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2. MEDICALIZAÇÃO DAS PRÁTICAS RELIGIOSAS?

2.15. COMO APRENDER A FAZER O SANTOS COM OS MÉDICOS

A distribuição dessas pílulas é também a distribuição da pessoa do franciscano, a qual cresce no mundo como uma pessoa distribuída. O frade vive em cada uma das pílulas76. Se, com uma linha, fosse representada a ligação entre frei Galvão e cada um dos “papeizinhos” (e a milhares de outras coisas nas quais vive o santo), seria possível perceber como uma vida se desfaz em muitas linhas.

O grande diferencial é que essas muitas linhas transformam a pessoa da qual são vazamentos. Em um primeiro sentido, porque o tornam quase onipresente. Alguns pedidos de pílulas vêm de outros países. Em Guaratinguetá, há uma professora de inglês que auxilia a distribuição de pílulas justamente respondendo cartas. Recebeu essa tarefa pela facilidade que tem para entender as mensagens vindas de longe, como a que chegou da Califórnia (EUA) à igreja de Guaratinguetá quando eu estava fazendo pesquisa na cidade paulista.

Fazer pílulas é também refazer o frade e contribuir para fazer o santo. E isso é outro motivo pelo qual essas pílulas-frade transformam frei Galvão. Foi por meio do consumo de

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pílulas que Sandra invocou a ajuda do santo para que Enzo viesse ao mundo, como vimos acima. Esse auxílio na gravidez e no parto de Enzo foi declarado um milagre e tornou o frade o primeiro santo nascido em terras brasileiras.

Já vimos que a feitura do santo católico é um complexo processo. Envolve desde o devoto que suplica a canonização do santo até o devoto que recebe uma graça por sua intercessão, passando pela declaração papal de que essa graça é um milagre. A exigência desse decreto do Sumo Pontífice é uma larga construção histórica que testemunha o crescimento da importância de Roma na definição de quem merece o título de santo (VAUCHEZ, 1987). Esse aspecto será aprofundado no próximo capítulo.

Por ora, debruça-se sobre o atual processo de definição do que seja um milagre. Via de regra, têm sido declarados milagres curas extraordinárias. Tanto o é que o órgão da Santa Sé responsável pelos processos de beatificação e canonização, a Congregação da Causa dos Santos, promulgou um Regulamento da Consulta Médica, no qual se determina que, em se tratando de outro tipo de milagre, uma “Consulta Técnica” será feita de modo análogo à Médica (SANTA SÉ, 2016). O Regulamento também estabelece o rito de avaliação de possíveis milagres de um Servo de Deus ou um Beato por peritos médicos previamente inscritos em um registro. Para participar desse rol, o regulamento exige que o profissional tenha “[...] comprovada competência e probidade moral” (Ibid.)77. Escolhidos para compor certa Consulta, os médicos deverão elaborar um “voto médico-legal” sobre o caso em tela e “[...] resolver as dúvidas e esclarecer quaisquer objeções técnico-científicas suscitadas durante a apreciação do caso” (Ibid.).

O protagonismo médico nos processos de beatificação e canonização, contudo, começam antes. Como visto, geralmente, são personagens dos testemunhos de graça. Exigem- se também relatórios dos médicos que atenderam o miraculado, bem como cópias de todos os exames realizados durante o tratamento, como se pode ver nas orientações dadas pela equipe responsável pela causa do padre Aloísio:

Orientações sobre relato de graças: para este processo pedimos às pessoas que receberam graça, que façam o relato por escrito mais detalhada possível, em ordem cronológica, assemelhando-se a uma carta. O relato pode ser escrito de forma manual ou digitado e, ao final, é importante que contenha todos os dados: nome completo, endereço, contatos telefônicos, e-mails, etc. Junto ao relato, também é necessário que sejam anexadas cópias de relatórios e exames médicos do processo. A documentação deve ser encaminhada [...] (IPA, 2016)

E os postuladores e vice-postuladores, as pessoas responsáveis por defender a causa de algum candidato a santo e reunir as documentações sobre ele e apresentá-las às autoridades eclesiásticas pertinentes, cercam-se por uma equipe de médicos, que os orientam sobre as chances de uma cura ser declarada um milagre. A cura do menino G., por exemplo, uma graça alcançada por intercessão de padre Aloísio, acionado pelas súplicas de seus familiares, nem foi levado ao Vaticano porque os médicos consultados pela irmã Edith, a vice-postuladora da causa do sacerdote dehoniano, lhe desestimularam:

Quanto ao menino da cal, eu estive conversando com todos os médicos que acompanharam. Nós temos uma clínica [...] aqui em Joinville. [...] Na verdade, não foi uma queimadura grande, porque tem de vários graus, né? Então, ele foi uma queimadura leve, e, segundo os médicos, os especialistas, isso, mesmo que não tivesse feito nenhuma medicação, ele teria ficado curado. A própria natureza se encarrega. Lógico que no caso dele a cura foi mais rápida. Os médicos admitem que a fé dos pais ajudou bastante. Não tenho dúvidas. Mas é uma graça. Não é considerado um milagre. Nem foi adiante. Nós só estudamos aqui. Para ir para o Vaticano, só quando está totalmente comprovado aqui no Brasil. (Irmã Edith, 02 dez. 2018, em áudio enviado ao WhatsApp do autor)

