QUADRO 5: PROFESSORES COLABORADORES DA PESQUISA Professor
4. FONTES DA PESQUISA
4.2. DIÁLOGOS POSSÍVEIS: CAMPARTILHANDO EXPERIÊNCIAS
4.2.12. Comentários do professor Marcelo sobre o vídeo do Walber
Tema: Mudança do saber e postura do docente
Prezados Luzia, Maycon, Walber e demais alunos e colaboradores do PIBID,
Primeiramente, gostaria de agradecer ao convite para a realização dessa interlocução que acredito ser muito interessante para todos nós que estamos em constante processo de formação. Para mim, em particular, foi uma ótima oportunidade de, mais uma vez, estar pensando, problematizando e refletindo sobre a formação e profissionalização do professor de matemática.
Julgo importante também iniciar por uma apresentação breve de quem sou e de onde falo, para tentar me fazer compreender melhor. Meu nome é Marcelo, sou doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática, da UNESP de Rio Claro, e membro do Grupo História Oral e Educação Matemática (GHOEM). Nesse grupo, desenvolvemos um estudo historiográfico sobre a formação de professores de Matemática no Brasil. Os meus projetos, especificamente, lançam um olhar para o estado do Rio Grande do Norte e tentam compreender quais fluxos históricos – sociais, pessoais, espaciais e temporais – permitiram e promoveram a formação e atuação de professores de Matemática nesse estado. Então, a partir dessas pesquisas, pensamos a formação do professor de matemática como sendo um acontecimento histórico e que se dá de forma múltipla e em fluxo, sem receitas – no sentido de elaborar compreensões que definam a formação de modo padronizado – e sem pretensão de compreensões totalizantes ou globalizantes, posto que entendemos a formação como sendo sempre subjetiva, sempre pessoal, intransferível.
Essa forma de percepção parece estar muito próxima da compreensão que Walber nos apresenta quando diz, logo no início do vídeo, que os professores possuem “modos de pensar e atuar diferentes” e que “o educador estará sempre em desenvolvimento contínuo”. Hoje, compreendemos e corroboramos essa perspectiva. Ao desenvolvermos nossas pesquisas inseridos no projeto do GHOEM e ao trabalharmos com sujeitos e suas multiplicidades, percebemos como cada um possui esses distintos modos de pensar e agir, bem como, em suas narrativas, ao contarem suas histórias, apresentam os modos como vão se constituindo, se (trans)formando, a partir das diversas experiências que vivenciaram.
Essa perspectiva nos leva ao próximo ponto que destacamos em sua fala, Walber, a de que há muitos “tipos de professores”. Acredito que muitos de nós poderíamos pensar e citar algum professor que tivemos que se enquadra na categoria que você cria de “professor arrogante”, ou seja, aquele que impõe medo, que quer ser o detentor do conhecimento, que não dialoga, não gosta de perguntas, não tira dúvidas. Entretanto, poucas vezes, ou quase nunca, problematizamos ou nos perguntamos o que leva um professor a ter uma postura assim. Será que esse professor não age desse modo, por exemplo, por insegurança? Receio das perguntas ou problematizações? Será que ele não o faz por não se sentir preparado para as aulas? Pela falta de coragem de conversar e pensar junto com os alunos? Ou ainda, por ter sido o modo como ele foi formado? Por acreditar que, agindo assim, terá o respeito da turma? Ou que o medo é um aliado para fazê-lo ter domínio de sala?
Acredito ser importante nos questionar sobre essas posturas para evitar que cometamos os mesmos equívocos, mesmo que inconscientemente. Parece-nos, e aí concordamos contigo, que uma das causas para agir desse modo pode estar relacionada a uma falsa crença de que o professor precisa e/ou deve saber tudo, o que o leva a uma falta de humildade, que você especifica como sendo uma falta de “Humildade pedagógica”. O professor, como agente intermediador da aprendizagem, não necessita saber tudo e deve estar ciente disso, estando predisposto a auxiliar sempre e colocando- se como esse aprendiz constante, que se forma a todo momento e por isso pode aprender também com seus alunos, sendo assim capaz de desenvolver uma atuação em que trabalhem juntos, professores e alunos, para um melhor processo de ensino, como você sugere. Desse modo, o diálogo, o entendimento, a cooperação em sala de aula pode resultar realmente em um envolvimento maior dos alunos, favorecendo para o seu desenvolvimento cognitivo.
Corroboramos mais uma vez com você quando diz que o papel do professore é o de “transformar o ambiente em um lugar mais acolhedor para despertar o interesse nos alunos” e que “o prazer do aluno aprender é cultivado pelo professor”, mas não podemos perder de vista que os alunos, assim como os professores, estão em processo de formação constante e que, devido a isso, também se formam fora do ambiente escolar, indo para a escola com concepções previamente construídas, possuindo verdades e hábitos, muitos deles cristalizados, e tendo seus interesses particulares. Cabe também ao professor, portanto, tentar conhecer esses alunos, suas verdades, e negociar
com elas. Mesmo assim, muitas vezes o esforço dos professores pode parecer inútil. Esses, mesmo buscando e estando abertos a diálogos, podem não conseguir proporcionar esse ambiente favorável à aprendizagem para dados (ou todos) os alunos, mas, acredito, sempre valerá o esforço de tentar, pois, uma ou outra vez, talvez aconteça algo nessas “experiências minúsculas e cotidianas, grandes pela sua própria insignificância, das quais depende que alguma forma de beleza e de sentido se estabeleça, quiçá, no mundo”23.
Sejamos nós, então, a buscarmos proporcionar esses pequenos momentos, muitas vezes aparentemente insignificantes, de (trans)formação dos nossos alunos e de nossas realidades.
Boas discussões e um cordial abraço em todos,
Marcelo Bezerra de Morais
23 LARROSA, J. “Carta aos leitores que vão nascer”. Campinas: 13 julho 2007. Conferencia geral de