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3 COMO A CRIANÇA APRENDE E COMO O DOCENTE ENSINA

3.5 COMO ENSINAR?

A orientação da prática docente é de fundamental importância para que se alcance o desenvolvimento da criança. Tendo por base as alterações acerca da alfabetização, juntamente com o surgimento do letramento, pode-se afirmar que, no decorrer do tempo, o trabalho docente vai concentrando-se no uso da diversidade de métodos.

Dessa forma, brevemente serão trazidos quais os métodos tradicionais mais utilizados, ainda quando se priorizava um ensino sistematizado e superficial da alfabetização, anterior a 1980, que com as contribuições da Psicogênese da Língua Escrita (1980) trouxeram à tona questões para além dos métodos, considerando o conhecimento que a própria criança possui, independente da metodologia adotada em sala de aula.

Durante décadas, discutiu-se que métodos seriam mais eficientes: se os sintéticos (que partem da letra, da relação letra-som, ou da sílaba, para chegar à palavra), ou os analíticos, também chamados globais (que têm como ponto de partida unidades maiores da língua, como o conto, a oração ou a frase) (CARVALHO, 2005, p. 18).

A ênfase dada é quanto ao docente ser impulsionado a questionar-se em relação ao seu exercício, o que deixa em evidência que há a necessidade de compreensão dos métodos estabelecidos, correlacionando-os com a prática, demonstrando flexibilidade, criando e recriando situações de aprendizagem, mas estes, contudo, não se ausentam de interligá-los às concepções construtivistas mencionadas no segundo tópico deste capítulo.

3.5.1 Alguns métodos de alfabetização

3.5.1.1 Métodos sintéticos

Os métodos sintéticos, de acordo com Carvalho (2005), partem de unidades menores para as maiores, de forma gradativa. Inicia-se com a apresentação das letras e seus respectivos sons, para depois destinar-se à formação de sílabas e frases. Sua aplicação ocorre de forma mecânica, focando em interligar o som e a grafia, o que inicialmente limita a compreensão/significação dos textos, além de não se trabalhar a função social das palavras ensinadas. Dentro os métodos sintéticos, os mais conhecidos são: soletração, silabação, métodos fônicos.

No método da soletração, segundo Carvalho (2005), trabalha-se com palavras soltas, não focando no sentindo real/ significação de um texto. Sua prática é destinada à memorização de unidades simples (letras), para que posteriormente se compreenda que a partir da junção delas formam-se sílabas e estas produzem sons. Uma das críticas a esse método está relacionada com a limitação causada por ele, devido ao não incentivo à leitura e à interpretação de texto, gerando pouca compreensão do que se lê e escreve, tornando o processo de alfabetização mais concentrado no conhecer do que necessariamente compreender.

Carvalho (2005) traz que o método da silabação, ainda bastante aplicado no Brasil, consiste em partir de unidades menores, como as sílabas, de maneira a fazer repetição constante para que, por fim, dê prosseguimento com as unidades maiores, como a formação de palavras, frases e a construção de pequenos trechos. Esse método consiste na decodificação das sílabas e consequentemente na repetição do conteúdo até que se avance para a compreensão de partes mais complexas.

Os métodos fônicos são voltados para a compreensão dos sons presentes na língua, ou seja, para que se formem palavras há a necessidade de se atribuir letras e estas são representadas por uma “dimensão sonora”. Desta maneira, Carvalho (2005, p.

25) traz que “ensina-se o aluno a produzir oralmente os sons representados pelas letras e a uni-los […]”. Há nesse método importantes propostas, como o da abelhinha, que conta a história de uma abelha que passa por diversas situações durante o enredo, dando enfoque nos momentos em que ocorre maior emissão dos sons das vogais e das consoantes (das mais simples para as mais complexas), o método da boquinha (utilizando-se do fonema, grafema e da articulação da boca para compreender as palavras) e da Casinha Feliz (que parte de um conto, associando imagens às letras iniciais das palavras).

3.5.1.2 Métodos globais

De acordo com Carvalho (2005), os métodos globais partem de unidades maiores como as frases, para as unidades menores (ir do todo às partes). Permite que haja a compreensão da leitura de textos, já que o processo de aquisição da língua ocorre de maneira a incentivar a criança a fazer assimilação do que se lê, com a sua representação. Dentre estes: Método dos Contos, Método Ideovisual de Decroly, Método Natural Freinet, Metodologia de Base Linguística ou Psicolinguística e a Alfabetização a partir de Palavras-Chave.

