimento em grau anterior de jurisdição (inciso II). Não se aplica se for no mesmo grau. Um juiz pode julgar causas semelhantes, desde que no mesmo grau. Também não se aplica este raciocínio para o cumprimento da sentença que julgou.

Este motivo não se aplica às ações anulatórias e ações rescisórias (art. 966, § 4º e art. 966, CPC) porque são ações autônomas de impugnação. Ver Súmula 252 do STF. Somente estará impedi- do para julgar a ação rescisória, se a ação rescindenda se baseou em impedimento do próprio juiz (art. 966, II, CPC).

Direito Processual Civil – Dos Impedimentos e da Suspeição – Prof. Giuliano Tamagno

Parentesco com defensor público, advogado ou membro do MP (inciso III). Aplica-se a cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, na linha reta, até o terceiro grau.

Parentes consanguíneos: pais, avós, bisavós, trisavós, filhos, netos, bisnetos, trinetos. Inclui-se a adoção para esta finalidade (art. 1626, CC). Parentesco por consanguinidade em linha reta não sofre limitação de graus. Parentesco em linha reta por afinidade limita-se aos filhos e pais do cônjuge ou companheiro (art. 1595, § 1º, CC).

Os graus contam-se na forma do art. 1594 do CC.

Parentes afins: sogro, genro, nora, padrasto, madrasta, enteado.

Juiz como parte (inciso IV). No conceito de parte incluem-se os terceiros.

Juiz como sócio ou membro de pessoa jurídica em cargo de administração ou direção (inciso V). Ver art. 36 da LOMAN. Para associações e fundações, tem de ser membro da direção. Para sociedades, basta ser sócio.

Herdeiro presuntivo, donatário ou empregador (inciso VI). Era causa de suspeição e tornou-se causa de impedimento. Herdeiro pode ser necessário, legatário, testamentário ou beneficiário de encargo.

Relação de emprego com instituição de ensino (inciso VII). Novidade do CPC, motivada pela grande quantidade de juízes envolvidos com o magistério.

Cliente de escritório de advocacia de seu cônjuge ou parente (inciso VIII). Quando mover ação contra a parte ou advogado (inciso X).

A manipulação dos motivos de impedimento leva à litigância de má-fé. Sobre os ministros do STF e TSE, ver súmula 72 do STF. Não há impedimento. Art. 145. Há suspeição do juiz:

I – amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou de seus advogados;

II – que receber presentes de pessoas que tiverem interesse na causa antes ou depois de inicia-

do o processo, que aconselhar alguma das partes acerca do objeto da causa ou que subminis- trar meios para atender às despesas do litígio;

III – quando qualquer das partes for sua credora ou devedora, de seu cônjuge ou companheiro

ou de parentes destes, em linha reta até o terceiro grau, inclusive;

IV – interessado no julgamento do processo em favor de qualquer das partes.

§ 1º Poderá o juiz declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo, sem necessidade de declarar

suas razões.

§ 2º Será ilegítima a alegação de suspeição quando: I – houver sido provocada por quem a alega;

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Comentário

A suspeição gera nulidade relativa do processo. Por essa razão, preclui. O prazo conta-se do art. 146 (15 dias do conhecimento do fato), o que pode ser bem complicado de aferir no caso concreto.

Sentença prolatada por juiz suspeito não impugnado é válida e não cabe ação rescisória. A sus- peição não é pressuposto processual.

Partes e MP podem arguir a suspeição. O polo passivo é a pessoa do juiz. Não é admitida a assistência em suspeição, pois a questão é restrita à parte.

Não é necessária procuração com poderes especiais para arguir a suspeição do juiz.

Amigo íntimo ou inimigo das partes ou de seu advogado (inciso I). São conceitos jurídicos inde- terminados que devem ser demonstrados no processo. O Juiz pode declarar sua suspeição por motivo de foro íntimo, sem necessidade de expor suas razões (art. 145, § 1º, CPC). A antipatia não gera inimizade. Nem o fato do pai do juiz ser inimigo de um das partes e vice-versa.

Presentes ou aconselhamento (inciso II). Devem ter valor significativo. Doação tem carga patri- monial. Os conselhos devem ser dados de forma particular e direcionada. Não se confundem com esclarecimentos de dúvidas em meios de comunicação ou no exercício do magistério. Re- ferir a questão de doações para o foro da comarca, com autorização do Tribunal.

Parte credora ou devedora (inciso III). O juiz não pode julgar a causa tendo interesse no paga- mento de sua dívida.

Interessado na causa (inciso IV). O interesse deve ser próprio e direto, que possa transformá-lo em verdadeira parte processual. Pode ser de natureza econômica ou jurídica em sentido estri- to.

