7.6 FORMAS DE INTERNALIZAÇÃO DO CONTEXTO
7.6.1 Sofrimentos e percalços
169 medo pela perda do lugar, o que tende a desencadear um modo de sociabilidade mais isolado e competitivo. Como consequência, podem ser encontradas um conjunto de dissonâncias entre a expectativa dos estudantes e a realidade que lhes é apresentada, o que tende a produzir uma série de consequências emocionais e psicológicas.
Um dos desfechos desse cenário, tal como citado por E5, diz respeito a um ambiente de individualismo, principalmente em função de alegar ser um trabalho mais solitário.
Então essa individualidade da pesquisa é uma coisa que era já contrária ao meu crer, meu. Eu fiz o que deu, tentei esticar meus braços onde deu, mas de fato a gente tinha uma camisa de força bastante rígida em volta né? (E5, 2021)
170 consequência da combinação entre o sujeito (com seus desejos, simbolizações, necessidades físicas e psicológicas) e a convivência estabelecida a partir da organização de trabalho. A transformação do sofrimento em prazer é caracterizada pela engenhosidade e criatividade do trabalhador em conseguir contornar as situações de constrangimento e conquistar a superação sobre a resistência do real.
Todavia, essa transformação acontece apenas se houver condições propícias para o seu acontecimento. A transformação não depende apenas do sujeito que trabalha, mas sim da lógica coletiva instituída no trabalhar junto e do convívio estabelecido no real do trabalho. É a partir da realidade da organização de trabalho que é possível observar o grau de autonomia e possibilidade de diálogo que o sujeito possui para transformar esse sofrimento em prazer. A saúde está ligada a esse poder de negociação, que muitas vezes é negligenciado pelas organizações. O trabalho, a depender de suas formas estabelecidas no coletivo, pode estimular diversos sentidos na atividade do trabalhar, seja pela via da emancipação e da auto realização do sujeito, seja pela via da alienação, servidão voluntária e captura da subjetividade.
Mendes (2009) elucida sobre os perigos de uma organização do trabalho que entra em contradição com os princípios de saúde dos trabalhadores:
Quando impera a impossibilidade de negociação, tornam-se mais problemáticas a superação do sofrimento e a resistência dos trabalhadores. A evolução, frequência e características desse sofrimento mal enfrentado, com o passar do tempo, podem traduzir-se em comportamentos patológicos, como a violência no trabalho e as práticas do assédio moral. Nesse sentido, é necessário que o sofrimento provocado nos trabalhadores em decorrência das contradições da organização do trabalho seja desvelado, com o objetivo de identificar-se o mal que o gerou, à medida que foi disfarçado até o momento em que se transformou em sofrimento. (MENDES, 2009, p. 14)
Atendo-se à necessidade de nomeação do sofrimento, a presente seção visa desvelar os maiores empecilhos encontrados pelos pós-graduandos ao longo do seu percurso no Instituto.
Dentre as descrições e falas captadas ao longo da coleta de dados, demos destaques a três elementos mais citados: o fator financeiro, a pressão vivenciada pelos estudantes, e a falta de suporte percebida ao longo do processo formativo.
A pressão vivenciada pelos estudantes deriva do excesso de esforços pela produtividade e excelência, localizada nos fatores intrínsecos à atividade acadêmica e ao clima como a atividade é desempenhada. Nesse aspecto, os estudantes relatam longas jornadas de atividades, aliadas a um clima de pressão constante. Nas palavras de Samara, estas características refletem em uma objetificação dos pós-graduandos, os quais são comumente tratados como máquinas.
171 Então eles enxergam a gente como máquinas que tem que produzir, produzir, produzir. Tem que fazer, fazer, fazer e que não quebram.
Raríssimos os professores enxergam a gente de outra forma. É raro quando enxerga a gente como ser humano. (...) É uma cobrança absurda.
Eles cobram que uma coisa que eu acho eu entendo, mas eu acho que não vale a cobrança. (SAMARA, 2021)
Beatriz também relata que existe um clima de cobrança e relata que a atividade acadêmica costuma ser integral, sobretudo nos finais de semana, característica que dificulta a conciliação de lazer-trabalho. Relata também que observa como a rotina costuma ser naturalizada, no entanto, hoje em dia não a considera mais como normal.
Tem uma cobrança, assim, quase que de trabalho integral, sabe? Tem vezes até que o final de semana é uma loucura, e agora que eu não estou lá, parece que eu vejo mais, sabe? Que não é normal. Não é normal.
