Elyse Fitzpatrick1
“Pastor, espero que o senhor possa me ajudar”, disse Janice, uma jovem senhora de 35 anos, casada e mãe de dois filhos. Ela é membro da igreja, leciona em uma escola cristã e parece ter uma vida piedo- sa. O marido é diácono, e eles aparentam manter uma vida familiar cristã. Ainda assim, vez ou outra, percebe-se que ela está deprimida. Certa vez, ela teve uma explosão inesperada de ira, presenciada por pessoas da igreja.
“Veja só”, ela continua, começando a chorar de mansinho, “eu tenho um proble- ma. É o meu peso. Parece que estou en- gordando cada vez mais; quanto mais re- gime eu faço, pior fica. O médico diz que estou vinte e cinco quilos acima do peso, e não há causa orgânica para isso. Mas este ainda não é o problema maior. Meu mari-
1Tradução e adaptação de Helping Overeaters Pu-
blicado emThe Journal of Biblical Counseling v. 11, n.1, Fali 1993, p. 51-56.
Elyse Fitzpatrick pertence à equipe do Institute of Biblical Counseling, na Califórnia. Parte importan- te de seu ministério é o programa“Vasos Raros” que
ajuda mulheres com problemas alimentares.
do está muito insatisfeito comigo e eu não quero mais manter relações sexuais com ele. Estou com muita vergonha da minha aparência. Nem mesmo quero que ele to- que em mim. Eu não quero mais vir à igre- ja. Recusei-me a participar do jantar de
confraternização na semana passada, pois eu não queria que ninguém me visse co- mendo. Eu realmente tenho tentado fazer regime e gasto muito dinheiro com alguns deles. Mas nunca persevero por mais de uma semana ou duas, e depois ganho de volta todo o peso. Às vezes, simplesmente desisto e penso que o Senhor não se im- porta com o tamanho de roupa que uso. Outras vezes, sinto-me culpada e horrível em minha aparência. Eu sei que Ele não poderia me amar. Eu oro, vez após vez, mas nada parece mudar. O senhor acha que pode me ajudar, pastor?”
Quais são os mandamentos bíblicos relacionados com alimentação, regimes e peso? Quais os verdadeiros problemas de Janice? O Senhor se importa com o fato dela estar vinte e cinco quilos acima do peso? Você deve encaminhá-la a um gru- po de Vigilantes do Peso?
Estabelecer alvos bíblicos com rela- Estabelecer alvos bíblicos com rela- ção a comer e fazer regime
ção a comer e fazer regime
Quais são os alvos bíblicos no que diz respeito a comer e fazer regime? Existem mandamentos diretamente relacionados a este assunto? Primeiramente, vamos dei- xar claro que não há nas Escrituras ne- nhum mandamento direto ou implícito para ser magra. A “magreza” não é um man- damento nem uma recomendação bíblica. Não há promessas de um “corpo esbelto” para aquelas que amam a Cristo. Concluí- mos, portanto, que a “magreza” não é um alvo bíblico. Perder peso para “sentir-se melhor” a respeito de si mesma não é uma iniciativa abençoada. Mas se “magreza” não é o alvo certo, como lidar com o pro- blema de comer exageradamente? Duran- te o primeiro encontro de aconselhamen- to, o conselheiro precisa reajustar os pro- pósitos de Janice. Ela deve perceber que um dos seus problemas básicos é estar preocupada principalmente com a aparên- cia, enquanto Deus está preocupado com o coração (1 Sm 16.7) .
