127 Dentro da mesma temática, 84,9% dos respondentes concordam parcialmente ou totalmente sobre a existência de forte cobrança de produtividade e 80,8% também concorda que, nos últimos anos, a pressão por produtividade aumentou na instituição. Ainda que o ritmo do trabalho se demonstre como intenso, observamos que uma significativa parcela dos respondentes (46,5%) concordaram parcialmente ou totalmente que as metas e prazos instituídos são possíveis de serem alcançados. A tabela 29 permite visualizar os dados obtidos.
Tabela 29: Demandas externas Demandas
externas
Discordo totalmente
Discordo
parcialmente Neutro Concordo parcialmente
Concordo totalmente O trabalho
acadêmico tem ritmo intenso e extensas jornadas
0 5
(5,1%)
2 (2,0%)
29 (29,3%)
63 (63,6%) As metas e os
prazos estipulados são possíveis de serem alcançados
9 (9,1%)
23 (23,2%)
21 (21,2%)
38 (38,4%)
8 (8,1%) Existe forte
cobrança por resultados de produtividade
(publicações, congressos etc.)
2 (2,0%)
2 (2,0%)
11 (11,1%)
25 (25,3%)
59 (59,6%)
Nos últimos anos, a pressão por produtividade aumentou
1 (1,0%)
3 (3%)
15 (15,2%)
34 (34,3%)
46 (46,5%) Fonte: Questionário elaborado pela pesquisadora, 2021.
6.3 COMO ABSORVER O CONTEXTO? PRENÚNCIOS SOBRE AS VIVÊNCIAS DE
128 Todavia, essa transformação acontece apenas se houver condições propícias para o seu acontecimento. A transformação não depende apenas do sujeito que trabalha, mas sim da lógica coletiva instituída no trabalhar junto, do convívio estabelecido no real do trabalho. É a partir da realidade da organização de trabalho que é possível observar o grau de autonomia e possibilidade de diálogo que o sujeito possui para transformar esse sofrimento em prazer.
Depende, ademais, de alguns agentes externos. A saúde está ligada a esse poder de negociação, que muitas vezes é negligenciado pelas organizações. O trabalho, a depender de suas formas estabelecidas no coletivo, pode estimular diversos sentidos na atividade do trabalhar, seja pela via da emancipação e da auto realização do sujeito, seja pela via da alienação, servidão voluntária e captura da subjetividade.
É dentro desse escopo que buscamos captar algumas pistas das vivências dos estudantes e pedimos que os respondentes elencassem os 3 principais elementos que lhe oferecem mais prazer e sofrimento no âmbito do trabalho acadêmico. Dentre os itens direcionados ao campo do prazer destacam-se o aprendizado no processo da pós-graduação (80,8%); o assunto da pesquisa (51,5%) e por fim, os desafios embutidos na atividade (40,4%).
Dentre os elementos que os pós-graduandos destacam ser fonte de sofrimento, ressalta-se a falta de perspectivas para o futuro (62,6%), a falta de investimento e estrutura (53,5%) e desvalorização social (48,5%). As tabelas 30 e 31 permitem visualizar os dados obtidos.
Tabela 30: Fontes de prazer
Resposta Respostas Ratio
Valorização social 7 7,1%
Recursos de trabalho 2 2,0%
Aprendizado 80 80,8%
Relação com os professores 5 5,1%
Relação com o orientador 24 24,2%
Relação com os demais discentes 13 13,1%
Autonomia 28 28,3%
Desafios 40 40,4%
Relevância social 20 20,2%
Assunto da pesquisa 51 51,5%
Pertencimento grupal 6 6,1%
Perspectiva para o futuro 14 14,1%
Outro 1 1,0%
Fonte: Questionário elaborado pela pesquisadora, 2021.
129 Tabela 31: Fontes de Sofrimento
Resposta Respostas Ratio
Desvalorização social 48 48,5%
Falta de bolsa 32 32,3%
Falta de investimento, estrutura 53 53,5%
Relação com os professores 0 0,0%
Relação com o orientador 14 14,1%
Relação com os demais discentes 1 1,0%
Relação com a coordenação 5 5,1%
Metas e prazos inflexíveis 13 13,1%
Cobrança excessiva 18 18,2%
Tema da pesquisa 4 4,0%
Competitividade exacerbada 9 9,1%
Assédio moral/sexual 7 7,1%
Falta de perspectivas para o futuro 62 62,6%
Sentimento de não pertencimento grupal
12 12,1%
Outro 11 11,1%
Fonte: Questionário elaborado pela pesquisadora, 2021.
Para além dos fatores do prazer e sofrimento, também buscamos identificar de que forma os pós-graduandos internalizam as demandas externas do ambiente de pós-graduação, bem como alguns indícios das formas como lidam com tais demandas. A partir disso, podemos visualizar as impressões e captar resumidamente as percepções e as formas como vinham lidando com o ambiente.
