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QUADRO 5: PROFESSORES COLABORADORES DA PESQUISA Professor

5. CONSTRUINDO ENREDOS

5.2. FRAGMENTOS IDENTITÁRIOS DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA

5.2.2. Episódio 2 – Constituindo uma identidade, criando uma norma

Neste episódio apresentamos um trecho do sétimo encontro em que foram tematizados o vídeo do Leonardo e o comentário da professora Silvana sobre o tema “O professor, exemplo de ação e postura”. Neste encontro estavam presentes todos os bolsistas, o professor supervisor do PIBID e eu (o pesquisador). Ao refletirem sobre futuras posturas enquanto professores, emerge o seguinte episódio.

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Leonardo: Achei interessante quando a Silvana cita uma das maiores razões que nos trouxe aqui na faculdade, essa fala dela: todos os professores são formadores de professores. Acredito que foi isso que provavelmente trouxe cada um de nós até aqui e quando ela perguntou sobre o exercício adequado da profissão, isso somente na hora que entramos em sala de aula mesmo vamos saber como podemos e vamos atuar, qual postura exercer, claro que temos que levar um pouco de seriedade, porque acima de tudo, estamos um pouco acima do aluno, temos que ter um pouco de autoridade em sala de aula para poder aplicar algumas dinâmicas sem que a ordem seja afetada. Eu considero muito o modelo tradicional, acho que este modelo é uma das portas que podemos abrir o uso da dinâmica, sem ele, não teremos aquela primeira impressão de que estamos na sala de aula para dar o conteúdo, temos que mostrar um pouco de autoridade e é isso que eu fico pensando, acredito que é como eu falei no vídeo, tentativa e erro, só aprenderemos mesmo se tentarmos.

Braz: Acho interessante a fala do Leonardo sobre a postura do professor e o aluno, eu acredito que realmente ele está acima dos alunos, mas em que sentido? Eu acho que o professor é o líder da sala e é isso que eu acredito temos que entender. O líder não é um chefe em sala e isso tem uma grande diferença, o professor tem que assumir uma posição de liderança (porque senão ele perde o domínio da sala e não consegue passar o conteúdo direito) e ser, ao mesmo, tempo alguém aberto para diálogo, não é igual a um chefe que fica em uma sala fechado e que ninguém tem acesso a ele, ninguém fala nada com ele. O professor tem que estar aberto a discussões, por exemplo, uma atividade diferenciada, dando espaço para o aluno desde que não interfira na ordem. Não que o professor vai

acatar tudo que o aluno fala, mas eu acho que o professor tem que estar aberto ao aluno sem perder a liderança em sala de aula.

Stefany: Eu achei muito interessante quando a Silvana falou que todo professor é um formador de professor, porque, querendo ou não, levamos exemplos da graduação e do ensino básico como futuras posturas, quando olhamos e falamos, isso eu achei de bom naquele professor e vou usar em minha carreira e isso não, pois isso eu achei negativo e não vou querer enquanto professor. Isso me fez pensar que realmente nós podemos usar os exemplos que tivemos para ter uma visão diferente e estar aberto ao diálogo, pensar em uma postura melhor em sala de aula.

Endrika: Eu acho que a formação do professor, assim como a professora Silvana e Maycon falaram é sempre contínua, porque nós aprendemos aqui algumas coisas, mas também aprendemos a como buscar e como se virar na escola, isso me fez refletir. Por exemplo, a gente tem que lidar com a educação especial, mas a faculdade não nos forma para trabalhamos com essa “modalidade”, infelizmente, mas eu também nem sei se esse é o intuito, acho que para isso eu precisaria de outra faculdade [risos], mas eu sei onde recorrer, onde pesquisar, qual ordem seguir se eu tiver algum aluno com necessidade especial.

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Neste episódio apresentamos algumas reflexões também sobre a constituição do professor de matemática. Nosso movimento foi buscar em seus discursos a definição da(s) norma(s) às quais o grupo se dirige. Percebemos que - na variedade de discussões não somente nos trechos trazidos acima, mas em todo esse trabalho e no material que não foi possível abordar nessa dissertação – há uma confluência em torno de uma norma: o professor que assume como postura o modelo tradicional de ensino. Ainda que os alunos do PIBID se coloquem no movimento de pensar outras práticas metodológicas ou de avaliação, ainda que discutam a perspectiva de que a prática do professor deve se organizar em torno da construção conjunta de conhecimento, grande parte das ações realizadas ou discutidas são apresentadas por meio de sua diferenciação, ou seja, como atividades diferenciadas em relação a uma norma: o ensino dito tradicional.

Não é raro nos depararmos na comunidade científica com comparações entre uma instituição escolar e uma empresa/fábrica neoliberalista, tal comparação fica evidente na construção discursiva do Braz no episódio acima. A ideia de liderança é fortemente atrelada à organização de uma fábrica para que se tenha mais produtividade e menos gastos (financeiro, tempo, entre outros). Nesse sentido, a função do professor na sala de aula estaria na distribuição de tarefas para que haja certo controle sobre o que e como estariam produzindo.

