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Cuidado com suas Palavras

No documento Aconselhamento Bíblico - Volume 2 (páginas 111-124)

E. Bradley Beevers1

Recentemente, assisti a um filme de Disney chamado Aladim. Como bom ex- pectador, coloquei-me no lugar do herói. Mais tarde, pensando sobre o filme, per- guntei a mim mesmo o que eu pediria a Deus se pudesse ter três desejos realiza- dos. Imediatamente, a história do sonho de Salomão veio-me à mente. Deus deu oportunidade ao rei para expressar um desejo, e ele pediu sabedoria para gover- nar Israel. Será que eu também teria de- sejado sabedoria? Mas eu não tenho a res- ponsabilidade de governar Israel como ele, pensei. Talvez eu desejasse santidade. Por fim, acabei descartando da minha mente estes pensamentos.

No entanto, alguns dias mais tarde, a idéia do “desejo” voltou-me à mente. Eu havia pensado em algo que poderia pedir. Desejei poder retirar alguma palavra que

1Tradução e adaptação deWatch your Language!

Publicado emThe Journal of Biblical Counseling. v.12, n.3, Spring 1994,p.24-30.

E. Bradley Beevers dirige um centro de discipulado e é candidato a PhD no Westminster Theological Seminary.

eu tivesse dito, um comentário impensado, talvez feito sem intenção hostil, mas peca- minoso, maldoso - ou até mesmo tolo. Se você tivesse um cupom que lhe desse di- reito a ter um desejo atendido no final do dia, quantas vezes você o usaria para “des- dizer” palavras que saíram da sua boca? Você poderia usar esse cupom em diver- sas situações. Por exemplo, digamos que você estava conversando informalmente e soltou uma piada boba ou um comentá- rio que ofendeu outra pessoa. Ou talvez você estava nervoso e acabou falando demais. Ou então você estava em casa, irritado, e se expressou de modo agressi- vo com um colega, com o cônjuge ou as crianças. Ou depois de cometer um erro, você tentou se explicar; mas quanto mais você falou, pior ficou a situação. A lista poderia não ter fim. Como Tiago está cer- to em dizer que “... se alguém não tropeça no falar é perfeito varão, capaz de refrear também todo o seu corpo” (Tg 3.2)!

As Escrituras advertem-nos quanto a levar a sério as nossas palavras. Trata-se de uma batalha contínua, ao longo da vida cristã. Jesus descreveu o dia do julgamento

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final como aquele dia em que os homens darão conta “de toda palavra frívola que proferirem...” (Mt 12.36). O uso que fa- zemos das nossas palavras, disse Jesus, estabelece a diferença entre o salvo e o perdido. “Porque, pelas tuas palavras, se- rás justificado e, pelas tuas palavras, se- rás condenado” (Mt 12.37). As palavras são muito importantes, pois elas revelam quem de fato somos. As árvores boas pro- duzem frutos bons, enquanto que as más, frutos maus. Cada um revela o que há no seu interior: “... a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45). Por conse- guinte, Paulo exorta aqueles que se despi- ram do velho homem para que não dei- xem sair da sua boca “nenhuma palavra torpe, e, sim, unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).

Conversa torpe não consiste apenas em falar quando você deve ficar calado ou em dizer alguma coisa da qual venha a se arrepender logo em seguida. Algumas coisas que dizemos são más por outras razões. Por exemplo, em algumas conver- sas, determinamos o que é bom ou mau perguntando-nos quando, para quem, em que circunstâncias, com que tom de voz falamos alguma coisa. Por outro lado, fa- zemos distinção entre uma “conversa obs- cena” e outros tipos de conversa. A “con- versa obscena” é intrinsecamente má. Não é uma questão de dizer algo na hora errada ou à pessoa errada. Este tipo de “conversa torpe” é sempre errada e deve ser sempre evitada pelo crente.

Pense nisto. A linguagem obscena é torpe, sempre, e os cristãos estão certos em evitar o seu uso. Mas afinal, o que faz esta linguagem ser torpe? Não é o fato dela se referir a coisas que não devería- mos mencionar. Ela é torpe porque expres-

sa uma cosmovisão pervertida, blasfema ou fortuita. Por exemplo, “maldito” não é sempre uma palavra torpe; no seu signifi- cado correto, refere-se a um ato divino. Deus condena o perverso. Quando o mun- do usa esta palavra no sentido imprecató- rio, banaliza e zomba do julgamento divi- no. Outro exemplo poderia ser o uso que os crentes fazem dos termos “Deus”, “Se- nhor” ou “Jesus” em expressões vulgares de surpresa ou irritação.