Tal como foi indicado na tabela 32, cerca de 64% dos respondentes declararam conseguir alcançar os resultados previstos, indicando uma maior concentração de respostas neste tópico. No entanto, tal concretude também é acompanhada das sensações de sobrecarga, sendo considerado um dos fatores mais salientados ao longo do questionário, haja vista que 69,7% dos respondentes concordam totalmente ou parcialmente com a ocorrência de sensação de sobrecarga no decorrer das atividades que, por sua vez, é acompanhada da sensação da falta de tempo de conciliar com outras atividades. Cerca de 67% dos respondentes concordaram sobre a difícil conciliação entre o trabalho acadêmico e demais atividades que consideram importantes. A tabela 32 permite visualizar os dados obtidos.
130 Tabela 32: Absorção das demandas (sobrecarga)
INTROJEÇÃO DAS DEMANDAS
Discordo totalmente
Discordo
parcialmente Neutro Concordo parcialmente
Concordo totalmente Sinto que consigo
alcançar os resultados previstos
6 (6,1%)
11 (11,1%)
19 (19,2%)
50 (50,5%)
13 (13,1%) Me sinto
sobrecarregado(a)
2 (2,0%)
11 (11,1%)
17 (17,2%)
33 (33,3%)
36 (36,4%) Falta tempo para
realizar pausas de descanso e conciliar outras atividades que
considero importantes
2 (2,0%)
14 (14,1%)
17 (17,2%)
26 (26,3%)
40 (40,4%)
Submeter meu trabalho a decisões
políticas é fonte de desânimo
5 (5,1%)
11 (11,1%)
16 (16,2%)
16 (16,2%)
51 (51,5%) Fonte: Questionário elaborado pela pesquisadora, 2021.
● Reconhecimento
O conceito de reconhecimento do trabalho é central na abordagem da psicodinâmica do trabalho para introduzir a questão de que o sujeito se constrói apenas a partir do reconhecimento, isto é, da retribuição simbólica de um outro para que o sujeito veja sentido em suas ações e nos seus modos de realização do trabalho. É uma forma de validação e legitimação das ações e do saber fazer de um sujeito conferidas por um outro sujeito e pela gestão e organização do trabalho.
Ademais, ele é considerado um elemento central para a efetiva transformação do sofrimento em prazer no trabalho, pois essa validação possui objetivo de dar sentido à vivência do sofrimento, isto é, de constatar que a experiência de constrangimento não foi em vão e que foram dados encaminhamentos significativos os para que esse sofrimento tenha sido contornado de uma maneira suficiente, de forma a contribuir para sua visibilidade.
Juntamente com a organização do trabalho, nos preocupamos em inserir agentes que se encontram à parte do cotidiano de trabalho dos pós-graduandos, contudo exercem forte influência nas vivências materiais e simbólicas dos estudantes, são eles: os governantes, sociedade, amigos e familiares. Isto posto, o questionário realizou um levantamento das considerações dos pesquisadores estudantes de pós-graduação no tocante ao reconhecimento recebido pela sociedade, governantes, instituição, orientador, discentes, familiares e amigos.
Contatou-se que a ampla maioria dos pós-graduandos retêm um maior retorno do seu trabalho por parte dos orientadores, seguido dos familiares. Os aspectos em que foram
131 destacados os menores índices de reconhecimento adveio dos governantes, em primeiro lugar, haja vista que 74,7% dos respondentes julgam como ruim o reconhecimento concedido por esse nicho. Por conseguinte, a segunda maior falta de reconhecimento, dentro das considerações dos pós-graduandos, advém da sociedade, corroborando com a pesquisa de Funk, Tyson e Kennedy (2020).
Tabela 33: Avaliações de reconhecimento:
Resposta Ótimo Bom Regular Ruim
Sociedade 3 (3,0%) 18 (18,2%) 40 (40,4%) 38 (38,4%)
Governantes 0 8 (8,1%) 17 (17,2%) 74 (74,7%)
Instituição 19 (19,2%) 47 (47,5%) 23 (23,2%) 10 (10,1%)
Orientador 50 (50,5%) 38 (38,4%) 8 (8,1%) 3 (3,0%)
Outros discentes 32 (32,3%) 40 (40,4%) 21 (21,2%) 6 (6,1%) Familiares 39 (39,4%) 27 (27,3%) 16 (16,2%) 17 (17,2%)
Amigos 37 (37,4%) 38 (38,4%) 16 (16,2%) 8 (8,1%)
Fonte: Questionário elaborado pela pesquisadora, 2021.
6.4 QUANDO O CORPO TRANSBORDA: INDICADORES DO ADOECIMENTO