Em geral, ao dizer algo sobre certas características identitárias de algum grupo cultural, achamos que estamos simplesmente descrevendo uma situação existente, um “fato” do mundo social. O que esquecemos é que aquilo que dizemos faz parte de uma rede mais ampla de atos linguísticos que, seu conjunto, contribui para definir ou reforçar a identidade que supostamente estamos descrevendo (SILVA, 2000, p.68)

Segundo o autor citado, a eficácia da produção de identidade como uma questão de performatividade é dependente de sua incessante repetição. Nesta direção, é importante ressaltar não somente as diversas ocorrências dessa ideia no discurso de Braz, como no de grande parte dos bolsistas quando argumentam ser papel do professor “ter controle” de suas salas. Nesse viés, misturam-se expressões como “liderança”, “autoridade”, “responsável por manter a ordem”, “superior aos alunos porque responsável por implementar e controlar a dinâmica da sala de aula”, “professor tradicional”, entre outras.

Consideramos de fundamental importância perceber a sutileza da fala de Leonardo ao tratar do ensino tradicional: “sem ele, não teremos aquela primeira impressão de que estamos na sala de aula para dar o conteúdo, temos que mostrar um pouco de autoridade”. Essa fala explicita a norma, explicita um campo seguro, conhecido (considerando a maior parte de suas experiências enquanto aluno) a partir do qual o professor pode buscar implementar pequenas diferenciações. “A partir” porque, na discussão acima apresentada, ficam evidentes os “ganhos” atribuídos a essa perspectiva de ensino: a perspectiva tradicional mostraria um compromisso do professor com o conteúdo e implementaria uma dinâmica de controle que evidencia a autoridade docente, elementos considerados fundamentais à sua atuação.

Cabe aqui ressaltar que não estamos querendo valorar um modelo ou outro, mas sim destacar fragmentos identitários do professor de matemática. Acreditamos que todos os modelos de ensino têm seus pontos positivos e negativos e estes não são fixos, mas

circunstanciais. Aline46, por exemplo, sempre gostou de aulas com modelo de ensino

tradicional, com livros e sala organizada; Raissa47 teve alguns professores que eram

rígidos e que aparentemente se demonstravam nervosos, “mas [os professores] só queriam que nós, alunos, nos tornássemos pessoas pensantes e com poder de decisões sábias. Eles transmitiam confiança e amor pelo que falavam”48. Endrika,49 por sua vez, ao tentar

relembrar de algumas experiências com seus professores de matemática traz à cena o “método tradicional” de ensino. Nesse sentido, ao tentar fugir desse modelo (que, junto com os outros bolsistas, critica em diferentes momentos), aproxima-se de uma visão construcionista, acreditando que com esta perspectiva, as aulas de matemática seriam mais eficazes. Cabe destacar no episódio acima, a construção discursiva de Stefany50,

quando afirma que os bons professores servirão de exemplos para futuras práticas profissionais enquanto professora de matemática. Segundo Silva (2000), esse é um movimento de produção identitária que comumente acontece, ou seja, àquilo que eu sou ou gostaria de ser é sempre colocado um aspecto positivo, enquanto aquilo que não sou ou não quero ser recebe uma carga negativa, no sentido de produção de significado. Nesse viés, para nós, produzir uma identidade é também produzir significado. Tomaz Tadeu da Silva chama atenção sobre esse movimento de produção identitária, acreditando que este pode ser problematizado, pois não faz sentido valorar algo que eu não sou e/ou não gostaria de ser como algo com aspecto negativo.

Na direção de problematizar a diferença, trazida por Braz51 em seu vídeo, entre o

“professor tradicional” e o “professor educador”, o professor Fernando Cury52 afirma que

o problema não está em qual desses dois tipos devemos escolher para ministrarmos nossas aulas, mas em alguns professores que estão lecionando acreditarem que seus respectivos alunos são “alunos ideais”, algo que não existe. Nesse sentido, esses alunos ideais seriam a norma, mas assim como afirma o professor Fernando Cury, “A heterogeneidade de qualquer classe implica em pessoas diferentes, com diferentes valores, diferentes interesses, diferentes formas e aprender etc. Além disso, é dependendo da diversidade de alunos que se apresentam em cada classe que o professor deve buscar sentidos socioculturais para os conteúdos que devem ser ministrados”.

46 (auto)biografia da Aline.

47 (auto)biografia do Raissa.

48 Trecho retirado da (auto)biografia de Raissa, p.108. 49 (auto)biografia da Raissa.

50 (auto)biografia da Stefany.

51 Vídeo do Braz sobre o tema “Diferença entre ser professor e educador” 52 Comentário do professor Fernando Guedes Cury sobre o vídeo do Braz

Essa discussão assinala para ao menos dois fatores importantes de serem discutidos na formação de professores: i) não faz sentido criar e polarizar as figuras do educador e do professor tradicional, pois o que existe é o professor que tem ações e reações diversas, contraditórias por ser, também ele, múltiplo; ii) o significado de insistirmos em falsear como norma a homogeneidade (que fundamenta a prova comum, o método comum, entre outros) quando as salas de aula reforçam a todo momento as diferenças existentes.

5.2.3. Episódio 3 – PROFESSOR DE MATEMÁTICA: uma identidade

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