No fundo, a questão de interesse transforma este inciso em um conceito jurídico indetermina- do, que deve ser demonstrado no caso concreto. Uma questão relacionada é o prejulgamento. Evidentemente que o juiz pode fazer considerações sobre o processo, principalmente quando ele não é novidade e já tem algum posicionamento na jurisprudência. Isso não o torna suspei- to. Tampouco o juízo de opinião emitido na tutela de urgência ou de evidência, porque é da própria natureza da cognição sumária.

Também a questão das opiniões doutrinárias expressas em publicações, teses acadêmicas, li- vros de doutrina e de comentários à jurisprudência, palestras, conferências e entrevistas aos meios de comunicação não constituem motivo de suspeição, desde que formuladas em abstra- to. Está dentro do espaço de cidadania do juiz.

Na suspeição por foro íntimo, o juiz não precisa declinar os motivos. Ação idêntica movida pelo próprio juiz é caso de suspeição por interesse.

Art. 146. No prazo de 15 (quinze) dias, a contar do conhecimento do fato, a parte alegará o impe-

dimento ou a suspeição, em petição específica dirigida ao juiz do processo, na qual indicará o fun- damento da recusa, podendo instruí-la com documentos em que se fundar a alegação e com rol de testemunhas.

Direito Processual Civil – Dos Impedimentos e da Suspeição – Prof. Giuliano Tamagno

§ 1º Se reconhecer o impedimento ou a suspeição ao receber a petição, o juiz ordenará imedia-

tamente a remessa dos autos a seu substituto legal, caso contrário, determinará a autuação em apartado da petição e, no prazo de 15 (quinze) dias, apresentará suas razões, acompanhadas de documentos e de rol de testemunhas, se houver, ordenando a remessa do incidente ao tribu- nal.

§ 2º Distribuído o incidente, o relator deverá declarar os seus efeitos, sendo que, se o incidente

for recebido:

I – sem efeito suspensivo, o processo voltará a correr;

II – com efeito suspensivo, o processo permanecerá suspenso até o julgamento do incidente. § 3º Enquanto não for declarado o efeito em que é recebido o incidente ou quando este for rece-

bido com efeito suspensivo, a tutela de urgência será requerida ao substituto legal.

§ 4º Verificando que a alegação de impedimento ou de suspeição é improcedente, o tribunal

rejeitá-la-á.

§ 5º Acolhida a alegação, tratando-se de impedimento ou de manifesta suspeição, o tribunal

condenará o juiz nas custas e remeterá os autos ao seu substituto legal, podendo o juiz recorrer da decisão.

§ 6º Reconhecido o impedimento ou a suspeição, o tribunal fixará o momento a partir do qual o

juiz não poderia ter atuado.

§ 7º O tribunal decretará a nulidade dos atos do juiz, se praticados quando já presente o motivo

de impedimento ou de suspeição.

Comentário

Este é o caso de capacidade postulatória do juiz, que apresentar é suas razões. Quem julga o incidente é o tribunal, no caso de o juiz não acolher as razões de impedimento ou suspeição. Na Justiça do Trabalho, o art. 801 da CLT disciplina a exceção de suspeição. Entretanto, no pri- meiro grau, guardava a sistemática de julgamento pelos demais membros da Junta, o que não existe mais desde a EC 28. Assim, a exceção deverá ser encaminhada à Corregedoria, que desig- nará um juiz para instruir e julgar a exceção. No procedimento sumaríssimo, todas as exceções são julgadas de plano (art. 852 – G, CLT). Se o juiz recusar a exceção, a parte deverá lançar o protesto antipreclusivo para poder renovar as questões em Recurso Ordinário.

Art. 147. Quando 2 (dois) ou mais juízes forem parentes, consanguíneos ou afins, em linha reta ou

colateral, até o terceiro grau, inclusive, o primeiro que conhecer do processo impede que o outro nele atue, caso em que o segundo se escusará, remetendo os autos ao seu substituto legal.

Comentário

Caso especial de impedimento nos tribunais

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I – ao membro do Ministério Público; II – aos auxiliares da justiça;

III – aos demais sujeitos imparciais do processo.

§ 1º A parte interessada deverá arguir o impedimento ou a suspeição, em petição fundamenta-

da e devidamente instruída, na primeira oportunidade em que lhe couber falar nos autos.

§ 2º O juiz mandará processar o incidente em separado e sem suspensão do processo, ouvindo

o arguido no prazo de 15 (quinze) dias e facultando a produção de prova, quando necessária.

§ 3º Nos tribunais, a arguição a que se refere o § 1º será disciplinada pelo regimento interno. § 4º O disposto nos §§ 1º e 2º não se aplica à arguição de impedimento ou de suspeição de

testemunha.

Comentário

Adota-se, no que couber, o mesmo procedimento adotado para o Juiz. Quem julga o incidente é o Juiz.

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