Ocorre inclusive uma incorporação das terminologias do jargão médico, suas classificações e escalas. A irmã Edith precisou aprender as gradações da queimadura, assim como a irmã Célia, responsável pela causa bem-sucedida de frei Galvão teve que incluir em seu vocabulário expressões como “útero bicorne”, “membranas hilianas” e “hemorragias” – e o antropólogo também. O idioma falado nos processos de declaração de milagres é proposto pela comunidade médica. E, desde pelo menos Sapir (1980), a antropologia sabe que um idioma carrega toda uma cosmologia. Os sentidos do que seja doença, cura, corpo ou milagre vêm juntos. Por certo que a irmã Edith percebe uma ação da mística, uma contribuição da fé a essa história toda, um papel para a graça. Isso, porém, no espaço deixado pelos médicos especialistas, seus exames e diagnóstico, suas medicações e pareceres.

Para aprender esse idioma proposto pelos médicos e ratificado por Roma, irmã Celia, postuladora da bem-sucedida causa de frei Galvão, também tinha suas equipes médicas consultivas. Ela contou a um periódico que o caso de Sandra e seu filho Enzo foi escolhido entre 5643 graças. “Dessas, 3520 eram relacionadas a curas. A maioria dos restabelecimentos envolviam gestações complicadas, problemas para engravidar e doenças renais”, escreveu a jornalista (LOPES, 2006). “Foi uma seleção difícil”, falou a religiosa, revelando que a escolha se deu em diálogo com um grupo de médicos: “Ficamos, eu e uma equipe médica, entre cem graças. E 2004, quando fui para Roma acompanhar o processo de perto, tínhamos ainda quatro bons milagres em mãos”, contou a religiosa para jornalista (Idid.). Foram os médicos do Vaticano que decidiram pela história da gravidez de Sandra (Ibid.).

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Há, pois, um crescimento sociológico dos médicos e sua corporação, suas ciências e modos de gestão da vida. “Por que a Igreja necessita de práticas científicas, seu grande contraponto, para poder validar uma decisão que na verdade compete ao plano da crença?”, pergunta-se Soares, em sua dissertação sobre a produção de santos católicos (SOARES, 2007, p. 145). Em um artigo no jornal Estado de S. Paulo, Citeli (2007) identificou uma contradição na relação da Igreja católica com as ciências: “Para eleger santos, a Igreja Católica tem fé na ciência. Mas não tem ao tratar do aborto ou células-tronco” é o título do texto (Ibid.). Ou seja, ao mesmo tempo em que apresenta oposição a certas investigações científicos, como às das células-tronco, as “[...] notícias divulgadas pela Igreja sobre o processo de santificação defrei Galvão, o [então] quase-santo brasileiro, denotam a importância atribuída à ciência como árbitro da natureza”.

Parece estar em jogo certa crença dogmática na ciência. A própria socióloga o afirma no mesmo texto:

Esses procedimentos demonstram em primeiro lugar o recurso estratégico para um assunto religioso e também uma crença desmensurada na ciência, como se não houvesse qualquer zona de sombra que o conhecimento científico não alcançasse: se a ciência não pode explicar, então o que ocorreu foi milagre. (Ibid.)

Ainda que identificar uma contradição valha como argumento político para defesa de um posicionamento e deslegitimação do seu adversário, é possível afirmar que não há antinomia entre os modos de se relacionar com a ciência nos dois casos. Parece estar em questão um enfrentamento ao processo histórico de ruptura da analogia entre os pares clérigo e leigo, por um lado, e, por outro, sagrado e profano, ruptura essa magistralmente definida por Le Goff (1987, p. 378) como “[...] uma das grandes astúcias da história”. Esse processo permitiu que católicos leigos se convertessem em doutos conhecedores e cientistas, capazes de elaborarem pareceres e de resolver “[...] objeções técnico-científicas” (SANTA SÉ, 2016). Sociologicamente – e não sem certo grau de ironia –, o milagre que aqui se chamou de “superação da medicina” testemunha a centralidade da medicina na contemporaneidade e abre espaço para uma medicalização da santidade. São médicos que definem quem deve ser e quem não deve ser santo, o que é milagre e o que não é milagre. Do ponto de vista antropológico, porém, poderia ser considerado um ritual de demonstração da superioridade do divino em relação ao humano, do religioso em relação ao científico. É possível identificar um movimento duplo de introjeção das práticas médicas e subversão, de modo similar ao identificado entre espíritas por Giumbelli (2006). A junta médica atesta que não consegue explicar o fenômeno, abrindo alas para a explicação mágico-religiosa. Os médicos, cuja relevância é demonstrada

por serem chamados a opinar sobre beatos e santos, prestam reverência, em seguida, ao poder do outro registro. Dizer que os médicos não conseguiram a almejada cura comunica, aos demais, que reconhecem o saber médico, certo poder da divindade.