Escolhi, deliberadamente, dois exem- plos que esclarecem como uma cosmovi- são pervertida faz de uma expressão co- mum uma imprecação. “Maldito” ou “Deus” são palavras que podem ser usa- das indevidamente ou de maneira correta. No entanto, a maioria das palavras obsce- nas ou expressões vulgares não são tão flexíveis assim; elas são sempre blasfe- mas ou pervertidas. Carregam uma cos- movisão “embutida” nelas mesmas. Tais expressões comunicam por si só rebeldia e incredulidade - nãonaquilo que descre- vem, mas nainterpretação implícita na descrição. Por exemplo, a maioria das expressões obscenas expressam hostilida- de e/ou atitudes imorais por meio de ter- mos baseados nas funções naturais do corpo humano. Aquilo que descrevem foi criado por Deus;a interpretação maldo- sa avilta e perverte aquilo que Deus criou. Não há como usar corretamente estas palavras. Elas devem ser simplesmente evitadas. As Escrituras reconhecem esta cosmovisão pervertida: “Ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus seja amal- diçoado.” (1Co 12.3)2. Há exemplos que

talvez nem devam ser mencionados, pois “o que eles fazem em oculto, o só referir é

2O Novo Testamento. Nova Versão Internacional

vergonha” (Ef 5.12). Os cristãos, em ge- ral, identificam este vocabulário como ex- pressão de uma cosmovisão incrédula e, corretamente, consideram o seu uso pe- caminoso.

Mas palavras “obscenas” não são as únicas expressões baseadas em uma cos- movisão incrédula. Muitas das nossas des- crições e definições mais comuns concor- dam sutilmente com a maneira de pensar do incrédulo. Assim como as imprecações, os eufemismos também trazem uma cos- movisão implícita. Quando o mundo cha- ma adultério de “caso”, será que não está torcendo a descrição para eliminar qual- quer avaliação moral e indignação? E a palavra substituta não foi pega por acaso no dicionário. Adultério lembra pecado; caso lembra quase um divertimento. O mundo está constantemente procurando uma maneira de fazer com que o seu com- portamento pareça normal, aceitável e correto. Substituindo fornicação por “tran- sa”, ele elimina qualquer senso de desa- provação. “Sexualmente ativo” sugere que abstinência é sinônimo de passividade ou fraqueza. O que antes era sodomia (men- cionada inicialmente em Gênesis 19) veio a ser “homossexualidade”, em seguida “gay”, e depois uma mera “preferência sexual” ou “estilo de vida alternativo”. Atualmente, até mesmo a indignação mo- ral contra estas perversões é rotulada pe- jorativamente de “homofobia”.

Um passo à frente Um passo à frente

Esses exemplos são bem conhecidos e o preconceito que expressam para com a Bíblia é obvio. Os cristãos devem vigiar as suas palavras (e freqüentemente o fa- zem) para que não reforcem a perspecti- va mundana nem se rendam sutilmente a ela. Mas vamos dar um passo à frente. Todas as áreas em que a rebeldia e a in-

credulidade são expressas em forma de palavras devem ser igualmente confron- tadas. Até aqui, eu não ataquei aspectos sutis do linguajar. Aquilo que definimos como expressões blasfemas e “politica- mente corretas” está obviamente basea- do em uma visão mundana contrária ao cristianismo. Mas agora vamos lidar com um caso um pouco menos óbvio: como as pessoas usam as palavras para diminuir a responsabilidade por seu comportamento. Primeiro, considere como o mundo costu- ma se referir aos pecados óbvios. Vive- mos em uma sociedade onde gastar de- mais é comum. No entanto, dificilmente usamos a palavra cobiça para descrever este tipo de comportamento. Trata-se sim- plesmente de um estilo de vida “confortá- vel”. Padrões de desobediência são “pro- blemas”, e não pecados. Reclamar ou murmurar são maneiras de dizer “o que eu estou sentindo” ou de “ser honesto”. Às vezes, até mesmo na igreja, falamos mal de alguém e chamamos isso de “com- partilhar” ou “pedir um conselho”, em vez de maledicência ou calúnia.