Sabe? Trabalhar todo tempo e ser cobrada por isso. Porque uma coisa é você se dedicar. Eu quero trabalhar no final de semana. Eu vou lá, pego meu computador e trabalho em casa. Mas outra coisa é o seu orientador te mandar mensagem, sabe, o domingo de manhã, né? Perguntando:
“olha, você pode me passar isso daqui?”. Eu... Não é normal.
(BEATRIZ, 2021)
Dentro desse mesmo escopo, Beatriz traz algumas inseguranças se estaria realizando o trabalho com a devida qualidade que almejava.
A gente tem que fazer alguma coisa rápida, de qualidade, tem que publicar artigo, e então traz uma insegurança grande, assim, mas isso é mestrado, né? (BEATRIZ, 2021)
E5 também sinalizou que, por vezes, também compartilhou do mesmo sentimento, É medo de incapacidade, é medo de não aceitação, é medo de subordinação. E tu fala: putz, você vai ter que ser subordinado, né? Vou ter que ser um escravo a isso, ao sistema, ao grupo, né? Será que é isso?
Que é o que eles querem, né? Então são várias sensações, assim, bastante, bastante tristes, né? (E5, 2021)
Não só de vestimenta, mas de fala, de comportamento, de entrega, de coisas em dados, em artigos, ser os primeiros, as notas que tem que ser no nível A, senão você não tem direito a nada ali dentro. (PANTERA) As preocupações de produtividade se mesclam com os fatores financeiros. Os estudantes, por vezes, vêm despendendo energias excessivas para a realização da atividade acadêmica. No entanto, não encontram retribuições materiais que contrabalanceiam ou fornecem fundamentos para a continuação da mesma. Alega-se que os pós-graduandos são
172 submetidos a situações que não deveriam vivenciar, levando em conta a instabilidade de bolsas e a perda aquisitiva.
O que é mais estressante é essa insegurança de não ter uma continuidade. E o mesmo motivo é que a gente tem família né? Tem que cuidar da família. Eu estou com 42 eu fiz agora em novembro 42.
(...) Então essa insegurança né que tá fazendo a gente procurar outras coisas. A gente já não tem todos os direitos da CLT. Se você comparar os valores de bolsa com o mercado, já são mais baixos. Então, isso complica e muito. (JOHN, 2021)
Eu acho que uma das grandes questões são as desvalorizações financeiras. Eu acho que a gente, assim, passa por situações que a gente não merecia passar, sabe? E outra coisa que agrava essas situações, eu acho que eu vou sempre citar isso na nossa entrevista. É o fato do Inpe não ser uma universidade. Por que uma universidade está preparada para receber alunos. Então, ela tem política de permanência. (TONY, 2021)
Boa parte do contexto vivenciado pelos pós-graduandos diz respeito às bolsas de pesquisa, as quais vêm se tornando mais escassas ao longo do tempo. Tal como foi mencionado pelos pós-graduandos, os cortes das bolsas são elementos que passaram a compor a rotina dos mesmos nos últimos anos. Nesse sentido, ele é narrado como um elemento relevante, que possui certo destaque por ser um desencadeador de sofrimento para os pós-graduandos. A instabilidade e a fixação no futuro fazem com que uma zona de ansiedade seja instaurada, bem como condensa uma série de efeitos nefastos em relação ao contato no presente com a pesquisa.
Trouxe mais insegurança pra mim e para as pessoas que eu trabalho também, e isso me afeta, né? Insegurança de se no próximo mês... A gente passou por isso, né? Se o próximo mês vão cortar as bolsas, se vai ter dinheiro pra gente comprar os reagentes que precisa ainda para pesquisa. Isso traz muita insegurança. (BEATRIZ, 2021)
O contexto gera, nos pós-graduandos, um medo constante pela perda do lugar, assim como o receio pelo futuro de si mesmo e dos colegas. Traçando uma linha de raciocínio da representação da bolsa na vida de um pós-graduando, pode-se concluir que ela dispõe de dois eixos norteadores: um eixo representado pela condição material e o eixo simbólico. A primeira refere-se a contrapartida monetária como uma forma de suporte material para a realização das tarefas vinculadas à pesquisa, sendo também bastante enfatizada como um salário que é fruto da trajetória formativa do pesquisador, de utilidade técnica, social e econômica que discorre sobre o trabalho realizado no seu aproveitamento geral, sua valoração, sua serventia. Por outro
173 lado, tal reconhecimento proporcionado pela bolsa também impacta na própria identidade do pesquisador.