O Método dos Contos parte da inserção da criança no mundo da leitura e da escrita, por meio de textos que incentivem a observação do conjunto que compõe uma obra.

Esta análise é feita partindo da apresentação de uma história, de maneira que ocorra a familiarização com a leitura.

[...] O texto é desmembrado em frases ou orações, que a criança aprende a reconhecer globalmente e a repetir, numa espécie de pré-leitura. A seguir, vem a etapa de reconhecimento das palavras (em geral, certas palavras aparecem repetidas vezes, o que facilita a memorização). Depois disso é que a etapa de divisão das palavras em sílabas e finalmente a composição de novas palavras com as sílabas estudadas (CARVALHO, 2005, p. 33).

O Método Ideovisual de Decroly, criado por Ovide Decroly, no século XX, é voltado para os “centros de interesse” do aluno, diferenciando-se da ideia de escola implantada até então. O meio está intrinsicamente ligado à realidade escolar do educando, influenciando-o diretamente, onde questões impessoais e relacionais,

entre natureza e âmbito familiar, são contextualizadas na prática. Dessa forma, “[...] a criança passava por três grandes fases de pensamento: observação, associação e expressão” (CARVALHO, 2005, p. 35). A leitura é importante nesse processo, dando lugar às unidades menores, como as frases, onde é feito o reconhecimento do texto, seus elementos, semelhanças e diferenças entre eles, para depois dar prosseguimento às palavras, sílabas e, por fim, às letras.

Adiante, Carvalho (2005) traz o Método Natural Freinet, que parte do meio em que a criança está inserida, de maneira que seja refletida em sua aprendizagem a criatividade, livre expressão, experimentação. A criança enxergará suas vivências dentro do processo de alfabetização, sendo propiciado por meio da liberdade da escrita de textos livres. As trocas e as situações de aprendizagem são constantes, sendo assim, não há limitação no que se refere ao cumprimento de etapas, mas são frutos das próprias relações sociais.

A Metodologia de Base Linguística ou Psicolinguística, criada por professores do Rio de Janeiro, em 1970, partem de orações, frases e do conhecimento que a criança já possui da língua oral. É pretendido que ela consiga enxergar em uma única frase as diversas formas como pode ser dita, sem alterar seu sentindo, destacando as possíveis variações sintáticas. As sugestões são provenientes dos alunos, onde é selecionada uma frase para que se faça a análise das suas singularidades.

Contudo, a escolha das frases propostas, deve contemplar três critérios, que Carvalho (2005) considera como: a dificuldade (iniciar por letras que possuem fácil identificação de um fonema se acompanhado de uma vogal), alternância entre o fácil e o difícil (diferentemente da etapa anterior, é pretendido trabalhar letras que possuem diferentes sons, o que depende de onde está localizada) e o critério de produtividade (utilização de palavras-chave, que ao serem desmembradas permitirá a formação de outras palavras).

A alfabetização a partir de palavras-chave consiste na separação de palavras que sejam destaques das temáticas trabalhadas, de forma que o professor crie situações para enriquecer a aquisição da língua pela criança. Esse método, bastante difuso no Brasil, é aplicado, em sua maioria, partindo de duas variações: Método Natural, criado por Heloísa Marinho, e o Método Paulo Freire.

No Método Natural é trabalhada a ludicidade, por meio da utilização de materiais diversos, principalmente recursos visuais e auditivos. Há o estímulo para a percepção dos sons por meio de falas lentas, o que levará à formação de uma lista de palavras norteadoras, que será trabalhada de forma que sejam identificadas dentro de fragmentos de textos. Carvalho (2005) destaca que nesse método haverá a identificação dos sons de cada letra que compõe uma palavra, ao mesmo tempo em que ocorre a comparação entre eles.

No Método Paulo Freire, as palavras-chave partem das representações do próprio cotidiano do aluno a ser alfabetizado. O foco de seus escritos concentra-se na alfabetização de adultos, com caráter de conscientização social, para que os sujeitos que estavam à margem da sociedade fossem reconhecidos e, para além disso, se reconhecessem como produtores do trabalho e participantes de uma cultura. “[...] A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele [...]” (FREIRE, 1989, p. 3). Os procedimentos partiam de palavras geradoras, “círculos de cultura”, assimilando-as com o cotidiano dos alunos por meio de imagens ou slides. Por fim, estas palavras, eram decompostas em sílabas, para que posteriormente houvesse a apresentação da família silábica.

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