Janice precisa mudar os seus alvos. O único alvo central aceitável para um cris- tão é agradar a Deus. Ela também preci- sa aprender a ter o desejo dominante de agradar a Deus em tudo quanto faz: “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a Glória de Deus” (1 Co 10.31). Ela precisa aprender a comer e a de fato viver cada aspecto da sua vida para agradar a Deus e não a si mesma. Você não ajudará Janice se sim- plesmente supervisionar uma perda de peso, e se ela trocar o pecado da glutona- ria e auto-indulgência pelo pecado do or- gulho e vaidade. Ter uma aparência de modelo não é um alvo santo; conformar- se à imagem de Cristo, sim. Se Janice es- tabelecer como prioridade qualquer outro
alvo que não seja a glória de Deus, ela deixará de alcançar as mudanças que são realmente importantes e permanentes. O que isto significa especificamente? Aprender a ser auto-disciplinada e Aprender a ser auto-disciplinada e grata
grata
Em segundo lugar, Janice deve come- çar a se disciplinar. Ela precisa aprender a abandonar os seus hábitos alimentares antigos que envolvem motivações, quanti- dades de alimento e horários não apropria- dos. Ela precisa aprender a adquirir hábi- tos novos de moderação e gratidão. Estes são os propósitos novos que Deus quer que Janice trabalhe para alcançar. Gálatas 5 fala em auto-indulgência e, em seguida, fala em autocontrole como evidência da obra do Espirito na vida do crente. Você deve encorajar Janice, lembrando-a de que ela dispõe da ajuda do Espirito Santo para este projeto, desde que esteja lutando pe- los alvos certos. Não é de fato uma ques- tão de controle de peso ou de alcançar aquele “número ideal”, mas de sujeitar cada aspecto da sua vida ao senhorio de Cristo. “Eu quero ser auto-disciplinada para glorificar a Deus” seria uma decla- ração apropriada.
Mais adiante, você deve ensiná-la a ser grata por tudo quanto come, em lugar de murmurar sobre a qualidade ou quanti- dade. I Timóteo 4. 3-5 manda-nos ser gra- tos e orar antes de comer. Ela deve se comprometer a orar e agradecer antes de comer qualquer coisa, tendo em vista dois objetivos: primeiro, ela terá tempo para aquietar seu coração antes de “avançar” no alimento; segundo, ela encontrará difi- culdade em agradecer a Deus por algo que já sabe que não deve comer.
A auto-disciplina, com coração grato, é um dos frutos da mudança que o Espiri-
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to está operando na natureza de Janice. Como filha de Deus, ela não deve se sub- meter a nenhum tipo de escravidão— nem mesmo à comida. Romanos 6.16 declara com clareza que ceder continuamente ao pecado resulta em escravidão — a pes- soa passa a ser dominada pelo seu hábito alimentar pecaminoso. Mediante a cruz e Seu Espirito, Cristo abriu um caminho para libertá-la desta escravidão e fazê-la serva de Deus. As velhas amarras da alimenta- ção descontrolada podem ser substituídas por uma alimentação controlada e por gra- tidão. Mudança verdadeira envolverá bas- tante esforço da parte de Janice.
Tudo na vida é santo Tudo na vida é santo
Você precisa treinar Janice para ver a vida em seu todo como santa ou separada para Deus. Muitas vezes os cristãos con- sideram santas somente as suas obriga- ções “religiosas” (ir à igreja, ler a Bíblia etc.). Porém Deus olha para todas as áreas da vida — da mais corriqueira e se- cular à mais “religiosa” — como vividas em fé e submissão ao Seu domínio ou em rebeldia e incredulidade. É algo de suma importância o fato de Janice comer um doce ao invés de se voltar para o Senhor em busca de refúgio quando está sob pres- são, deprimida ou entediada. Deus está interessado no que ela come e no porquê come. Janice está obcecada por comida, peso e aparência. Deus quer abrir os seus olhos para muitas outras coisas a respeito de si mesma e dEle.
A maioria das pessoas que comem excessivamente tem as mesmas motiva- ções controladoras que qualquer outra pessoa auto-indulgente, em especial os desejos de receber aprovação, sentir-se bem ou sentir prazer e conforto. Por exem- plo, se Janice está frustrada por não rece-
ber a aceitação que deseja (não se trata de uma “necessidade” legítima), o prazer que ela sente comendo em excesso pode lhe proporcionar um conforto imediato de modo “semi-legítimo”. Em boa parte do meio cristão, a glutonaria não é vista como pecado. O resultado final desta gratifica- ção imediata pode ser, no entanto, maior ansiedade, isolamento e falta de aceitação (especialmente se ela estiver muito acima de seu peso). O ciclo se repete vez após vez. A verdadeira comunhão e o compa- nheirismo com Deus e outras pessoas fica impedido quando se vive em pecado (1 Jo 1.7). Como conselheiro ou conselheira, além de trabalhar com os hábitos exter- nos e óbvios, você deve investir tempo na descoberta das motivações básicas e dos “ídolos” do coração.