Compreenda o que está acontecendo aqui. Palavras não apenas descrevem, mas interpretam. Quando usamos uma palavra como maledicência, muitas imagens e exor- tações bíblicas vêm à nossa mente - e é certo que venham! Quando tentamos des- crever a mesma atividade de maneira mais “neutra”, o que fazemos, na verdade, é uma descrição não-bíblica. As categorias descritivas de Deus não são neutras. Uma mente cientificamente orientada pode nos condicionar a pensar na neutralidade como apropriada. Mas não é assim que deve ser. Vivemos em um universo que ecoa a voz de Deus. Tudo quanto Ele criou e governa expressa a Sua glória e manifesta a Pes- soa de Deus. Na verdade, “neutralidade” é uma rendição à incredulidade. É uma

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recusa a falar e pensar de acordo com a perspectiva de Deus. Falar com “neutrali- dade” é falhar na proclamação da verda- de de Deus a um mundo perdido e deixar de convocá-lo ao arrependimento. Será que não estamos proclamando a verdade de Deus e Sua perspectiva quando usa- mos o termo adultério ou fornicação em lugar de usar uma linguagem mais neutra com um colega de trabalho? Ou será que o termo “estilo de vida alternativo” não tem a função de suavizar a consciência e si- lenciar a condenação de Deus? O nosso falar deve afirmar a interpretação de Deus, opondo-se ao pensamento rebelde do mun- do. Não somos “neutros”; somos a favor de Deus. Os incrédulos também não são “neutros”; eles são contra Deus. O nosso falar deve refletir esta verdade de tal ma- neira que “quer comais, quer bebais, ou façais outra cousa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”.

A linguagem do mundo subestima a responsabilidade pessoal quando descre- ve padrões emocionais e de comportamen- to. Estes são assuntos importantes que têm recebido a atenção popular. Mas quando descreve um comportamento sexual, o mundo muda os termos para que a aten- ção não recaia sobre a responsabilidade pessoal e o pecado. Primeiro, o mundo desvia a atenção da responsabilidade pes- soal falando como se a situação, e não a pessoa, fosse responsável pela ação.“Isso me deixou muito irado”.“O comporta- mento dele deixou-me amargurado”. “Você é tão irritante”. “O sofrimento in- tenso tirou-me o desejo de seguir a Deus”. Supostamente, nada podemos fazer quan- to às nossas reações. Desde que elas são resultados diretos da situação, elas se tor- nam parte da própria situação. Não há como escapar.

Segundo, o mundo desvia a atenção da pecaminosidade da situação buscando uma descrição “neutra” da experiência. Por exemplo, os cristãos reconhecem a diferença entre falta de esperança, triste- za, culpa, medo, ira e aflição. Biblicamen- te, são distintos. Cada descrição refere- se a algo específico, e cada uma destas emoções pode ser facilmente inserida em um contexto moral. O incrédulo as reúne todas em uma categorianeutra (esvazia- da de valor em termos descritivos) como “abalo emocional”. Padrões pecaminosos que geram contendas são chamados de “conflitos de personalidade” (a respeito dos quais nada se pode fazer). Hábitos escra- vizadores pecaminosos são chamados de “doenças”, “compulsões” (irresistíveis) , “vícios”. Tais termos ignoram a perspec- tiva de Deus acerca destas experiências humanas, e fazem com que a maneira de pensar do mundo sobre emoções, ações ou opiniões pareça normal ou mesmo na- tural. Os passos para o distanciamento de uma perspectiva bíblica são freqüentemen- te sutis. Eu só estava “mal-humorado” - não fui grosseiro nem expressei ódio ou falta de amor. Estou “desencorajado” - não perdi a verdadeira perspectiva nem vaci- lei na fé. Estes exemplos mostram clara- mente que não há como falar de maneira neutra. Procurando ser neutro, o incrédu- lo está na verdade tentando justificar o seu comportamento pecaminoso. A assim cha- mada neutralidade é um pretexto para ódio e rebeldia para com Deus.