Nesse sentido, a bolsa atua como uma forma de reconhecimento, isto é, uma espécie de retribuição simbólica, por meio da qual os sujeitos veem sentido em suas ações, em suas trajetórias e na forma como realizam seu trabalho (LIMA, 2013). É uma forma de validação das ações desenvolvidas pelo sujeito. Essa validação pode dar sentido às experiências dolorosas, bem como expressar que experiências constrangedoras não foram em vão, haja vista que foram propiciadas condições relevantes para a transformação do sofrimento em prazer. Quando a mediação sociabilidade-subjetividade funciona por meio do trabalho, ele "toma uma forma específica de sublimação", caso contrário, há situações "anti-sublimação" que são
"desfavoráveis à construção da identidade" (DEJOURS, 2004, p. 169). A falta de reconhecimento promovida nos cortes de bolsas pode desencadear uma série de dissonâncias entre o projeto de vida que o pós-graduando vislumbra é a realidade em que se encontram.
Tony, numa linha de raciocínio semelhante, infere que, por vezes, a atividade acadêmica é impregnada de pressões em decorrência da produtividade, tal qual estudado por Squissardi e Silva (2009). Contudo, as retribuições materiais e simbólicas que atuam como base para que o sentido se faça ressoar, muitas vezes, não são acompanhados nas rotinas dos estudantes. Tony ressalta que tais recursos vêm se tornando cada vez mais escassos e ressalta uma certa preocupação em relação às novas gerações que estão adentrando na vida acadêmica.
O pessoal também está super preocupado. Os laboratórios já estão meio sucateados. Já tem poucos, né? Alunos. E agora sem bolsa? Fica pior ainda, né? E a gente sabe que aqui no Brasil, o professor precisa de produção, né? Se ele não tem produção, ele não recebe por
produção, ele perde contagem de pontos. (JOHN, 2021) E5 também sinaliza a falta de reconhecimento.
Então, às vezes, a gente, às vezes não, a gente sempre via o quê?
Deadline, deadline, deadline, cobrança, cobrança, cobrança, Você fala, beleza, mas cadê o feedback? Cadê o apoio para você tá me dando essa cobrança? Então, a gente tinha um descompasso muito grande entre a cobrança e feedback, né? E aquele suporte técnico, um suporte social muito grande assim. Então... (E5, 2021)
A falta de apoio social e didático, nas palavras de Beatriz, gera uma dúvida constante.
A maior dificuldade que eu tenho hoje mesmo é fazer ciência de qualidade, sabe? Porque eu acho que de todas as experiências que eu tive até hoje em vários projetos, a gente não tem essa certeza de que está fazendo ciência de verdade, sabe? (BEATRIZ, 2021)
174 A falta de apoio social e didático também aparece como um elemento impeditivo para que os estudantes alcancem rotas alternativas e saudáveis para si mesmos. Os pós-graduandos relatam que existe um alinhamento cultural entre aprendizado e sofrimento.
Então, se quer ser pesquisadora, a gente tem que aprender que deve trabalhar com a dor, sabe? (PANTERA, 2021)
É, e eles acham que parte do sofrimento é parte da aprendizagem. E eu acho extremamente abusivo, abusivo esse pensamento. “Ah, porque tem que aprender, tem que sofrer para poder aprender, faz parte da aprendizagem”. “Eu passei por isso, você aprende assim”
Então, a gente, eu procuro fazer da melhor forma possível, tendo meio que ignorar as coisas que os problemas né? E fazer o que é necessário.
(SAMARA, 2021)
Primeiro foi política interna e essa política ... quando eu falo política, eu quero dizer da forma como você interage, como a equipe de docentes ou ao menos ditos docentes. Reforço isso porque eu não considero alguns necessariamente docentes, com aquela palavrinha professor. São grandes pesquisadores, são grandes profissionais, são grandes conhecedores do assunto, mas eu não sei se a palavra professor caberia necessariamente. Então, pode ser um ponto delicado aí. (E5, 2021) Os estudantes sinalizam que o sentimento de desamparo é tratado como uma condição necessária para o aprendizado. Muitos dos estudantes se vangloriam por ter capacidade suficiente de realizar seus trabalhos por conta própria. Relata-se que tal característica é passada de geração em geração, o que vem garantindo com que uma cultura que admite a sintonia direta entre aprendizado e sofrimento seja perpetuada.
A partir dos relatos dos pós-graduandos, constatamos que a conjuntura de incertezas advindas do subfinanciamento na ciência e tecnologia tem desencadeado uma desestabilização quanto a suas experiências na rotina acadêmica. Segundo relatos, os pós-graduandos, por vezes, se veem num cenário de incertezas frente às adversidades atuais.