Ter como alvo um arrependimento Ter como alvo um arrependimento abrangente
abrangente
Um plano bíblico de ação traz à tona motivações não-bíblicas, orienta a atenção para os alvos bíblicos e traz à luz os dese- jos idólatras da carne. Este todo lança Ja- nice em direção ao chamado de Deus ao arrependimento, fé e mudança genuína. Mas Janice tem urna visão superficial de arrependimento e confissão: “Eu me sinto mal por ter comido os biscoitos; por favor, ajude-me”. Tal arrependimento é vago com relação ao que realmente está erra- do, vago com relação à graça de Cristo e vago com relação aos alvos de mudança. Janice obviamente “sente-se mal” por co- mer em excesso, ganhar peso e precisar comprar roupas de tamanho maior. Mas a sua versão de arrependimento assemelha- se mais a uma tristeza do mundo, que leva à morte, do que a uma tristeza segundo Deus, que leva à vida, alegria e força para mudar (2 Co 7.9,10 ).
A auto-indulgência de Janice na ali- mentação é a ponta do icebergue dos seus pecados. Janice luta com a preocupação e estabelece um círculo vicioso comendo em excesso para aliviar o desconforto des- ta preocupação, e depois preocupando-se por comer excessivamente. Ela não sabe lidar com as pressões da vida, converte- as em estresse e come para aliviar o es- tresse. Janice costuma ficar entediada, sentar-se em frente à televisão e comer sem estar ciente do que faz e sem sequer sentir o gosto da comida. Ela age movida pelo egocentrismo, deixando de se preo- cupar com o dinheiro que desperdiça em lanchonetes ou com o quanto sua família sofre ao ouvi-la reclamar sobre comida e peso.
Com freqüência, Janice é desonesta, mentindo para si mesma e os outros acer- ca do seu consumo de alimentos e rou- bando comida quando sua família não está por perto. Ela está tomada de cobiça. Em Números 11 e Salmo 78.21-31, o consu- mo compulsivo de comida é descrito como “cobiça” habitual, um termo mais bíblico do que “compulsão” para se referir a es- tes hábitos de glutonaria.
O hábito de comer em excesso que Janice adquiriu, e a sua preocupação com as conseqüências resultantes, impedem-na de encarar as verdades mais concretas e duras a respeito de si mesma. A verdade de Deus recai com dureza sobre nós— ”miserável homem que sou, quem poderá me livrar desse corpo de morte?” Mas o amor de Deus é bondoso para com o ar- rependido— “graças a Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 7.24,25 ). Um arrependimento específico e honesto es- tabelece a base para ser capaz de mortifi- car as obras da carne pelo Espirito (Rm 8.13). O fruto deste arrependimento es- pecífico é auto-disciplina, em espírito de
gratidão. Como outros crentes podem aju- dar Janice no processo de mudança? Estabelecer uma forma de prestação Estabelecer uma forma de prestação de contas
de contas
Janice precisa estabelecer uma forma de prestação de contas daquilo que come. Por exemplo, ele deveria concordar em registrar por escrito tudo quanto come durante o dia, indicando não só os diferen- tes tipos de alimento, mas as quantidades. Você poderia sugerir uma boa dieta (se ela realmente precisa perder peso), com recomendação e orientação médica. Ela também poderia registrar a prática de exercícios físicos, verificando a quantida- de de calorias gastas. Tabelas que indi- cam queima de calorias são de fácil aces- so.