Mas espere um pouco. Nós ouvimos expressões semelhantes a estas não só no trabalho, mas na igreja também. Precisa- mos saber mais a esse respeito. Por que esses termos são tão populares? O que há de atraente neles? Uma possível explica- ção é que as descrições neutras são atra-

entes aos incrédulos porque elas justificam sua rebeldia. Elas fazem o pecado pare- cer normal. Naturalmente, essa dinâmica pecaminosa atrai também o crente. Ela alimenta desejos carnais de autocomise- ração e justiça própria. Mas há uma outra razão a ser considerada. Freqüentemen- te, fatores circunstanciais, lutas pessoais, tentações, pensamentos, desejos, anseios e experiências podem ser descritos em detalhes vívidos. “Sexta-feira à tarde, após uma semana estressante, meu chefe cha- mou-me em seu escritório. Em cinco mi- nutos eu estava despedido, sem muitas explicações. Eu não sabia bem o que fa- zer. Nem mesmo me lembro do momento em que saí da sala. Eu queria sair dali cor- rendo; eu queria bater nele. Eu queria de- sistir de tudo. Eu simplesmente sentei à minha mesa em estado de choque. Eu es- tava transtornado. Que ousadia! Passei os três dias seguintes dividido entre o desâni- mo e o desejo de matá-lo. Eu não conse- guia dormir. Não conseguia pensar em nada mais. Foi um tremendo choque. Eu precisava parar de pensai nele, pois cada vez que isso acontecia eu ficava ensaian- do o que eu deveria ter dito a ele, e eu tremia de raiva”.

Ouvimos esta descrição e pensamos: “Foi assim mesmo!”. A precisão é impres- sionante. Mas cuidado! “Esse homem de fato entende o que significa passar por isso!” Cuidado! Estas descrições são se- letivas. As respostas naturais ou carnais são retratadas em grandes detalhes. As lutas espirituais não. Detalhes vívidos não são neutros; eles trazem uma visão secu- lar implícita.

A descrição daquela sexta-feira à tar- de poderia ter sido muito diferente. “Quan- do eu saí daquele escritório, fui tentado a extravasar a ira como nunca antes nos três anos em que trabalhei lá. Eu estava em

estado de choque. Lembro-me vagamen- te de ter balbuciado uma oração pedindo ajuda, ao mesmo tempo que eu repassava em minha mente aquilo que ele havia dito e lutava com minha ira. De repente, as passagens bíblicas que eu havia memori- zado vieram à minha mente de maneira clara: `Deus não permitirá que sejais ten- tados além das vossas forças; pelo con- trário, juntamente com a tentação, vos pro- verá livramento, de sorte que a possais suportar’. A situação ficou clara aos meus olhos, como se o Senhor tivesse acendido a luz em um quarto escuro. Eu sabia que estava em uma encruzilhada. Eu poderia nutrir a amargura, a ira e a frustração; poderia fugir; deixar o emprego sem mais falar com ele; poderia alimentar em meu coração amargura e ódio. Ou então eu poderia fazer o que Jesus teria feito: ser gentil, retribuir com o mal com o bem, orar por ele. Eu poderia voltar na segunda-fei- ra, bem disposto, e limpar a minha mesa”. Qual a diferença básica entre as duas descrições? Você já sabe. A primeira pre- tendia ser neutra, mas na verdade expres- sou as tendências da carne. Ela ignorou tudo quanto diz respeito à vida cristã: o propósito de Deus, Sua perspectiva, a na- tureza espiritual da tentação, a luta em busca de esperança e da resposta corre- ta, a solução para o problema. No proces- so, a primeira descrição sutilmente justifi- cou a ira e a depressão, fazendo-as pare- cer naturais. E de certa forma, tais rea- ções são muito naturais. Mas desde que Cristo nos salvou, não somos mais como o “homem natural” que não entende as coi- sas do Espírito de Deus. Uma descrição precisa é importante; as lutas espirituais precisam ser descritas em detalhes vívi- dos para que o nosso ensino seja prático e reflita a realidade da vida. No entanto, uma descrição exata inclui uma interpretação

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exata. Precisamos compreender correta- mente o quadro todo.

Um exemplo para estudo: “Estou Um exemplo para estudo: “Estou mal”.

mal”.

Como você pode começar a identifi- car a linguagem torpe e se arrepender de seu uso? Comece um passo por vez. Va- mos trabalhar um exemplo específico. Os cristãos deveriam usar a expressão “es- tou mal?”. “Estar mal” é uma maneira neutra de expressar tristeza ou depressão, que pode ser traduzida como falta de es- perança ou fé, como uma maneira de fo- calizar em situações desagradáveis em vez de se concentrar no cuidado soberano de Deus, ou ainda como uma murmuração. “Estou mal” tira qualquer indício de que haja uma problema moral envolvido na emoção. A maioria de nós ficaria muito surpreso se um amigo nos dissesse que deveríamos nos arrepender quando com- partilhamos que “estamos mal”! No con- ceito popular, não ficamos “mal” porque há alguma coisa errada conosco. Nós sim- plesmente ficamos desse jeito. Algo está errado na situação; nós estamos reagindo normalmente. Isso vale para todos nós, quando falamos com pessoas que “estão mal”. Costumamos perguntar “O que aconteceu?”, em vez de perguntar “Por que você está reagindo assim à situação?”.

Há outras coisas a considerar sobre esse termo. Primeiro, ele é vago. As emo- ções descritas são amplas - depressão, ira, falta de esperança, tristeza, aflição, res- sentimento, culpa, autocomiseração. Se- gundo, a explicação do porquê nos senti- mos dessa maneira é inadequada. O foco recai quase que exclusivamente sobre a situação; nenhuma atenção é dada aos demais pensamentos ou sentimentos que nos levaram a “estar mal”. Poderíamos

traçar o seguinte diagrama:Situação 

Emoção. O termo central e crucial é omi- tido:Situação Pessoa Ação. Mais uma vez, isso é neutralizar! Quando omiti- mos o termo “pessoa”, não faz diferença se a situação atinge um crente ou um in- crédulo, o próprio Senhor Jesus ou o pior dos pecadores. Certo ou errado deixam de ser categorias relevantes. Mas isso não é nem de longe verdadeiro no que diz res- peito aos termos mais específicos que lis- tamos anteriormente. Quando uma pessoa diz que está triste por causa da morte de seu pai, sabemos que ela está triste por- que sofreu uma perda. A reação é boa. Se aquela pessoa dissesse estar sem espe- rança, deprimida ou imersa em autocomi- seração por causa dessa morte, nossa rea- ção deveria ser diferente! Termos especí- ficos nos dão informações cruciais sobre a pessoa, permitindo-nos saber como me- lhor lidar com a situação dentro de uma perspectiva bíblica. O mundo não tem essa visão. Quando alguém “está mal”, o mun- do não pode oferecer nada além de inú- meras expressões de compaixão e um fra- co “tudo vai dar certo” na melhor das hi- póteses. Não há esperança de mudança verdadeira de vida nem de uma melhora futura.

Será que a Bíblia não fala da expe- riência de “estar mal” focalizando especi- ficamente a pessoa, Deus e aquilo que é certo, em vez de olhar simplesmente para a situação? Observe, por exemplo, os Sal- mos 42 e 43. Quando o salmista está “aba- tido” e “perturbado”, não é porque ele parou de ir à casa de Deus com a multi- dão de adoradores. Não é porque ele está sendo oprimido pelos inimigos, homens fraudulentos ou injustos. Essas coisas es- tão acontecendo. Mas a causa da angús- tia é que a sua alma não está esperando

em Deus. Ele não descreveria a si mesmo como alguém que “está mal”. Ele vê a si- tuação de maneira mais clara: “Por que estás abatida, ó minha alma? ...Espera em Deus”. O foco do Salmo é que o salmista tem sede de Deus assim como a corça suspira por água corrente.

Que quadro diferente do quadro de transferência de culpa e autocomiseração da linguagem do mundo! O vocabulário que o salmista usa indica um estudo cui- dadoso do seu coração, a descoberta do verdadeiro problema e a busca de uma solução em Deus. Esse vocabulário deve ser o seu alvo! O seu falar deve não ape- nas evitar a lamúria desagradável do mun- do, mas expressar com precisão a sua si- tuação espiritual e sua reação. Já descre-

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