Há outras disciplinas que Janice de- veria anotar neste diário: os pedidos e res- postas de oração, a leitura da Palavra e sua maneira de lidar com a preocupação, o tédio, a murmuração e a desonestidade. O diário passa a ser um instrumento bási- co para que outros possam exercer co- brança, orar por ela e oferecer encoraja- mento. Os alvos para o crescimento espi- ritual e a perda de peso devem ser esta- belecidos no segundo ou terceiro encon- tro, certificando-se de que eles sejam ra- zoáveis e alcançáveis. Para quem está envolvido em ajudar mulheres que preci- sam perder peso, é bom ter uma balança no escritório para medir o sucesso ou o fracasso. Os conselheiros devem pedir às suas esposas ou secretárias que se encar- reguem da tarefa de pesagem das acon- selhadas.
Visto que comer é uma atividade ne- cessária para a sobrevivência, é mais difí- cil controlar o comer em excesso do que outros pecados. A abstinência total obvia- mente não funciona. Mas se você persis-
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tir em treinar as suas “Janices” para vive- rem de maneira agradável a Deus e para a glória dEle, alcançará êxito. Lembre-se das palavras de Paulo: “a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu intei- ro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo o po- der, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com ale- gria, dando graças ao Pai, que vos fez idô- neos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz” (Cl 1.10-12). O sentido da vida não está em ter uma boa aparência ou sentir-se bem, mas está em glorificar a Deus em cada aspecto da nossa existên- cia. Tudo quanto ultrapassa isto é vaidade do mundo.
Ajudar a sua igreja local como um todo Ajudar a sua igreja local como um todo Em meus vinte anos de crente, não me lembro de ter ouvido um sermão sequer que mencionasse a glutonaria como peca- do. Provérbios 23.20-21 e Deuteronômio 21.20 ensinam que a glutonaria e a bebe- dice estão vinculadas entre si. Você per- mitiria que um terço da congregação se reunisse para adorar em estado de estu- por devido ao consumo de álcool? O mau uso da comida é um problema a que a Bí- blia se dirige’. A primeira coisa que você pode fazer é começar a desafiar a sua con- gregação a uma vida disciplinada. Ter far- tura de alimentos não é razão para comer em excesso.
Talvez você possa desafiar a sua con- gregação a deixar de consumir durante um mês o cardápio caro e rico em calorias oferecido pelas lanchonetes, e doar o di- nheiro para um projeto de missões. Evite que todas as reuniões de comunhão inclu-
am bolos e biscoitos. Será que realmente precisamos de comida em todas as reu- niões? Por que não sugerir saladas e legu- mes crus ao invés do cardápio costumeiro das reuniões? Seria certo pensar em ofe- recer pelo menos uma escolha de prato pobre em calorias — um alimento mais saudável para quem quer participar da comunhão, mas está lutando com a gluto- naria.
Conclusão Conclusão
1 Coríntios 6.19-20 diz: “acaso não sa- beis que o vosso corpo é santuário do Es- pirito Santo que está em vós, o qual ten- des da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”. O corpo de Janice não per- tence a ela, mas a Deus. Quando abusa do seu corpo comendo em excesso, ela está abusando do templo de Deus. Ela deve, portanto, se esforçar para usar bem o seu corpo, praticando uma boa mordo- mia da propriedade de Deus.
Eu acredito que a Palavra e a obra de Deus são suficientes para lidar com todo tipo de problema na vida do crente. Co- mer em excesso é um destes problemas, e não é preciso abraçar os padrões e os métodos do mundo para lidar com ele. Que Deus abençoe você e que você seja útil nas mãos dEle para ajudar todas as “Janí- ces” em sua igreja.
2Alguns textos para um estudo bíblico sobre ali-
mentação: Gn 3.1-7; Dt 8.3; Jr 15.16; Gn 25.27-34; Ex 16.12; Nm 11.4-6; SI 78.21-31; 1 Sm 2.12-17; Dn 1.8; Mt 4.1-4; Lc 12.22-24; Is 55.1-2; Mt 6.25- 34; 1 Tm 4.3-5; Rm 14.14-23; 1 Co 10.31; Hb 13.9.